por um CNC modelo 2004, cavado, godê

CREC / Centro Rio Clarense de Estudos Cinematográficos

Nós Somos o Público!

Texto de Felipe Macedo, publicado em seu site Cineclube, enviado para a Pré-Jornada de Rio Claro, em abril de 2004 (que contou com cerca de 120 cineclubistas de 10 estados brasileiros), com suas reflexões para os debates aos quais não poderia estar presente, morando no Canadá e sem lhe ter sido enviada passagem. O título do artigo é uma homenagem e corruptela do manifesto dos homossexuais presentes à Jornada de Campo Grande, em 1981.

Por um CNC modelo 2004, cavado, godê

Felipe Macedo
Qui 01 de Jul, 2004 21:36

A Jornada de cineclubes realizada em Brasília em novembro de 2003 entrará para a história do movimento cineclubista como o ponto de partida da sua retomada no século 21. Ela conseguiu reunir gente de várias partes do País, juntar antigos cineclubistas e atrair uma amostra importante do que existe de exibição alternativa em diversos Estados. Na Jornada consolidou-se um entusiasmo – que meses antes já havia tomado alguns dos organizadores – pelas oportunidades e desafios que se abrem neste momento para os cineclubes brasileiros.

Mas a Jornada teve muito de uma ocasião perdida, também. Politicamente mal organizada, ela não possibilitou uma verdadeira e ampla participação nos trabalhos: o programa só foi distribuído na abertura; as mesas que discutiram diferentes temas, sem preparação, não permitiram a participação do plenário; os grupos de trabalho organizados de afogadilho não puderam aprofundar nenhuma discussão, entre outros problemas. Dois “mestres de cerimônia”, eficientes mas paternalistas, dirigiram – e dirigir é realmente o termo – grande parte das plenárias, freqüentemente passando por cima da própria mesa eleita que devia presidir a assembléia. O aspecto cerimonial, encomiástico, superou de longe a participação, o trabalho e os resultados concretos. De fato, esta Pré-Jornada de Rio Claro foi decidida em parte para sanar a ausência de propostas e de discussão da Jornada de 2003, e para assegurar uma participação mais uniforme de entidades e pessoas, trazendo muitas ausências importantes que também marcaram aquele evento.

O próprio documento final, muito positivo por sinal, daquele Encontro, só foi distribuído meses depois para os cineclubes, sabe-se lá com que eficácia, e com pouca ou nenhuma divulgação na imprensa ou em outros meios. Os documentos com as conclusões dos grupos de trabalho, que eu saiba (e eu me considero um participante muito interessado), foram esquecidos, nunca chegaram a circular. E nenhuma avaliação da Jornada foi produzida, pelo menos publicamente – crítica que se estende a todos que estiveram presentes na Jornada e que pouco ou nada têm debatido ou proposto, pelo menos publicamente, através da lista de discussões da Pré-Jornada.

Cineclube e democracia

De fato, o período entre estes dois importantes encontros não foi muito bem aproveitado para fornecer mais elementos para os cineclubes terem uma participação mais informada, mais incisiva, nas decisões que deverão afetá-los. A Comissão de Reestruturação comunicou-se muito pouco e assistematicamente com os cineclubes. Começou a se reunir meio tardiamente, meses depois da Jornada, e divulgou apenas um relatório importante, em março — em que prometia passar mais informações na sua reunião seguinte, mas não o fez. Com isso, coisas fundamentais – principalmente um Plano Nacional de Cineclubismo (ver mais adiante) – não foram discutidas amplamente, não contaram com a contribuição e crítica da maioria dos interessados e até poderão vir a ser aprovadas numa reunião – a Pré-Jornada – que, ainda que eventualmente reúna muita gente, não é (e nem seria o caso) representativa e tem como atribuição, tirada na Jornada anterior, apenas de preparar a Jornada, o congresso deliberativo por excelência dos cineclubes.

A Pré-Jornada é uma excelente oportunidade para reunir cineclubistas, e estes com representantes de outros segmentos que foram convidados – e aqui só cabem elogios à Comissão e à Organização, que conseguiram criar um clima de emulação, além das condições de hospedagem, etc, o que não é pouca coisa. Neste momento de “renascimento” do cineclubismo, mais ainda, é importante que a Pré-Jornada seja um grande evento, festivo, estimulante. Ela é um instrumento para propiciar uma maior aproximação com o processo de preparação da Jornada, uma caixa de ressonância para idéias, sugestões, troca de experiências. Mas não se pode esquecer que ela é essencialmente uma reunião ampliada da Comissão de Reestruturação, cujos integrantes serão os únicos com direito a voto. Como diz o Relatório da Comissão: “A Comissão tem clareza de que a Jornada Nacional será o momento adequado para deliberar questões desta natureza e entende que, até lá, é necessário um amplo, sério e consubstanciado debate em todos os níveis e com participação de todos os cineclubistas, sem xenofobia e sem sectarismos ou exclusões.”

Relação com o Estado

Sem nunca poder depender inteiramente do Estado, que no Brasil muda com os governos, o cineclubismo também jamais se desenvolve em toda a sua potencialidade sem o apoio das instituições públicas, únicas que podem e têm como obrigação fomentar algumas iniciativas de caráter exclusivamente social e cultural. Os cineclubes sempre tiveram relações com o Estado. Em alguns momentos – como no auge da Ditadura – elas foram bem desagradáveis. Mas até mesmo durante parte do regime militar nós fomos capazes de explorar contradições e obter recursos para algumas de nossas atividades. E isso sempre foi mais fácil e produtivo com governos democráticos.

O governo atual, que carrega como nunca antes as esperanças do povo brasileiro e tem suas raízes plantadas fundo nas camadas populares, traz também para o cineclubismo expectativas e oportunidades inéditas de realização. Pela primeira vez partiu em grande parte do próprio Estado – sem esquecer a mais que fundamental mobilização de grupos como o Centro Cineclubista de São Paulo, ou o CECIBRA de Brasília e de outros companheiros – a iniciativa de estimular um renascimento dos cineclubes. Isso é ótimo, é maravilhoso, mas tem suas complicações. A existência de recursos a distribuir – ao invés de recursos a reivindicar, como seria o normal – principalmente diante de um movimento não organizado, sem representatividades definidas, em que faltam critérios transparentes e democráticos de participação, pode dar origem a iniciativas apressadas, mal planejadas, inadequadas e com poucos resultados. E uma verba mal aplicada pode comprometer não apenas aquilo em que foi utilizada, mas até o processo de reorganização do movimento ou seu relacionamento posterior com o Governo e com o Estado.

A única forma de superar essas falhas é – como estamos fazendo, mas menos bem do que deveríamos – organizar o movimento, reunir realmente todos os cineclubes (ou pelo menos uma maioria muito significativa que a isso se disponha) que estão atuando, criar canais de consulta, de participação e de controle sobre as instituições que nos representarão na negociação e gestão desses recursos.

Se é interessante e saudável manter espaço para que todo tipo de interessado possa se expressar nos encontros e outros eventos do movimento cineclubista, é igualmente indispensável criar canais de deliberação que representem efetivamente os cineclubes reais, atuantes, e não qualquer um que apareça – por mais prestigioso que possa ser. Em outras palavras: o processo que estamos vivendo, a caminho da Jornada que dará forma a nossas decisões, deve ser conduzido por cineclubes comprovadamente em atividade, não por personalidades, ex-cineclubistas, especialistas, ou por cineclubes que serão criados nos próximos dias. Esses, como eu, devem ter o mais amplo direito à palavra, mas não ao voto.

Cada cineclube um voto. Voto só para cineclube.

Organização

É claro que essas colocações, ainda que reflitam uma experiência de 80 anos de cineclubismo em todo o Mundo, podem ser contestadas. Uma proposta de Estatutos, que inadvertida e envergonhadamente foi distribuída através da lista de discussões da Pré-Jornada, procura justamente “superar” essa visão de cineclubismo, propondo uma nova forma de organização, de inspiração claramente neoliberal, em que um “cineclube” seria formado por sócios absolutamente desiguais: pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras (Art. 8 da Minuta de Estatutos do “Cineclube Brasil”), tudo junto, e onde os sócios fundadores concentrariam o essencial do poder de decisão de forma permanente (arts. 9, 23, 28, entre outros).

Um dos responsáveis por esse belo instrumento político disse que se tratava apenas de uma proposta de estatuto em estudos, para ser proposta aos novos cineclubes, dentro dessa realidade totalmente nova em que vivemos. Apesar do “modelinho” para principiantes ter 16 páginas e 65 artigos (compare com o “Estatuto Modelo” que a Federação Paulista costumava distribuir.

Mas imagine que em vez de aplicar esses princípios para um cineclube eles fossem usados para representar os cineclubes, no lugar das “antigas” formas de federações ou do próprio Conselho Nacional de Cineclubes. Muito bem escritinho, reproduzindo todos os requisitos da legislação sobre entidades de interesse público, o “modelinho” ia funcionar muito bem junto a fontes de patrocínio – afinal fala a linguagem deles – com o único defeito de matar a democracia que antes costumava-se valorizar. Sem esquecer o fato de que os sócios fundadores controlariam a entidade (será que você seria um dos eleitos? – aqui no sentido divino da palavra), ela reuniria uma plenária em que, por exemplo, teriam o mesmo voto um simpático e influente artista da televisão, a prima do governador, a companhia telefônica do seu Estado (ou várias do País), uma distribuidora de filmes de Hollywood querendo colaborar, um cardeal talvez, e o seu cineclube! A não ser, claro, que os sócios fundadores vetassem alguém dessa lista…

Cada cineclube um voto. Voto só para cineclube.

Power to the people!

É evidente que vários aspectos dos Estatutos tanto do CNC como das federações estão desatualizados, precisam ser revistos, modificados, artigos têm que ser suprimidos, outros acrescentados. Mas, como apontou o relatório da Comissão de Reestruturação, deve-se partir, “tomar como base os Estatutos do CNC em vigor, para dar seqüência às discussões das formas possíveis de reestruturação das diferentes instâncias representativas do movimento.”

E se o ritmo adequado para a reorganização do movimento cineclubista em nível nacional está bem estabelecido, com a Jornada convocada para o final deste ano e uma possível reestruturação do Conselho Nacional de Cineclubes ou uma entidade semelhante, o mesmo não é verdade para as regiões, para os Estados. A retomada das federações estaduais e/ou regionais é uma necessidade bem atual, e por vários motivos:

• Aproxima cineclubes que partilham vários aspectos de uma mesma realidade regional;

• Facilita e permite reuniões mais freqüentes, com maior troca de experiências e possibilidade de criação de instrumentos comuns de trabalho;

• Cria um interlocutor ao nível da região, podendo demandar e negociar direitos, legislação, imóveis, apoios, patrocínios, junto à autoridades, empresas e outras instituições regionais e locais;

• Dá mais peso à participação regional dentro do movimento nacional, estimula a democracia nos dois sentidos, permitindo um melhor diagnóstico das necessidades regionais e uma maior participação no controle e gestão de recursos alocados;

Faça sua federação antes que façam sua cama.

Plano Nacional de Cineclubismo

Dizia o relatório da Comissão, no começo de março: “Foi apresentado a proposta do projeto que foi amplamente debatido e encaminhado para discussões mais amplas e contribuições, que deverão ser canalizados através dos membros da comissão nacional…. “. O sublinhado é meu. Claro que não houve nenhuma discussão ampla.

Não creio que ninguém vá alterar a força irresistível do interesse direto de algumas pessoas nesse projeto, da disposição do Governo de implementar algo com os cineclubes e até mesmo da nossa sempre premente necessidade de recursos. Mas que podia haver mais compostura, isso podia. Por que não discutir esse projeto abertamente, através das listas de discussão, recolhendo sugestões, informações? “Após isto, o projeto será apresentado na Pré-jornada e encaminhado à SAV/MINC para negociação de sua viabilização”. Vapt-vupt. Por que não fazer um levantamento mais cuidadoso – mesmo que idéia não existisse desde antes de novembro, tivemos agora mais 5 meses para preparar qualquer coisa que viesse a ser apresentada à Pré-Jornada (pesquise “cineclube” na Internet: o Google dá 13.000 ocorrências; o Yahoo dá mais de 21.000; mesmo dividindo por dez, vinte, você vai ver que tem muito cineclube ou coisa parecida que não faz parte dessa mobilização que estamos vivendo)?

“A proposta contemplará basicamente os seguintes eixos:

– Cursos/oficinas sobre cineclubismo, cinema, uso e conservação de equipamentos e películas/fitas, distribuição e exibição.

– Consolidação ou criação de até 50 cineclubes em todo o país com aporte de projetor de vídeo/ dvd/ 16mm, sistema de som, telão, câmera de vídeo e fitas virgens e um mix de comunicação (banner, cartazes, camisetas, folders,etc)

– Acervo de fitas, privilegiando o cinema nacional de curta e longa-metragem.”

Eu não sei quanto dessa proposta está adequado às necessidades e realidades do País hoje. Mas tenho um sério receio de que ela seja um pouco simples demais, uma mera extensão de uma experiência e de uma visão muito particulares – de resto muito louváveis, a questão não é essa – mais um projeto, e não um Plano Nacional de Cineclubismo. Em 1988, como diretor do CNC, pude participar da elaboração de um “Plano Nacional de Cineclubismo” (cuja cópia ainda tenho) que continha algumas das atividades previstas nesse resumo divulgado pela Comissão. Mas, além de bem mais amplo (do que nos é dado ver nesse resumo), aquele “Plano” era parte também da proposta de uma “Política Nacional de Cineclubismo”, que considerava fundamentalmente nossa inserção na problemática do País e do Cinema Brasileiro. E isso mudou muito.

Há várias iniciativas e projetos, de vários setores, tratando da questão fundamental do acesso ao cinema no Brasil. Questão essa que passa pelo problema de mercado para o cinema brasileiro, pelo fortalecimento das formas de cinema não convencional, pelas carências educacionais e culturais do nosso povo. Nós tínhamos que fazer o levantamento dessas propostas, conhecê-las, combater as que são nocivas mas principalmente fortalecer, compor com as saudáveis. É importante criar um cineclube numa cidade de razoável tamanho que não tem cinema, ou é melhor criar incentivos para um pequeno empresário? Um cineclube não pode surgir – fazer parte do projeto, eventualmente – dentro desse cinema, como tantas cidades do interior sempre fizeram? Pode-se compor de alguma maneira, aproveitar para a perspectiva de uma atividade permanente, os inúmeros e diferentes projetos de “cinema na praça”, que parecem ter inundado o País? Que critérios serão estabelecidos – e por quem – para apontar regiões onde esses recursos serão aplicados? Que cineclubes têm prioridade para ser consolidados? Por que 50 (esse era o número proposto anualmente pelo CNC em 1988) e não uma linha de financiamento, um fundo de fomento aberto a projetos culturais, sem discriminação de bitolas ou sistemas (porque ali alguns foram esquecidos, como o 35mm, por exemplo). Para que pedir camiseta ao governo federal? Por que não fazer um amplo levantamento e discussão, com os cineclubes e com a sociedade, deixando para a Jornada a deliberação não apenas de um projeto para criar cineclubes, mas de uma verdadeira Política, inclusive apoiada em disposições institucionais permanentes, sustentada pelo Congresso nacional, ancorada no Estado e não apenas no governo?

Enfim, as perguntas são muitas e as respostas não são fáceis. Acho que demanda tempo, reflexão, seriedade. Eu não conseguiria chegar em Rio Claro, sem nenhuma informação anterior, e decidir, aprovar, delegar a outros a realização de um Plano Nacional de Cineclubismo. Nesses seis meses que nos separam da Jornada, vista a excelente disposição do governo, o que impede que as questões mais prementes, os projetos mais urgentes, sejam encaminhados pelos próprios cineclubes ou por entidades regionais que venham a surgir?

Amigos, essas são algumas reflexões que eu penso caberem dentro dos debates que se darão durante a Pré-Jornada. Nada do que aqui foi dito tem conotação pessoal. Tratar de pessoal uma discussão política é uma forma de tentar desqualificar o debate, uma maneira de ficar em cima do muro, fingindo que o assunto não é de interesse geral; é esconder mofinamente o posicionamento que todos certamente têm. Só que é impossível atacar idéias sem irritar quem as defende… Para mim é até uma forma de respeito cobrar duro dos companheiros que como eu, estão lutando pelo cineclubismo que consideram melhor para todos. Há outros, que eu nem considero.

Uma tremenda, produtiva, divertida, gloriosa Pré-Jornada para todos!

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