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A falsa guerra do cinema brasileiro, um comentário

André Gatti*

André GattiVou comentar o texto distribuidor Bruno Wainer , que foi criador da Lumière e, é proprietário da Downtown, distribuidora exclusiva de filmes brasileiros. O texto intitulado A falsa guerra do cinema brasileiro, publicado na FSP, 26/09/2014.

Ele fala da velha guerra entre o cinema comercial e o não comercial. Ao abrir este texto com este chavão, sou obrigado a divagar um pouco, inclusive fazendo um certo retrospecto histórico dos fatos.

CinemaO cinema e o filme enquanto objeto apresentam radical caraterísticas, ele é arte e indústria, o filme é produto e artefato cultural/artístico. Isto tem que ser entendido em toda a sua extensão. Esta dualidade , entendo ser esta a riqueza do nosso objeto,

Se o cinema é arte e indústria, a partir desta dualidade temos que enxergar a questão, sob a lógica que são dois pilares quase que antagônicos entre si, mas, é dentro deste antagonismo que tem que se pensar uma política para o setor.

E, quando me refiro a isto quero dizer que uma entidade que nem a nossa precisa trabalhar no sentido de harmonizar estes interesses e campos de conflito. Acho que está é uma bandeira que podemos ter como proposta de legitimidade da entidade, fora disto, é jogar a coisa num gueto, onde o estado das coisas beira o insuportável. isto devido a uma esquizofrenia crônica que o conjunto da ópera nos trouxe, ou seja , ao aprestarmos, o CBC, como representante do cinema cultural….Qual CBC queremos?A esta questão que deveremos discutir no nosso congresso.

Na realidade, esta guerra que o BW comenta vem de longa data, nem sempre com as mesmas letras que estão hoje apresentadas. O primeiro organismo estatal do setor foi o INCE com a sua vocação de cinema educativo, ideologicamente amparado em um decreto é uma lei, mas , principalmente no Decreto 21.240/32, que reorganizava o Ministério da Educação e Saúde . Os13 artigos dedicados ao cinema nesta legislação foram uma conquista da ABPC, que realizou o verdadeiro primeiro Congresso do setor e que foi responsável em pautar o texto do Decreto, junto à burocracia estatal vargista que reorganizava o aparelho estatal brasileiro.

O decreto instituiu a Taxa cinematográfica para a educação popular, primeira taxa cinematográfica, fonte de recursos do Ince que seria organizado em 1936 e que seria definitivamente implantado somente em 1937. Portanto, o Ince é a base sólida do cinema cultural , por excelência, somos uma velha tradição do cinema brasileiro, onde o Estado foi o principal protagonista…Isto precisamos colocar na nossa pauta política . Esta questão não pode ser escamoteada da forma como estão sendo colocada.

O queixume sobre a distribuição apoiada na fala  do Klotzel , replicado pelo BW, parece-me totalmente desfocado, quando Klotzel chora a perda do protagonismo para as distribuidoras e BW  claramente aposta nisto. Acho que devemos sim criticar os excessos provocados inclusive pelo art. 3 da Lei do Audiovisual. E, que os distribuidores brasileiros conseguiram reverter com os recursos do Funcines e do Fsa…O que  me constrange no texto de BW é que um filme comercial tem que ser distribuído em pelo menos 100salas, o que me parece que não caracterizaria como comerciais filmes do tipo O som ao redor, Hj eu quero voltar sozinho , Cine Roliudi , Bezerra de Menezes , onde tem filmes inclusive distribuído pelo próprio…Rs

Depois, uma distribuidora que ano passado vendeu mais de 17 milhões de ingressos e mais de 50 na sua carreira comercial, em um sistema meritocrático deveria contar com outros esquemas de incentivo, do tipo adicional de renda…por exemplo….

Numa economia de mercado, a distribuição é um ponto chave que não pode absolutamente ser desprezado. Os realizadores têm que achar novas maneiras de distribuição dos seus filmes. O slogan para este período é: Exiba ou morra. Numa era exponencial para a produção, o filme não exibido é obra morta.

  • André Gatti é colaborador do ObservaCine

Para MSN o futuro da distribuição de conteúdo está na Internet

“A TV 2.0 é o que acontece quando a TV libera o conteúdo ‘para fazer o que quiser’. É a libertação do conteúdo”, disse Joe Michaels, diretor sênior do MSN, da Microsoft, para novos negócios na área de vídeo. O executivo abriu o Congresso TV2.0, que acontece nesta sexta, 19, em São Paulo. O evento é organizados pela Converge Comunicações, que edita este noticiário. Michaels apresentou os cases de fracasso e de sucesso da MSN ao levar conteúdo audiovisual à web, destacando a importância da aprendizagem em ambos os casos. Ele lembra que na última década, o acesso à Internet cresceu globalmente. Nos Estados Unidos, esse crescimento foi de pouco mais de 100%, enquanto na Europa foi de cerca de 300%. Na Ásia e América Latina foi ainda mais expressivo: 600% e 900%, respectivamente. “Esse é o futuro da distribuição de conteúdo”, disse.

A tendência já foi sentida pelos detentores de conteúdo, diz o executivo da MSN. Segundo ele, nas primeiras reuniões que a Microsoft teve para tentar levar o conteúdo das grandes emissoras para a web, a empresa foi questionada sobre quanto pagaria para que estes detentores de conteúdos acabassem com seus próprios negócios. “Hoje as redes de TV faturam centenas de milhões de dólares no Hulu, por exemplo”, diz.

Formatos

Entre exemplos de sucesso e fracasso, Michaels apresentou o da exibição ao vivo dos shows do Live Earth, em 2007. Ele observou que a ação foi lucrativa, contudo a conclusão é que este tipo de evento pode ser arriscado para a web. Segundo ele, webcast ao vivo é muito trabalhoso e oneroso, exigindo a comercialização de pacotes de publicidade muito caros e, por conseqüência, promessas de acesso muito grandes para os anunciantes. Estas metas são difíceis de serem alcançadas, afirmou.

O conteúdo para web tem sido, até agora, conteúdo para TV, disse Joe Michaels. No entanto, afirmou, isso começou a mudar. Um dos formatos apontados como de sucesso pelo executivo é o conteúdo patrocinado. Desta forma, a produção só começa quando já há verba aprovada pelo anunciante e um meio de distribuição definido. Seria uma forma de reduzir o risco para produtores e distribuidores de conteúdo. Para este tipo de conteúdo, alertou, agência, anunciante, produtora e veículo precisam trabalhar em conjunto e de forma articulada desde o início. Como exemplo, citou a webseries “Motherhood”, que, com roteiristas e elenco de Hollywood, encenou histórias reais enviadas por mães, em uma ação patrocinada pela indústria de cosméticos. “Foi um grande sucesso na Internet, mas um fracasso na TV”, disse.

Modelo de negócios

Michaels ressaltou que o MSN foi o primeiro serviço de vídeos a apostar na distribuição de vídeo online financiada pela publicidade. Não só o MSN, mas o Hulu, que detém conteúdo das grandes redes norte-americanas, provou que o modelo de vídeo na Internet bancado por publicidade é viável. O serviço conta com mais publicidade que o YouTube, por exemplo, que tem audiência significativamente maior. “Anunciantes amam a segurança do conteúdo premium e têm medo do conteúdo gerado pelo usuário”, disse.

De acordo com ele, há ainda um problema de padronização neste sentido. Os modelos de publicidade para TV também precisam evoluir para se adequarem à Internet. Para Michaels, em algum momento, um padrão deve ser definido.

O executivo não duvida do modelo pago, lembrando que o próprio Hulu deve ter alguns programas pagos em breve. Ele acredita que alguns conteúdos só são viáveis se forem pagos, tanto na TV quanto na Internet. “A HBO não seria viável de outra forma”, lembrou.

Distribuição

Joe Michaels não vê a distribuição de vídeo pela web como ameaça às outras plataformas de distribuição. “Não nos vemos como competidores das empresas de cabo. Há algum overlap, mas nosso negócio é software”, disse. Embora tenha admitido que as plataformas disputem tanto a atenção da audiência quanto o bolo publicitário, Michaels disse que se trata de uma concorrência saudável, combinada com parceria. “Nós exibimos e financiamos muitas vezes o mesmo conteúdo”.

O executivo alertou o público do evento a não descartar outra forma de distribuição, as redes sociais. Ele lembrou que o Facebook atualmente conta com mais interação que o Google. “Não se esqueçam das redes sociais. São grandes e ainda não estão sendo bem usadas para distribuição de conteúdos”, afirmou. Da Redação

Uma matéria que merece toda atenção

Produção independente requer políticas para distribuição

02/10/2009 |
Redação*
FNDC
O Brasil possui uma produção audiovisual regional e independente bastante volumosa e qualificada. Distribuir esse material, no entanto, é a maior dificuldade enfrentada pelo setor. Propor políticas públicas que garantam o escoamento dessa produção será um dos desafios da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom).

Ainda que tenha atingido certo grau de maturidade, com produções de qualidade reconhecida, o mercado audiovisual brasileiro ainda encontra dificuldades para distribuir seu conteúdo. Construir políticas públicas que estimulem o setor é uma das tarefas que o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) propõe para a Confecom, cuja etapa final será realizada entre os dias 1º e 3 de dezembro, em Brasília.
Embora o artigo 221 da Constituição Federal brasileira estabeleça a regionalização da produção cultural e a distribuição do conteúdo na programação das emissoras de rádio e televisão, a sua não-regulamentação é uma das barreiras ao setor. “Regulamentar esse artigo é um passo importante. Precisamos fazer valer a determinação e estimular a produção independente, estabelecendo, com base em discussões públicas, os percentuais de regionalização, medida já prevista na CF”, avalia o Secretário de Políticas Culturais (SPC) do Ministério da Cultura, José Luiz Herencia.
O Brasil possui políticas para financiar a produção. Contudo, faltam canais e regras para que esses conteúdos cheguem até o mercado de maneira efetiva, afirma o professor de Economia do Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF), Alex Patez. “Mesmo necessitando de ajustes, temos um amplo leque de possibilidades de fomento à produção independente e regional mesmo para a televisão. O que é preciso é garantir mercado”, aponta.
Para o cineasta e sócio da Casa de Cinema de Porto Alegre, Carlos Gerbase, isso se dará a partir de uma estrutura de exibição consistente. “No Brasil, só vamos conseguir ter uma produção independente forte, quando tivermos uma estrutura de financiamento e de exibição se apoiando mutuamente. Isso só se consegue com por meio de uma legislação. O audiovisual brasileiro vai ser mais forte se tiver gente fazendo cinema, TV, no Nordeste, no Norte, no Centro-oeste, no Sul”, reflete o cineasta.
Concentração impede o desenvolvimento
No Brasil, há 2.098 salas de cinema, de acordo com o levantamento feito pelo Ministério da Cultura, publicado no Anuário de Estatísticas Culturais do País 2009 (veja o material completo aqui). Do total de salas, 1.244 estão localizadas na região Sudeste. A pesquisa, realizada em nove capitais, mostrou que somente 15% da população dessas cidades têm o hábito de frequentar cinemas ao menos uma vez por mês. Os filmes mais vistos são os “hollywoodianos” (19%).
Na avaliação do presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros, Antônio Claudino de Jesus, a cadeia produtiva exige maior complexidade. “Nosso mercado é completamente dominado e dirigido pelas majors. A distribuição, e consequentemente a exibição, está sob o comando de empresas como a Motion Pictures”, explica. Para ele, a concentração das salas de cinema no sudeste do país reflete a carência de políticas mais abrangentes para o setor audiovisual.
A concentração dos cinemas comerciais nos shopping centers, distantes da maioria do público, dificulta o acesso, avalia Claudino. Mais de 90% das cidades brasileiras não têm sequer uma sala de cinema. “A produção fica comprometida e dependente do investimento de recursos públicos. E aí, não há distinção entre o cinema regional e independente ou o cinema dito comercial”, assinala.
O Coordenador Geral de TV e Plataformas Digitais do Minc, Octavio Penna Pieranti, acredita que só o aumento do número de salas de cinema não assegura o espaço necessário para a produção regional e independente. É preciso discutir também o espaço da produção regional e independente na televisão brasileira, na radiodifusão e na TV por assinatura. “Isso também é papel das emissoras do campo público, tentando em cada um dos Estados trazer a produção regional para a sua grade”, pontua.
Outros veículos
Gerbase reflete que a concentração das salas nos shoppings acabou afastando as classes C e D do cinema. “Quem asssitia à chanchada, na década de 50, quem via os filmes populares, sempre foram as classes mais populares. Nós temos que, de alguma maneira, resgatar esse público, sem perder as outras classes, obviamente. É uma tarefa difícil”, pondera o cineasta. Ele destaca, porém, que ser “independente” no Brasil nunca foi bom negócio. “Sempre foi muito melhor estar vinculado a uma emissora de TV, que já tem a grade e a gente já sabe onde vai o produto, então pode pensar mais a longo prazo. Só que, daí, tu tens que trabalhar dentro da emissora”, explica.
A relação da produção audiovisual com a televisão – e atualmente ainda com outros meios de comunicação – também deve ser levada em conta em futuras políticas para o setor. “Para quem quer fazer cinema como nós, essa relação é muito importante. Eu não conheço nenhuma produtora de cinema independente no Brasil que viva de cinema. As pessoas estão fazendo televisão aberta, televisão a cabo, produzindo para celular, para a internet ou fazendo publicidade”, afirma Gerbase.
Para a cineasta Berenice Mendes, representante da Associação Nacional das Entidades de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Aneate) na Coordenação Executiva do FNDC, é preciso garantir essa regionalização em todos os sistemas de TV. “Não é porque está sendo formado um sistema público como a EBC, que vai se desobrigar o sistema comercial de cumprir a lei”, aponta Berenice, destacando que o incentivo também deve ser feito para as TVs e rádios comunitárias. “Essas emissoras, criadas legalmente, não possuem um projeto de sustentabilidade, o que acaba as fragilizando”, complementa a cineasta.
Políticas Públicas
Paetz destaca a instituição de cotas à produção independente e regional como possibilidade para o setor. “Países com uma democracia avançada que quiseram desenvolver uma indústria audiovisual não tiveram outra opção a não ser estabelecer uma política de cotas”, expõe. O professor cita como exemplo os países europeus, onde na televisão aberta ou por assinatura, 50% dos conteúdos têm de ser regionais. Além disso, os canais devem ser programados a partir do continente. “O Canadá tem regras semelhantes para fazer contraponto à indústria audiovisual norte-americana, da mesma forma, a Austrália tem cotas na televisão aberta e por assinatura”, assinala.
Para Paetz, porém, estipular cotas para a produção no Brasil poderia criar uma demanda potencial de conteúdos independentes na televisão e mais produções cinematográficas. “Havendo isso, eventualmente o Estado colocaria menos recursos públicos no fomento dessa produção – recursos esses que competem com a educação, com a saúde, porque o mercado poderia contribuir para financiar essa produção”, defende o professor.
Diante do processo de convergência digital, José Herencia sustenta a necessidade de costurar políticas intersetoriais para concretizar o potencial de diversificação. Segundo ele, outro ponto central é a capacitação. “Existe pouca disponibilidade de programas para a profissionalização na área”, afirma.
Um diagnóstico profundo do setor precisa ser realizado para então serem elaboradas políticas públicas referentes, afirma Berenice. Investir na articulação e criação de um circuito popular de exibição audiovisual e a introdução no currículo escolar de disciplinas destinadas à leitura crítica dos meios de comunicação e do conteúdo audiovisual são alternativas para estimular o setor.
Para democratizar o mercado audiovisual, é preciso ainda incentivar a co-produção entre empresas de televisão e cinematográficas, nos diferentes estados e municípios da federação, fortalecendo assim o mercado interno. Iniciativas como essas são apontadas pelo Programa para a Democratização da Comunicação no Brasil, produzido pelo FNDC.
A população precisa ter amplo acesso ao conteúdo regional e independente, participar do processo cultural de forma a conhecer a diversidade brasileira e ser sujeito dela, sustenta Claudino. “O que importa, realmente, é o respeito aos direitos do público –em última instância, o grande e único investidor que sustenta tanto o mercado quanto às produções alternativas e sem fins lucrativos. Esta é a grande luta do movimento”, finaliza.

*Com a colaboração de Fabiana Reinholz