Eduardo

Morre Eduardo Coutinho

coutinho2Tendo como pano de fundo uma dramática tragédia familiar, morreu neste domingo (2), na cidade do Rio de Janeiro, o cineasta e documentarista Eduardo Coutinho.

Considerado um dos maiores documentaristas brasileiros, Coutinho foi assassinado a facadas pelo próprio filho Daniel, que conforme informações da Polícia Civil do Rio de Janeiro sofre de grave doença mental.

A tragédia vitimou ainda a mulher do cineasta, Maria das Dores Oliveira Coutinho, de 61 anos, que também foi esfaqueada por Daniel, e continua internada em estado grave no Hospital Municipal Miguel Couto. Segundo já apurado, logo após praticar os esfaqueamentos, Daniel teria tentado o suicídio.

Coutinho morre aos 80 anos e deixa um valioso legado à cultura e ao audiovisual brasileiro. Suas obras caracterizavam-se pela sensibilidade e pela capacidade de ouvir o outro, registrando sem sentimentalismos as emoções e aspirações das pessoas comuns, sejam camponeses diante de processos históricos (Cabra Marcado para Morrer), moradores de um enorme condomínio de baixa classe média no Rio de Janeiro (Edifício Master), metalúrgicos que conviveram com o então sindicalista Luis Inácio Lula da Silva (Peões), etc

Eduardo Coutinho cursou Direito em São Paulo, mas não concluiu. Em 1954, aos 21 anos, teve seu primeiro contato com cinema no Seminário promovido pelo MASP e dirigido por Marcos Marguliès. Trabalhou como revisor na revista Visão (1954-57) e dirigiu, no teatro, uma montagem da peça infantil Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado. Ganhou um concurso de televisão respondendo perguntas sobre Charles Chaplin.

Com o dinheiro do prêmio, foi para a França estudar direção e montagem no IDHEC, onde realizou seus primeiros documentários.

coutinhoDe volta ao Brasil em 1960, teve contato com o grupo do Cinema novo e integrou-se ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE). No núcleo dirigido por Chico de Assis, trabalhou na montagem da peça Mutirão em Nosso Sol, apresentada no I Congresso dos Trabalhadores Agrícolas que aconteceu em Belo Horizonte em 1962. Foi gerente de produção do primeiro filme produzido pelo CPC, o longa-metragem de episódios Cinco Vezes Favela.

Escolhido para dirigir a segunda produção do CPC, Coutinho começou a trabalhar num projeto de ficção baseado em fatos reais, reconstituindo o assassinato do líder das Ligas CamponesasJoão Pedro Teixeira, a ser interpretado pelos próprios camponeses do Engenho Cananéia, no interior de Pernambuco, inclusive a viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, que faria o seu próprio papel. O filme se chamaria Cabra Marcado para Morrer, e chegou a ter duas semanas de filmagens, até o Golpe Militar de 1964. Parte da equipe foi presa sob a alegação de comunismo e o restante se dispersou, interrompendo a realização do filme por quase 20 anos.

Em 1966, Coutinho constituiu, com Leon Hirszman e Marcos Faria, a produtora Saga Filmes. Dirigiu um episódio do longa ABC do Amor, foi diretor substituto em O Homem que Comprou o Mundo (1968) e realizou uma adaptação de Shakespeare para o cangaço brasileiro, em que o personagem Falstaff tornou-se “Faustão” (1970).

Especializando-se em roteiro, foi co-roteirista de vários títulos importantes do cinema brasileiro, como A Falecida (1965) e Garota de Ipanema (1967) de Leon Hirszman, Os Condenados deZelito Viana (1973), Lição de Amor de Eduardo Escorel (1975) e Dona Flor e Seus Dois Maridos de Bruno Barreto (1976).

Em 1975, passou a integrar a equipe do programa Globo Repórter, da TV Globo, juntamente com Paulo Gil Soares, João Batista de Andrade e outros. Permaneceu no programa até 1984, sempre rodando em 16 mm, com uma liberdade editorial surpreendente para a época, e acabou descobrindo sua vocação de documentarista em trabalhos inovadores como Teodorico, o Imperador do Sertão, sobre o líder político nordestino Theodorico Bezerra.

Em 1981, Coutinho reencontrou os negativos de Cabra Marcado para Morrer, que haviam sido escondidos da polícia por um membro da equipe, e resolveu retomar o projeto. Conseguiu localizarElizabeth Teixeira em São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, mostrou-lhe o que havia sido filmado em 1964 e filmou o depoimento dela sobre a dispersão de sua família após a interrupção do filme.

A partir daí, a “ficção baseada em fatos reais” transforma-se num dos mais extraordinários documentários jamais filmados, retratando e acompanhando as tentativas de Elizabeth por reencontrar seus filhos, em diferentes pontos do país, e refletindo sobre o que aconteceu com a sociedade brasileira no longo período da ditadura militar. O filme ficou pronto em 1984 e ganhou 12 prêmios em festivais internacionais, no Rio de Janeiro, Havana, Paris, Berlim, Setúbal etc.

Após o sucesso de Cabra marcado para morrer, Coutinho afastou-se do Globo Repórter e passou alguns anos trabalhando com documentários em vídeo para o CECIP (Centro de Criação da Imagem Popular), com temas ligados a cidadania e educação. São dessa época projetos como Santa Marta e Boca de lixo, visões humanistas e pessoais sobre indivíduos e populações marginalizadas. Também escreveu roteiros para séries documentais da TV Manchete, como “90 Anos de Cinema Brasileiro” e “Caminhos da Sobrevivência” (sobre a poluição em São Paulo).

Em 1988, com o centenário da Abolição da Escravatura, foi estimulado pela então Secretária de Cultura do Rio de Janeiro, Aspásia Camargo, a realizar um documentário sobre a população negra na História do Brasil. O Fio da Memória, centrado na figura do artista popular Gabriel Joaquim dos Santos, só viria a ser concluído três anos mais tarde, com o apoio das emissoras de televisão La Sept (França) e Channel Four (Inglaterra).

Em 2004, a pesquisadora Consuelo Lins publicou, pela editora Zahar, O Documentário de Eduardo Coutinho.

Fez vários outros trabalhos elogiados, muitos sobre pessoas marginalizadas, como “Santa Marta” e “Boca do Lixo”. Em “Edifício Master”, contou a histõria dos moradores do tradicional prédio do Rio de Janeiro; em “Peões”, falou sobre a classe operária do ABC paulista; mais recentemente, em “Jogo de Cena” e “Moscou”, discutiu os limites entre ficção e realidade.

Seu filme mais recente, “As Canções”, de 2011, é um dos mais emocionantes de sua carreira. Conversando com populares, Coutinho pedia que cada um cantasse a música de sua vida e explicasse o motivo da escolha. O filme funciona como um bom resumo do cinema do diretor: simples e sem artifícios.

Considerado um dos maiores documentaristas do Brasil, o paulistano Coutinho é ganhador do Kikito de Cristal, principal premiação do cinema nacional, pelo conjunto da obra. 

Em junho do ano passado, ele e o também cineasta José Padilha (autor dos filmes “Tropa de Elite 1 e 2”) foram convidados a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela premiação do Oscar.

Filmografia

Filmes dirigidos por Eduardo Coutinho5 :

Premiações

  • Melhor filme de 2007 segundo a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).
  • Kikito de Cristal, no Festival de Gramado pelo conjunto da obra (2007).
  • Prêmio Multicultural Estadão 2003, ganhador na categoria criadores.
  • Kikito de Ouro de Melhor Documentário, no Festival de Gramado, por Edifício Master (2002).
  • Prêmio de Melhor Documentário, no Grande Prêmio BR de Cinema, por Babilônia 2000 (2000).
  • Prêmio de Melhor Documentário – Crítica, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por “Edifício Master” (2002).
  • Troféu Passista de Melhor Fotografia, no Festival de Recife, por Babilônia 2000 (2000).
  • Prêmio Especial do Júri, no Festival de Gramado, por Santo forte (1999).
  • Prêmio de Melhor Filme, no Festival de Brasília, por Santo forte (1999).
  • Prêmio de Melhor Roteiro, no Festival de Brasília, por Santo forte (1999).
  • Prêmio FIPRESCI, no Festival de Berlim, por Cabra marcado para morrer (1984).

Referências

  1. Dados biográficos retirados de: RAMOS, Fernão e MIRANDA, Luiz Felipe (org.): Enciclopédia do Cinema Brasileiro, editora SENAC, São Paulo, 2000, pp. 158-159.
  2. Matéria do sítio Mnemocine. Página visitada em 21 de agosto de 2009.
  3. Sinopse do livro no catálogo da editora. Página visitada em 21/08/2009.
  4. R7:Cineasta Eduardo Coutinho é assassinado no Rio; filho é suspeito
  5. Filmografia no IMDb. Página visitada em 21 de agosto de 2009.

Ligações externas

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*