recuperar o espaço cineclubista

CREC / Centro Rio Clarense de Estudos Cinematográficos
Nós Somos o Público!

Construir e consolidar uma Rede Nacional de Cineclubes

Globalização e resistência


O movimento cineclubista em todo o mundo foi duramente atingido pelos aspectos mais negativos do processo que se convencionou chamar de globalização, iniciado por volta dos anos 70 e cujos efeitos mais decisivos passaram a ser sentidos na última década do século passado.


Esse período foi marcado por uma grande expansão geográfica do capitalismo, isto é, de suas formas de organização da produção e circulação de mercadorias. O capitalismo conquistou uma enorme parcela do planeta antes organizada sob uma economia planejada e, nos países mais atrasados, provocou um processo gigantesco de privatizações, ampliando ainda mais o espaço da economia privada e alterando profundamente a estrutura produtiva dessas nações. Outra característica igualmente fundamental é a extensão vertical dessa forma de produção, que se estendeu a setores antes orientados segundo outros princípios que não exclusivamente o lucro.


Esse processo foi dirigido política e ideologicamente por uma versão semi-atualizada do liberalismo setecentista que, mesmo estabelecendo uma realidade econômica mundial bastante diferente e até, em alguns casos, dando origem a novas relações sociais, não conseguiu – ou sequer pretendia – criar novas formas institucionais.


Pelo contrário, de uma maneira geral, estas últimas décadas foram principalmente um tempo de recuo institucional, de cancelamento de direitos civis já consagrados, de eliminação de conquistas sociais, de enfraquecimento de formas de representação.


Vivemos uma época de privatização dos interesses sociais, de mercantilização da cultura, de apropriação da criação.

Nos últimos anos, contudo, uma reação mundial e popular de dimensões também inéditas, vem criando novos espaços de organização, formas revitalizadas de cooperação e intercâmbio, construindo uma resistência planetária contra a exploração econômica, a injustiça social, a uniformização e banalização cultural, a alienação e a guerra. O Brasil é um dos principais centros irradiadores desse sopro de renovação e de democracia.

Movimento cineclubista mundial e brasileiro

Como outros movimentos sociais e culturais, o cineclubismo foi atingido duramente pela globalização. Em todo o mundo, cineclubes tiveram seus espaços de atuação ocupados por empresas comerciais – geralmente subsidiadas, apesar de seu pretenso caráter “competitivo” e comercial. Concomitantemente, perderam conquistas institucionais e legais. Viram reduzidas ou mesmo eliminadas as formas de fomento e apoio estatal – nunca substituídos pela falácia do marketing cultural privado, voltado quase exclusivamente para o fortalecimento e reprodução de atividades cinematográficas e/ou culturais de natureza comercial. O cineclubismo se enfraqueceu, perdeu força política e organizativa, suas entidades representativas minguaram ou até desapareceram.

Em nosso País, que sempre teve um movimento cineclubista vigoroso e original, mas sujeito a crises periódicas – tal como o próprio cinema brasileiro que o anima – não foi diferente. Esse enfraquecimento generalizado foi, talvez, mais acentuado, já que vivemos nesse período uma importantíssima transição institucional – da ditadura à democracia – e uma sucessão de crises econômicas que praticamente paralisaram o Brasil durante as últimas décadas, exprimindo exatamente a forma particular, brasileira, desse fenômeno geral da globalização. Como todos sabem, o movimento cineclubista brasileiro se desarticulou quase por completo no final da década de 80.

Mas tal como em outras crises do movimento cineclubista, ou do cinema brasileiro, a perplexidade e a paralisia duraram um lapso de poucos anos. Com a vitalidade que é própria – e sob diversas formas, exclusiva – dos cineclubes, logo novas formas de atuação nasceram, experimentando novas técnicas e linguagens, inventando e ocupando novos espaços cineclubistas.

Levou um pouco mais de tempo, no entanto, para o reconhecimento mútuo dessas novas experiências e formas de cineclubismo e para se estabelecer uma rede de intercâmbio nacional. Para que amadurecessem, enfim, a experiência e a vontade de novamente nos apresentarmos como protagonistas do cinema brasileiro, como representantes legítimos da sociedade e interlocutores do Estado. Para reassumirmos nossa identidade de movimento cineclubista organizado. Para reorganizarmos nossa entidade representativa nacional: o Conselho Nacional de Cineclubes. Mas o dia chegou.

Uma Política Nacional de Cineclubismo:

Tarefa do conjunto do movimento

O programa de trabalho que se segue, aprovado por unanimidade na plenária da 25a. Jornada Nacional de Cineclubes, constitui a proposta de trabalho da chapa Brasil, eleita nessa mesma ocasião para a direção do Conselho Nacional de Cineclubes.

Além de compromisso dos eleitos, este programa expressa a visão da Jornada – isto é, da Assembléia Geral Nacional do movimento cineclubista – tal como foi elaborada durante os dias do Encontro, em grupos de trabalho e sessões plenárias. Juntamente com a reforma e atualização dos estatutos do CNC e a eleição da sua Diretoria para o biênio 2004/2006, este programa consubstancia a base inicial e geral de uma Política Nacional de Cineclubismo a ser implantada no Brasil. Esse Projeto pressupõe o engajamento de cada cineclube brasileiro e de todos que neles militam, no sentido de desenvolvê-lo, adaptá-lo a cada realidade concreta e ajudar a implementá-lo em todo o País.

100% Brasil!

Muito se tem falado sobre o fato que a rede de cinemas só atinge 8% dos municípios brasileiros. Além disso, é notório que o ingresso médio de cinema, hoje – mais que o dobro do valor médio histórico até os anos 80 – é fator de exclusão da imensa maioria da população. Encastelado em suas “multitorres” de marfim e plástico ordinário, estruturado segundo um paradigma impingido por Hollywood e unicamente em função de seus interesses, o cinema, no Brasil, segue um modelo elitista, excludente e alienante. Que em nada contribui para o desenvolvimento do País e do seu povo. E tem como corolário fundamental a expulsão da maior parte do cinema brasileiro das telas brasileiras, do imaginário brasileiro e da formação contínua de nossa identidade cultural.

A vocação dos cineclubes brasileiros é contrapor-se a esse modelo que, afora o lucro de pouquíssimos oligopólios, tudo exclui: a maior parte do público, o cinema diversificado do Brasil e do mundo, e até os pequenos empresários independentes nacionais e estrangeiros.

A missão e disposição dos cineclubes brasileiros é levar o cinema, e em especial o cinema brasileiro, a todos os cantos do País, em todos os níveis sociais, como elemento de informação, formação, cultura e entretenimento.

O talento e a capacidade dos cineclubes brasileiros é de criar, em todos os meios sociais, experimentar, inovar e levar a toda a nação, um cinema independente, livre de quaisquer cânones ou sujeições econômicas.

Recuperar o espaço cineclubista,

Construir e consolidar uma rede nacional de cineclubes

Dois eixos principais podem resumir os objetivos imediatos, inadiáveis e indispensáveis dos cineclubes brasileiros. Eles devem concentrar nossos esforços durante o período desta gestão, sendo reavaliados continuamente nas instâncias e ocasiões de que dispõe o movimento: 1) a legalização e institucionalização do cineclubismo, recuperando os espaços que lhe foram roubados nos últimos anos, 2) a criação e consolidação de uma ampla rede de cineclubes em todo o País. Como corolário desta segunda tarefa, coloca-se a nossa integração com o movimento cineclubista latino-americano e mundial, em cuja reorganização nos envolvemos desde dias antes da Jornada, através das deliberações do 1o. Encontro Ibero-americano de Cineclubes e do compromisso de realização no Brasil, em 2005, da Assembléia Geral da Federação Internacional de Cineclubes.

Legalização e institucionalização do cineclubismo

As tarefas apontadas pela 25a. Jornada Nacional de Cineclubes incluem três aspectos principais:

Jurídico-institucional:

        Lutar pela recuperação dos direitos de Exibição Cultural:

Os cineclubes brasileiros exigem a regulamentação de seus direitos adquiridos (Lei 5536/68, Resolução Concine 64/80, etc) e o restabelecimento da distinção entre exibição comercial e exibição cultural sem finalidade lucrativa.

        Aprovar as propostas cineclubistas para a Ancinav

Os cineclubes lutarão pela aprovação das propostas que encaminharam em 2004 ao Ministério da Cultura e ao Conselho Superior de Cinema, por ocasião das consultas para o aperfeiçoamento do anteprojeto de lei que cria a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (ANCINAV) e regulamenta aspectos fundamentais do audiovisual no País. Essas propostas passam, portanto, a fazer parte deste Programa.

        Participar da regulamentação da ANCINAV

O texto do referido anteprojeto, contudo, é de caráter geral. Diversas reivindicações fundamentais do cineclubismo brasileiro só serão tratadas na posterior regulamentação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual e de outros textos da legislação do audiovisual. Nesse sentido, os cineclubes exigem, de imediato:

a)     Reconhecimento e regulamentação do conceito de cineclube;

b)     Participação no Conselho Superior do Audiovisual (ou órgão equivalente, conforme a definição legal), e

c)      Participação nos conselhos gestores do PRODECINE e PRODAV, assim como outros órgãos ou instâncias de elaboração, gestão e controle de atividades audiovisuais e cinematográficas, em particular as de caráter cultural.

        Constituir uma Frente Parlamentar de Apoio ao Cineclubismo

Os cineclubes se propõem a reunir uma ampla frente parlamentar suprapartidária envolvendo as duas casas do Congresso Nacional, no sentido de apoiar nossas reivindicações e ampliar a repercussão social e cultural do movimento.

        Buscar participação na elaboração de diretrizes públicas, bem como nos organismos de política cultural e/ou audiovisual nos estados e municípios

Social, Cultural e Audiovisual:

        Participação nos debates, nas lutas e nas entidades do cinema brasileiro, da cultura e da sociedade civil

Os cineclubes, suas entidades representativas de caráter regional e o Conselho Nacional de Cineclubes declaram-se desde logo empenhados na democratização da cultura e da comunicação nos seus sentidos mais amplos e comprometem-se a participar de todas as manifestações, atividades e entidades representativas com objetivos afins. Em especial, o CNC se compromete a participar do Congresso Brasileiro de Cinema e das lutas em defesa do cinema brasileiro em todos os horizontes.

        Estabelecimento de relações de intercâmbio e trabalho com as entidades do cinema brasileiro

Os cineclubes, suas entidades representativas e, especialmente, o Conselho Nacional de Cineclubes, procurarão se relacionar com todas as entidades de cinema que partilhem de compromissos e objetivos semelhantes aos nossos – como as ABDeCs, cinematecas e filmotecas, entre muitas outras – criando, sempre que possível, projetos e atividades conjuntas.

Relação com o Estado:

        Consolidação da interlocução com os governos federal, estaduais e municipais

Mais que o estabelecimento de sua plena legalidade e da participação em órgãos de representação da sociedade junto ao Estado, em todos os níveis, tal como referido mais acima, os cineclubes e suas entidades representativas deverão estabelecer, sempre que possível, uma relação mais produtiva com as instâncias e órgãos públicos, no sentido do desenvolvimento de projetos e ações concretas de enriquecimento e democratização da cultura e, em especial, do cinema brasileiro. Para tanto procurarão:

        O estabelecimento de projetos de fomento (criação de novos cineclubes) e apoio (consolidação dos existentes) ao cineclubismo.

Esses projetos deverão ser estudados e deliberados nas instâncias adequadas – em nível municipal, estadual e/ou regional, e nacional. O Conselho Nacional de Cineclubes deverá organizar e promover seminários e encontros que embasarão melhor os projetos de âmbito nacional já sugeridos nas discussões da Jornada e em outras instâncias do movimento como: o Mapeamento Nacional de Cineclubes; a criação de Centros Técnicos Cineclubistas, para a digitalização e disponibilização de acervos; a realização de Editais Nacionais para Projetos Cineclubistas, visando consolidar experiências concretas e diversificadas; o Projeto Cineclube-Escola, promovendo a integração entre o ensino e a comunidade através da organização de cineclubes; o projeto de cineclubes em comunidades brasileiras no exterior do País, entre outros.

        Integração com os projetos já existentes

Principalmente através do CNC, o movimento cineclubista procurará sistematizar e ampliar o aproveitamento da sua participação em projetos já existentes de iniciativa do Governo Federal, como os Pontos de Cultura – através da proposição de Pontos de Cultura Cineclubista -; o Projeto Escola Aberta; o financiamento de novas salas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e/ou outros agentes financeiros, entre outros.

Da mesma forma, cineclubes e entidades representativas de caráter local ou regional deverão buscar a colaboração e participação em projetos municipais e estaduais.

Criação e consolidação de uma ampla rede de cineclubes em todo o País.

A valorização institucional do cineclubismo, sua plena inserção na sociedade e na cultura brasileira, o reconhecimento dos cineclubes e suas entidades representativas pelo Estado, só são possíveis com a mobilização solidária de todos os cineclubes do Brasil em torno de seus interesses comuns, de uma política e de um programa de ação coletivos e em apoio a sua entidade nacional, o Conselho Nacional de Cineclubes. Reciprocamente, o CNC só se constituirá forte, inovador e atuante se efetivamente representar o conjunto dos cineclubes brasileiros, de todos os matizes, regiões e formas de atuação; se souber criar e garantir os espaços de construção e reelaboração permanente dessa Política Nacional de Cineclubismo que se propõe a realizar de maneira plural e coletiva.

A principal tarefa que se coloca, agora, para o CNC é se firmar como instrumento, agente e articulador da consolidação do movimento cineclubista existente e da sua expansão para todos os espaços geográficos e sociais do País, criando uma Rede Nacional de Cineclubes. Uma rede composta de centenas ou mesmo milhares de entidades diversificadas e autônomas, mas articuladas em um circuito alternativo para um cinema livre e plural, um espaço nacional de relacionamento crítico público com o cinema brasileiro, uma malha permanente de gestação de cultura e democracia.

Os dois instrumentos mais imediatos para a viabilização deste ambicioso plano, assim como dos diversos projetos já mencionados neste Programa – e outros que deverão surgir pelas iniciativas do movimento – são:

        Desenvolver e consolidar as disposições estatutárias:

a)      Estimular, implantar e dar condições de pleno funcionamento ao Conselho de Representantes do CNC – órgão de fiscalização da Diretoria Executiva, instância fundamental de articulação e participação dos cineclubes na política nacional do movimento e instrumento indispensável na expansão do cineclubismo em bases regionais;

b)      Estruturar em bases funcionais as diretorias do CNC, provendo funcionários e equipamentos necessários;

c)       Criar formas voluntárias – assessorias, comissões – de trabalho e participação na realização das políticas e projetos da entidade e do movimento, e

d)      Constituição de sede própria para a entidade, como referencial para o movimento, espaço de memória e arquivo, e base logística de projetos e outras ações.

        Promover seminários e encontros regionais, nacionais, setoriais ou temáticos para o desenvolvimento de propostas, programas e projetos, entre as organizações cineclubistas e destas com atividades, instituições e movimentos próximos dos cineclubes:

         Escola, Educação

    • Rádios Comunitárias

    • Produção Independente (ABDeCs)

    • Festivais de Cinema

    • Pontos de Cultura

    • Movimentos : Hip Hop, Capoeira, Teatro, Música, Leitura, etc

Compromisso com o movimento cineclubista mundial.

A 25a. Jornada e o Conselho Nacional de Cineclubes referendam e se comprometem com as tratativas encaminhadas anteriormente pela Comissão Nacional de Reestruração do Cineclubismo, junto à Federação Internacional de Cineclubes – FICC, e com as deliberações do 1o. Encontro Ibero-americano de Cineclubes, que passam a integrar este programa:

a)     Realização da Assembléia Geral da FICC no Brasil

b)     Realização do II Encontro Ibero-Americano

c)      Realização do Festival Ibero-Americano

d)     Consolidação do espaço mundokino.net

e)     Criação do acervo compartilhado latino-americano

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