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A falsa guerra do cinema brasileiro, um comentário

André Gatti*

André GattiVou comentar o texto distribuidor Bruno Wainer , que foi criador da Lumière e, é proprietário da Downtown, distribuidora exclusiva de filmes brasileiros. O texto intitulado A falsa guerra do cinema brasileiro, publicado na FSP, 26/09/2014.

Ele fala da velha guerra entre o cinema comercial e o não comercial. Ao abrir este texto com este chavão, sou obrigado a divagar um pouco, inclusive fazendo um certo retrospecto histórico dos fatos.

CinemaO cinema e o filme enquanto objeto apresentam radical caraterísticas, ele é arte e indústria, o filme é produto e artefato cultural/artístico. Isto tem que ser entendido em toda a sua extensão. Esta dualidade , entendo ser esta a riqueza do nosso objeto,

Se o cinema é arte e indústria, a partir desta dualidade temos que enxergar a questão, sob a lógica que são dois pilares quase que antagônicos entre si, mas, é dentro deste antagonismo que tem que se pensar uma política para o setor.

E, quando me refiro a isto quero dizer que uma entidade que nem a nossa precisa trabalhar no sentido de harmonizar estes interesses e campos de conflito. Acho que está é uma bandeira que podemos ter como proposta de legitimidade da entidade, fora disto, é jogar a coisa num gueto, onde o estado das coisas beira o insuportável. isto devido a uma esquizofrenia crônica que o conjunto da ópera nos trouxe, ou seja , ao aprestarmos, o CBC, como representante do cinema cultural….Qual CBC queremos?A esta questão que deveremos discutir no nosso congresso.

Na realidade, esta guerra que o BW comenta vem de longa data, nem sempre com as mesmas letras que estão hoje apresentadas. O primeiro organismo estatal do setor foi o INCE com a sua vocação de cinema educativo, ideologicamente amparado em um decreto é uma lei, mas , principalmente no Decreto 21.240/32, que reorganizava o Ministério da Educação e Saúde . Os13 artigos dedicados ao cinema nesta legislação foram uma conquista da ABPC, que realizou o verdadeiro primeiro Congresso do setor e que foi responsável em pautar o texto do Decreto, junto à burocracia estatal vargista que reorganizava o aparelho estatal brasileiro.

O decreto instituiu a Taxa cinematográfica para a educação popular, primeira taxa cinematográfica, fonte de recursos do Ince que seria organizado em 1936 e que seria definitivamente implantado somente em 1937. Portanto, o Ince é a base sólida do cinema cultural , por excelência, somos uma velha tradição do cinema brasileiro, onde o Estado foi o principal protagonista…Isto precisamos colocar na nossa pauta política . Esta questão não pode ser escamoteada da forma como estão sendo colocada.

O queixume sobre a distribuição apoiada na fala  do Klotzel , replicado pelo BW, parece-me totalmente desfocado, quando Klotzel chora a perda do protagonismo para as distribuidoras e BW  claramente aposta nisto. Acho que devemos sim criticar os excessos provocados inclusive pelo art. 3 da Lei do Audiovisual. E, que os distribuidores brasileiros conseguiram reverter com os recursos do Funcines e do Fsa…O que  me constrange no texto de BW é que um filme comercial tem que ser distribuído em pelo menos 100salas, o que me parece que não caracterizaria como comerciais filmes do tipo O som ao redor, Hj eu quero voltar sozinho , Cine Roliudi , Bezerra de Menezes , onde tem filmes inclusive distribuído pelo próprio…Rs

Depois, uma distribuidora que ano passado vendeu mais de 17 milhões de ingressos e mais de 50 na sua carreira comercial, em um sistema meritocrático deveria contar com outros esquemas de incentivo, do tipo adicional de renda…por exemplo….

Numa economia de mercado, a distribuição é um ponto chave que não pode absolutamente ser desprezado. Os realizadores têm que achar novas maneiras de distribuição dos seus filmes. O slogan para este período é: Exiba ou morra. Numa era exponencial para a produção, o filme não exibido é obra morta.

  • André Gatti é colaborador do ObservaCine

O poder e a arte

Orlando Senna*

Orlando-Senna.-Perfil-DiálogosFaltam oito dias para as eleições e não creio que, até lá, apareçam novidades importantes sobre a questão audiovisual, seja nas manifestações do setor, seja nos programas de governo das principais candidatas, Dilma e Marina.

Os artistas, trabalhadores e empresários do ramo fizeram sugestões e reivindicações, as mais recentes no Festival de Brasília (o documento “Por uma primavera do audiovisual brasileiro”, com divulgação na internet). As candidatas não fizeram mudanças no que já estava dito em seus planos de governo, também bastante divulgados e resenhados neste blog, onde dediquei dois artigos sobre o assunto.

fomeentoA minha opinião é que o próximo governo deve fortalecer ainda mais a Ancine-Agência Nacional de Cinema e sua política de expansão da atividade e, ao mesmo tempo, debelar a crise de crescimento da instituição, promovendo ajustes preventivos e cirúrgicos principalmente no que se refere à burocracia; que a prioridade da agência seja a veiculação do conteúdo brasileiro em todas as mídias; que a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura volte a ter importância estratégica e política, com foco na cultura audiovisual e exercendo complementaridade com a Ancine, com foco no mercado; que o novo governo tenha a plena compreensão da importância medular do audiovisual na economia e nas soberanias nacionais no século que vivemos e a inteligência de promover um marco regulatório da atividade, abrangente, contemporâneo e democrático.

E que a aposta maior seja no poder de criação, invenção e coragem de nossos artistas. Disto tive mais uma prova contundente nos últimos dias, participando do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A curadoria do festival decidiu selecionar para a premiação oficial apenas filmes representativos da mais recente onda artística nacional, uma geração com novas propostas quando ainda estamos saboreando a onda anterior, o impactante cinema de Cláudio Assis, Karim Ainoux, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Cléber Mendonça Filho, Hilton Lacerda, Cao Guimarães, José Padilha e outros brilhantes cineastas.

A novíssima onda radicaliza a experimentação estética, abole totalmente os limites entre realidade e ficção, elabora uma sofisticada popularização da linguagem que se confunde com amadorismo (no sentido de fazer com amor), levam ao extremo a incorporação dos baixos orçamentos a essa linguagem, levam o espectador a exageros de risos e lágrimas. “Cinema de risco” ou “o nicho mais experimental do cinema brasileiro”, como definiu o crítico Luiz Zanin. “A estética da sucata”, como disse o ator e poeta Emmanuel Cavalcanti.

A maioria dos novíssimos cineastas são oriundos da baixa classe média e das periferias, alguns da classe média, mas o tema é sempre um Brasil profundo. Não tenho espaço para dizer tudo que me vai na alma sobre essa turma, nem sobre todos os filmes exibidos. Acho que foi mais um Festival de Brasília “histórico”, como outros que aconteceram nesse evento caracterizado pela politização (linguagem é política). O enorme entusiasmo dos espectadores brasilienses e as dúvidas de intelectuais e cineastas veteranos autorizam essa profecia. Sugiro que vocês vejam, o quanto antes, os dois filmes mais premiados pelo júri oficial: a efervescente metáfora Brasil S/A de Marcelo Pedroso e o mix de ficção científica e crua realidade Branco sai. Preto fica de Adirley Queirós, grande vencedor do festival.

Distribuição? O papo dessa turma é diferente. Adirley disse à mídia que seu filme pode ser visto por sete bilhões de pessoas (referindo-se às redes sociais, claro) mas também vai vender cópias nas feiras populares. Grana para produção? É um papo mais diferente ainda. O último ato da turma no festival foi dividir o prêmio de melhor filme, 250 mil reais, por todos os seis concorrentes de longa-metragem. Foi uma comoção na plateia. Nunca coisa igual aconteceu antes no cinema brasileiro, quiçá no cinema universal.

  • Orlando Senna é cineasta e colaborador do ObsevaCine Revista Diálogos Do Sul

Pelo menos 43 mil escolas brasileiras não têm equipamentos para exibir filmes

cinema na EscolaO número corresponde às instituições que não têm televisão, de acordo com o Censo Escolar de 2013.

Pelo menos 43 mil escolas brasileiras não estão preparadas para atender à nova lei que determina a exibição mensal de, pelo menos, duas horas de filmes produzidos no Brasil. O número corresponde às instituições que não têm televisão, de acordo com o Censo Escolar de 2013. O número aumenta quando se trata de aparelhos de DVD – do total de 190,7 mil colégios, mais de 48 mil não têm o equipamento. Em relação aos retroprojetores, que também podem ser usados na exibição de filmes, apenas um terço (63 mil) tem o equipamento.

A lei entrou em vigor no final do mês de junho. Pelo texto, a exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola. “Infelizmente, a lei ainda vai permanecer como desafio, por mais que tenha a norma, ela não será implementada imediatamente. Somos um país gigante, com muita diversidade. Temos escolas que não dispõem de recursos mínimos como TV e vídeo. Elas terão que ser equipadas”, diz o vice-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Alessio Costa Lima.

Cine escolasA maior deficiência está entre as escolas públicas, de acordo com a plataforma de dados educacionais QEdu, em que 74% têm TV e 71%, DVD. Entre as particulares as porcentagens aumentam para 90% e 88% respectivamente. As escolas municipais são a maioria no Brasil (119,9 mil) e são também as que apresentam as maiores deficiências. Entre esses centros de ensino, 69% têm TV e 66%, DVD.

Alessio Lima é também secretário de Educação de Tabuleiro do Norte (CE) e diz que no município o desafio de implementar o serviço está praticamente vencido. Das 23 escolas públicas do município, 22 têm TV e aparelho de DVD. “Já temos essa prática nas escolas, de exibir filmes. Mas, agora o incentivo será para planejar a aquisição de um acervo e orientar a prática de forma sistemática”. Uma das possibilidades é que os recursos transferidos para as escolas pelo Programa Dinheiro Direto na Escola sejam usados também para esse fim.

Entre os estados, o Acre é um dos que têm a pior infraestrutura para a exibição dos filmes. No estado, 41% das escolas têm TV e 37% DVD. “Não estamos preparados, não houve planejamento, até porque eles decidiram isso sem o conhecimento das escolas. O Parlamento brasileiro deveria ouvir mais a sociedade”, diz o diretor da Secretaria de Educação do Acre, Hildo Cézar Freire Montysuma. A maior dificuldade está nas escolas da área rural, onde não há equipamentos são muito antigos, conta o professor.

No Amazonas, 35% das escolas públicas têm televisão e 30% DVD. A Secretaria de Educação, por meio da assessoria, diz que está projetando estratégias para inserir a proposta no Plano Político Pedagógico nas escolas. “Por enquanto, as ações ainda estão sendo projetadas para futura execução”, informa o órgão.

O Ministério da Educação informa que desde 1996 tem políticas de disponibilização de conteúdos audiovisuais por meio da TV Escola, do Portal da TV Escola e do Portal do Professor, além da distribuição dos kits de DVDs da TV Escola, que poderão auxiliar as redes e escolas no cumprimento da lei.

Esses conteúdos audiovisuais, com exceção dos kits de DVD da TV Escola – que são enviados somente para as escolas –, estão disponíveis para livre acesso por todos os cidadãos brasileiros que tenham captação de imagem por meio de antena parabólica, TV a cabo e acesso à internet. Além disso, o MEC diz que vem articulando com o Ministério da Cultura mecanismos e orientações para ampliar o acervo de filmes nacionais, conforme as diretrizes curriculares nacionais.

Sobre os equipamentos, a pasta estimula a aquisição do Projetor Interativo Proinfo pelas licitações de registro de preços promovidas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Por se tratar de uma compra nacional, os preços são inferiores aos praticados no mercado e aos obtidos em licitações em um único município ou estado. O projetor pode ser usado na exibição de películas.

Encontros com o Cinema Brasileiro

Encontros com o Cinema BrasileiroA Agência Nacional do Cinema (Ancine), vinculada ao Ministério da Cultura,  informou que até o dia 26 deste mês estarão abertas as inscrições para os interessados em participar da segunda edição do projeto Encontros com o Cinema Brasileiro, marcado para setembro. O evento é uma realização da Ancine, juntamente com o Ministério das Relações Exteriores (MRE).

A iniciativa busca expandir a influência e a representatividade do cinema brasileiro no mercado internacional, ampliando as relações com os curadores dos principais festivais de cinema do mundo. Esta edição contará com a presença, no Brasil, de Shari Frilot, uma das curadoras do Festival de Sundance, que acontece entre 16 e 26 de janeiro de 2014.

 A ficha de inscrição para os produtores que desejem incluir seus filmes na agenda oficial de exibição já está disponível no portal da Ancine.

Podem ser inscritos filmes brasileiros de longa-metragem de produção independente já finalizados, que ainda não tenham feito sua estreia internacional, ou que ainda não estejam finalizados, mas já possuam um corte provisório de imagem/som em condições de projeção. Todos os filmes inscritos passarão por uma pré-seleção feita pelos curadores.

camisa basta - CNC e FICC 550O projeto Encontros com o Cinema Brasileiro tem como objetivo reforçar a presença do cinema nacional nos maiores festivais de cinema do mundo. A primeira etapa foi realizada em junho deste ano, no Rio de Janeiro. Nessa fase participaram membros do conselho curador dos festivais de Veneza, San Sebastián, Locarno, Roma,  IDFA (Amsterdã) e Havana.

Leia aqui o regulamento da 2ª edição do projeto.

Acesse a matéria na íntegra na página da Ancine.

(Ascom/MinC)
(Fonte: Ancine)
(Foto na home: Divulgação/Ancine)

4.ª Mostra de Cinema Brasileiro apresenta filmes inéditos – Sapo Mulher

De 5 a 8 de Novembro, no Cinema São Jorge, a Fundação Luso-Brasileira presta homenagem ao realizador Domingos de Oliveira e ao actor Matheus Nachtergaele.

Com o objectivo de apresentar o cinema brasileiro contemporâneo ao público português e à comunidade brasileira residente em Portugal, são exibidos, diariamente, quatro filmes.

O programa inclui filmes realizados por Domingos de Oliveira – responsável, entre outros, pela série televisiva de sucesso Confissões de Adolescentes – e protagonizados por Matheus Nachtergaele, que participou em filmes como Cidade de Deus e Central do Brasil, e nas telenovelas Hilda Furacão e Da Cor do Pecado.

A Mostra tem início no dia 5 de Novembro, com a exibição, reservada a convidados, do drama “Juventude” (2008), dirigido e estrelado por Domingos de Oliveira, com Paulo José, Aderbal Freire Filho e o próprio Domingos de Oliveira no elenco.

No dia 6 de Novembro, os filmes a exibir enquadram-se na Filmografia Contemporânea: “Romance”, “Santiago”, “Chega de Saudade” e “Meu nome não é Johnny”.

O terceiro dia da Mostra é dedicado à filmografia de Domingos de Oliveira, através da exibição de quatro filmes onde é, simultaneamente, realizador e actor: “Feminices”, “Separações”, “Juventude” e “Carreiras”. À excepção do filme “Juventude”, Priscilla Rozenbaum, casada com o realizador, integra o elenco dos filmes.

O último dia da Mostra de Cinema Brasileiro é dedicado ao trabalho de Matheus Nachtergaele. “O Auto da Compadecida”, “Tapete Vermelho”, “A Festa da Menina Morta” e “A Concepção” são os filmes a exibir. “A Festa da Menina Morta” constitui a estreia de Matheus Nachtergaele como realizador.

via4.ª Mostra de Cinema Brasileiro apresenta filmes inéditos – Sapo Mulher.

Chororô…

Meia-entrada e tributação

Seminário promovido pelo Festival do Rio discutiu mercado.
‘[Com desconto] o Estado está dando algo que não é dele.’

Débora Miranda Do G1, no Rio

A meia-entrada foi um dos principais alvos dos profissionais de cinema, em seminário realizado na segunda-feira (5), durante o Festival do Rio. Produtores, distribuidores, exibidores, advogados e um representante da Ancine (Agência Nacional do Cinema) passaram o dia discutindo temas como leis de incentivo fiscal, o crescimento do mercado brasileiro, tributação e produção nacional.

“Em 2007, quase 60% dos ingressos foram meia-entrada”, afirma Luiz Gonzaga de Luca, diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro. “E o exibidor agora tem que aceitar qualquer carteirinha. Temos mais de mil instituições que distribuem identificação estudantil no país.” Para ele, se o excesso de estudantes fosse eliminado, os preços dos ingressos poderiam baixar.

“A carteira de estudante é uma falha na democracia brasileira. Cinema não é concessão do Estado, não é bem público nem de primordial importância. [Com esse desconto] o Estado está dando algo que não é dele. Esse é o maior empecilho do desenvolvimento do cinema no Brasil”, opina Gonzaga.

O Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), órgão responsável por recolher direitos autorais de músicas no Brasil, também foi criticado pelos profissionais de cinema. Segundo eles, em outros países, convenciona-se que o compositor que participa da trilha sonora de um filme ganhe apenas quando essa canção for “comprada”, não havendo portanto recolhimento de direitos autorais. No Brasil, diferentemente, o Ecad recebe 2,5% das bilheterias de todos os filmes, inclusive das produções internacionais, para repassar aos artistas.

De acordo com Gonzaga, com o desconto dos músicos, mais as despesas dos cinemas e a parte que cabe aos produtores e distribuidores, sobra pouco mais de 6% da bilheteria para as empresas exibidoras, o que ele considera pouco. “Se não houvesse propaganda e bomboniere, levaríamos 16 anos para recuperar o dinheiro da construção de um cinema”, calcula.

Outro ponto levantado pelos profissionais de cinema foi a alta tributação em todas as etapas de um filme, da produção à exibição. Segundo Patricia Kamitsuji, diretora geral da Fox Brasil, o imposto recolhido (considerando uma média do faturamento anual do cinema nacional) daria para comprar 345 projetores 3D e fazer 155 novas salas de alto padrão.

“No México, que costumamos usar como comparação por ser um país semelhante ao nosso, os impostos são baixíssimos e o cinema não para de crescer. Por isso é que no fim do ano não temos resultados expressivos. Está mais do que claro o caminho que temos de seguir: a tributação tem que ser revista.”

Uma das principais críticas é que, como no cinema a divisão do dinheiro acontece da forma oposta que em outras áreas –indo do exibidor, que é a última etapa de um filme, para o produtor, que é a primeira, a quantia de dinheiro arrecadada com bilheterias passa pela chamada “tri-tributação”, ou seja, é preciso pagar imposto três vezes com relação ao mesmo lucro.

Ampliação do número de salas
O investimento do governo no aumento do número de salas foi uma das principais exigências dos profissionais de cinema. “Não adianta privilegiar apenas a produção se não há um investimento pesado em exibição”, afirmou Jorge Peregrino, do sindicato dos distribuidores. “Existe um potencial de crescimento forte na América Latina.”

Em contrapartida, Mario Diamante, diretor da Ancine, apresentou um raio-x da distribuição das salas no país e responsabilizou causas sociais pela desaceleração do mercado exibidor desde os anos 70. “Em 1975 tínhamos 3.276 salas de cinema no Brasil. Se seguisse o ritmo de crescimento, teríamos em 2009 6.300 salas, três vezes mais do que temos hoje.”

Segundo Diamante, a projeção não se viabilizou por conta da urbanização acelerada e pelo fato de muitas pessoas terem ido viver em favelas, sem infra-estrutura, o que acabou colocando o cinema em segundo plano. Além disso, grande parte dos cinemas de rua foi fechada, e o nascimento de novas salas ficou atrelado aos shoppings. Ele assumiu ainda que houve falta de apoio governamental, tanto na modernização das salas antigas, quanto na tributação.

Reforma da Lei Rouanet
A reforma da Lei Rouanet também foi discutida no encontro. Para a advogada Silvia Gandelman, o artigo 49 é inconstitucional e deve ser retirado da proposta. O item em questão afirma que o Ministério da Cultura pode utilizar qualquer obra financiada com recurso público após três anos. “Isso é a desapropriação indireta de bens e serviços”, afirmou, citando a Constituição e a Lei do Direito Autoral, que garantem ao autor total autonomia sobre a própria obra.

Novas tecnologias

Os exibidores demonstraram preocupação em acompanhar as novas tecnologias e em modernizar as salas, que, segundo eles, precisam se digitalizar. Para Nelson Krumholz, diretor financeiro do Estação, o formato de exibição em 35 mm tende a ser extinto em no máximo cinco anos. “Essa modernização tem um custo. Mas acredito que o parque exibidor ache um caminho. Já enfrentamos tantas novas tecnologias… Com o surgimento da TV, do videocassete, do DVD, muita gente disse que o cinema acabaria, mas isso não aconteceu.”

A concorrência com downloads e pirataria não assusta os profissionais do cinema. “Estão sendo criadas formas de identificar e brecar isso. Mas veja o México, por exemplo, que tem problema semelhante de download, talvez até mais grave que o nosso pela facilidade do idioma. As salas de cinema lá continuam aumentando. Ninguém acredita no fim do cinema, já passamos por outros impactos. Nada vai substituir a experiência da sala escura”, afirma Peregrino.

Justiça mantém cota para exibição de filmes brasileiros

O TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) suspendeu a decisão judicial que autorizou distribuidoras de cinema no Rio Grande do Sul a não respeitarem a chamada “cota de tela”, que estabelece uma reserva anual de salas para a exibição de filmes brasileiros. A decisão atendeu a um recurso na AGU (Advocacia Geral da União), que defendeu a norma regulamentada pela Ancine (Agência Nacional do Cinema).

O Sindicato das Empresas Cinematográficas no Estado do Rio Grande do Sul questionou na Justiça uma Medida Provisória (MP 2228-1/01), que obriga cinemas a exibir e locadoras a manter filmes brasileiros no acervo por 20 anos. Já o Decreto 4.945/03 fixou o período de mínimo de cartaz para filmes brasileiros em 60 dias por ano. A ação foi julgada procedente pela 5ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre.

Na decisão, os desembargadores entenderam que “não há qualquer inconstitucionalidade na determinação de exibição de filmes nacionais”, porque a própria Carta “eleva a princípio a promoção do patrimônio cultural brasileiro”. Segundo o relator do caso, “a exibição do cinema nacional em vários festivais evidencia a preocupação deste setor com a realidade social nacional”.

Em sua manifestação, a AGU defendeu que a política de reserva é imprescindível para o desenvolvimento do cinema nacional e comparou o setor com o crescimento econômico recente do país.

“A estagnação do crescimento brasileiro nas últimas décadas, ainda que tenha realizado importantes reformas econômicas, sociais e políticas, deu-se, em parte, pela resistência na adoção dessas políticas públicas, em razão da falta de mentalidade nacional de que o desenvolvimento é mais o resultado de um processo gradual de mudanças”, disse a apelação.

No recurso, argumentou ainda que na fixação do número de dias que devem ser exibidos obras brasileiras são ouvidas entidades representativas dos produtores, distribuidores e exibidores, de acordo com a determinação legal. Outros fatores também são considerados: número de filmes lançados, público e a renda obtida.

Transnational Brazilian Cinema em Londres

Pelo terceiro ano consecutivo, Londres será palco de mais um Festival de Cinema Brasileiro, abrindo as fronteiras de exibição para a produção nacional recente. Além de uma mostra, também haverá o simpósio Transnational Brazilian Cinema, que reunirá representantes da comunidade acadêmica brasileira e britânica, gestores públicos de ambos os países, executivos e analistas de mercado e especialistas em financiamento cultural.

Durante o simpósio será discutido o fortalecimento do cinema brasileiro, as novas perspectivas internacionais para a produção e exportação, e o estreitamento de parcerias com os órgãos públicos brasileiros – como o Ministério das Relações Exteriores, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e o Ministério da Cultura.

Entre os debatedores encontram-se a representante da Future Films, Elisa Alvares (Senior Executive, Future Films); Isabel Davis (Senior Executive, International Strategy & Co-production, UK Film Council); Richard Collings, da BBC; Stephanie Dennison, pesquisadora do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Leeds; Libia Villazana, da Latin American Film Network in London, a pesquisadora brasileira Alessandra Meleiro, além de um representante da Ancine.

O festival será realizado entre os dias 8 de setembro e 8 de outubro, no Barbican Centre, e o simpósio, no dia 3 de outubro.

Para mais detalhes acesse: http://www.cenacine.com.br/?p=2452

Veja a programação completa: http://www.barbican.org.uk/film/series.asp?id=763