1952

A sessão inaugural do Clube de Cinema de Marília se deu em 12 de outubro de 1952. O filme exibido foi o hoje clássico, A Dama de Xangai, dirigido por Orson Welles e estrelado por uma Rita Hayword sedutora e atraente. No início daqueles anos 50, a efervescência cultural da capital paulista espraia-se pelo interior.
Falar sobre o Clube de Cinema de Marília é um prazer. Ao conhecer a história do Clube de Cinema, mergulhamos na própria história da cidade. Assim, discorrer sobre esse assunto tão vasto e tão rico em acontecimentos faz com que entremos num túnel do tempo, caminhando por lugares hoje tão distantes, mas que outrora fizeram parte de uma geração encantada e ciente da importância da sétima arte.
Em 1952, em um Brasil tomado por uma aura desenvolvimentista e tecnológica, um grupo de amigos em Marília tentava instaurar na cidade um novo olhar sobre a cultura através do cinema, estudando imagens em movimento que se faria presente no dia a dia de uma população tão carente e ávida de novidades.
Roberto Caetano Cimino e alguns outros começam a participar de um movimento cineclubista que acontecia em todo o interior do Estado na busca por um espaço cultural que mostrasse mais do que a realidade pudesse oferecer, com qualidade e reflexão social. Daí surge a idéia de criar o Clube de Cinema de Marília.
A primeira exibição é feita em 16 mm com o filme A Dama de Shangai (1948) do então cineasta Orson Welles, o mesmo do famigerado Cidadão Kaine (1939). A exibição foi um sucesso e em pouco tempo, cópias em 35 mm começaram a se fazer presente nas sessões marilienses. Foi então que na segunda sessão os convidados assistiram O encouraçado Potenkin (1925) de Sergei Eisentein um clássico do cinema russo.
E esses jovens não pararam por aí: em 1960 organizaram o I Festival de Cinema de Marília e também o primeiro do Brasil. Dá para acreditar? Em pleno começo de uma era turbulenta como foi a ditadura, o Clube de Cinema de Marília enfrentou a realidade e promoveu festivais e discussões em torno da sétima arte de forma brilhante. E ao mesmo tempo, avassaladora. Os próximos festivais ocorreram em 1967 e 1969, sempre cheios de novidades.
Cineastas de várias gerações aqui estiveram: Luis Sérgio Person, Arnaldo Jabor, Roberto Santos, Hugo Carvana, Domingos de Oliveira, Sergio Ricardo (que nasceu em Marília), Nelson Pereira dos Santos, Bruno Barreto, Hector Babenco, Leon Hirzman, Anselmo Duarte e tantos outros. Além de atores como Eva Vilma, Carlos Zara, Leila Diniz, Reginaldo Faria e personalidades como Wladimir Herzog.
Enfim, uma riqueza de história para orgulhar qualquer cidadão, imagine então os marilienses.
Além dos festivais, ocorria paralelamente os Encontros Paulistas de Cine Clubes, os cursos de cinema, a informação através do jornal Curumim e a instituição do prêmio de cinema mais famoso do país: o prêmio Curumim em 1966.
Entre 1975 e 1988 as exibições em 35 mm foram minguando devido ao descaso com a cultura. Nada mais de festivais, apenas exibições e alguns poucos cursos que ainda eram promovidos pelo Clube de Cinema com a direção do grande Benedito André, o seu Dito, que cuidava, como se fosse seu, jóia rara, do Clube de Cinema.
O clube decai em qualidade e atuação justamente pela falta de incentivo. A professora Regina Morales assume o Clube depois da morte do seu Dito fazendo o que pode e com os recursos que tem para que o Clube não parasse de funcionar. Entre exibições para escolas, debates e uma programação que se prima em oferecer filmes dos mais variados países e culturas, Regina tem feito o que é possível para manter essa instituição ainda de pé.
Em 12 de outubro de 2008, o Clube de Cinema de Marília completou 56 anos de história entre alegrias e tristezas. Uma história marcada pela perseverança de alguns e descaso, desconhecimento e descomprometimento de tantos outros.
Claro, não podemos culpar uma sociedade que não se interessa por cultura num país como o Brasil, onde pouco, ou quase nada, ainda se investe nisso. Por isso, acredito que iniciativas como a 1° Mostra de Cinema de Marília são louváveis e devem ser aplaudidas.
Devemos reconhecer, entretanto, que uma 1° Mostra como essa deve ser o pontapé inicial para uma nova fase do Clube de Cinema em Marília e para a própria cultura da cidade. O acervo, como vocês devem saber, está numa salinha no final do corredor, lugar onde parece estar indo toda a cultura em uma sociedade que não preza o valor histórico dos fatos. Poucos têm conhecimento da riqueza que é preservar a história e o acervo desse Clube.
Alguns “desbravadores” ainda insistem em cuidar do que existe, remando algumas vezes contra a maré e tentando preservar a memória do Clube de Cinema para que seus filhos, netos, bisnetos e toda uma sociedade possam vir a conhecer e pesquisar o que um dia existiu em Marília.
Sendo assim, acredito que só a cultura e em seu seio mais forte aqui, o cinema, pode salvar uma sociedade carente de refletir sobre si mesmo e sobre a realidade em que está.
Façam da cidade de vocês um lugar melhor. Mas não fiquem reclamando apenas: descruzem os braços, saibam o que está acontecendo, cobrem do poder público novas iniciativas e tenham novas idéias para melhorar a cidade em que vocês estão.
Façam cinema. Façam história.
Lídia
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