manifesto cineclubista

por Renato Cunha

Prelúdio kinofágico. Os cineclubes devem andar, com pés tarsilescos, na contramão do industrialismo cinematográfico, valendo-se oswaldianamente dos cartéis que controlam a produção, distribuição e exibição de filmes no planeta.

História pra boi acordar. Em 1912, o futurista italiano Ricciotto Canudo, radicado em Paris, tratou o cinema de sétima arte. O sistema nervoso cinematográfico estava a se formar. Em 1920, juntamente com Louis Delluc, fundou o Club des Amis du Septième Art. Sem dúvida, um marco. Mas se tem notícia de que, em 1917, no Rio de Janeiro, um grupo de amigos, entre eles Adhemar Gonzaga, promovia debates após sessões nos cines Íris e Pátria. Era o Cineclube Paredão, uma alusão ao muro de pedra que separava a baía de Guanabara da avenida Beira-Mar, local onde as discussões se prolongavam. Em 1928, também no Rio, nasceria o Chaplin Club, o primeiro cineclube brasileiro com registro oficial. Vê-se que o Brasil tem tradição.

História pra boi acordar II. O regime militar nunca viu com bons olhos o cineclubismo. Era prática subversiva: questionava a produção comercial e desanuviava o espectador. A mesma mão que bate é a que afaga. Em 1968, às portas do AI-5, foi promulgada lei que estabelecia o cineclube como entidade cultural. Ironia nada machadiana: o mesmo texto dispunha sobre a censura em obras teatrais e cinematográficas. No ano seguinte, viria a Embrafilme.

Em nome do pai, do filho e do espírito da arte. Os três mandamentos cineclubistas: 1) não cobiçar o dinheiro do próximo; 2) ser democrático sobre todas as coisas; 3) honrar o compromisso sociocultural.

Cavalos-vapor. Os cineclubes sabem que os filmes podem ir além da função de entreter. São um meio cultural. Informam, conscientizam e buscam avivar a participação popular, com a idéia de que, em relação à produção cinematográfica e artística, o público seja propulsor, e não mero contemplador.

Lex mater. Sessão pública gratuita de cinema seguida de debate.

Cinema de rua. A filosofia multiplex, com alicerce na estética shopping center, aperta cada vez mais o nó da distribuição, impingindo aos exibidores pacotes e pacotes de subprodutos, atrelados ao filme de grife da estação. A comercialização do sagrado e do profano deu sua parcela para o cinema de rua se tornar espécie em extinção. Os espaços culturais são o último sopro. A programação reduzida criteriosa e a mostra temática tendem a fugir desse controle, além de motivar o cineclubismo.

Bilheteria camelô. Taxação de ingresso em 1 real. Filme é 1 real… Filme é 1 real…

Liberdade, ainda que à tardinha. É um despropósito que o DVD alugado em videolocadoras necessite de licença para ser exibido gratuitamente em locais públicos. Precedente sinistro: em 2007, um cineclube universitário brasileiro foi condenado em primeira instância a pagar indenização à empresa distribuidora.

Teleclube tropical. É dever estatal criar mecanismos que levem os filmes nacionais de todo suporte, metragem e época à TV aberta. Devido à pasteurização cinematográfica que a indústria estadunidense impõe, a formação do público de cinema brasileiro precisa ser catalisada, não podendo prescindir do meio televisivo. Sigamos o exemplo dos gauleses.

Catástase. É ululante que o cineclubismo só existe porque o cinema existe. Sem ilusão, o cinema digital não é a maravilha democrática que se anda pregando. O mercado que controla o cinema em película é o mesmo que controla o cinema digital. A dificuldade em se realizar filmes com equipamentos digitais de ponta é equivalente à dificuldade em se realizar filmes com equipamentos tradicionais. Sim, câmeras digitais de fácil manuseio, ágeis, estão em oferta e qualquer um pode se valer delas. É salutar que a expressão seja livre e que, de norte a sul, se façam filmes os mais variados, buscando-se formas alternativas de veiculação. Eis a possível democratização. Atenção para o pseudodigitalismo, que pode minar a arte cinematográfica, ao confundir atividade profissional com antidemocracia. Quem reza na cartilha antidemocrática é o mercado. E que fique claro: cinema independente e profissionalismo não se antagonizam.


Cine Íris (rua da Carioca, RJ)

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