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Uma vida dedicada ao cinema
Uma vida dedicada ao cinema
Por: Guido Araujo em: Qua 09 de Aug, 2006 05:48 PDT (1416 Leituras)
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Jamais me passou pela mente que um dia me caberia a dolorosa incumbência de escrever sobre a partida do companheiro Luiz Orlando da Silva. O normal é o aluno discorrer sobre o mestre, e não o contrário. Contudo, os caminhos insondáveis do destino me fazem debruçar sobre a memória de 30 anos de convívio, quando um jovem tímido começou a se incorporar na minha equipe.
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Infelizmente, nunca cheguei a perguntar a Luiz Orlando o que o trouxe a se incorporar na minha equipe. Contudo, a intuição me diz que foi certamente a visceral atração que o movimento cineclubista já exercia sobre ele. Com sua abnegação e amor pelo cinema, tornou-se uma liderança inconteste, sobretudo junto às camadas populares. O seu crescimento político foi forjado nos exemplos de líderes como Martin Luther King, Malcom X, Mandela e Bob Marley. A música jamaicana, que exerceu uma grande atração para a população negra baiana, também tocou fundo na alma de Luiz Orlando; a partir desta época ele adquire o visual rastafári.
Luiz Orlando sempre foi um grande articula.
Possuía alguns dons especiais, que muito lhe ajudavam no seu trabalho sutil de convencimento. O seu jeito calmo, a sua fala mansa e uma sabedoria, fruto de muita leitura, junto com um trato afável e cordial que mantinha com todos, inspirava confiança no interlocutor. Foi por essa época, também, que ele começou a ter uma atuação marcante no movimento cineclubista brasileiro, a partir do início dos anos 80 do século XX. Todas as nossas atividades eram feitas na base do 16mm e o Luiz Orlando teve que aprender e ensinar como operar o projetor e exercitar os músculos, para carregar a aparelhagem pesada.
Contudo, ele abraçou a causa com grande entusiasmo e ajudou a criar inúmeros cineclubes em bairros populares.
Sempre houve entre nós amizade e um respeito mútuo, mas as nossas conversas poucas vezes tocavam aspectos pessoais ou íntimos. Daí a minha surpresa ao saber pelo prontuário do hospital que, neste mês de agosto, Luiz Orlando completaria 60 anos. Sempre via nele um garoto e, para mim, a sua aparência era de uma pessoa de 45 anos, pois só recentemente havia notado uns fios brancos na sua cabeleira rastafári.
Os nossos papos giravam fundamentalmente em torno de cinema, leituras ou política, assuntos através dos quais nos identificávamos inteiramente.
A última atividade cineclubista de Luiz Orlando se deu em maio passado, em Vitória da Conquista. Na terra do Glauber foi onde, pela primeira vez, o Luiz Orlando se queixou da saúde. Ao voltar a Salvador, ele resolveu procurar um médico e fazer alguns exames. O diagnóstico mais freqüente que lhe davam é que “não era nada”, que devia ser apenas problemas de gases! A última vez que estive com Luiz Orlando foi no Setor de Cinema da Facom da Ufba e fiquei impressionado com sua magreza e aspecto abatido. Comentei o assunto e pedi para que tivesse mais cuidado com a saúde. Isto foi numa sexta-feira. Na segunda pela manhã, recebi um telefonema do meu filho Guido André dando-me ciência de que, no fim da semana, Luiz Orlando sofreu um desmaio enquanto assistia às filmagens do longa de Póla Ribeiro e foi levado às pressas para o Hospital Ernesto Simões.
A partir daí começou o calvário de todas as pessoas humildes deste país que necessitam recorrer ao atendimento hospitalar.
Ele permaneceu quase três dias na maca, no corredor do hospital e, só depois de muito empenho dos amigos junto às autoridades estaduais, finalmente foi transferido para o Hospital Roberto Santos, seguindo para a UTI, onde foi submetido a operação e constatada a devastação provocada pelo tumor, atingindo o pâncreas.
Em seguida, entrou em coma e não mais recobrou os sentidos.
Luiz Orlando, que nunca prejudicou o seu semelhante e que sempre lutou por um mundo mais humano, não merecia um fim de vida tão doloroso e de tamanha injustiça. Contudo, este é o destino trágico que está reservado para milhões de brasileiros que não fazem parte da classe privilegiada, dona da riqueza e do poder, neste nosso Brasil tão belo e tão injusto! ”
(Jornal ATARDE – Segunda-Feira , 07/08/2006)
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