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ozualdo candeias / um marginal entre os marginais
Ozualdo Candeias – Um marginal entre os marginais
Por: Beto Leão em: Qua 21 de Feb, 2007 08:53 PST (1897 Leituras)
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Conheci Ozualdo Candeias em 1979, na rua do Triunfo, em Santa Ifigênia. Eu era estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás e membro do Cineclube Antônio das Mortes e havia ido a São Paulo, com meu saudoso amigo Plínio Cézar Menezes (também já falecido), justamente para convidar o cineasta paulista a dar uma palestra em nosso cineclube, acompanhada de uma retrospectiva de sua obra.
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Hoje é difícil acreditar que, na década de 1970, uma pequena quadra da Rua do Triunfo era um dos maiores pólos de produção de cinema do país. Na área central da cidade, o famoso Quadrilátero do Pecado – delimitado pelas avenidas Duque de Caxias e São João e ruas dos Timbiras e dos Protestantes – contava com a maior concentração por metro quadrado de prostitutas e bandidos de todos os tipos. Por ficar próxima às estações da Luz e Júlio Prestes, a Boca do Lixo se tornou local de passagem de pessoas e produtos. Por conta da localização estratégica, muitas distribuidoras de filmes estrangeiros se fixaram na região. Já nos anos 1920 e 1930, companhias renomadas como a Paramount, a Fox e a Metro se instalaram por lá.
Décadas mais tarde, a Rua do Triunfo se transformou em reduto do cinema: distribuidoras, fábricas de equipamentos especializados, serviços de manutenção técnica, enfim, um mar de empresas do ramo cinematográfico. Era cena comum ver homens puxando carroças carregadas de latas de filmes pelas vias públicas. Dos anos 1960 até o final de 1980, a produção de cinema da Boca foi tão fértil que São Paulo chegou a ultrapassar o Rio de Janeiro, com mais de cem filmes por ano, cerca de 80% deles feitos na Boca. Atualmente, é mais fácil ver um garoto fumando crack naquela área que nos anos 1990 foi rebatizada de “Cracolândia” do que esbarrar, num dos botecos da Rua do Triunfo, em um ilustre representante do cinema daqueles tempos.
Para mim, um jovem de 21 anos na época, era quase impossível acreditar que estava ali, frente a frente com o diretor Ozualdo Candeias, que desde cedo aprendi a admirar. Ao lado, zanzando por ali, dava para ver José Mojica Marins, Aníbal Massaini, Cláudio Portioli, José Lopes Índio, Cariolano Rodrigues Mineiro e o Rodrigo Montana. Embora a concentração de artistas fosse grande, a região continuava perigosa. Reduto da malandragem paulistana, as ruas Vitória, Aurora, dos Andradas, dos Gusmões e dos Timbiras carregavam o ar da ilegalidade. Mas Candeias nos tranquilizava, dizendo que havia um pacto não oficial entre a bandidagem e o pessoal do cinema: “Ninguém mexe com a gente aqui”.
Caminhoneiro e “gigolô de prostituta pobre”, como se autodenominava, Candeias dirigiu 15 filmes, de longas a curtas-metragens, dentre os quais “A Margem” (1967), considerado o precursor do cinema dito marginal. Considerado pelo crítico Jairo Ferreira (autor do livro “Cinema de Invenção”, no qual analisa a produção experimental ao longo da história do cienma brasileiro) como “o marginal entre os marginais”, Candeias fazia parte do time de diretores que se encaixam nessa tendência, preocupados em retratar excluídos e personagens do submundo, de forma experimental e barata. Como definiu Rogério Sganzerla – um desses diretores – por meio do protagonista do seu “O Bandido da Luz Vermelha”: “Quando a gente não pode fazer nada, avacalha. Avacalha e se esculhamba”.
Nascido em Cajobi, interior de São Paulo, em 5 de novembro de 1922, Candeias iniciou sua carreira cinematográfica filmando aniversários e casamentos, fazendo reportagens e jingles para TV. Exerceu as mais diversas funções, como cinegrafista, montador, roteirista, até dirigir, em 1953, seu primeiro trabalho cinematográfico que considerava de certa importância: o documentário “Polícia Feminina”, financiado pelo Governo do Estado de São Paulo, com o qual ganhou o Prêmio Minicpalidade de São Paulo. Em 1963, escreveu o argumento e o roteiro do documentário “Ensino Industrial”, que fotografou e dirigiu. Finalmente, em 1967, realizou seu primeiro longa-metragem de ficção, “A Margem”, premiado com a Coruja de Ouro de Melhor Diretor, concedido pelo Instituto Nacional de Cinema. Marco do movimento Cinema Marginal (ou Udigrudi), o filme ganhou também o Prêmio Saci do Estado de São Paulo, na mesma categoria, além de melhor atriz coadjuvante para Valéria Vidal e melhor partitura musical para Luiz Chaves.
De baixíssimo orçamento, “A Margem” teve uma equipe técnica reduzida e um elenco formado por não-atores, exceto Mario Benvenutti. A falta de recursos financeiros deu margem à criatividade num filme de estrutura narrativa descontínua, que transmite uma mensagem social bastante peculiar, humanista e fatalista ao mesmo tempo O filme é ambientado numa favela às margens do rio Tietê e os seus primeiros 50 minutos, de um total de 96 de duração, foram feitos com câmera subjetiva, mostrando a visão de cada personagem envolvido nas trágicas histórias de amor narradas: um louco, que, aflito, está sempre à procura de uma rosa; uma jovem que teve de recorrer à prostituição; a patética figura de uma negra prostituta, que circula vestida de noiva; um homem que aparenta destoar do conjunto por vestir um paletó e usar uma gravata que permanentemente o sufoca.
Candeias colocou seus personagens num plano narrativo quase onírico, com a intenção e a pretensão de se fazer entendido por aqueles que podem ou poderiam fazer algo para anular a sua marginalização. Um dos contrastes do filme é justamente o aspecto social e existencial permeado pela poesia, além do fatalismo que emana das situações e dos personagens focalizados.
Em 1968, Ozualdo Candeias dirigiu seu segundo filme de ficção, o episódio “OAcordo”, de “Trilogia de Terror”. Os outros dois episódios foram dirigidos por José Mojica Marins (“Pesadelo Macabro”) e Luís Sérgio Person (“Procissão dos Mortos”). O roteiro foi escrito pelo próprio Candeias, a partir de uma idéia original de Mojica: uma mãe se envolve com magia negra e oferece uma donzela ao diabo em troca de desencalhar a filha solteira. A música de Rogério Duprat e Damiano Cozzella, executada por “The Bell” é uma atração à parte deste filme, que não se encaixa exatamente no espírito do gênero terror. O próprio diretor assim se expressou a respeito: “O que proponho no meu episódio da “Trilogia de Terror” não é absolutamente terror, é a vontade de me sintonizar com a idéia original de Mojica e dos produtores. Sendo assim, tentei contar uma história pouco ‘clara’ e um pouco mais ou menos estranha, para tentar também ir ao encontro das preferências do grande público.”
“Meu Nome é Tonho” foi dirigido por Candeias em 1969, no auge dos filmes do chamado western spaghetti. A idéia inicial era justamente fazer um filme nos moldes dos bangues-bangues italianos, mas Ozualdo Candeias acabou dialogando com a cultura popular do interior paulista. Ao contrário do seu filme de estréia, este possui uma narrativa linear e conta a história de uma criança que é raptada por ciganos errantes com quem passa a viver, sem conhecer seus pais. Já rapaz, Tonho abandona os ciganos e vai viver por conta própria, encontrando em sua trajetória uma bela mulher, que tem um irmão desaparecido, e um bando de facínoras extremamente violentos. De estilo agressio, o filme fez uma boa carreira comercial, sendo um dos poucos sucessos de bilheteria da carreira de Candeias, com o qual ganhou os prêmios de Melhor Diretor no III Festival de Cinema de Marília, em 1969; Governador do Estado de São Paulo de melhor edição e revelação de 1969 e Menção honrosa no festival de cinema de São Carlos no mesmo ano.
Em 1971, Candeias dirigiu o longa “A Herança”, transportando para o interior paulista a ação da peça “Hamlet”, de Shakespeare. Protagonizado pelo garanhão da Boca David Cardoso, o filme não possui qualquer diálogo, apenas ruídos e música. Com ele, Candeias ganhou o prêmio Air France de melhor diretor. Dois anos depois, realizou “Caçada Sangrenta”, aventura policial onde uma mulher rica e generosa, de nome Mecenas, mantém uma relação de intimidade com o escultor Fídias. Produzido e protagonizado por David Cardoso, o filme não foi bem recebido pela crítica, tendo sido mutilado pelo produtor e pela censura.
Sem recursos e enfrentando problemas com a repressão do regime militar, Candeias realizou em 1974 dois médias-metragens em regime de cooperativa: “Zézero” e “Candinho”. O próprio diretor fala desses filmes: “Zézero e O Candinho eu fiz com uma máquina nas costas e um jipe, que eu tinha nessa época. Esses filmes eu chamei de subterrâneos, nem mandei para a censura senão estaria fodido, talvez nem tivesse aqui. O Zézero tinha a seguinte motivação: quando criaram a loteca, achei que era uma safadeza, o cara ao invés de comer a marmita, o ovo, o feijão com arroz, vai jogar na loteca. Achei isso mau. O governo abusa da ignorância dos outros, cuja ignorância já é da responsabilidade dele, vai por aí afora. Acontece que o Estado abstratamente e concretamente é o responsável por essas coisas todas. No Candinho tem o poder que é o fazendeiro e a religião que é aquele falso – Cristo que ajuda a explorar todas as pessoas e eles estão mais ou menos unidos. O Candinho tem a cabeça cheia dessas coisas, se tornou um cara imbecilizado. O dia que ele toma consciência ele deixa de ser imbecil. É o Llorente que faz esse papel, tá bem pra caramba o rapaz. Eu fui quase preso na rua por causa do personagem dele, o policial olhou assim: ‘Como você faz um negócio, você filma um negócio desse?’. Eu respondi: ‘É publicidade’. ‘Que publicidade você está fazendo com um cara desses?’ “O povo precisa de cachaça agora.” “Cachaça? Você vai vender?” Eu falei: “O caso é o seguinte. Tem o roteiro aqui, que diz: ‘cuidado, não tome qualquer cachaça se não você vai ficar desse jeito’”. E os caras deram uma risadinha. No Zézero em frente à Sorocabana fui em cana também. As fitas passaram a ser requisitadas por estudantes, inclusive os da USP. O Paulo Emílio passou uma delas. Mas quando era pra passar na Geografia, não passou porque o pau quebrou antes.”
Nessa mesma época, Candeias realizou o curta “A Visita do Velho Senhor”, produzido pela fundação Cultural de Curitiba. Dedicou-se também, nesse período, à preservação da memória da Boca do Lixo, fotografando os profissionais do cinema, as fachadas dos prédios, os bares, as prostitutas. Irônico, Candeias dizia ter o cheiro e a psicologia da Boca. Nos anos 1980, realizou as exposições “A Boca – Centro da Indústria Cinematográfica Paulista (1984)”, realizada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, e “Uma Rua Chamada Triunfo” (1989), patrocinada pela Secretaria Estadual de Cultura.
Entre 1979 e 1981, Ozualdo Candeias realizou “A Opção”, que traz em seu próprio título (na grafia original que Candeias prefere) a sua síntese – “A opção”, escritos juntos com o claro objetivo do autor de usar o prefixo “a” indicando “ausência de”, ou seja, a falta de escolha, de liberdade, entendida aqui como tema central do filme, “ao qual se agregam outros mitos como a dignidade e a personalidade”, como acentuou o crítico Antonio Alves Cury, entusiasta da obra de Candeias. “As primeiras tomadas, no campo, já anunciam a origem e a atividade do grupo de personagens que será o fulcro da narrativa: trabalhadores rurais. E uma antevisão de uma delas do que será sua vida se ficar vivendo na roça (“tirando água do poço, cozinhando, lavando roupa, casando, vendo os filhos sendo enterrado, vítima da miséria”) a leva a cair na estrada. Essa atitude é acompanhada por outras mulheres que, aparentemente, não têm nenhuma ligação entre si a não ser a tentativa de mudar indo em busca da cidade grande”, como tão bem observou Cury, numa das raras apreciações de profundidade feita sobre este filme – que tem um subtítulo bem explícito: “As Rosas da Estrada”.
Em 1982, terminou “Manelão, o Caçador de Orelhas”, sobre a marginalidade rural, a partir da história de um peão tropeiro que deixa sua tropa para poder se curar de uma doença venérea. Manelão acaba fazendo uma barganha com o latifundiário que lhe empresta o dinheiro necessário para o tratamento médico: matar um camarada qualquer para se livrar da enfermidade. Daí em diante começa a gostar de seu papel de matador e decide continuar com suas matanças.
Em 1983, Candeias realiza “A Freira e a Tortura”, que narra as arbitrariedades cometidas por um delegado durante o regime militar contra uma freira acusada de subversiva. O filme, uma adaptação da peça de Jorge Andrade, mistura repressão política com erotismo e tem no elenco David Cardoso e Vera Gimenez. Em 1987, dirigiu “As Belas da Billings”, sobre um violeiro que vai para São Paulo em busca do sucesso mas termina por conhecer a miséria e a marginalidade na cidade grande.
“O Vigilante”, de 1992, foi seu último longa-metragem dirigido por Ozualdo Candeias. O filme, realizado durante os anos de crise do cinema brasileiro durante a era Collor, narra a história de um retirante violeiro que chega na cidade grande para ver se consegue uma vida melhor, mas arruma apenas um emprego como seguranca de uma empresa. Contudo, as barbaridades que os traficantes locais infligem na comunidade fazem com que ele utilize seu revólver para outros fins. Ganhou o prêmio especial do júri do Festival de Brasília.
Ozualdo Candeias foi um dos mais críticos e conscientes cineastas brasileiros, sem nunca abrir mão de sua liberdade criativa para se enxaixar no conceito de cinema de mercado.
Beto Leão é presidente da ABD-GO e Diretor de Comunicação do CNC – Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.
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