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O homem de Nazaré

Orlando Senna*

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosNasci em família católica, estudei em colégio Marista, lembro da primeira comunhão e das aulas de Catecismo e da minha fé infantil, uma espécie de busca do êxtase. Um êxtase nada comparável à entrega corporal e espiritual da sensualíssima Santa Teresa da escultura famosa de Bernini ou dos livros da própria Santa Teresa, best-sellers desde a Idade Média. Apenas o embevecimento de uma criança depois de comer uma hóstia, diante do mistério que me assustava ao pensar que a hóstia era “o corpo de Cristo”. Os catequistas diziam para não morder a hóstia, pois ela se desfaria em sangue, “como já aconteceu várias vezes”. O mistério desapareceu, e com ele o susto, quando alguém me explicou o que era uma metáfora.

O homem de NazaréAdolescente, já no colégio Marista, busquei explicações sobre o símbolo mais utilizado pelas religiões cristãs: a cruz, um instrumento de tortura. E a efígie de Cristo mais difundida: sendo torturado na cruz. Esse insight surgiu em um grupo que discutia assuntos polêmicos, do qual fazia parte. Tínhamos entre 13 e 14 anos e fizemos o maior auê no colégio, uma campanha para que a Igreja Católica deixasse de usar a cruz como emblema de fé, esperança e caridade. Chegamos a rascunhar uma carta endereçada ao Papa, façanha que não foi avante porque o diretor do colégio, o Irmão Cirilo (que chamava todo mundo de “meu santo”), nos esclareceu que a cruz representa a dureza da vida, o peso de responsabilidades, dores e culpas que todos temos de carregar durante nossas existências. Era outra metáfora.

Essa minha convivência com Jesus, iniciada praticamente no berço, cresceu em duas direções: minha necessidade de conhecer sua história e minha relação espiritual com seu imenso legado. Historicamente, é a maior personalidade da humanidade, o ser humano que mais impressionou à espécie humana, que mudou a cultura global, inspirou religiões, guerras, expansões e implosões de impérios, colonizações e libertações. Estudei obviamente os quatro Evangelhos canônicos e fui em busca de outros relatos, das cartas e narrativas da época, dos ditos Evangelhos Apócrifos e das pesquisas e conclusões de historiadores.

Jesus sempre deu muito trabalho aos historiadores, que tiveram de garimpar “realidades” em uma teia de lendas, mitos e visões que, naturalmente, envolveram sua figura, espelhando sua seminal importância no imaginário da espécie. Para muitos pesquisadores, além de paupérrimo ele era analfabeto, como mais de 90% de seus contemporâneos judeus, um analfabeto (se é que era) capaz de sintetizar e ressignificar em uma curta frase os dez mandamentos do Judaismo e todos os mandamentos existentes: amar ao outro como a si mesmo. E revelar que não existe uma verdade universal e sim as verdades de cada um: “eu sou a verdade”.

Com relação ao ente místico, ao Deus feito homem, minha relação se desenvolveu de maneira mais complexa e só se estabilizou após estudar religiões orientais e sistemas filosóficos-religiosos africanos. A mim me pareceu, e continua parecendo, que o fato do Deus único e todo poderoso da Bíblia descer à Terra no corpo de uma pessoa teria sido um milagre como outro qualquer, um milagre normal, já que Ele tudo pode. Mas o contrário, um homem que, por sua inteligência, sensibilidade, coragem e bondade se transforma em Deus, se eleva aos olhos e corações de seus semelhantes como alguém superior a todos, com poderes além da imaginação, isso sim é um acontecimento extraordinário, um avanço enorme na evolução espiritual do ser humano. Ao Deus feito Homem das religiões, preferi o Homem que se faz Deus (crença que estendo a todos os grandes avatares, Buda entre eles, que não seriam “encarnações” de divindades e sim humanos com alto grau de conexão com o cosmo, com a totalidade do universo e da vida).

Chegar a esse Jesus Cristo me fez muito bem, me fez confiar na humanidade e em mim mesmo, me fez muito melhor do que eu era. Encontrei uma referência fundamental no jovem nazareno que mudou o mundo, diante das vicissitudes e das glórias da minha existência sempre me pergunto o que aquele cara diria, o que faria. Conversando sobre isso com um amigo, um teólogo, ele disse que a isso se chama Cristo Interior, “que todos deviam ter, religiosos ou não”. Se tenho vontade de rezar, o que acontece às vezes, me volto para dentro, me dirijo a ele, à suprema inteligência humana que ele alcançou. Por isso, nas festas natalinas, celebro seu aniversário com alegria e conforto, pensando que também é meu aniversário, do dia em que renasci ao descobrir que o menino da manjedoura era tão humano como eu, como todos, e portanto temos a possibilidade de tentarmos a divinização. 

Por Orlando Senna

* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor    http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna

O poder e a arte

Orlando Senna*

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosFaltam oito dias para as eleições e não creio que, até lá, apareçam novidades importantes sobre a questão audiovisual, seja nas manifestações do setor, seja nos programas de governo das principais candidatas, Dilma e Marina.

Os artistas, trabalhadores e empresários do ramo fizeram sugestões e reivindicações, as mais recentes no Festival de Brasília (o documento “Por uma primavera do audiovisual brasileiro”, com divulgação na internet). As candidatas não fizeram mudanças no que já estava dito em seus planos de governo, também bastante divulgados e resenhados neste blog, onde dediquei dois artigos sobre o assunto.

fomeentoA minha opinião é que o próximo governo deve fortalecer ainda mais a Ancine-Agência Nacional de Cinema e sua política de expansão da atividade e, ao mesmo tempo, debelar a crise de crescimento da instituição, promovendo ajustes preventivos e cirúrgicos principalmente no que se refere à burocracia; que a prioridade da agência seja a veiculação do conteúdo brasileiro em todas as mídias; que a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura volte a ter importância estratégica e política, com foco na cultura audiovisual e exercendo complementaridade com a Ancine, com foco no mercado; que o novo governo tenha a plena compreensão da importância medular do audiovisual na economia e nas soberanias nacionais no século que vivemos e a inteligência de promover um marco regulatório da atividade, abrangente, contemporâneo e democrático.

E que a aposta maior seja no poder de criação, invenção e coragem de nossos artistas. Disto tive mais uma prova contundente nos últimos dias, participando do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A curadoria do festival decidiu selecionar para a premiação oficial apenas filmes representativos da mais recente onda artística nacional, uma geração com novas propostas quando ainda estamos saboreando a onda anterior, o impactante cinema de Cláudio Assis, Karim Ainoux, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Cléber Mendonça Filho, Hilton Lacerda, Cao Guimarães, José Padilha e outros brilhantes cineastas.

A novíssima onda radicaliza a experimentação estética, abole totalmente os limites entre realidade e ficção, elabora uma sofisticada popularização da linguagem que se confunde com amadorismo (no sentido de fazer com amor), levam ao extremo a incorporação dos baixos orçamentos a essa linguagem, levam o espectador a exageros de risos e lágrimas. “Cinema de risco” ou “o nicho mais experimental do cinema brasileiro”, como definiu o crítico Luiz Zanin. “A estética da sucata”, como disse o ator e poeta Emmanuel Cavalcanti.

A maioria dos novíssimos cineastas são oriundos da baixa classe média e das periferias, alguns da classe média, mas o tema é sempre um Brasil profundo. Não tenho espaço para dizer tudo que me vai na alma sobre essa turma, nem sobre todos os filmes exibidos. Acho que foi mais um Festival de Brasília “histórico”, como outros que aconteceram nesse evento caracterizado pela politização (linguagem é política). O enorme entusiasmo dos espectadores brasilienses e as dúvidas de intelectuais e cineastas veteranos autorizam essa profecia. Sugiro que vocês vejam, o quanto antes, os dois filmes mais premiados pelo júri oficial: a efervescente metáfora Brasil S/A de Marcelo Pedroso e o mix de ficção científica e crua realidade Branco sai. Preto fica de Adirley Queirós, grande vencedor do festival.

Distribuição? O papo dessa turma é diferente. Adirley disse à mídia que seu filme pode ser visto por sete bilhões de pessoas (referindo-se às redes sociais, claro) mas também vai vender cópias nas feiras populares. Grana para produção? É um papo mais diferente ainda. O último ato da turma no festival foi dividir o prêmio de melhor filme, 250 mil reais, por todos os seis concorrentes de longa-metragem. Foi uma comoção na plateia. Nunca coisa igual aconteceu antes no cinema brasileiro, quiçá no cinema universal.

  • Orlando Senna é cineasta e colaborador do ObsevaCine Revista Diálogos Do Sul

Morreu André Setaro

Tristeza. Um sentimento de perda com danos colaterais. Perdeu a Bahia e o Brasil. Perdeu o  cinema. O nosso Cinema, o baiano e o brasileiro. A Jornada da Bahia, o jornalismo, a crítica. Morreu um bom brasileiro baiano – apesar de ser carioca. Um amigo. Companheiro de tantas lutam houveram para serem lutadas por aqueles que contribuíram para o fortalecimento do nosso audiovisual. Baiano, brasileiro, nacional, latino-americano. Morreu André Setaro.

João Baptista Pimentel Neto*

João Baptista Pimentel Neto. Perfil DiálogosSetaro havia sofrido um infarto no miocárdio na madrugada de quarta-feira, 9, e estava internado desde então. Não resistiu. Partiu. Foi visitar Glauber Rocha. Ou não, já que costumava dizer que era anarquista e ateu. Cardíaco e fumante inveterado. Irreverente, irônico e amante da polêmica. Setaro andava preocupado. Principalmente depois da morte do também crítico de cinema, João Carlos Sampaio, vítima de infarto. Em sua coluna no Terra Magazine do dia 5 de maio, Setaro comparou o infarto fulminante sofrido pelo amigo com o de seu pai, que morreu com a mesma idade. “O enfarte fulminante, que tirou a vida de João Carlos Sampaio, é traiçoeiro, e a morte não manda aviso nem recado.Desde criança, ficava apreensivo quando alguém morria do coração. Os médicos sempre diziam que o fator genético é importantíssimo”, registrou.

André Setaro.
André Setaro.

Depois em posts de seu perfil do facebook, insistiu no assunto e enumerou as vezes que teve problemas do coração e precisou ser operado, até terminar dizendo: “Oito anos já se passaram e continuo carregando minha ‘barca’, ainda que em companhia do inseparável Marlboro e dos goles gulosos na cerveja aos fins de semana”. Parecia preocupado. Parecia quase saber. E assim foi, se foi… Adeus companheiro!

Um pouco sobre

Natural do Rio de Janeiro, Setaro se formou em Direito na Universidade Federal da Bahia. Professor adjunto da Faculdade da Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) por 35 anos, Setaro era também crítico de cinema do jornal Tribuna da Bahia, uma coluna no Terra Magazine e editor do seu famoso seu Setaro´s Blog.

O crítico analisa o cinema no baiano e nacional e elege Glauber Rocha e sua obra-prima Deus e o Diabo na Terra do Sol como o melhor diretor e respectivamente maior obra cinematográfica do país.Tendo também atuado como assistente de direção e ator em algumas produções baianas, nesta entrevista ao programa Visão de Mundo falou sobre a arte que ele diz ter aprendido a gostar com prazer e sofrimento. “Você não pode só ter prazer, você precisa sofrer para conhecer”, afirmou.

Confira:

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YouTube  

Entrevista de Setaro a Sandro Santana publicada no Caderno de Cinema:

úLTIMO pOST

A escalada do cinema enquanto linguagem

por André Setaro

Vazio

terramagazine

Boca do Lixo, Cineclubismo, Cinema e Seus Personagens

Marcos Madalena*

"Raf" de Marcos Madalena.
“Raf” de Marcos Madalena.

Em Homenagem ao Carlão. (Reichenbach)

Em meados dos anos 80 fui participar de um projeto, levei minha prancheta, meus pincéis, lápis, canetas, cuspes,…Era o projeto do Cineclube Oscarito, eu criaria a logo e a identidade visual. Tudo em uma sala lá na Rua do Triunfo, na Boca do Lixo, na esquina, na Rua Vitória ficava a Embrafilme, todas as distribuidoras de filmes ficavam ali. Os filmes chegavam por trem, por isto esta concentração do cinema naquele lugar.

Eu ia trabalhar de trem e, na maioria das vezes, voltava da mesma forma.

Meus amigos, Otavio TafnerJoão Claudio de SenaJoão Baptista Pimentel NetoFelipe MacedoEduardo DinizCarlos SeabraCacá MendesAndre SturmSerge Roizman,…entre outros e tantos, lembram bem daquele período.

Na “BOCA” onde é hoje a cracolândia, existiam drogas, prostituição e todos os policiais, civis e militares.

Mas tinha um ar boêmio, romântico até…

E os seus personagens que iam de uma mente genial como a de Carlos Reichenbach até sucateiros tão gentis, que parecia não haver distância nenhuma. Todos desfilavam juntos e tomavam cafés e drinks, uma certa harmonia que sociólogo, poeta, político, ou qualquer um pudesse explicar.

O desenho acima é um “raf”, que fiz – Na época e olhando da varandinha da minha sala estúdio – de um destes personagens, carroceiros de tração humana que levavam latas e cartazes de cinema em seus sonhos de comer e existir. A poesia não serve de alimento para o corpo.

Mas nossas almas sorriam juntas, em nossas existências miseráveis.

Foi uma boa lembrança, apenas isto!

* Marcos Madalena

Obs: Achei ao acaso perdido em coisas perdidas.

Nosso futuro chinês

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosEm 2013 a China se tornou a maior potência comercial do mundo, superando os EUA. É o país mais populoso do planeta (mais de 1,3 bilhão de habitantes), com uma história e uma cultura que remontam a 38 séculos. No século passado aconteceu um fato importante nessa saga milenar, que foi a polêmica Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, de onde resultou a atual e socialista República Popular da China.

dragao-chinesCom esse currículo, a China sempre dedicou especial atenção à cultura e, na atualidade, às indústrias culturais. Segundo Sergio Capparelli, jornalista italiano radicado em Pequim, “a China está ansiosa para mostrar ao mundo que pode ser a primeira em termos globais em todos os campos econômicos possíveis, inclusive no da indústria cultural”. Em 2012 a produção dessa indústria aumentou 17% com relação ao ano anterior, respondendo por cerca de 4% do PIB. A meta é elevar a 6% nos próximos dois anos.

A indústria audiovisual é a menina dos olhos deles. Duas gigantescas instituições governamentais cuidam do assunto: a Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão (com nível de ministério) e o Ministério da Cultura. A TV é administrada pela Televisão Central da China (para se ter uma ideia, a sede é um prédio de 44 andares). O cinema está sob jurisdição da China Film Corporation, sempre em conflito com os EUA porque a China permite a importação anual de apenas 34 filmes estrangeiros.

Em 2018 será inaugurada, na costa leste chinesa, o maior centro mundial de produção audiovisual, empreendimento de seis bilhões de euros, uma parceria público privada. E por aí vai, o paisão asiático está se preparando para inundar o mundo não apenas com os produtos baratos (domésticos, digitais, cosméticos, brinquedos) que conhecemos, mas também com filmes, séries de TV, videogames, música, literatura e todos os possíveis produtos que possam mexer com nosso imaginário e com nosso comportamento. Com o nosso way of life, que eu ainda não sei como se diz em chinês, mas não demora muito e saberei. 

No seu avanço como potência planetária, a China está de olho grande na América Latina. Está de olho no mundo todo, é claro, mas com uma mirada mais amorosa em direção à América Latina, aqueles olhos puxados nos paquerando misteriosamente. Razões não faltam, a América Latina é uma região em ascensão econômica. A porta de entrada é o Brasil (tem a ver com os BRICs), o quarto principal destino de recursos chineses, atrás apenas de Austrália, EUA e Canadá. Nos últimos cinco anos a China aplicou no Brasil cerca de 30 bilhões de dólares. A modernidade humana já foi culturalmente influenciada pela Europa, depois pelos EUA, e deu no que deu. Como será o mundo sob influência majoritária chinesa? Como será o mundo para nós, ocidentais, os de olhos redondos, “olhos de diabo” como eles dizem. 

Por Orlando Senna

* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor    http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna 

Nós, os Regulados

Por Silvia Rabello e Cláudio Lins de Vasconcelos

(Publicado originalmente na edição de O Globo de 7 de agosto de 2013, p. 19).

A relação entre Estado e cultura nunca foi simples. Seria até cansativo, não fosse imprescindível, lembrar que o dirigismo cultural é o sangue que corre nas veias de dez entre dez ditaduras, em qualquer tempo. Por isso, quando o assunto é a natureza e limites da intervenção estatal nas indústrias criativas, é recomendável manter certa cerimônia. Os bens culturais — o filme, a música, o livro —, mesmo quando produzidos dentro de uma lógica de mercado, são manifestações sociais tão legítimas quanto qualquer outra. Sua criação, produção e distribuição devem ser, tanto quanto possível, livres.

Isso não significa que não haja lugar para a ação do Estado, ou para políticas públicas que fortaleçam o setor. Cultura e interesse público são inseparáveis e ninguém quer a reprise do abandono vivido pelo cinema nacional em diversos momentos da história, como no breve, porém inesquecível, período Collor. Mas o tom da conversa deve ser de cooperação, não de coordenação e muito menos de controle. A regulação do setor exige cautela e não deve esbarrar nem de leve na natureza do conteúdo ou do processo criativo de forma mais ampla. Censura, isola!

Então, como pode o Estado apoiar o setor? O fomento é uma resposta óbvia. Em qualquer país, mesmo nos mais ricos, cultura é um negócio arriscado. Filmes caríssimos podem naufragar economicamente pela mera incapacidade de atingir o gosto do público. Formatos consagrados são menos arriscados do que os de vanguarda, mas sem a vanguarda paralisamos a cultura. Políticas de fomento e incentivo fiscal reduzem o impacto deste e outros riscos inerentes à atividade, como ocorre com o agronegócio, por exemplo, que depende do clima, e outros tantos segmentos da indústria em momentos de tormenta macroeconômica.

Mas estes recursos não são, nem de longe, uma benesse do Estado. Responsabilidade é fundamental, claro. Quem se vale de recursos de terceiros deve sempre prezar pela lisura e transparência em sua aplicação, ainda mais em se tratando de recursos públicos. Mas é bom lembrar que a principal fonte dos recursos usados no fomento ao audiovisual é a Condecine, tributo cobrado apenas das empresas que operam no setor. Diferentemente do IPI, por exemplo, este tributo não onera os demais setores da economia. Seu retorno ao setor audiovisual, via fomento ou não, é um pressuposto legal.

Em se tratando de regulação, pode-se dizer que é o setor audiovisual que financia o Estado, não o contrário. Isso inclui a estrutura da Ancine, que não é leve. Os recursos destinados à produção são decorrentes de renúncia fiscal e, por isso, a auditoria das contas deve ser rigorosa. Os critérios de avaliação, no entanto, devem respeitar as peculiaridades do setor. Produzir uma série de televisão não é o mesmo que asfaltar 50 km de estrada. E o foco deve estar, acima de tudo, no resultado do investimento: um produto bem feito, dentro do prazo e do orçamento. Os detalhes da execução, quanto alocar nisso ou naquilo, deveriam ser vistos como parte da estratégia empresarial de cada produtor.

Engessar a gestão das empresas em nome da regulação dificulta o surgimento de novas técnicas produtivas e em nada contribui para o aumento da competitividade de um setor cada vez mais exposto à concorrência internacional. É tiro no pé. Como também é exigir das produtoras, como condição para o acesso aos recursos do fomento, que licenciem gratuitamente os direitos sobre as obras, para uso do governo. Ninguém espera que, por conta de uma redução do IPI, as montadoras doem veículos para o governo federal ou os fabricantes da linha branca entreguem geladeiras e fogões para hospitais e escolas públicas.

A burocracia é parte de nossa herança administrativa, mas, em si, não impede a corrupção nem o desvio de recursos públicos. A depender da dose, pode mesmo obstruir o crescimento de qualquer atividade econômica, fazendo com que os recursos investidos — públicos ou privados — não gerem o retorno esperado. Política fiscal serve para manter a economia funcionando, com ganhos de qualidade e produtividade. Não é favor, é obrigação. Se o incentivo é mecanismo legítimo para financiar a construção de arenas — como a própria presidente reconheceu em seu último pronunciamento — também deve ser para preservar, desenvolver e difundir nossa cultura, pauta indissociável da educação.

Silvia Rabello é presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual; Cláudio Lins de Vasconcelos é advogado e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC)

Ninjas

Orlando SennaOrlando Senna*

A mídia industrial, corporativa, conhecida no Brasil como “grande mídia”, sempre conviveu com uma “mídia independente”. Na história do jornalismo impresso nos países do Ocidente e em alguns do Oriente está presente o que chamávamos de “imprensa nanica”, pequenos jornais e revistas com linha editorial fluindo na contramão da comunicação de massa.

Com o advento da digitalização, das redes sociais, da blogosfera as manifestações midiáticas antes tidas como nanicas, como coisa pequena, passaram a competir em audiência e importância social com a comunicação corporativa. Em inglês esse movimento, cuja essência é a informação produzida pelo cidadão e distribuida diretamente no ciberespaço, foi batizada CrowdMedia, ou seja, a mídia das multidões, da massa popular.

A partir das grandes manifestações públicas recentes, a mídia independente ou mídia livre ou nova mídia organizou-se em pequenos grupos de cidadãos, os “coletivos jornalísticos”, alcançou uma enorme popularidade e está repercutindo forte na grande mídia, que agora refere-se a si mesma como “mídia tradicional”. Um dos coletivos brasileiros, a Mídia Ninja, é entrevistado em grandes programas nacionais de TV, discutido nos jornalões e “saiu no New York Times”, como diria Henfil. E também no Wall Street JournalThe Guardian, El País e em todas as agências de notícias.

Interessante é que a definição clássica de ninja é “agente especializado em artes de guerra não ortodoxas”. No caso da Mídia Ninja também é a sigla de Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. É um grupo colaborativo com 50 integrantes, milhares de participantes espalhados por toda parte e apoio financeiro da rede de coletivos Fora do Eixo (neste momento está lançando uma campanha de doações públicas, quem quiser doa o que puder). A essa cultura colaborativa soma-se uma produção jornalística audiovisual com linguagem e atitude novas, ousadas e sedutoras: o fato visto por dentro, por quem participa dele, com a câmera fixada na orelha ou na testa.

A ex-grande mídia, agora mídia tradicional, teve uma reação dupla: além de repercutir as ações da Mídia Ninja e de outros coletivos, também se posicionou com relação à novidade. A resposta geral é que esses coletivos não são jornalísticos porque não têm isenção, não são neutros diante dos fatos, informam a partir do seu próprio ponto de vista, de sua militância. Ou seja, a mesma acusação que os independentes fazem à mídia corporativa, e que também é a razão do surgimento dos ninjas da comunicação. Mas há também uma sensação de ameaça, de coisa nova demais ou estranha demais rondando as redações e estúdios das grandes corporações e que foi muito bem expressada por Cora Rónai em artigo no jornal O Globo (Mídia Ninja, 8/8/2013): “ainda não inventaram, e eu espero que não inventem nunca, uma emissora capaz de estar em todos os lugares ao mesmo tempo”. É, pode até causar arrepio. Mas é o que vai acontecer.

Por Orlando Senna

Sobre o Fora do Eixo e o movimento cineclubista

Saskia Sá*
Saskia Sá
Saskia Sá

Fiquei bastante irritada com o que Beatriz Seigner conta no seu relato sobre o FDE, principalmente nos primeiros parágrafos em que ela se refere aos cineclubes, sinceramente, me deixou extremamente de cabeça quente. O que ela conta alí, considero que tem muito a ver com todo o trabalho desenvolvido pelo CNC na articulação do movimento cineclubista e merece muita e discussão.

Penso que que nunca se deve colocar nenhum movimento social ou cultural na fogueira, todos eles têm suas lutas e devem ser respeitados. Sempre respeitei o FDE e suas ações. Creio que eles têm méritos no que concerne à questão da articulação de redes e de movimentarem a cena cultural, assim como acho importante no cenário atual a mídia ninja enquanto conceito de comunicação imediata, sem atravessadores. Também não tenho nada com a organização interna do movimento. Se eles moram juntos, se usam um dinheiro comum, se buscam dissolver a individualidade e as subjetividades em um mesmo caldo do comum ou questionando ainda, a ideia de autoria (que de resto já é um tema bastante comum no universo da arte), aceita e se envolve com isso quem quer e nem é uma novidade, não estão inventando a roda e nem sequer dando uma cara nova, estão apenas dando um novo discurso e novos nomes ao que já existia e potencializando isso na era da internet e das redes. No entanto, quando este tipo de atuação extrapola o quintal onde habitam e como disse antes, usam este tipo de conceito pra desqualificar outros grupos ou ainda para se apropriarem de potências de outros coletivos pra colar a etiqueta deles, como se fosse uma ação do FDE, aí sim, tenho todas as ressalvas à atuação do FDE.

Teia CineclubistaDepois de toda minha vivência junto ao movimento cineclubista, em anos de militância e atuação, quero que saibam que acredito que os cineclubes que exibem no país, em locais onde nada mais, nenhuma atividade cultural existe e onde eles resistem com coragem e energia, estão reunidos e tem sido ajudados a se organizar, principalmente pelo Conselho Nacional de Cineclubes – CNC. Além disso estão também reunidos em federações estaduais de cineclubes e em vários coletivos que se organizam também por esforço próprio, com muita luta pra mantê-los funcionando e atuando.

O FDE nunca foi o coletivo responsável pelo funcionamento de cineclubes, eles apenas tentam colar a etiqueta da grife nas ações que já acontecem e se apropriar da potência dos movimentos sociais e culturais, inclusive dos pontos de cultura.

Eles, muito menos foram responsáveis pelo programa Cine Mais Cultura, que é um programa da SAV, do MinC, ainda idealizado no ministério do Gil, e que foi realizado em parceria com o CNC, até que foi paralisado na gestão da Ana de Holanda no Minc e da Ana Paula na SAv, mas pretendia dar um testemunho desta história hoje com mais calma, porque ontem, ao ler o relato da Beatriz, fiquei de cabeça muito quente com o desplante desses auto intitulados representantes do movimento cineclubista brasileiro, mas estou bastante ocupada pra isso, como eles gostam de dizer, eu sou do “precariado” urbano e minhas contas não estão pagas. 

Aliás, um movimento que tem mais de 80 anos só no Brasil e, do qual eles pouco ou nada sabem e que não precisa de nenhum tipo de representação, muito menos desse tipo de apropriação. 

E quero ver debater isso conosco, aliás, pode vir, qualquer hora, em qualquer lugar.

* Saskia Sá

Segue o relato, é grande, mas merece ser lido na íntegra, mas principalmente o início, onde está a parte relativa ao movimento cineclubista:

Fora do Fora do Eixo

Selo Cubo Card moeda financiadoraConheci um representante da rede Fora do Eixo durante um trajeto de ônibus do Festival de Cinema de Gramado de 2011, onde eu havia sido convidada para exibir meu filme “Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano” e ele havia sido convidado a participar de um debate sobre formas alternativas de distribuição de filmes no Brasil.

Meu filme havia sido lançado naquele mesmo ano no circuito comercial de cinemas, em mais de 19 cidades brasileiras, distribuído pela Espaço Filmes, e o rapaz me contava de como o Fora do Eixo estava articulando pela internet os cerca de 1000 cineclubes do programa do governo Cine Mais Cultura, assim como outros cineclubes de pontos de cultura, escolas, universidades, coletivos e pontos de exibição alternativos, que estavam conectados à internet nas cidades mais longínquas do Brasil, para fazerem exibição simultânea de filmes com debate tanto presencialmente, quanto ao vivo, por skype. Eu achei a idéia o máximo. Me disponibilizei, a mim e ao meu filme para participar destas exibições, pois realmente acredito na necessidade de democratizar o acesso aos bens culturais no país, e sei como é angustiante, nestas cidades distantes, viver sem acesso à cultura alternativa e mais diversas artes.

Foi então organizado o lançamento do meu filme nos cineclubes associados à rede Fora do Eixo durante o Grito Rock 2012, no qual eu também me disponibilizei a participar de uma tournée de debates no interior de São Paulo, na cidade do Rio de Janeiro, e por skype com outros cineclubes que aderissem à “campanha de exibição”, como eles chamam.

Com relação à remuneração eles me explicaram que aquele ainda era um projeto embrionário, sem recursos próprios, mas que podiam pagá-lo com “Cubo Card”, a moeda solidária deles, que poderia ser trocada por serviços de design, de construção de sites, entre outras coisas. Já adianto aqui que nunca vi nem sequer nenhum centavo deste cubo card, ou a plataforma com ‘menu de serviços’ onde esta moeda é trocada.

E fiquei sabendo que algumas destas exibições com debate presencial no interior de SP seriam patrocinadas pelo SESC – pois o SESC pede a assinatura do artista que vai fazer a performance ou exibir seu filme nos seus contratos, independente do intermediário. E só por eles pedirem isso é que fiquei sabendo que algumas destas exibições tinham sim, patrocinador. Fui descobrir outros patrocinadores nos posters e banners do Grito Rock de cada cidade. Destes eu não recebi um centavo.

No entanto, foi realmente muito animador ver a quantidade de pessoas sedentas por cultura alternativa em todas as cidades de pequeno e médio porte pelas quais passei. Foi também incrível conversar com cinéfilos por skype de cidadezinhas do Acre, Manaus, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Paraíba, Mato Grosso, Goiania, Santa Catarina, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, entre outras cidades. Pelo que eu via, tinha entre 50 a 150 pessoas em cada sessão. Eu perdi a conta de quantos debates e exibições foram feitas, mas o Fora do Eixo havia me prometido como contra-partida uma foto de cada exibição onde fosse visível o número de público destas, e uma tabela com as cidades e quantidades de exibições que foram feitas. Coisa que também nunca recebi.

De qualquer maneira, empolgada com esta quantidade de pessoas que não querem consumir cultura de massa, em todas estas cidades, entrei em contato com colegas cineastas e distribuidores para que também disponibilizassem seus filmes, pois via o potencial de fortalecimento destes pontos de exibição em todos estes lugares, de crescimento do número de cinéfilos, e de pessoas que têm o desejo de desfrutar coletivamente de um filme, ou de outra obra de arte, de discuti-la, pesquisá-la, e se possível debatê-la com seus realizadores. Estava realmente impressionada com a quantidade de pessoas em todas estas cidades sedentas por arte. Se eu tivesse nascido em uma delas, via que seguramente seria uma delas, e mal conseguia imaginar como deve ser insuportável viver em uma cidade onde não há teatro, cinema alternativo, e muitas vezes nem sequer bibliotecas.

A idéia seria então de fazer um projeto para captar recursos para viabilizar estas exibições. Pensamos em algo como cada cineclube ou ponto de exibição que exibisse um filme receberia 100 reais para organizar e divulgar a sessão, e cada cineasta receberia o mesmo valor pelos diretos de exibição de seu filme naquele lugar. E caso houvesse debate presencial receberia mais cerca de mil reais de cachê pelo debate, e por skype ao vivo cerca de 500 reais pelo debate de até 3 horas.

Pensando em rede, se mil cineclubes exibissem um filme, o cineasta poderia receber, no mínimo, 100 mil reais por estas exibições. Eu ainda acho que é um projeto que deve ser realizado. E que esta ligação entre os cineclubes deveria ser feita por uma plataforma pública online do governo, onde ficaria o armazenamento destes filmes para download com senha e crédito paypal para estes pontos de exibição (sejam eles cineclubes, escolas, universidades, pontos de cultura etc).

Assim como também acho que os “Céus das Artes” que estão sendo construídos no país todo deveriam ter salas de cinema separadas dos teatros, com programação diária, constante, aumentando em 15% o parque exibidor brasileiro, e capacitando o governo de fazer políticas de exibição de filmes gratuitas ou com preços populares, em lugares onde simplesmente não há cinemas, muito menos, de arte.

Mas isso já é outra história. Voltemos ao Fora do Eixo.

E quando foi que o projeto degringolou? ou quando foi que me assustei com o Fora do Eixo?

Meu primeiro susto foi quando perguntaram se podiam colocar a logomarca deles no meu filme – para ser uma ‘realização Fora do Eixo’, em seu catálogo. Eu disse que o filme havia sido feito sem nenhum recurso público e que a cota mínima para um patrocinador ter sua logomarca nele era de 50 mil reais. Eles desistiram.

O segundo susto veio justamente na exibição com debate em um SESC do interior de SP, quando recebi o contrato do SESC, e vi que o Fora do Eixo estava recebendo por aquela sessão, em meu nome, e não haviam me consultado sobre aquilo. Assinei o contrato minutos antes da exibição e cobrei do Fora do Eixo aquele valor descrito ali como sendo de meu cachê, coisa que eles me repassaram mais de 9 meses depois, porque os cobrei, publicamente.

O terceiro susto veio quando me levaram para jantar na casa da diretora de marketing da Vale do Rio Doce, no Rio de Janeiro, onde falavam dos números fabulosos (e sempre superfaturados) da quantidade de pessoas que estavam comparecendo às sessões dos filmes, aos festivais de música, e do poder do Fora do Eixo em articular todas aquelas pessoas em todas estas cidades. Falavam do público que compareciam a estas exibições e espetáculos como sendo filiados à eles. Ou como se eles tivessem qualquer poder sobre este público.

Foi aí que conheci pela primeira vez o Pablo Capilé, fundador da marca/rede Fora do Eixo, um pouco antes deste jantar. Até então haviam me dito que a rede era descentralizada, e eu havia acreditado, mas imediatamente quando vi a reverência com que todos o escutam, o obedecem, não o contradizem ou criticam, percebi que ele é o líder daqueles jovens, e que ao redor dele orbitavam aqueles que eles chamam de “cúpula” ou “primeiro escalão” do FdE.

O susto veio, não apenas por conta de perceber esta centralidade de liderança, mas porque o Pablo Capilé dizia que não deveria haver curadoria dos filmes a serem exibidos neste circuito de cineclubes, que se a Xuxa liberasse os filmes dela, eles seguramente fariam campanha para estes filmes serem consumidos pois dariam mais visibilidade ao Fora do Eixo, e trariam mais pessoas para ‘curtir’ as fotos e a rede deles – pessoas estas que ele contabilizaria, para seus patrocinadores tanto no âmbito público, quanto privado. “Olha só quantas pessoas fizemos sair de suas casas”. E que ele era contra pagar cachês aos artistas, pois se pagasse valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa ‘lá na ponta’ da rede, como eles dizem, a serem artistas e não ‘DUTO’ como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “duto, os canos por onde passam o esgoto”.

Eu fiquei chocada. Não apenas pela total falta de respeito por aqueles que dedicam a maior quantidades de horas de sua vida para o desenvolvimento da produção artística (e quando eu argumentava isso ele tirava sarro dizendo ‘todo mundo é artista’ ao que eu respondia ‘todo mundo é esportista também – mas quantos têm a vocação e prazer de ficar mais de 8 horas diárias treinando e se aprofundando em determinada forma de expressão? quantas pessoas que jogam uma pelada no fim de semana querem e têm o talento para serem jogadores profissionais?” “mas se pudesse escolher todo mundo seria artista” “não necessariamente, leia as biografias de todos os grandes compositores, escritores, cineastas, coreógrafos, músicos, dançarinos – quero ver quem gostaria de ter aquelas infâncias violentadas, viver na miséria econômicas, passar horas de dedicando-se a coisas consideradas inúteis por outros – vai ver se quem é artista, se pudesse escolher outra forma de vocação se não escolheria ter vontade de ser feliz sendo médico, advogado, empresário, cientista social.”).

Enfim, o fato é que eu acreditava e continuo acreditando que se a pessoa na ponta da rede, seja no Acre ou onde quer que seja, se esta pessoa tiver vontade de passar a maior quantidade de tempo possível praticando qualquer forma de expressão artística, seja encarando páginas em branco, lapidando textos, lapidando filmes, treinando danças, coreografias, teatro, seja praticando um instrumento musical (e quem toca instrumentos musicais sabe a quantidade de horas de prática para se chegar à liberdade de domínio do instrumento e de seu próprio corpo, os tais 99% de suor para 1% de inspiração), quem quer que seja que encontre felicidade nestas horas e horas de prática cotidiana artística deve produzir tais obras e não ser DUTO de coisa alguma.

Pois existem pessoas no mundo que não têm este prazer de produção artística, mas têm prazer em exibir, promover, e compartilhar estas obras. E tá tudo certo. Temos diversos exemplos de pessoas assim: vejam a paixão com que o Leon Cakof e a Renata de Almeida produziam e produzem a Mostra de São Paulo. O pessoal da Mostra de Tiradentes. E de tantas outras. Existe paixão pra tudo. E não, exibidores, programadores, curadores, professores, críticos de cinema ou de arte não são artistas frustrados – mas pessoas cuja a paixão deles é esta: analisar, comentar, debater, ensinar, deflagrar e ampliar o pensamento e a reflexão sobre as diversos âmbitos de atuação humanos. Que bom que tem gente com estas paixões tão complementares!

E o meu choque ao discutir com o Pablo Capilé foi ver que ele não tem paixão alguma pela produção cultural ou artística, que ele diz que ver filmes é “perda de tempo”, que livros, mesmo os clássicos, (que continuam sendo lidos e necessários há séculos), são “tecnologias ultrapassadas”, e que ele simplesmente não cultiva nada daquilo que ele quer representar. Nem ele nem os outros moradores das casas Fora do Eixo (já explico melhor sobre isso).

Ou seja, ele quer fazer shows, exibir filmes, peças de teatro, dança, simplesmente porque estas ações culturais/artísticas juntam muita gente em qualquer lugar, que vão sair nas fotos que eles tiram e mostram aos seus patrocinadores dizendo que mobilizam “tantas mil pessoas” junto ao poder público e privado, e que por tanto, querem mais dinheiro, ou privilégios políticos.

Vejam que esperto: se Pablo Capilé dizer que vai falar num palanque, não iria aparecer nem meia dúzia de pessoas para ouvi-lo, mas se disserem que o Criolo vai dar um show, aparecem milhares. Ou seja, quem mobiliza é o Criolo, e não ele. Mas depois ele tira as fotos do show do Criolo, e vai na Secretaria da Cultura dizendo que foi ele e sua rede que mobilizou aquelas pessoas. E assim, consequentemente, com todos os artistas que fazem participação em qualquer evento ligado à rede FdE. Acredito que, como eu, a maioria destes artistas não saibam o quanto Pablo Capilé capitaliza em cima deles, e de seus públicos.

Mesmo porque ele diz que as planilhas do orçamento do Fora do Eixo são transparentes e abertas na internet, sendo isso outra grande mentira lavada – tais planilhas não encontram-se na internet, nem sequer os próprios moradores das casas Fora do Eixo as viram, ou sabem onde estão. Em recente entrevista no Roda Viva, Capilé disse que arrecadam entre 3 e 5 milhões de reais por ano. Quanto disso é redistribuído para os artistas que se apresentam na rede?

O último dado que tive é que o Criolo recebia cerca de 20 mil reais para um show com eles, enquanto outra banda desconhecida não recebe nem 250 reais, na casa FdE São Paulo.

Mas seria extremamente importante que os patrocinadores destes milhões exigissem o contrato assinado com cada um destes artistas, baseado pelo menos no mínimo sindical de cada uma das áreas, para ter certeza que tais recursos estão sendo repassados, como faz o SESC.

Depois deste choque com o discurso do Pablo Capilé, ainda acompanhei a dinâmica da rede por mais alguns meses (foi cerca de 1 ano que tive contato constante com eles), pois queria ver se este ódio que ele carrega contra as artes e os artistas era algo particular dele, ou se estendia à toda a rede. Para a minha surpresa, me deparei com algo ainda mais assustador: as pessoas que moram e trabalham nas casas do Fora do Eixo simplesmente não têm tempo para desfrutar os filmes, peças de teatro, dança, livros, shows, pois estão 24 horas por dia, 7 dias por semana, trabalhando na campanha de marketing das ações do FdE no facebook, twitter e demais redes sociais.

E como elas vivem e trabalham coletivamente no mesmo espaço, gera-se um frenesi coletivo por produtividade, que, aliado ao fato de todos ali não terem horário de trabalho definido, acreditarem no mantra ‘trabalho é vida’, e não receberem salário, e portanto se sentirem constantemente devedores ao caixa coletivo, da verba que vem da produção de ações que acontecem “na ponta”, em outros coletivos aliados à rede, faz com que simplesmente, na casa Fora do Eixo em São Paulo, não se encontre nenhum indivíduo lendo um livro, vendo uma peça, assistindo a um filme, fazendo qualquer curso, fora da rede. Quem já cruzou com eles em festivais nos quais eles entraram como parceiros sabem do que estou falando: eles não entram para assistir a nenhum filme, nem assistem/participam de nenhum debate que não seja o deles. O que faz com que, depois de um tempo, eles não consigam falar de outra coisa que não sejam eles mesmos.

Sim, soa como seita religiosa.

Eu comecei a questionar esta prática: como vocês querem promover a cultura, se não a cultivam? Ao que me responderam “enquanto o povo brasileiro todo não puder assistir a um filme no cinema, nós também não vamos”. Eu perguntei se eles sabiam que havia mostras gratuitas de filmes, peças de teatro, dança, bibliotecas públicas, universidades públicas onde pode-se assistir a qualquer aula/curso – ao que me responderam que eles não têm tempo para perder com estas coisas.

Pode parecer algo muito minimalista, mas eu acho chocante eles se denominarem o “movimento social da cultura”, e não cultivar nem a produção nem o desfrute das atividades artísticas da cidade onde estão, considerando-se mártires por isso, orgulhando-se de serem chamados de “precariado cognitivo” (sem perceber o tamanho desta ofensa – podemos nos conformar em viver no precariado material, mas cultivar e querer espalhar o precariado de pensamentos, de massa crítica, de sensibilidade cognitiva, é algo muito grave para o desenvolvimento de seres humanos, e consequentemente da humanidade).

Concomitantemente a isso, reparei que aquela massa de pessoas que trabalham 24 horas por dia naquelas campanhas de publicidade das ações da rede FdE, não assinam nenhuma de suas criações: sejam textos, fotos, vídeos, pôsters, sites, ações, produções. Pois assinar aquilo que se diz, aquilo que se mostra, que se faz, ou que se cria, é considerado “egóico” para eles. Toda a produção que fazem é assinada simplesmente com a logomarca do Fora do Eixo, o que faz com que não saibamos quem são aquele exercito de criadores, mas sabemos que estão sob o teto e comando de Pablo Capilé, o fundador da marca.

E que não, a marca do fora do Eixo não está ligada a um CNPJ, nem de ONG, nem de Associação, nem de Cooperativa, nem de nada – pois se estivesse, ele seguramente já estaria sendo processado por trabalho escravo e estelionato de suas criações, por dezenas de pessoas que passaram um período de suas vidas nas casas Fora do Eixo, e saem das mesmas, ao se deparar com estas mesmas questões que exponho aqui, e outras ainda mais obscuras e complexas.

Me explico melhor: existem muitos dissidentes que se aproximam da rede pois vêem nela a possibilidade de viver da criação e circulação artística, de modificar suas cidades e fortalecer o impacto social da arte na população das mesmas, que depois de um tempo trabalhando para eles percebem, tal qual eu percebi, as incongruências do movimento Fora do Eixo. Que aquilo que falam, ou divulgam, não é aquilo que praticam. É a pura cultura da publicidade vazia enraizada nos hábitos diários daquelas pessoas.

E além disso, o que talvez seja mais grave: quem mora nas casas Fora do Eixo, abdicam de salários por meses e anos, e portanto não têm um centavo ou fundo de garantia para sair da rede. Também não adquirem portfólio de produção, uma vez que não assinaram nada do que fizeram lá dentro – nem fotos, nem cartazes, nem sites, nem textos, nem vídeos. E, portanto, acabam se submetendo àquela situação de escravidão (pós)moderna, simplesmente pois não vêem como sobreviver da produção e circulação artística, fora da rede. Muitas destas pessoas são incentivadas pelo próprio Pablo Capilé a abandonar suas faculdades para se dedicarem integralmente ao Fora do Eixo. Quanto menos autonomia intelectual e financeira estas pessoas tiverem, melhor para ele.

E quando algumas destas pessoas conseguem sair, pois têm meios financeiros independentes da rede FdE para isso, ficam com medo de retaliação, pois vêem o poder de intermediação que o Capilé conseguiu junto ao Estado e aos patrocinadores de cultura no país, e temem serem “queimados” com estes. Ou mesmo sofrer agressões físicas. Já três pessoas me contaram ouvir de um dos membros do FdE, ao se desligarem da rede, ameaças tais quais “você está falando de mais, se estivéssemos na década de 70 ou na faixa de gaza você já estaria morto/a.” Como alguns me contaram, “eles funcionam como uma seita religiosa-política, tem gente ali capaz de tudo” na tal ânsia de disputa por cada vez mais hegemonia de pensamento, por popularidade e poder político, capital simbólico e material, de adeptos. Por isso se calam.

Fiquei sabendo de uma menina que produziu o Grito Rock 2012 em Braga, em Portugal, no qual exibiram meu filme. Ela me contou que estava de intercâmbio da universidade lá, e uma amiga dela que havia sido “abduzida pelo Fora do Eixo” entrou em contato perguntando se ela e um amigo não queriam exibir o filme em Braga, produzir o show de uma banda na universidade, fazer a divulgação destas ações nas redes sociais. Ela achou boa a idéia e qual não foi sua surpresa quando viu que em todos os materiais de divulgação do evento que lhe enviaram estava escrito “realização Fora do Eixo”. “Eu nunca fui do Fora do Eixo, não tenho nada a ver com eles, como assim meu nome não saiu em nada? Não vou poder usar estas produções no meu currículo? E pior, eles agora falam que o Fora do Eixo está até em Portugal, e em sei lá quantos países. Isso é simplesmente mentira. Eu não sou, nem nunca fui do Fora do Eixo.”

O que leva a outro ponto grave das falácias do Fora do Eixo: sua falta de precisão numérica. Pablo Capilé, quando vai intermediar recursos junto ao poder público ou privado, para capitalizar a rede FdE, fala números completamente aleatórios “somos mais de 2 mil pessoas em mais de 200 cidades na America Latina”. Cadê a assinatura destas pessoas dizendo que são realmente filiadas à rede? Qualquer associação, cooperativa, partido político, fundação, ONG, ou movimento social tem estes dados. Reais, e não imaginários.

Quando visitei algumas das casas Fora do Eixo, estas pessoas morando e trabalhando lá não chegavam a 10% daquilo que ele diz a rede conter. E estas pessoas são treinadas com a estratégia de marketing da rede, de “englobar” no facebook e twitter alguém que eles consideram estrategicamente importante para o Fora do Eixo, seja um vereador, um intelectual, um artista, um secretário da cultura, e replicam simultaneamente as fotos e textos dos eventos do qual produzem, divulgam, ou simplesmente se aproximam (já vou falar dos outros movimentos sociais que expulsam o Fora do Eixo de suas manifestações – pois eles tiram fotos de si no meio destas ações dos outros e depois vão ao poder público dizer que as representam), ao redor daquelas pessoas estratégicas, política e economicamente para eles, que as adicionaram ao mesmo tempo, criando uma realidade virtual paralela que eles manipulam ao redor desta pessoa. Pois, se esta pessoa ‘englobada’ apertar ‘ocultar’ nas cerca de150 pessoas que trabalham nas casas Fora do Eixo, verá que muito raramente estas informações chegam por outras vias. Ou seja, eles simulam um impacto midiático muito maior de suas ações, apara aqueles que lhes interessam, do que o impacto real das mesmas nas populações e localizações onde aconteceram.

E com isso vão construindo esta realidade falsa, paralela. Controlada por eles, sob liderança do Pablo Capilé.

Dos movimentos sociais que começaram a expulsar os Fora do Eixo de suas manifestações e ações, pois estes, como os melhores mandrakes, ao tentar dominar a comunicação destas, iam depois ao poder público dizer representá-las, estão o movimento do Hip Hop em São Paulo, as Mãe de Maio (que encabeçam o movimento pela desmilitarização da PM aqui), o Cordão da Mentira (que une diversos coletivos e movimentos sociais para a passeata de 1º de Abril, dia do golpe Militar no Brasil, escrachando os lugares e instituições que contribuíram para o mesmo), a Associação de Moradores da Favela do Moinho, o coletivo Zagaia, o Passa-Palavra, o Ocupa Mídia, O Ocupa Sampa, o Ocupa Rio, Ocupa Funarte, entre outros. Até membros do Movimento Passe Livre tem discutido publicamente o assunto dizendo que o Fora do Eixo não os representam, e não podem falar em seu nome.

Sobre a transmissão de protestos e ocupações, são milhares de pessoas em diversos países que transmitem as manifestações no mundo todo, em tempo real, e acredito que os inventores que fizeram os primeiros smartphones conectando vídeo com internet, são realmente tão importantes para a comunicação na atualidade quanto os inventores do telégrafo foram em outra época.

Já o Fora do Eixo, agora denominados de Mídia Ninja, (antes era Mídia Fora do Eixo, mas como são muito expulsos de manifestações resolveram mudar de nome) utilizar os vídeos feitos por centenas de pessoas não ligadas ao Fora do Eixo, editá-los, subí-los no canal sob seu selo, e querer capitalizar em cima disso – sem repassar os recursos para as pessoas que realmente filmaram estes vídeos/fizeram estas fotos e textos – inclusive do PM infiltrado mudando de roupa e atirando o molotov – eu já acho bastante discutível eticamente.

Sobre a questão do anonimato nos textos e fotos, acredito que esta prática acaba fazendo com que eles façam exatamente aquilo que criticam na grande mídia: espalham boatos anônimos, sem o menor comprometimento com a verdade, com a pesquisa, com a acuidade dos dados e fatos.

Mas enfim, acho que a discussão é muito mais profunda do que a Midía Ninja em si, apesar deles também se beneficiarem do trabalho escravo daqueles que vivem nas casas Fora do Eixo.

Acredito com este relato estar dando minha contribuição pública à discussão de o que é o Fora do Eixo, como se financiam e sustentam a rede, quais seus lados bons e seus lados perversos, onde é que enganam as pessoas, dizendo-se transparentes, impunemente.

Contribuição esta que acredito ser meu dever público, uma vez que, ao me encantar com a rede, e haver vislumbrado a possibilidade de interagir com cinéfilos do rincões mais distantes do país, que não têm acesso aos bens culturais produzidos ou circulados por aqui, incentivei outros colegas cineastas a fazerem o mesmo. Já conversei pessoalmente com todos aqueles que pude, explicando tudo aquilo que exponho aqui também. Dos cineastas que soube que também liberaram seus filmes para serem exibidos pela rede, nenhum recebeu qualquer feedback destas exibições, sejam em fotos com o número de pessoas no públicos, seja com a tabela de cidades em que passaram, seja de eventuais patrocínio que os exibidores receberam. E como talvez tenha alguém mais com quem eu não tenha conseguido falar pessoalmente, fica aqui registrado o testemunho público sobre minha experiência com a rede Fora do Eixo, para que outras pessoas possam tomar a decisão de forma mais consciente caso queiram ou não colaborar com ela.

Espero que os patrocinadores da rede tomem também conhecimento de todas estas falácias, e cobrem do Fora do Eixo o número exato de participantes, com assinatura dos mesmos, os contratos e recibo de repasse das verbas que recebem aos autores das obras e espetáculos que eles dizem promover. E que jornalistas que investigam o trabalho escravo moderno se debrucem também sobre estas casas: pois acredito que as pessoas que estão lá e querem sair precisam de condições financeiras e psicológicas para isso.

Espero também que mais pessoas tomem coragem para publicar seus relatos (e sei que tem muita gente que poderia fazer o mesmo, mas que tem medo pelos motivos que expliquei a cima), e assim teremos uma polifonia importante para quebrar a máscara de consenso ao redor do Fora do Eixo.

E que, mesmo vivendo em plena era da cultura da publicidade, exijamos “mais integridade, por favor”, entre aquilo que dizem e aquilo que fazem aqueles que querem trabalhar, circular, exibir, criar, representar, pensar ou lutar pelo direito fundamental do Homem de produção e desfrute da diversidade artística e cultural de todas as épocas, em nosso tempo.

 

O que você faria com R$ 1 bilhão? Ou sobre a necessidade urgente de uma política pública

Gustavo Gindre*

Gustavo GindreEste é o montante anual aproximado que a Ancine passa a administrar no Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Vamos entender essa história e sua importância. O fomento público federal ao audiovisual é fruto da crise surgida com o fechamento da Embrafilme, no governo Collor, quando o Brasil simplesmente deixou de produzir obras audiovisuais independentes. Como resposta foi criada uma série de mecanismos de renúncia fiscal que podem, grosso modo, ser divididos em dois grupos.

De um lado, os mecanismos de patrocínio, onde empresas não relacionadas ao audiovisual investem parte do que devem de imposto de renda na produção de obras audiovisuais brasileiras independentes. O problema desses mecanismos é que a decisão sobre onde investir recursos públicos acaba transferida para diretores de marketing de montadoras de carros ou geradoras de energia elétrica, por exemplo, que nada entendem da indústria de audiovisual e que possuem compromisso apenas com o dividendo dos acionistas destas empresas.

De outro lado, os mecanismos de coprodução, onde radiodifusores, programadoras de TV paga e distribuidores de cinema investem parte do que pagariam de impostos na coprodução de obras audiovisuais brasileiras. O problema desses mecanismos é que estas empresas se tornam coprodutoras de obras audiovisuais ditas independentes (adquirindo vários direitos sobre tais obras) sem que tenham investido um único real de dinheiro privado.

fsa1Para superar os limites intrínsecos destes mecanismos, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) propôs a criação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), cujos recursos advêm da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), uma CIDE (Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico) que até então era usada para garantir o funcionamento da própria Ancine. A arrecadação da Condecine tinha duas origens básicas: pagamento por remessa de recursos ao exterior (“Condecine remessa”) e pagamento por registro de obras audiovisuais para exploração comercial em determinado segmento do mercado audiovisual (“Condecine título”).

O FSA é gerido por um comitê composto por representantes da indústria audiovisual e do Ministério da Cultura. A Ancine funciona como secretária-executiva deste comitê, é a responsável pela execução orçamentária e financeira do FSA e, através de um comitê interno de investimento, delibera sobre a aprovação final de projetos de fomento. Como a figura jurídica da Ancine não é apropriada para esse tipo de atividade, a agência contrata um agente financeiro que administra e movimenta os recursos do Fundo.

O FSA é um poderoso instrumento de fomento porque permite à Ancine investir recursos em toda a cadeia produtiva do audiovisual (e não apenas na produção) e se utilizando de mecanismos de fomento a fundo perdido (como já é praticado pela renúncia fiscal), mas também de investimentos retornáveis e até de empréstimos reembolsáveis.

Segundo dados da Ancine (veja aqui) o FSA fechou 2012 com uma arrecadação próxima de R$ 100 milhões por ano. Até o momento, contudo, exceto pelo programa Cinema Perto de Você (veja aqui), os recursos são usados apenas na produção de obras audiovisuais, a grande maioria tendo como primeira janela as salas de cinema.

Ocorre que a Lei 12.485/2013 transformou parte do pagamento do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) em uma nova forma de arrecadação da Condecine, devida por todas as empresas de telecomunicações e apelidada de “Condecine telecom”. Apenas com este nova Condecine, o FSA arrecadou, em 2013, cerca de R$ 900 milhões.

Esse montante coloca o Brasil entre os principais países a investir no audiovisual. O Estado francês, referência mundial para a produção independente, depois de décadas de fomento, aporta cerca de € 700 milhões por ano no audiovisual, mas o governo pretende cortar cerca de € 150 milhões por conta da crise econômica. Muito provavelmente, o FSA passa a ser superior ao total investido por todos os demais estados latino-americanos juntos.

O FSA também é maior do que a receita líquida do SBT (R$ 814 milhões, em 2012), por exemplo, ou do lucro líquido somado de SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV e CNT (exceto a Globo, as principais redes privadas de TV aberta do país). Trata-se, portanto, e sob quaisquer aspectos, de muito dinheiro.

Esse aumento de recursos já deveria ter chamado a atenção da sociedade civil para o FSA.

  • Que impactos esses recursos podem causar nas emissoras públicas? Ou nos canais comunitários e universitários?
  • Como garantir que as obras fomentadas com recursos públicos estarão disponíveis para serem acessadas pela maioria da população brasileira (e não apenas por aqueles que compram ingressos de cinema ou assinam pacotes de TV paga)?
  • Que tipo de controle público será exercido sobre esses desembolsos?
  • Como garantir que tais recursos não se concentrem nas mãos de poucas, e grandes, produtoras independentes?
  • Que tipo de direitos sobre as obras ditas independentes poderão ser negociados com radiodifusoras, programadoras de canais estrangeiros e os grandes estúdios de Hollywood que dominam a distribuição em nossos cinemas?
  • Como usar tais recursos para desconcentrar a produção audiovisual, hoje quase totalmente limitada ao eixo Rio – São Paulo?
  • Como garantir que não tenhamos apenas uma cinematografia de comédias em parceria com a Globo Filmes? Ou, em outras palavras, como estimular a diversidade estética, técnica e temática de nosso audiovisual?
  • Como estimular que uma parte dessas empresas se torne auto-sustentável e não fique o resto da vida dependente de recursos públicos?
  • Quanto e como deve ser usado para fomentar a formação de mão de obra e a ampliação da infra-estrutura de produção?
  • Como garantir que os recursos serão usados também nas chamadas “novas” (sic) mídias, como a Internet, por exemplo?
  • Será que uma parte desses recursos não deveria ser usada em novos tipos de obras audiovisuais, como games e conteúdos interativos?

ancineEnfim, há uma gama de questões que somente poderão ser respondidas com uma política pública que sinalize a decisão do Estado brasileiro (e não apenas da agência reguladora do setor) em desenvolver o audiovisual brasileiro, especialmente aquele de caráter independente. Tais questões são importantes demais, podem ter impactos tão grandes, que não devem ficar restritas ao debate com os agentes de mercado que poderão receber os recursos do FSA.

Urge que a sociedade civil, especialmente os movimentos sociais ligados ao tema da comunicação, se envolvam com o debate que vai definir o destino desses R$ 1 bilhão de reais.

Gustavo Gindre nasceu no Rio de Janeiro em 1969. É jornalista formado pela UFF, pós-graduado em Teoria e Práxis do Meio Ambiente (ISER) e mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ). Foi membro eleito do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) por dois mandatos (2004-2007 e 2007-2010). Integrante do Coletivo Intervozes. Fellow da Ashoka Society. É servidor público concursado, especialista em regulação da atividade cinematográfica e audiovisual.

Budista e socialista.

Procultura – Quase unanimidade

por  | sexta-feira, 25 maio 2012

Analisado e debatido publicamente em dois encontros realizados em São Paulo no último final de semana, a proposta de substitutivo ao projeto do Procultura, elaborado pelo Deputado Pedro Eugênio (PT/PE), obteve uma inédita – e até pouco tempo impensável – aprovação unânime das lideranças e representantes de entidades da sociedade civil dos mais diversos setores da cultura que participaram do Seminário #Procultura, promovido pelo site Cultura e Mercado e pelo Cemec.

A proposta conta também com total apoio dos atuais gestores do Ministério da Cultura, conforme ficou claro nas explanações feitas pelos Secretário Executivo e de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, respectivamente, Vitor Ortiz e Henilton Parente de Menezes.

Assim, a unanimidade absoluta em torno da proposta apresentada por Pedro Eugênio só não é ainda possível devido à existência de grupos que continuam defendendo publicamente a proposta da extinção sumária de qualquer legislação de incentivo e fomento à cultura fundamentada em mecanismos de renúncia fiscal. Tais grupos, que organizaram um protesto na frente local onde foi realizado o Seminário, apesar de serem atualmente visivelmente minoritários dentro do processo de discussão da matéria, prometeram continuar se mobilizando, protestando e fazendo barulho pelo menos enquanto o projeto não tiver sido definitivamente aprovado pelo Congresso e sancionado pela Presidenta Dilma Roussef.

Além de manter o principal objetivo do projeto original, que previa o aumento de recursos e fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura (FNC), a proposta apresentada pelo deputado pernambucano apresenta várias inovações no sentido de corrigir muitas das distorções provocadas pela legislação atual. Entre as propostas, merecem especial atenção as que prevem a ampliação de 4% para 6% do percentual do Imposto de Renda devido destinado pelas empresas a investimentos; a incorporação de empresas com faturamento de até R$ 300 milhões ao universo de potenciais investidores, ampliando também de 4% para 8% o percentual do IR devido que estas empresas poderão aplicar; e a destinação ao FNC de 5% da renda de loterias federais.

Outra novidade diz respeito ao estímulo que deve ser dado ao funcionamento do Fundo de Investimento Cultural e Artístico (Ficart), destinado a aplicações financeiras em projetos culturais e artísticos, garantindo aos investidores uma dedução no Imposto de Renda devido de até 50%  do valor das cotas adquiridas.

Feitas todas as contas, segundo Pedro Eugênio, caso sua proposta seja aprovada, os recursos do FNC serão praticamente triplicados, devendo alcançar já no próximo ano cerca de R$ 900 milhões de reais.

A nova proposta estabelece também um sistema de pontuação que beneficia projetos e atividades que apresentem maiores “contrapartidas sociais”. Assim, quanto maior forem tais contrapartidas, como por exemplo, a gratuidade do produto e/ou serviço cultural, acessibilidade facilitada, difusão no exterior e ações educativas, maior será o abatimento do IR, estabelecendo através destes critérios percentuais de 30%, 50% ou 100% de dedução total do montante investido.

Está ainda previsto que as empresas que investirem em projetos e/ou atividades que receberem pontuação equivalente às faixas de apenas 30% e 50% de dedução poderão abater o valor total do investimento como despesa operacional, o que acarretará em mais descontos no final do processo.

Finalmente, modifica também pontos da legislação atual considerados injustos por vários setores da cultura, determinando que os critérios de classificação não se darão por segmento cultural e privilegiando projetos apresentados por produtores independentes.

O substitutivo busca ainda dar conta de resolver os problemas relacionados à concentração da captação e da aplicação dos recursos incentivados dentro do eixo Rio-São Paulo.

Praticamente todos os demais convidados que também “palestraram” no Seminário #Procultura, elogiaram efusivamente o trabalho desenvolvido pelo deputado pernambucano, apresentando apenas críticas amenas e bastante pontuais sobre a proposta apresentada.

A exceção ficou por conta da consultora e ex-secretária da Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Marta Porto, que foi bastante ácida e contundente em sua fala. Apesar de deixar bem claro que não é contra a continuidade da existência de mecanismos de financiamento baseados em mecanismos de renúncia fiscal, Marta deixou de lado a análise da proposta apresentada e criticou veementemente o fato do debate sobre financiamento da cultura no Brasil continuar centrado “apenas nos mecanismos relacionados à renúncia fiscal”.

Neste contexto, segundo Marta, “é preciso ressaltar que apesar dos avanços propostos no substitutivo apresentado pelo Deputado Pedro Eugênio, não existe nenhum dado ou estudo concreto que realmente aponte os impactos econômicos e financeiros que serão provocados pela aplicação destes novos mecanismos, sequer no orçamento do MinC”. Finalmente, também criticou “a falta criatividade e ousadia não só no debate sobre os mecanismos de financiamento da cultura, mas em relação a toda a política cultural que vêm sendo atualmente implantada no Brasil”.

Apesar dos avanços, antes mesmo de ser apresentada à Comissão de Tributação e Orçamento da Câmara, o projeto proposto pelo Deputado Pedro Eugênio parece já ter sofrido um primeiro e significativo retrocesso, já que, ao contrário de uma proposta que circulava anteriormente, o texto divulgado mantém a possibilidade da captação de recursos por organismos de caráter “estatal”.

Esse retrocesso foi criticado pelo Marv@da C@rne, que na condição de presidente do Congresso Brasileiro de Cinema também participou do Seminário #Procultura.

Infelizmente a manutenção da possibilidade de captação de recursos incentivados por qualquer tipo que for de ‘entidades’ que deveriam ser financiadas através de recursos orçamentários destinados por estados e municípios, além de ser injusta, não ajuda nem um pouco que consigamos avançar na tramitação da PEC 150 no Congresso.

Afinal, é inegável que essa situação é bastante confortável para governadores e prefeitos, que continuarão fazendo cortesia com o chapéu alheio e utilizando recursos federais para sustentar entidades e atividades culturais que deveriam ser financiadas com recursos dos orçamentos locais.

*Publicado originalmente no site Cultura e Mercado e na coluna Marv@da C@rne

João Baptista Pimentel Neto http://www.cbcinema.org.br

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