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CREC / Centro Rio Clarense de Estudos Cinematográficos

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Entrevista ao Diário do Nordeste

João Baptista Pimentel Neto: A atividade cineclubista permeia a sociedade como um todo e alcança todas as camadas sociais´

2 de novembro de 2008

2008 marca os 80 anos do movimento cineclubista no Brasil.
Na entrevista a seguir, concedida quando esteve em Fortaleza para uma palestra na Vila das Artes, João Baptista Pimentel Neto, presidente da Federação Paulista de Cineclubes e Secretário Geral do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC), fala um pouco sobre o cineclube como movimento político, cultural e social e propõe um modelo alternativo de exibição

O que caracteriza um cineclube? Quais os tipos e a finalidade de um cineclube?

O cineclube é uma atividade e ação coletiva voltada, essencialmente, para a questão da exibição cinematográfica, ou, de maneira mais geral, audiovisual. O principal objetivo do movimento cineclubista, principalmente no Brasil, é promover a democratização do acesso da população à produção nacional. Em relação aos tipos de cineclube, uma coisa muito bacana do movimento é a sua diversidade. Hoje você tem desde cineclubes universitários, dentro da academia, nos quais a discussão, geralmente, é mais voltada para questões estéticas, de linguagem e da própria produção audiovisual, até cineclubes na periferia, favela, associações de moradores. O cineclube está presente em todo o tecido social. Eu costumo dizer que a atividade cineclubista permeia a sociedade como um todo, alcança todas as camadas sociais e, logicamente, em cada contexto social, se dá de forma e com um objetivo diferente.

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Aproveitando a data comemorativa dos 80 anos de cineclubismo, o que ela representa para o movimento? Qual a conjuntura atual dos cineclubes?

Essa questão de data é uma muito cruel. As primeiras notícias que temos de cineclube no Brasil são anteriores a essa data. Mas resolveu-se que a data-chave para o movimento seria o nascimento do Chaplin Clube, em 1928, no Rio de Janeiro, quando um grupo de intelectuais se reunia para montar uma sessão de cinema mais voltada para a discussão da estética, da linguagem e da nascente indústria cinematográfica. De lá para cá, nesses 80 anos, o movimento cineclubista teve várias fases: estética, politizada, desarticulada. No começo dos anos 2000, com o Governo Lula, um companheiro cineclubista, Leopoldo Nunes, que hoje está na TV Brasil, vai para a Secretaria do Audiovisual. Diante do gargalo que ele encontra no cinema brasileiro, com o desmonte promovido pelo Governo Collor, por exemplo, ele resolve fazer alguma coisa em relação à distribuição e à exibição. A produção do cinema nacional volta com a Retomada, em meados da década de 1990, mas a ocupação das salas continua, predominantemente, sendo feita pelas “majors” e pelos filmes americanos. Leopoldo propõe a um grupo de antigos cineclubistas a reorganização do movimento. O cineclubismo volta nos anos 2000 com uma missão. Primeiro, democratizar o acesso, já que os números são pavorosos. Um dos nossos objetivos é fazer com que a produção do cinema brasileiro, basicamente paga pelo Estado e subsidiada com dinheiro público, chegue ao público. A idéia é promover cineclubes em todos os locais possíveis e imagináveis. Existe uma idéia, inclusive, de criar um grande circuito de pequenas salas digitais, com custo de manutenção bem menor. Junto com tudo isso, não podemos esquecer que a atividade audiovisual é uma questão de soberania nacional. É através dela que mantemos nossa identidade e garantimos a diversidade cultural.

Qual o papel do CNC no movimento cineclubista? E as políticas públicas atuais relacionadas ao cineclubismo?

Um dos papéis do Conselho, além de articular todos os cineclubes em uma rede para trocar idéias e montar circuitos, é lutar por políticas públicas de fomento e fortalecimento da atividade. Nesse sentido, nos dois primeiros anos de reorganização do Conselho, que começou em 2003 e teve o auge em 2005, nós focamos muito na questão da regulamentação. E conseguimos uma instrução normativa da Ancine (número 63) que define claramente o que é cineclube. Ao mesmo tempo, essa instrução normativa tem uma série de exigências de institucionalização, que sabemos que não é a realidade do movimento cineclubista. Existem tanto cineclubes profundamente organizados, com estatuto, CNPJ, como aqueles de periferia, no qual as pessoas envolvidas nem sabem o que é efetivamente um cineclube. O papel do CNC é servir, de certa forma, de guarda-chuva e pára-raios para que essas atividades, principalmente as mais iniciantes e mais frágeis, possam florescer e se desenvolver. Fora isso, temos lutado muito, junto a governos municipais, estaduais e ao Governo Federal, para que se criem programas de fomento específico. O que vem a ser isso? Basicamente que o Estado ofereça equipamentos digitais para que se montem salas para o uso desses grupos, além da questão de formação mesmo, de você pegar essa garotada e fazer oficinas. Um terceiro ponto é a garantia de conteúdo legal, ou seja, que os detentores da licença de exibição liberem seus produtos audiovisuais para os cineclubes. Nesse sentido, já conseguimos do Governo Federal a criação da Programadora Brasil. Em relação à formação, conseguimos a criação do Circuito Brasil, uma ação da Programadora Brasil, em convênio com o CNC, que faz oficinas de formação cineclubista em todas as regiões do País.

Quais são as maiores dificuldades efetivas de se montar um cineclube?

A maior dificuldade que existe hoje, teoricamente, seria de conteúdo para exibição, por conta dessa história que é proibido exibir sem autorização dos detentores dos direitos autorais. Nós temos participado muito do Fórum Nacional de Direitos Autorais e temos visto que todos os setores envolvidos nessa discussão são muito sensíveis aos pleitos dos cineclubes, já que nosso trabalho, queira ou não, é de formação de platéia. Mais do que isso, é de organização de platéia. Temos visto, principalmente dos produtores, realizadores e cineastas brasileiros, uma vontade imensa de liberar os filmes para serem exibidos. Fora isso, eu costumo dizer que fazer cineclube hoje, perto do que era nas décadas de 1970 e 1980, é uma maravilha e uma delícia. Os equipamentos digitais são leves, portáteis e o custo deles é barato. O difícil é convencer alguns grupos de que fazer cineclube não é só passar filme. É mais do que isso, é organizar o público para fazer valer seus direitos. O movimento cineclubista é a base dessa luta, já que, dentro da cadeia produtiva do cinema, nós representamos o público.

Além de exibir filmes, o cineclube funciona como um elemento de formação cultural e política e, para muitos, possui um caráter alternativo. Como se dá isso?

Todo mundo costuma dizer que cineclube é bacana porque forma platéia. É óbvio que forma platéia. Se você habitua a pessoa a ir ao cinema, você está formando futuros consumidores para produtos audiovisuais. Mais do que formar platéia, o movimento cineclubista tem por objetivo organizar essa platéia para exercer seus direitos culturais e exigir do poder público o acesso que lhe é devido aos meios culturais enquanto cidadão. É mostrar que o Estado deve garantir o acesso à cultura. Aí entra o caráter educativo do cineclube. Criar salas de cinema na periferia, colocar na grade curricular disciplinas de audiovisual e abrir a discussão para as possíveis soluções de um mesmo problema. Em cada lugar, essa solução é diversa, em virtude do contexto social onde o problema é encontrado. Em relação a um caráter alternativo, o que nos interessa é a discussão de um novo modelo de distribuição e exibição que inclua os 92% do público brasileiro que não freqüentam o cinema, inclusive dando outras opções aos 8% que têm esse hábito. Ou seja, um modelo alternativo de exibição que seja auto-sustentável, passando a diminuir o preço do ingresso e aumentando o número de espectadores. Estamos preocupados em discutir o modelo vigente falido e criar um outro, alternativo, que discuta o papel das televisões educativas, da internet etc. O movimento cineclubista está pensando em uma alternativa para uma distribuição e exibição que respeite o direito do público de ter acesso à produção audiovisual, em especial a brasileira e as de curta e média-metragem, que não têm escoamento no circuito e ninguém vê.

Quem são as pessoas envolvidas nos cineclubes?

É um universo muito diverso. Tem muito estudante, óbvio. Mas tem também dezenas de atividades de cineclube relacionadas à terceira idade, formada por aquele pessoal que freqüentava as salas de cinema no passado e que, agora, está retomando o gosto e organizando cineclubes. Existe clube de mãe, sindicalistas, muitos curtas-metragistas, documentaristas. E gente que apenas gosta de cinema e se reúne para discutir e debater a arte. Gente de todas as idades. Muitos dos grandes cineastas brasileiros nasceram em cineclubes. Enfim, todo mundo que gosta de cinema e entende que o audiovisual é uma coisa importante tem um pé no cineclubismo.

Ainda existe espaço, hoje em dia, para um conceito romântico da atividade cineclubista?

Atualmente, a atividade cineclubista é romântica e cibernética. As novas tecnologias facilitaram o acesso. Esse é o barato: pegar esse acesso facilitado e transformá-lo em uma energia que seja romântica o suficiente para lembrar que, apesar de o acesso estar facilitado, a luta não está ganha. Existe muito ainda para ser lutado ainda.

FÁBIO FREIRE
Repórter

Foto: JOSÉ LEOMAR

Fonte url: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=586089

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