Sobre o Processo da Rearticulação, por Diogo Gomes dos Santos

Este texto foi escrito para oferecer uma outra versão sobre o processo de Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro, que de um certo modo, se acostumou a trilhar caminho de mão única. Desnecessário, mas torna-se importante reafirma que sua contribuição não excluir outras contribuições, sempre bem-vindas.

Sobre o Processo da Rearticulação

Parto do princípio que memória é um direito de cidadania. Bom realçar que nesta seara, não se espera ou clame parcialidade. Sem ingenuidade, confiro à palavra a intenção que julgo procedente, afinal, a memória é aquilo que dizemos ser, daquilo que gostaríamos de ter sido. Pela natureza da categoria, a história reserva aos “canalhas”, lugar privilegiado.

Antes de entrar no tema da REARTICULÇÃO de 2003, permitam-me antes, duas rápidas “digressões”, um pitaco e uma informação, necessários para uma melhor compreensão do que adiante se seguirá. O uso da primeira pessoa é para melhor contribuir com o propósito do debate via internet. Apesar de longo, o texto é curto se comparado a outros temas semelhantes já abordados aqui, sem falar na urgência deste registro.

Primeira digressão.
Quando em 1968, por força da edição do Ato Institucional nº 5, o AI-5, pela Ditadura Militar, o Movimento Cineclubista Brasileiro foi desmantelado. Com o processo de reorganização em andamento, o primeiro passo foi tirar da morbidez a entidade nacional, o então Conselho Nacional de Cineclubes – CNC. Isso aconteceu no mês de junho (citação de memória) de 1973, na cidade de Marília, no interior de São Paulo, durante a entrega do prêmio “Curumim”, evento anual e tradicional do Clube de Cinema de Marília, que anualmente outorgava, ao melhor filme brasileiro exibido comercialmente na cidade.

Com a entidade reorganizada, realiza de 02 a 05 de fevereiro de 1974, no Teatro Paiol de Curitiba, a 8ª Jornada Nacional de Cineclubes, reorganizando em momento histórico, o Movimento Cineclubista Brasileiro. O que se seguiu daí por diante, foi um Movimento que se incorporou às lutas da sociedade civil; pelo retorno do país ao Estado democrático. Naquele momento histórico, seria difícil agir de outro modo, se não o de reorganizar o movimento de cima para baixo. Espero que entendam e que falo “grosso modo”, sem generalizar.

Segunda digressão:
Em função de divergências internas no seio da “Avançar”¹, grupo hegemônico no movimento até então, do qual era integrante, fui eleito numa chapa de dissidente, presidente do CNC, para o biênio 1984/86. Nosso grupo, depois se organizou em uma frente, não ortodoxa, assumiu uma denominação que inicialmente tinha um viés pejorativo e com forte dose de preconceito racial e de classe social. Assumimos a pecha e agregamos valor cultural. Ainda hoje somos identificados como “Os Feios, Sujos e Malvados”².

No pleito seguinte fizemos o sucessor, elegendo o Gil de Almeida para o biênio 1986/88. No meio do caminho rompemos com o Gil, que demonstrava pouca habilidade para o exercício da democracia dentro do movimento, com ações que não respeitavam os Estatutos do CNC. Com este ponto em comum, chamamos a oposição e nos juntamos numa frente ampla com o propósito de derrubar aquele presidente. Isso aconteceu na 21ª Jornada em Curitiba/1987. Para a eleição de uma nova diretoria, a “Avançar” não quis compor uma chapa de unidade, e foi para o enfrentamento. Avaliamos que seria melhor abrir caminho para quem se propusesse, naquelas condições, assumir a direção do movimento. A Chapa, encabeçada por Antônio Claudino de Jesus, tomou posse com menos de 1/3 (um terço) dos votos válidos. Com o movimento em frangalhos, realizou-se a 23ª Jornada Nacional em Campinas/1988 e mesmo esvaziada, elege Fernando José da Silva (Fernando Kaxassa), presidente do CNC, que recebeu “a chave” já com as luzes apagadas.

Seria muita miopia – ou sacanagem mesmo, imputar só à direção do movimento da época, o ônus pela bancarrota do Movimento Cineclubista Brasileiro; ou ainda, só considerar as questões de âmbito cineclubista, ou as questões do Cinema Brasileiro. Sem levar em consideração o Brasil collorido de então; a queda do Muro de Berlim; o fim do Pacto de Varsóvia; o fim da União Soviética e com o capitalismo proclamando o fim da história… Convenhamos, este é assunto para outra ocasião. Fica o registro para contrapor-se à versão, já exposta, por Felipe Macedo: “chapa de um homem só ganha eleição do CNC por um voto” (citação de memória), e posteriormente ser apontado como o culpado pelo fim do Movimento. Se bem que num último texto do mesmo autor (Cineclubismo em Crise), ele relativiza a questão.

Um pitaco:
Quando fui lembrado para participar do “Encontro de Cineclubistas em Brasília”, visando discutir a reorganização do Movimento, foi como militante cineclubista e não como membro de partido político. Os meus serviços prestados à história do Movimento, o meu passado, conferiam-me relevância política e cultural, daí o chamado a participar no presente! No ensejo deste, deixo registrado que: faltam com a verdade todo aquele que insinua ou afirma que atuei ou atuo em nome de partido político dentro do Movimento!

Uma informação:
As Jornadas e Pré-Jornadas anteriores a 16ª Jornada Nacional/1982, eu as fotografei de forma espontânea, depois disso venho registrando de forma mais sistemática em filme, vídeo e fotografia, todas as Jornadas e encontros que participei. Imagino que tenho o maior acervo particular de imagens e fotos do cineclubismo brasileiro. Documentos… Talvez.

Recomeçar? Voltemos ao ponto:
O processo que chamo de Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro, consagrado em 2003, com a realização da 24ª Jornada Nacional de Cineclubes, ocorreu no âmbito da 36ª Edição do Festival de Cinema de Brasília do cinema Brasileiro.

No último ano do século 20, Marta Suplicy assumiu a prefeitura de São Paulo, tendo como Secretário de Cultura o Sr. Marco Aurélio Garcia. Sua proposta para o cinema no município incluía, entre outras ações, a implantação de uma política cineclubista, como forma de alavancar o setor, do marasmo que se encontrava. Marco Aurélio vem da UNICAMP, em Campinas, onde conviveu com um forte movimento cineclubista local. Na cidade de São Paulo, estava maravilhado com o Cineclube Ipiranga, que projetava em 16 mm, sob o comando de Archimedes Lombardi e a turma do “Bangue-Bangue³” que funcionava na biblioteca municipal do mesmo nome. A outra ação do então Secretário seria a criação da Sampa Filmes, nos moldes da Rio Filme, visando dar acesso à tela, ao filme brasileiro. Esta iniciativa foi implodida por seus assessores, apoiado por boa parte da classe cinematográfica paulista…

Nesse ano trabalhava no Departamento de Cultura da prefeitura de Diadema, onde exercia o cargo de Assessor de Fotografia, Cinema e Vídeo. Havia criado o Núcleo de Estudos, Produção e Difusão de Cinema e Vídeo “Com-Olhar”, cujo trabalho inaugural foi o vídeo “Cinema Dilacerado” de Joseane Alfer, que discutia a ausência de cinemas em cidades do interior, tendo Diadema como palco da ação.

Essas outras me incentivaram a reunir com “velhos amigos cineclubistas”, para discutir um projeto de difusão de cinema e vídeo a partir daquelas intenções, digamos assim, do Secretário de Cultura do município de São Paulo, mas algo que incluísse também cidades da grande metrópole. Da primeira reunião que aconteceu em minha casa, participaram: Joseane Alfer e Cacá Mendes. A partir da segunda reunião todos os encontros aconteceriam no Centro Cultural São Paulo… O projeto chamou “Cine Móvel” e ficara emperrado na Secretaria de Cultura, apesar do apoio do então diretor do Centro Cultural São Paulo, seu principal assessor para a área, Carlos Augusto Calil (atual Secretário de Cultura da cidade São Paulo).

Naqueles encontros chegamos a reunir representantes de 13 cidades da Grande São Paulo… Àquela altura, por volta de 2001, João Marcelino Subires (que já havia me visitado em São José dos Campos em 1997, preocupado com a “hibernação dos cineclubes”, também puxava conosco aquelas reuniões, representando Carapicuíba… João Subires consegue levar o Roberto Ramos, de São Lourenço da Serra, único participante daquelas reuniões que representava e falava por um cineclube, o “Roberto Palmari”. Os demais eram ligados a várias atividades artístico-culturais, inclusive exibição de filmes, mas não chamava de cineclube.

O projeto CINEMÓVEL não vingou por que: consultado sobre a implantação de um projeto de cinema, daquela natureza, para a cidade de São Paulo – a partir da experiência dos cineclubes -, um importante exibidor cinematográfico, ex-cineclubista, sentenciou: “Cineclube não cria responsabilidade social”. Depois da rearticulação do movimento, quem observar com atenção, verá que o seu discurso mudou. E aqueles que participaram dos eventos que antecederam a Rearticulação em São Paulo e tiverem boa memória, também se lembrarão dos “discursos inflamados” desse importante empresário exibidor, saudando a “volta dos cineclubes”…

Um passo atrás.
Acho que por volta de 1998, em visita a São José dos Campos, Leopoldo Nunes, então presidente nacional da Associação Brasileira de Documentaristas – ABD -, entrou na sede do Núcleo de Estudos, Produção e Difusão de Cinema & Vídeo Ethos, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo de São José dos Campos, que havia criado e perguntou-me sobre o trabalho e sobre cineclubes… Disse do Núcleo, das produções, do Festival do Minuto local, do trabalho de difusão de cinema da Fundação, que chamávamos de “Curta Circuito”, que era um trabalho cineclubista, mas assim não denominávamos.

Dois passos à frente.
Inconformados com a indecisão do então Secretário de Cultura de são Paulo, o Sr. Marco Aurélio Garcia, para o projeto CINEMÓVEL, um belo dia, conversando com Cacá Mendes, ele questiona: Por que não reorganizar o Movimento Cineclubista? As argumentações foram as mais elementares e óbvias possível… Por que não? Voltamos então contatar o pessoal que havia participando das discussões do projeto e fomos atrás de mais gente: João Luiz de Brito Neto, cineclubista histórico, aguerrido lutador, que decepcionado, estava desfazendo de sua locadora de vídeo composta na sua imensa maioria por filmes brasileiros; Elie George Ganhem; Gilberto Brozinga, Simone Matheus, Carmola, Mara Regina Fabiano, Ednhéia Ferri, Ciçoca, Luiz Carlos Campangnola, Gilmar Candeias, Luíza, Vanderley Silva, Juscelino Gadelha, Arnaldo Vuolo, Alcemi Palma, João Batista de Jesus Felix, Diretor de Imprensa do CNC/gestão 1984/86, Jeosafá Fernandez Gonçalves, que aprendeu com o João Batista a gostar de cineclube, foi boi do Cineclube Bixiga e depois diretor do Oscarito, Rui de Souza, militante em Osasco via Sindicato dos Bancários, Eufraudísio Modesto, operário, liderança e um dos primeiros cineclubes de periferia a aparecer na então Federação Paulista de Cineclubes… Fomos localizando os militantes cineclubistas, “velhos amigos”. Por velhos amigos entendíamos todos cineclubistas que conhecíamos. De coração aberto e a mente serena, convidamos todos que foram possíveis de se encontrar, sem distinção ou mágoas passadas. A lista é enorme, inclui muitos, muitos. Não lembro agora de todos que procuramos, e esta citação é memorial; minhas desculpas.

Para impulsionar as coisas, pôr em prática nossos objetivos lançamos a semente, literalmente: criamos o seminário “Olhar Sobre Telas”, para discutir a reorganização dos cineclubes… No meio desse processo, consegui trazer o Carioca, o cara que, no Movimento, resolvia qualquer problema de organização e produção das Jornadas! O Carioca é Jorge Eduardo Paes Aguiar Barbosa, que tomou frente da organização do seminário (claro que todo mundo ajudou), e no dia 05.09.2003, no Espaço Unibanco abrimos os sessão dessa atividade que marcaria nosso retorno em São Paulo. Os homenageados naquela solenidade: Jean-Claude Bernardes, Assupção Hernandes, Jairo Ferreira IN MEMORIAN e este que vos escreve. A sessão solene contou com exibição, em 16 mm, do filme “Greve” /1979, de João Batista de Andrade, com a sala lotada, por boa parte de figuras do cinema paulista, autoridades e cineclubistas céticos – que não tinham aparecido até então. Já podíamos dizer: “Os cineclubes estão de volta”. Ali foi cunhada a expressão “Os Dinossauros”, pela Jornalista Maria do Rosário Caetano nesta frase: “Gente estou no meio dos cineclubistas históricos, vocês são verdadeiros Dinossauros! Uma bela homenagem, obrigada!” Ali também, Jean-Claude Bernardet, chamava atenção para um clima nostálgico que rondava o ar e dizia dos cuidados que devíamos ter, com o novo e as novas tecnologias em país em franco processo de mudanças… (Lula acabava de assumir a presidência da república)

Ainda na sala, Jeosafá Fernandez leu o Manifesto de Rearticulação “Olhar Sobre Telas”, sub-escrito por toda a Comissão de Organização da Jornada de Brasília. Registro aqui: depois, quando os egos “afloraram-se”, tanto o Manifesto “Olhar Sobre Telas” como a “Carta de Brasília”, passaram a ser criticados, após a Pré-Jornada de Rio Claro, preparatório para a 25ª Jornada. (Volto ao assunto adiante)… O Seminário prosseguiu na Câmara Municipal de São Paulo, com a presença da Comissão de Organização da Jornada de Brasília, e tendo como convidados António Gouveia Júnior, André Piero Gatti, Assunpção Hernandes, entre outros.

Ainda nos dois passos e tocando em frente:
Vindo do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2001, em conversa com Luiz Orlando da Silva, um dos maiores cineclubistas que conheci, ele me falava de uma conversa com Leopoldo Nunes e de sua preocupação com os cineclubes. Por volta de 2003, recebi um telefonema do mesmo Luiz Orlando me dando conta de um telefonema de Brasília, seguido de um fax, convidando-o para uma reunião em Brasília, visando participar de um “Encontro de Cineclubistas”. Desconfiado, Luiz Orlando me ligou. Liguei para o Ministério da Cultura e, se a memória não me é falha, falei com Liziane Taquary, que explicou-me a intenção do governo em contribuir para reorganizar os cineclubes. Dizia que o chefe de Gabinete da Secretaria do Audiovisual – SAV -, o Dr. Leopoldo Nunes, seria o responsável pelo Encontro. Passou-me o número do telefone do Centro de Estudos Cineclubistas de Brasília – CECIBRA -. A voz que atendeu, era de um portunhol inconfundível, do El Cucaratcho; o “Jô soy bayano”, Leonel Luciny, cineclubista de Santa Fé, Argentina, onde se forjara Cineasta… Se naturalizou brasileiro, por se adaptar demasiadamente bem ao clima e ao nosso processo de miscigenação cultural. Depois de muitas conversas com ele e com o Antenor Gentil Júnior; não me restava mais nenhuma sobra de dúvidas. Liguei para Luiz Orlando e fomos para o Encontro de Brasília, chegando lá constatamos que a desconfiança não era solitária.

As coincidências de encontros, telefonemas, desejos, desencontros e boicotes ao projeto CINEMÓVEL em São Paulo, parecia nos unir numa grande corrente…

O que seria uma reunião para discutir o “Encontro de Cineclubistas” foi qualificado por sugestão do Antenor Gentil Júnior de Pré-Jornada e o que seria o “Encontro”, nós decidimos, por iniciativa, de novo, do Antenor Junior, chamar de Jornada Nacional de Rearticulação do Movimento Cineclubista Brasileiro. Isso porque o Estado, por meio do seu representante, assumiu todas as nossas decisões. Participaram da reunião: Antenor Gentil Júnior, Eduardo do Cecibra, Vladimir Dina, Berê Bahia e Leonel Luciny, todos também do Cecibra; Fernando Kaxassa/SP; Hermano Figueiredo/AL; Luiz Orlando/BA; Orlando Bonfim Neto/ES; Diogo Gomes dos Santos/SP, além de alguns funcionários da SAV. Leopoldo que estava em uma diligência fora do ministério, deixou orientação para que tocássemos a reunião. Ao chegar, falou que era intenção do Estado apoiar a reorganização dos cineclubes, que não era só uma vontade pessoal, sua, mais também do Secretário Orlando Senna e do ministro Gilberto Gil, que por sua vez estavam cumprindo uma determinação que constava no programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O nosso estranhamento era pelo fato de o Estado chamar para reorganização dos cineclubes… Nossa relação com ele, até então, era justamente de conflito e não de parceria… Estávamos, se não sempre, quase sempre do lado contrário, além de que, na Ditadura, combatemos frontalmente o Estado Ditatorial. Registra-se, aquela reunião acontecia na sala do ministro.

Um imbróglio:
Talvez, o único que não tenha estranhado o chamado do Estado, fosse o Fernando Kaxassa, que praticamente não participou da reunião de Brasília… E o mesmo Leopoldo Nunes, que fora cineclubista, junto com Kaxassa, do Cineclube CAUIM, ambos e como também o então Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, são todos de Ribeirão Preto. Ou seja, tudo se reorganizava também a partir dali… E na mesma ocasião, renascia (ou se inaugurava nova fase) o Cineclube CAUIM, um ganho cultural imenso para a cidade de Ribeirão Preto, transformando com uma reforma um antigo cinema de rua daquela cidade na mais nova sede e sala do Cineclube CAUIM. Kaxassa, por opção, creio, não participou organicamente da Comissão de Rearticulação, embora tenha incentivado, deu suporte às nossas demandas em favor da rearticulação. Depois de Brasília, nossa primeira reunião enquanto Comissão foi justamente em Ribeirão Preto. Daí por diante ele participou de vários encontros e jornadas.

Um pequeno parêntese:
Para explicar o por que da REARTICULAÇÃO e não Reorganização. Antes de quem quer que seja, achar, que essa é uma questão semântica.

Cheguei à reunião de Brasília, com cartaz, folder e convite para o Seminário “Olhar Sobre Telas”, que já vínhamos discutindo em São Paulo, visando à reorganização dos cineclubes. Das nossas discussões saíram, além do seminário, a decisão de criação de uma entidade que pudesse aglutinar, congregar, chamar cineclubistas para reorganizarmos os cineclubes. Sabíamos que eles continuavam existindo, outros tinham atividades e que por mais que não chamavam de cineclube, suas atividades eram, para nós, cineclubistas. O que não estavam funcionando era as entidades de representação que nós conhecíamos no passado.
Fizemos uma opção clara, em primeiro lugar rearticular a base, os cineclubes, e depois uma entidade de representação estadual e só depois a nacional. Quando nos referimos a rearticular a entidade nacional, não queríamos simples reorganizar o CNC de antigamente (como foi feito), mas um outro, um novo CNC, horizontal, com a diretoria composta por representação, garantindo assim, que a minoria estivesse representada e com as diretorias regionais com maior responsabilidade e poder de decisão. O modelo da Dinafilme, depois que passou a ser uma Diretoria eleita e não cargo de confiança, nomeado, como era antes de 1986. Com isso ela torna-se mais parlamentarista, seria um bom começo.

Vitoriosa esta tese, em São Paulo, fizemos uma homenagem a Carlos Vieira e ao “Centro de Cineclubes de São Paulo”, ele, liderança singular do Cineclubismo e ela, uma das entidades pilares do Movimento Cineclubista Brasileiro. Então, criávamos o “Centro Cineclubista de São Paulo” – Cecisp -. Entre outras decisões, criávamos também a revista CINECLUBEBRASIL. Somente depois da 24ª Jornada de Brasília, que o CECISP ganharia caráter de representação Estadual.

Naquele processo também constatamos que por mais que as entidades de representação do Movimento estivessem desorganizadas, cineclubes antigos continuavam existindo (Cineclube Roberto Palmari, São Lourenço da Serra; Planetário, Ipiranga, José Cesarini, Cauim; Mascate; Clube de Cinema de Marília, todos em São Paulo; Coxiponés, Cuiabá/MT; Lanterninha Aurélio, Stª. Maria/RS; Janela Indiscreta, Vitória da Conquista e Clube de Cinema da Bahia/BA; Clube de Cinema de Porto Alegre e tanto outros), além de uma infinidade de grupos, coletivos, que, com as facilidades das novas tecnologias, produziam e exibiam seus vídeos, muito embora não os chamassem de cineclubes, basicamente por desconhecimentos, atividades que eram cineclubistas. Diferentes, sim, mas cineclubes. É que muito havia mudado; o cinema mudou, a maneira de ver os filmes era diferente; o país era outro…

Mesmo sendo o CINEMÓVEL, um projeto especifico, nele nos referenciamos para alavancarmos as bases da reorganização dos cineclubes: do manifesto de Rearticulação à Carta de Brasília. Então, quando defendemos na reunião de Brasília o conceito de “Rearticulação”, foi espelhado nestas constatações iniciais… E este foi mais um dos pontos consensuais daquela reunião/pré-jornada, que apontava para o futuro, a reorganização das entidades de representação (Federações Estaduais, Conselho Nacional e o Secretariado da Federação Internacional de Cineclubes – FICC -, para o nosso continente) do Movimento, além de Estabelecer o caráter horizontal daquela Comissão.

Particularmente e por conta própria, liguei, enviei e-mail, cartas. Viajei por boa parte do Brasil, chamando a Rearticulação do Movimento. Fui novamente à Brasília; e ao Festival de Cinema e Vídeo de Goiânia; fui ao Rio de Janeiro; à Bahia; falei com o pessoal de Pernambuco; do Rio Grande do Sul; de Mato-Grosso; do Rio Grande do Norte; da Paraíba; do Maranhão; do Ceará; de Minas Gerais, enfim… Fiz o que achei importante fazer.

Um quase flashback:
Na reunião/pré-jornada de Brasília, conversei com Orlando Bonfim Neto, cineasta, cineclubista de Vitória/ES, sobre a necessidade de trazermos imediatamente o Marcos Valério e Antônio Claudino de Jesus para aquele processo. Orlando Bonfim, nos apresentou o vídeo “Na Parede, Na Toalha e no Lençol” (Vitória, ES, 1999), de Lizandro Nunes, Luciana Gama, Úrsula Dart e Virgínia Jorge, sob sua coordenação, resultado de uma oficina que ministrara na Universidade Federal do Espírito Santo – UFES, que registra a história do Movimento Cineclubista no Espírito Santo.

Depois de algum tempo sem nenhuma manifestação do Orlando Bonfim, consegui o telefone do Claudino e liguei para ele. A pessoa que me atendeu, anunciou quem estava do outro lado, por três ou quatro minutos o telefone ficou em silêncio, mudo… Algum tempo depois… A mesma voz gentilmente anunciou: Por favor, aguarde mais um pouquinho, ele este muito emocionado (devo dizer que não foi o único). Destaco-o por motivos óbvios e que adiante melhor entenderão. Apesar das nossas diferenças, estava ligando para um amigo, digo: um grande e querido amigo e esse foi o tom de nossa conversa, por quase uma hora. Marcarmos de nos encontrar no Rio de Janeiro.

Articulei com nossos amigos comuns do Rio e fomos recepcioná-lo no aeroporto Santos Dumont. Fátima Taranto, cineclubista, ex-Diretora Regional da Dinafilme, agora responsável pelo Departamento de documentação do Centro Técnico Audiovisual – CTAV -, da Funarte, foi à pessoa chave no Rio. Ao nos cumprimentarmos, nos abraçarmos; nossos corpos tremiam de emoção; que ainda julgo verdadeiras. Com este ar de alegria, emoção e fraternidade que sempre nos marcou, fomos para a reunião com o pessoal do Rio. Vejam um pouco como foi: http://www.youtube.com/watch?v=z6UnHuxRUW0. Eu e Antenor Gentil Júnior achamos conveniente que ele ou outra pessoa se encarregasse de falar com o Felipe. Não sei quem falou primeiro, se Júnior ou Marcos Valério. Sei que várias pessoas falaram com ele.

Durante todo o processo de Rearticulação e até a 25ª Jornada, tentei e coloquei para a Comissão de Rearticulação, a necessidade imperiosa de articularmos Minas Gerais. Do meu ponto de vista, compartilhado com mais vigor por o António Gouveia, o Movimento tinha e tem uma divida imensurável com os mineiros. Dívida esta que abre uma chaga nos mecanismos que consagramos de democráticos no cineclubismo brasileiro. Nós – eu uso o termo no plural, porque, mesmo sendo minoria, fazia parte da “Avançar” na época, excluímos o Movimento de Minas do Movimento Nacional e o momento histórico foi a 16ª Jornada Nacional, realizada em Piracicaba/1982. Naquela disputa, a intolerância predominou, venceu a prepotência e os mineiros, que pela primeira vez, aceitou compor em minoria, a direção nacional, foram rechaçados.

Felipe Macedo que havia sido presidente do CNC, por duas vezes e já tinha ocupado todos os cargos das instâncias de representação do Movimento, fora eleito Vice-Presidente na chapa que Nelson Krunholz fora eleito presidente, em detrimento da proposta dos cineclubes de periferia de São Paulo, apoiada pela metade do Movimento Nacional. Pleiteamos a Vice-Presidência e com os mineiros na chapa. Isso foi e é, tão marcante, que até hoje, apesar da realização da 26ª Jornada em Belo Horizonte, Minas Gerias, que tinha um movimento regional forte, tanto pelas ideias diferentes das nossas, como pelo que fez e representou, não deveria ter sido excluído no passado e continuar, ainda hoje, ausente do movimento. Mas isso também é outra história que ficará para outra oportunidade.

Fim do quase flashback e Tocando em frente.
Uns 15 dias antes de Brasília (2003), recebi um telefonema. A voz do outro lado disse (não levem ao pé da letra):
– É o Diogo?
– Sim… (ele corta)
– Seu filho da puta, então vocês estão reorganizando os cineclubes, vão para Brasília e pensam que vão me deixar fora dessa é?
– Um filho da puta a mais, um a menos, e cada vez chegando mais, né, ô Pimentel… O problema é que não tenho contato de todos… (Confesso aqui que fiquei tentado a chamá-lo pelo nome do troféu que ganhou numa dessas Jornadas que o consagrou no movimento: “Eterno Pimentelho”. Faço agora em forma de homenagem. Ver em: www.diogo-dossantos.blogspot.com/memoria cineclubista). Acredite, aquela conversa foi muito cordial. Insisto, não tinha e não tem ironia. Foi muito tranquila, sincera e festiva, acredito. O que aconteceu depois é outra história, que adiante veremos. Conversamos, disse que estávamos chamando todo mundo e que as condições de ida para Brasília de avião, corriam todas por conta do Ministério da Cultura e do Festival, mas que a lista de passagens aéreas já estava fechada. Mas a hospedagem e alimentação estavam garantidas. Até onde sei, Pimentel foi a Brasília com recursos próprios.

De nossa parte, fomos para Brasília para celebrar o renascimento dos cineclubes. Inicialmente homenagearíamos três personalidades: Felipe Macedo, por iniciativa do Antenor Gentil Júnior e minha e que dispensa apresentação; Marialva Monteiro, pelo trabalho realizado no CINEDUC/Rio e o professor Máximo Barro, da Fundação Álvares Penteado – FAAP -, o cineclubista mais idoso e em atividade no país. Já em Brasília, quando organizávamos o cerimonial de abertura da Jornada, por iniciativa de Marcos Valério, o Claudino foi incluído nas homenagens. Com exceção do Felipe Macedo, todos entenderam que aquele era um momento que reconhecíamos, neles, os relevantes serviços prestados ao Movimento. Pela cara e pela fala, no seu direito, Felipe diz que entendeu, mas ironizou. Registra-se: Quando Felipe, vindo do Canadá, chegou a Brasília, acompanhado de sua companheira, Deyse, fiz questão de ir cumprimentá-los.

Havíamos decidido que o Antenor Gentil Júnior coordenaria a mesa de abertura e que eu coordenaria a mesa da jornada. Fora o fato de parte de a plenária (delegação do Rio) querer, indiretamente dirigir a mesa, o entrave caia no mesmo lugar: O Rio não conseguia se entender e toda votação eles paravam para saber o que estava acontecendo e como votariam. Assim a plenária ia acontecendo…

A Jornada acontecia em uma sala que ficava ao lado da sala dos encontros e debates do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Praticamente todo os representantes do cinema brasileiro passou pelo nosso encontro e todos foram unânimes em nos saudar. Num desses intervalos, fui convidado pelo João Batista Pimentel para participar de uma reunião no quarto do hotel onde estava hospedado o Felipe Macedo. O que seria uma conversa entre algumas poucas pessoas, quase não consegui entrar. Joseane Alfer que me acompanhara, foi, ao meu pedido, chamar outros cineclubista paulistas, mas, só conseguiu encontrar um novato. Chegamos ao fim de uma reunião de “algumas pessoas” que por acaso, eram as mesmas que no passado haviam ficado do lado oposto ao meu – os novatos que estavam lá, eximo-os deste comentário.

Foi uma conversa, do meu ponto de vista, no lugar errado e na hora errada. Insisti que qualquer decisão deveria ser tomada na plenária, e que estávamos ali para rearticular os cineclubes e acho que o bom senso prevaleceu, no sentido de que, aquela jornada, não era uma Jornada tradicional cineclubista com as articulações políticas, conchavos, etc… Tínhamos decisões básicas a serem tomadas; e uma delas: eleger uma Comissão Nacional para organizar a próxima Jornada e local que a sediaria. A Pré-Jornada contém certa dinâmica organizacional na arregimentação dos cineclubes e estas questões, estavam implícitas no tema mais amplo, que era a organização da próxima jornada.

Claro que até hoje, muitos ainda dizem que São Paulo foi arrogante, que já estávamos pensando no poder e nos conceituam da pior maneira possível. Mas, o mais grave é que tentam nos ignorar, tentam fingir que não existíamos… Estes seguem o exemplo do stalinismo que nos filmes daquele período, apagavam a imagem de Trotski, mas não o apagavam da história. Tchapaiev/1934, dos irmãos S. e G. Vassiliev é um filme exemplar para ilustrar isso. E sabe se que Stalin, adota “as teses do seu rival”, utilizando grande número de oficiais do antigo regime³, no comando do Exercito Vermelho.

Continuando neste raciocínio, vale lembrar uma intervenção do então mestre, o hoje Professor Dr. João Batista de Jesus Felix, que toma a palavra, e no meio do auditório, com a plenária ensandecida, ele com aquela potência de voz que Deus lhe deu, faz-se respeitar e a plenária silencia e ouvem-no dizer (citação de memória não leve ao pé da letra):
– “Peraí gente! Eu não acredito no que estou ouvindo! Vocês são muito caras de pau. Isso é demais. Vocês estão querendo o quê afinal? Só porque delegação de São Paulo veio organizada, vocês querem sacrificá-la? Além dos que vieram de avião; São Paulo foi o único Estado que trouxe um ônibus cheio de cineclubistas. Porque São Paulo pensa, trouxe uma revista (www.cineclubebrasil.com.br), trouxe banners, trouxe camiseta, vocês querem prejudicá-los…?”

A proposta de São Paulo saiu vencedora na plenária, não porque, como ainda dizem, formamos um rolo compressor, mas porque depois da fala do Batista a plenária recobrou a razão e porque também, naquela reunião (apartamento do Felipe), reconheceu-se a organicidade de São Paulo para organizar uma jornada com tal envergadura, onde se deliberaria para reorganização do CNC – e o que estava implícito, mudar os Estatutos; eleger ou não uma diretoria, portanto, uma jornada eleitoral. Depois da plenária de enceramento, o Felipe Macedo veio conversar comigo e entre outras coisas, disse (citação de memória): “No que pese nossas diferenças, eu sei que teremos a próxima jornada e vai acontecer, vocês fazem, isso eu sei”.

A plenária deliberou também que a Pré-Jornada (que o Pimentel já havia pleiteado, antes da Jornada de Brasília e cuja proposição inicial era para que a Jornada fosse para Rio Claro e a Pré para São Paulo). Minha posição foi: Esta é uma decisão que cabe ao plenário da Jornada. Pessoalmente queria, por uma questão estratégica para o desenvolvimento dos cineclubes, que a Jornada seguinte a de Brasília fosse para o Centro-Oeste em detrimento de qualquer outra região ou cidade do país. Outra função que foi deliberada para a Comissão, foi a de chamar todos os cineclubes, cineclubistas, grupos, coletivos e iniciativas que pudessem, em algum momento futuro, vir a ser um cineclube e que não caberia aquela Comissão, definir o que seria ou não um cineclube.

“A política para mim é o combate amplo e resoluto das ideias”, com este pensamento de Fidel Castro, encerro a primeira parte, deste depoimento. Na segunda, falarei da Comissão Nacional em sua segunda composição; Da Pré-Jornada de Rio Claro; Do Encontro Ibero americano e dos contatos internacionais; Das manobras políticas; Do uso dos partidos para arregimentar parceiros para organizarem o movimento; As traições no ceio da Comissão e a cisão.

Diogo Gomes dos Santos
Cineclubista

______________________
¹ – Avançar, tendência de inspiração marxista, orientada pelo Partido Comunista Brasileiro, organizada dentro do Movimento Cineclubista, depois da 12ª Jornada Nacional de Cineclubes, realizada em Caxias do Sul, 1978.

² – “Feios Sujos e Malvados”, foi um troféu consagrado aos baianos na 17ª Jornada Nacional de Cineclubes, Petrópolis/RJ/1983. Explicando o troféu. Nos bastidores das Jornadas, tinha um mural, onde se deixava recados, informes e as impressões que se tinha sobre os mais diversos aspectos, um do outro. Era uma brincadeira saudável, que expressava vontades que talvez, não fosse conveniente falar abertamente. Uma válvula de escape da época, cuja referência era o cinema o cineclubismo. Bem, no primeiro dia da Jornada de Petrópolis, só a delegação da Bahia não tinha chegado. Lá pelas altas da madrugada entra no alojamento, ao ritmo do Olodum, com tambores, cantos, berimbaus, pandeiros, a alegria, os baianos. Claro, todo mundo acordou. No outro dia, tava lá mural, troféu: “Feios, Sujos e Malvados”, para a delegação baiana. A delegação baiana, era, na sua maioria absoluta, composta por negros. A felicidade do título do filme de Ettore Scola, para lançamento no Brasil foi perfeita. A dubiedade que a expressão em si, encerra e a mensagem que o filme fala e quer dizer, não foram suficientes para eliminar a conotação preconceituosa daquele momento. O autor do troféu é hoje um dos maiores especialistas em direitos de imagem, direito autoral e direitos conexos do país.

³ – FERRO, Marc, Cinema e História, Editora Paz e Terra, p. 75, 2ª edição, São Paulo, 2010

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*

FILMES SÃO FEITOS PARA SEREM VISTOS!

Pular para a barra de ferramentas