o movimento cineclubista brasileiro

Um breve histórico do movimento cineclubista brasileiro, feito por Hermano Figueiredo, a partir da década de 1960, falando da organização do movimento naquela época, passando pela criação dos cineclubes em 35mm, a atuação nas periferias, até o período de quase desaparecimento dos cineclubes, apontando para o surgimento de novas iniciativas.

o movimento cineclubista brasileiro

Hermano Figueiredo
Sáb 03 de Jul, 2004 07:54

O movimento cineclubista teve época áurea, o período compreendido entre o final dos anos 60 até a primeira metade da década de 80. Mais do que realizar exibições e discussões sobre filmes, as agremiações tornaram-se centros de debates sobre a conjuntura social política e estética brasileira.

Organizados em federações estaduais e regionais, reunidos em torno do CNC (Conselho Nacional de Cineclubes), se constituíram num dos importantes movimentos de oposição à ditadura militar, tendo na sua composição vários matizes ideológicos onde se faziam representar quase todas as tendências do pensamento político da esquerda brasileira.

Exibiam filmes que estavam à margem do circuito comercial, alguns até censurados. Foram assim, canais privilegiados para exibição do cinema brasileiro, principalmente o de produção independente.

Havia a defesa de bandeiras como a liberdade de imprensa, o fim da censura e a restauração da democracia no pais. Todos estes temas eram inclusive os objetos de discussão nas tradicionais jornadas de cineclubes que chegavam a reunir mais de 200 participantes de várias partes do país.

Tinha cineclubes de todo tipo: alguns maiores, mais antigos e mais organizados surgidos em universidades, sindicatos. Alguns que chegaram a exibição diária em 35mm como o Cine Bexiga e o Cine Oscarito em São Paulo. Mas havia os cineblubes com quadro de sócios reduzido e sem apoio institucional, alguns tinham que tomar emprestado ou alugar projetor. Havia também um certo número oscilante de cineclubes de duração efêmera que não passavam da primeira jornada mas cuja contribuição não deve ser desprezada.

Além da difusão do cinema brasileiro, outro papel importante do cineclubismo foi o de gerar, entre seus próprios quadros ou à partir do seu trabalho, vários realizadores que contribuíram com a renovação do cinema brasileiro.

Com a abertura política no país, o movimento cineclubista foi tomando outros caminhos. Não quero aqui discorrer sobre a complexidade dos fatores que causaram o refluxo desse movimento. Alguns falam da pouca renovação dos quadros e migração dos mesmos para outras áreas principalmente aqueles embasados no movimento estudantil e sindical.

Após a reorganização da sociedade civil com o fim da ditadura militar, estávamos na década de 80, exatamente o momento de aparecimento e disseminação dos videocassetes, computadores de uso pessoal e variadas tecnologias, o que aliado a fatores como a violência urbana, geraram uma maior introspecção de pessoas de alguns extratos da sociedade, dislumbradas com a possibilidade de consumir obras audiovisuais sem ter que sair de casa.

Mas o fato é que, além do testemunho histórico restaram algumas experiências ou algumas resistências. Nem todos os quadros cineclubistas migraram para outras áreas. Alguns se profissionalizaram e até se tornaram muito bem sucedidos. No apagar das luzes do CNC, duas vertentes despontavam no que poderia ser a renovação do movimento.

No caso dos cineclubes “Estação Botafogo” – Rio de Janeiro; e “Elétrico Cineclube” – São Paulo e Barão de Campinas – Interior de São Paulo, tiveram contatos institucionais, projetos arrojados e produções competentes que possibilitaram a montagem de salas bem estruturadas.

Dessas experiências, sei que o Estação Botafogo cresceu e diversificou seu raio de ação, sendo até distribuidor de filmes. Já o Cine Elétrico não teve o mesmo sucesso, malogrando pouco tempo depois e do Barão de Campinas não tenho notícias.

A outra vertente é representada pelos cineclubes que se lançaram às periferias das capitais ou cidades de interior, numa ação de democratização do acesso ao cinema para maiores parcelas da população, como foi o caso de alguns cineclubes da Federação do Rio de Janeiro e da Bahia, bem como o Cineclube Tirol de Natal/RN.

Um dos mais tradicionais cineclubes do movimento, o Tirol, abalado pelo racha causado pelo deslocamento do eixo tradicional de sua atuação junto a classe média para as exibições ao ar livre nos bairros periféricos incluindo a participação de pessoas desse extrato social no seu quadro e na própria diretoria.

Esses cineclubes também não se sustentaram deixando de existir, nem bem começava a década de noventa. E como último Presidente do Cineclube Tirol, comecei um trabalho político e performático, elaborando e executando projetos como o “Imagens Brasileiras” em Natal e o Projeto “Acenda uma vela” de exibição de filmes em comunidades litorâneas do Ceará, usando como tela, as velas de jangadas.

Estas ações foram só o começo, pois sigo até hoje exibindo filmes ministrando oficinas em vários Estados do Nordeste e realizando curtas metragens que têm obviamente exibição garantida nesses projetos

Hoje o principal projeto é o OLHAR E VER, iniciativa da Ideário Comunicação em parceria com a Universidade Federal de Alagoas e o Sesc-AL, conservando a prática cineclubista do debate e de exposições com abordagem analítica dos filmes e ainda a participação do público que interage de varias formas, inclusive sugerindo filmes.

Com o passar dos anos, foram surgindo outras experiências alternativas de exibições cinematográficas e videográficas. Podemos citar o “Cinema voador” de Da Mata em Brasília; o Lula Gonzaga, em Olinda, realiza desde abril de 2001, através da Prefeitura Municipal, o projeto “Cinema na praça”, mesclando a exibição em 16mm com VHS e DVD, levando para as praças da periferia da cidade uma multidão de 500 espectadores em média. Projeto similar é o “Cinema de rua”, desenvolvido pela Prefeitura de Piracicaba–SP e o Cinema Itinerante da Universidade de Ouro Preto, através da sua Pró-reitoria de Extensão.

Amaury Tangará um realizador de Mato Grosso que adquiriu um projetor de 35mm e saiu exibindo seu filme: “Pobre é quem não tem jipe” e outros em programações ao ar livre. Ainda podemos citar o projeto “Roda Cine” do Rio Grande do Sul que também leva o cinema para as cidades do interior que não dispõem de salas exibidoras numa atividade interativa com a população que participa da preparação do evento.

Essas iniciativas, mais que formar platéias para o cinema brasileiro tentam corrigir, em parte, uma distorção: qual seja, o fato de se gastar tanto dinheiro público, via renúncia fiscal, com a produção cinematográfica quando uma grande parcela da população não tem qualquer chance de acesso ao produto resultante. Haja visto que podemos contar nos dedos as cidades do interior que têm cinema, somando-se a isto as legiões de excluídos das capitais que não podem pagar ingressos.

São na verdade os contribuintes anônimos, os maiores financiadores do cinema brasileiro. Nada mais justo que a política da área do audiovisual fomente e ofereça apoio às iniciativas de democratização do acesso à produção cinematográfica brasileira.

Embora não tenha o caráter de movimento, registrarmos o aparecimento de cineclubes como o “Barravento” da Universidade Federal de Pernambuco que tem mantido programações regulares nos últimos dois anos e o “Revezes” da Universidade Católica de Pernambuco.

No Mato Grosso, o tradicional Cineclube Coxiponés (nossos companheiros dos tempos de CNC) que à partir do começo da década de noventa abandonou a prática da exibição devido às dificuldades de acervo na bitola 16mm e passaram a trabalhar no fomento à produção de curtas e realização de Festivais, hoje divulgam pela internet programações de mostra de curtas.

Temos notícias também de cineclubes em outras universidades como a USP por exemplo e acreditamos que outros cineclubes do gênero possam estar em atividade por isso estaremos nas próximas semanas pesquisando sobre o assunto, com o intento de formar um diagnóstico deste movimento.

Quem tiver mais informações neste sentido, fale conosco!

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