80 anos de cineclubismo

Por Antonio Claudino de Jesus

Presidente do CNC – Conselho Brasileiro de Cineclubes Brasileiros
Vice-Presidente da FICC – Federação Internacional de Cineclubes

Comemoramos 80 anos de cineclubismo celebrando a fundação do primeiro cineclube organizado, com estatutos e tal: o Chaplin Club, fundado em 13 de junho de 1928, no Rio de Janeiro.

Estes 80 anos, tentando falar em termos de políticas públicas para a área do cinema – e especialmente para cineclubes – foram essencialmente marcados pela ausência delas.

Foi um período dividido entre omissão pública, deixando o cinema vogar ao sabor do mercado e das iniciativas privadas, e intervenção estatal gerada, no mais das vezes, pelos regimes autoritários e, com muita freqüência, tendo como objetivo o controle da produção e da circulação dos produtos culturais e a contenção das organizações culturais.

Mesmo assim, a presença do Estado foi muito importante: a criação do INCE, da Embrafilme, Concine, entre outras, foi essencial para um mínimo equipamento do Estado na área do cinema cultural, uma regulamentação que alguns casos beneficiou o cinema brasileiro e possibilitou avanços na produção cultural.

A par do DIP, do Estado Novo, ou da Censura nos 20 anos do regime militar

A “desregulamentação” promovida no governo Collor quase acabou com o cinema brasileiro, inaugurando uma etapa de reafirmação da hegemonia de um modelo de cinema elitista – por que o público não tem acesso – excludente – porque o cinema brasileiro e internacional não são exibidos – e virtualmente ultrapassado – porque baseado num paradigma tecnológico caro e superado.

Nesse modelo, o Estado não interfere, deixando o cinema ser dirigido segundo as forças livres do mercado, cuja sede fica em um bairro famoso de Los Angeles.

Este governo, sob a direção do Ministro Gilberto Gil, inaugurou a perspectiva de uma real política pública.

Porque, ao contrário da maior parte destes 80 anos, há uma formulação política por parte do aparelho estatal, mas voltada para o diálogo com a sociedade civil.

Política formulada apenas nos gabinetes é, no máximo, política estatal, que pode produzir alguns acertos, mas também alguns monstros.

Política pública só existe quando fruto do diálogo com a sociedade civil. Não é fruto nem da formulação exclusiva de gabinetes nem seu contrário, mera expressão de reivindicações corporativas de segmentos do sociedade: é um diálogo entre demandas sociais e orientação pública do interesse do conjunto da república.

A fase atual, de reorganização do movimento cineclubista, tem muito a ver com tudo isso.

Os cineclubes começaram a se reencontrar e se reorganizar a partir de um impulso dado pelo MINC, que estimulou a realização da 23ª. Jornada Nacional de Cineclubes, em 2003, em Brasília.

De lá para cá, interagindo com instituições públicas, principalmente o Minc e Ancine, o movimento foi o principal responsável pelo seu próprio reconhecimento institucional – através da Instrução Normativa 66 da Ancine, publicada depois de uma memorável consulta pública, com 700 manifestações de apoio, até de adversários da gestão do CNC.

Produto de um diálogo em formação, os cineclubes (*) também “conquistaram” um edital que distribuiu 100 kits de equipamentos de projeção.

Era uma reivindicação da Comissão de Reorganização do Movimento Cineclubista, eleita na Jornada de Brasília, que se corporificou 3 anos depois.

(*) Mas até muito recentemente não se tratava, ou se falava de cineclube na construção dessa política. Apesar disso, a grande maioria dos Pontos de Difusão Digital são, como é natural, cineclubes. E até entre os Pontos de Cultura – uma das importantes iniciativas em termos de política cultural do MINC e que tem um escopo de certa forma mais amplo do que o audiovisual, dos cineclubes – mais de 20% são constituídos por ou associados a cineclubes.

De forma que, mais ou menos a partir da apresentação do Programa Mais Cultura, feita pela presidente Lula, a palavra cineclube finalmente foi integrada sem restrições à política pública de cinema que está sendo finalmente construída neste País.

Outra conquista importante dos cineclubes foi a criação da Programadora Brasil. Ela é o fruto exemplar do diálogo ao mesmo tempo que das dificuldades do diálogo. Também demorou um pouco, mas menos, para falar em cineclube. Chamou para a sua direção uma importante liderança cineclubista, mas não tem representação cineclubista da curadoria do seu acervo.

Estamos entrando numa segunda etapa da elaboração dessa política pública.

Vista do ponto de vista dos cineclubes, ela parece apontar para um avanço estrutural, um aperfeiçoamento, um salto de qualidade que também é marcado pela generalização quantitativa das iniciativas do governo.

Há uma certa reorganização no Ministério da Cultura, fruto justamente desse avanço político e cultural, que se caracteriza por:

Maiores recursos para a consecução dessa política: nunca antes na história deste País se programou igual montante de recursos ( mais de 4 bilhões) para a realização de um plano definido e submetido à avaliação da sociedade

Unificação e generalização dos programas anteriores: a partir, grossomodo, da experiência dos Pontos de Cultura, estabeleceu-se a meta de 20 mil Pontos diversos, incluindo a inclusão digital, pontos de leitura, etc, e também cineclubes.

Do ponto de vista dos cineclubes, é preciso esclarecer e determinar também o aperfeiçoamento da participação da sociedade, como elemento essencial da construção e afirmação, agora sim, e como nunca antes, de uma política pública de cultura e, especialmente, e também pela primeira vez, de uma política nacional de cineclubismo.

(Discurso proferido na mesa de encerramento do Seminário 80 Anos de Cineclubismo no Brasil, realizado durante o III FAIA – Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual, no município de Atibaia, estado de São Paulo, Brasil)

80 Anos de Cineclubismo no Brasil

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