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O homem de Nazaré

Orlando Senna*

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosNasci em família católica, estudei em colégio Marista, lembro da primeira comunhão e das aulas de Catecismo e da minha fé infantil, uma espécie de busca do êxtase. Um êxtase nada comparável à entrega corporal e espiritual da sensualíssima Santa Teresa da escultura famosa de Bernini ou dos livros da própria Santa Teresa, best-sellers desde a Idade Média. Apenas o embevecimento de uma criança depois de comer uma hóstia, diante do mistério que me assustava ao pensar que a hóstia era “o corpo de Cristo”. Os catequistas diziam para não morder a hóstia, pois ela se desfaria em sangue, “como já aconteceu várias vezes”. O mistério desapareceu, e com ele o susto, quando alguém me explicou o que era uma metáfora.

O homem de NazaréAdolescente, já no colégio Marista, busquei explicações sobre o símbolo mais utilizado pelas religiões cristãs: a cruz, um instrumento de tortura. E a efígie de Cristo mais difundida: sendo torturado na cruz. Esse insight surgiu em um grupo que discutia assuntos polêmicos, do qual fazia parte. Tínhamos entre 13 e 14 anos e fizemos o maior auê no colégio, uma campanha para que a Igreja Católica deixasse de usar a cruz como emblema de fé, esperança e caridade. Chegamos a rascunhar uma carta endereçada ao Papa, façanha que não foi avante porque o diretor do colégio, o Irmão Cirilo (que chamava todo mundo de “meu santo”), nos esclareceu que a cruz representa a dureza da vida, o peso de responsabilidades, dores e culpas que todos temos de carregar durante nossas existências. Era outra metáfora.

Essa minha convivência com Jesus, iniciada praticamente no berço, cresceu em duas direções: minha necessidade de conhecer sua história e minha relação espiritual com seu imenso legado. Historicamente, é a maior personalidade da humanidade, o ser humano que mais impressionou à espécie humana, que mudou a cultura global, inspirou religiões, guerras, expansões e implosões de impérios, colonizações e libertações. Estudei obviamente os quatro Evangelhos canônicos e fui em busca de outros relatos, das cartas e narrativas da época, dos ditos Evangelhos Apócrifos e das pesquisas e conclusões de historiadores.

Jesus sempre deu muito trabalho aos historiadores, que tiveram de garimpar “realidades” em uma teia de lendas, mitos e visões que, naturalmente, envolveram sua figura, espelhando sua seminal importância no imaginário da espécie. Para muitos pesquisadores, além de paupérrimo ele era analfabeto, como mais de 90% de seus contemporâneos judeus, um analfabeto (se é que era) capaz de sintetizar e ressignificar em uma curta frase os dez mandamentos do Judaismo e todos os mandamentos existentes: amar ao outro como a si mesmo. E revelar que não existe uma verdade universal e sim as verdades de cada um: “eu sou a verdade”.

Com relação ao ente místico, ao Deus feito homem, minha relação se desenvolveu de maneira mais complexa e só se estabilizou após estudar religiões orientais e sistemas filosóficos-religiosos africanos. A mim me pareceu, e continua parecendo, que o fato do Deus único e todo poderoso da Bíblia descer à Terra no corpo de uma pessoa teria sido um milagre como outro qualquer, um milagre normal, já que Ele tudo pode. Mas o contrário, um homem que, por sua inteligência, sensibilidade, coragem e bondade se transforma em Deus, se eleva aos olhos e corações de seus semelhantes como alguém superior a todos, com poderes além da imaginação, isso sim é um acontecimento extraordinário, um avanço enorme na evolução espiritual do ser humano. Ao Deus feito Homem das religiões, preferi o Homem que se faz Deus (crença que estendo a todos os grandes avatares, Buda entre eles, que não seriam “encarnações” de divindades e sim humanos com alto grau de conexão com o cosmo, com a totalidade do universo e da vida).

Chegar a esse Jesus Cristo me fez muito bem, me fez confiar na humanidade e em mim mesmo, me fez muito melhor do que eu era. Encontrei uma referência fundamental no jovem nazareno que mudou o mundo, diante das vicissitudes e das glórias da minha existência sempre me pergunto o que aquele cara diria, o que faria. Conversando sobre isso com um amigo, um teólogo, ele disse que a isso se chama Cristo Interior, “que todos deviam ter, religiosos ou não”. Se tenho vontade de rezar, o que acontece às vezes, me volto para dentro, me dirijo a ele, à suprema inteligência humana que ele alcançou. Por isso, nas festas natalinas, celebro seu aniversário com alegria e conforto, pensando que também é meu aniversário, do dia em que renasci ao descobrir que o menino da manjedoura era tão humano como eu, como todos, e portanto temos a possibilidade de tentarmos a divinização. 

Por Orlando Senna

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O poder e a arte

Orlando Senna*

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosFaltam oito dias para as eleições e não creio que, até lá, apareçam novidades importantes sobre a questão audiovisual, seja nas manifestações do setor, seja nos programas de governo das principais candidatas, Dilma e Marina.

Os artistas, trabalhadores e empresários do ramo fizeram sugestões e reivindicações, as mais recentes no Festival de Brasília (o documento “Por uma primavera do audiovisual brasileiro”, com divulgação na internet). As candidatas não fizeram mudanças no que já estava dito em seus planos de governo, também bastante divulgados e resenhados neste blog, onde dediquei dois artigos sobre o assunto.

fomeentoA minha opinião é que o próximo governo deve fortalecer ainda mais a Ancine-Agência Nacional de Cinema e sua política de expansão da atividade e, ao mesmo tempo, debelar a crise de crescimento da instituição, promovendo ajustes preventivos e cirúrgicos principalmente no que se refere à burocracia; que a prioridade da agência seja a veiculação do conteúdo brasileiro em todas as mídias; que a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura volte a ter importância estratégica e política, com foco na cultura audiovisual e exercendo complementaridade com a Ancine, com foco no mercado; que o novo governo tenha a plena compreensão da importância medular do audiovisual na economia e nas soberanias nacionais no século que vivemos e a inteligência de promover um marco regulatório da atividade, abrangente, contemporâneo e democrático.

E que a aposta maior seja no poder de criação, invenção e coragem de nossos artistas. Disto tive mais uma prova contundente nos últimos dias, participando do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A curadoria do festival decidiu selecionar para a premiação oficial apenas filmes representativos da mais recente onda artística nacional, uma geração com novas propostas quando ainda estamos saboreando a onda anterior, o impactante cinema de Cláudio Assis, Karim Ainoux, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Cléber Mendonça Filho, Hilton Lacerda, Cao Guimarães, José Padilha e outros brilhantes cineastas.

A novíssima onda radicaliza a experimentação estética, abole totalmente os limites entre realidade e ficção, elabora uma sofisticada popularização da linguagem que se confunde com amadorismo (no sentido de fazer com amor), levam ao extremo a incorporação dos baixos orçamentos a essa linguagem, levam o espectador a exageros de risos e lágrimas. “Cinema de risco” ou “o nicho mais experimental do cinema brasileiro”, como definiu o crítico Luiz Zanin. “A estética da sucata”, como disse o ator e poeta Emmanuel Cavalcanti.

A maioria dos novíssimos cineastas são oriundos da baixa classe média e das periferias, alguns da classe média, mas o tema é sempre um Brasil profundo. Não tenho espaço para dizer tudo que me vai na alma sobre essa turma, nem sobre todos os filmes exibidos. Acho que foi mais um Festival de Brasília “histórico”, como outros que aconteceram nesse evento caracterizado pela politização (linguagem é política). O enorme entusiasmo dos espectadores brasilienses e as dúvidas de intelectuais e cineastas veteranos autorizam essa profecia. Sugiro que vocês vejam, o quanto antes, os dois filmes mais premiados pelo júri oficial: a efervescente metáfora Brasil S/A de Marcelo Pedroso e o mix de ficção científica e crua realidade Branco sai. Preto fica de Adirley Queirós, grande vencedor do festival.

Distribuição? O papo dessa turma é diferente. Adirley disse à mídia que seu filme pode ser visto por sete bilhões de pessoas (referindo-se às redes sociais, claro) mas também vai vender cópias nas feiras populares. Grana para produção? É um papo mais diferente ainda. O último ato da turma no festival foi dividir o prêmio de melhor filme, 250 mil reais, por todos os seis concorrentes de longa-metragem. Foi uma comoção na plateia. Nunca coisa igual aconteceu antes no cinema brasileiro, quiçá no cinema universal.

  • Orlando Senna é cineasta e colaborador do ObsevaCine Revista Diálogos Do Sul

Nosso futuro chinês

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosEm 2013 a China se tornou a maior potência comercial do mundo, superando os EUA. É o país mais populoso do planeta (mais de 1,3 bilhão de habitantes), com uma história e uma cultura que remontam a 38 séculos. No século passado aconteceu um fato importante nessa saga milenar, que foi a polêmica Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, de onde resultou a atual e socialista República Popular da China.

dragao-chinesCom esse currículo, a China sempre dedicou especial atenção à cultura e, na atualidade, às indústrias culturais. Segundo Sergio Capparelli, jornalista italiano radicado em Pequim, “a China está ansiosa para mostrar ao mundo que pode ser a primeira em termos globais em todos os campos econômicos possíveis, inclusive no da indústria cultural”. Em 2012 a produção dessa indústria aumentou 17% com relação ao ano anterior, respondendo por cerca de 4% do PIB. A meta é elevar a 6% nos próximos dois anos.

A indústria audiovisual é a menina dos olhos deles. Duas gigantescas instituições governamentais cuidam do assunto: a Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão (com nível de ministério) e o Ministério da Cultura. A TV é administrada pela Televisão Central da China (para se ter uma ideia, a sede é um prédio de 44 andares). O cinema está sob jurisdição da China Film Corporation, sempre em conflito com os EUA porque a China permite a importação anual de apenas 34 filmes estrangeiros.

Em 2018 será inaugurada, na costa leste chinesa, o maior centro mundial de produção audiovisual, empreendimento de seis bilhões de euros, uma parceria público privada. E por aí vai, o paisão asiático está se preparando para inundar o mundo não apenas com os produtos baratos (domésticos, digitais, cosméticos, brinquedos) que conhecemos, mas também com filmes, séries de TV, videogames, música, literatura e todos os possíveis produtos que possam mexer com nosso imaginário e com nosso comportamento. Com o nosso way of life, que eu ainda não sei como se diz em chinês, mas não demora muito e saberei. 

No seu avanço como potência planetária, a China está de olho grande na América Latina. Está de olho no mundo todo, é claro, mas com uma mirada mais amorosa em direção à América Latina, aqueles olhos puxados nos paquerando misteriosamente. Razões não faltam, a América Latina é uma região em ascensão econômica. A porta de entrada é o Brasil (tem a ver com os BRICs), o quarto principal destino de recursos chineses, atrás apenas de Austrália, EUA e Canadá. Nos últimos cinco anos a China aplicou no Brasil cerca de 30 bilhões de dólares. A modernidade humana já foi culturalmente influenciada pela Europa, depois pelos EUA, e deu no que deu. Como será o mundo sob influência majoritária chinesa? Como será o mundo para nós, ocidentais, os de olhos redondos, “olhos de diabo” como eles dizem. 

Por Orlando Senna

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Ninjas

Orlando SennaOrlando Senna*

A mídia industrial, corporativa, conhecida no Brasil como “grande mídia”, sempre conviveu com uma “mídia independente”. Na história do jornalismo impresso nos países do Ocidente e em alguns do Oriente está presente o que chamávamos de “imprensa nanica”, pequenos jornais e revistas com linha editorial fluindo na contramão da comunicação de massa.

Com o advento da digitalização, das redes sociais, da blogosfera as manifestações midiáticas antes tidas como nanicas, como coisa pequena, passaram a competir em audiência e importância social com a comunicação corporativa. Em inglês esse movimento, cuja essência é a informação produzida pelo cidadão e distribuida diretamente no ciberespaço, foi batizada CrowdMedia, ou seja, a mídia das multidões, da massa popular.

A partir das grandes manifestações públicas recentes, a mídia independente ou mídia livre ou nova mídia organizou-se em pequenos grupos de cidadãos, os “coletivos jornalísticos”, alcançou uma enorme popularidade e está repercutindo forte na grande mídia, que agora refere-se a si mesma como “mídia tradicional”. Um dos coletivos brasileiros, a Mídia Ninja, é entrevistado em grandes programas nacionais de TV, discutido nos jornalões e “saiu no New York Times”, como diria Henfil. E também no Wall Street JournalThe Guardian, El País e em todas as agências de notícias.

Interessante é que a definição clássica de ninja é “agente especializado em artes de guerra não ortodoxas”. No caso da Mídia Ninja também é a sigla de Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. É um grupo colaborativo com 50 integrantes, milhares de participantes espalhados por toda parte e apoio financeiro da rede de coletivos Fora do Eixo (neste momento está lançando uma campanha de doações públicas, quem quiser doa o que puder). A essa cultura colaborativa soma-se uma produção jornalística audiovisual com linguagem e atitude novas, ousadas e sedutoras: o fato visto por dentro, por quem participa dele, com a câmera fixada na orelha ou na testa.

A ex-grande mídia, agora mídia tradicional, teve uma reação dupla: além de repercutir as ações da Mídia Ninja e de outros coletivos, também se posicionou com relação à novidade. A resposta geral é que esses coletivos não são jornalísticos porque não têm isenção, não são neutros diante dos fatos, informam a partir do seu próprio ponto de vista, de sua militância. Ou seja, a mesma acusação que os independentes fazem à mídia corporativa, e que também é a razão do surgimento dos ninjas da comunicação. Mas há também uma sensação de ameaça, de coisa nova demais ou estranha demais rondando as redações e estúdios das grandes corporações e que foi muito bem expressada por Cora Rónai em artigo no jornal O Globo (Mídia Ninja, 8/8/2013): “ainda não inventaram, e eu espero que não inventem nunca, uma emissora capaz de estar em todos os lugares ao mesmo tempo”. É, pode até causar arrepio. Mas é o que vai acontecer.

Por Orlando Senna