sexta-feira, 12 de março de 2010

Arquivos do mês » outubro, 2009

Quão independente é o jornalista?

Essa é uma questão importante. O trabalho jornalístico, na modernidade, pressupõe a independência na produção da informação. Isso é tão evidente que, ao menor “ruído” de censura, as entidades representativas e os próprios profissionais já se manifestam.
De qualquer forma a pergunta intriga: quão independente é o jornalista? Se ele atuara em um grande jornal com uma linha editorial bem definida, como ele deve agir? E se, por outro lado, ele exerce suas funções em um pequeno veículo local, como responder aos anseios da comunidade e mesmo assim, ainda ser independente? Essas são situações que perpassam pela noção de ética.
É claro que, um código de ética, deve delinear essas questões limítrofes, permitindo aos profissionais da área, uma margem de atuação, dentro da Lei. É o que a França está fazendo, conforme noticiado pelo sítio Journalisme.com. Desde a eleição de Nicolas Sarkozy, a França passa por profundas modificações sociais. Segmentos antes “ignorados” (grupos minoritários, grupos religiosos e étnicos), são atualmente considerados “perigosos” ao convívio social democrático.
Com isso, a impresa e o jornalismo, precisam rever seus conceitos e a forma de atuação. É isso que Le Comité des Sages, composto por 11 jornalistas tem feito. Fazem parte desse comitê, figuras “ilustres” do  jornalismo francês: Marie-Laure Augry, Master Basile Ader, Alain Boulonne, Jerome Bouvier, Jean-Pierre Caffin, Olivier da Lage, Jean-Marie Dupont, Bruno Frappat Pascal Guenée, CatherineVincent Lorenzo Virgili.
O projeto francês do novo código de ética do jornalista, é bem curto. Compõe-se de apenas 4 temas e 15 artigos: 1. O Metier do Jornalista; 2. A recolha e o tratamento das informações; 3. A proteção da Lei às pessoas e, 4. A independência do jornalista. Apesar de bastante reduzido, ele estabelece bases amplas para a compreensão do fazer jornalístico.
O projeto de código tem algumas definições claras de atuação. Por exemplo, no artigo  1.2, deixa-se claro que o jornalista, quando atuar em uma editoria, com chefe definido e linha editorial clara, deve atuar conforme as regras definidas pela agência. Já no artigo 1.4, aponta-se para a liberdade do jornalista de veicular notícias, mas alerta o “jornalista deve sempre estar ciente das conseqüências, positivas ou negativas, das informações que divulga”.
No artigo 2.2 atesta-se para a importância da “análise com rigor e vigilância, de informações críticas, documentos, imagens ou sons que lhe chegaram”. É interessante que, mesmo em tempos de velocidade da informação, o código alerte para a importância de “não dispensar uma verificação prévia da credibilidade das fontes” e ser “sensível a críticas e sugestões do público”.
No artigo 4.2, achei algo bem interessante e, que não poderia ser diferente. O artigo diz: “O jornalista não confunde seu trabalho com o oficial de polícia ou juiz. Não se trata de um oficial de inteligência. Ele nega qualquer confusão entre informação e promoção ou publicidade”.
É, o novo código francês avança em algumas questões importantes. Agora resta saber, mesmo estando em lei própria, se os jornalistas conseguirão atuar nos moldes estabelecidos. Não por que eles sejam difíceis de serem atingidos, mas pela dificuldade de se definirem quais patamares discursivos servirão de base, para as decisões.
Leia o projeto do Código de Ética francês aqui.

Jornalismo, formação e emprego

Paul Bradshaw, diretor do curso de jornalismo da Birmingham City University, no Reino Unido, escreveu uma reflexão bem interessante sobre a formação em jornalismo. O artigo escrito para o Online Journalism Blog intitulado Are there too many journalism courses?, apresentou uma série de competências necessárias para a formação do profissional que atua em jornalismo.
Segundo Bradshaw, a diversidade de graus possíveis para a formação em “jornalismo não existem apenas para treinar as pessoas para entrar na indústria de notícias. Esta é a diferença entre “educação” e “formação” ” e, indicou um conjunto de competências/habilidades que são desenvolvidas durante esse percurso:

* Construção do núcleo de competências acadêmicas, como a investigação, o conhecimento conceitual e as habilidades críticas;
* Desenvolver habilidades práticas, tais como a comunicação, pesquisa e produção;
* Desenvolver habilidades criativas;
* Desenvolver habilidades de gerenciamento de projetos;
* Desenvolver habilidades de trabalho em equipe e a capacidade de trabalho por iniciativa;
* Criar uma compreensão crítica dos processos de notícias e relações de poder;
* Fornecer espaço para explorar como o jornalismo ea  publicação é, e poderia ser diferente, (particularmente importante quando se está em crise);
* Permitir que as pessoas saibam se eles querem trabalhar na indústria de notícias;
* Permitir que os estudantes compreendam que conseguirão uma graduação em uma área que é  desafiadora e gratificante;
* E sim, a formação de pessoas para entrar na indústria de notícias;
* E qualquer indústria que envolve profissionais da comunicação;

 Será a formação universitária a chave para o sucesso profissional? Bradshaw afirma que, apesar de todos estudarem jornalismo, nem todos que tem “esperança de ser”, serão, por exemplo, âncoras ou titulares de editoria em grandes jornais (já que essas posições já encontram-se ocupadas), mas é extremamente importante essa formação.  Porquê? Ele afirma:
Algumas pessoas não são muito boas, algumas pessoas não se esforçam muito, algumas pessoas apenas se “encostam” ao longo do caminho,  na lei do menor esforço – não se pode conceber que, em nosso sistema de ensino, sem excluir aqueles que trabalham duro, que são talentosos e dedicado e querem conseguir grandes coisas. Um diploma não é a promessa de uma carreira bonita – é a promessa de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, que  é embasado em seu próprio compromisso e capacidade individuais, tanto quanto a dos professores,  do pessoal de apoio e das universidades.
É, está aqui uma visão bem sóbria da formação universitária! Ela permite “uma oportunidade de desenvolvimento pessoal”, que agregada as competências e habilidades, desenvolvidas ao longo do curso, podem dar valor ao conhecimento adquirido durante todo o processo e permitir uma melhor inserção profissional.

Mídia nos Estados Unidos: estado da arte em 2009

O Projeto Pew Research Center for Excellence in Journalism divulgou os resultados de sua pesquisa  – The State of News Media – sobre a mídia americana em 2008/2009. A pesquisa é desenvolvida desde 2004, permitindo uma série estatística dos indicadores, sendo financiada pelo Pew Charitable Trusts.

A pesquisa utiliza métodos empíricos para avaliar e estudar o comportamento da imprensa. Segundo a organização, o objetivo da realização das pesquisas na área jornalística:

[...] é ajudar os jornalistas que produzem as notícias e, os cidadãos que a consomem a desenvolver uma melhor compreensão do que a imprensa está entregando, como os meios de comunicação estão mudando, e as forças que estão moldando essas mudanças. Temos enfatizado a pesquisa empírica na crença de que, quantificar o que está ocorrendo na imprensa, em vez de simplesmente oferecer a crítica, é a melhor abordagem para a compreensão.

O que os dados de 2009 revelam? Novamente o que outros estudos tem apontado: uma crise generalizada no atual modelo de negócios da mídia. Segundo Tom Rosenstiel, jornalista que assina a pesquisa e coordena o projeto, os resultados “parecem assustadores”, pois

“as receitas de publicidade em jornais caíram 23% nos últimos dois anos. Alguns jornais estão em processo de falência e outros perderam 75% de seu valor. Estimamos que, cerca de um em cada cinco jornalistas, que trabalhavam em jornais, em 2001, não estavam mais nesse mercado no final de 2008 e 2009. [...] Ocorre uma migração acelerada do público para a Internet. O número de americanos que utilizam regularmente a Internet para acesso à notícias, de acordo com um levantamento, aumentou 19% nos últimos dois anos, sendo que em 2008, o tráfego para sites de notícias importantes aumentou 27%;

Apesar da sobrevida que as eleições americanas proporcionaram ao jornalismo impresso, a pesquisa foi enfática:

No ano passado, aconteceram duas coisas importantes que, efetivamente, reduziram o tempo restante no ‘relógio’. Em primeiro lugar, a migração acelerada da audiência para a Web, significando que a indústria da notícia deve se reinventar, mais cedo do que pensávamos, embora a maioria dessas pessoas estejam visitando os destinos tradicionais de notícias na web. Pelo menos, no curto prazo, o crescimento da audiência online tem piorado e não ajuda a situação de sites de notícias tradicionais.
Depois, veio o colapso da economia. Os números são apenas suposições, mas os executivos acreditam que a recessão, pelo menos, ocasionará o dobro de perdas de receitas no setor de mídia imprensa em 2008, e talvez ainda mais sobre as redes de televisão. Ainda mais importante, é o fato de que a recessão afetou os esforços para encontrar novas fontes de receita. Em uma tentativa de reinventar o negócio, 2008 parece ter sido um ano perdido e, 2009 ameaça ser a mesma coisa.

Alguns outros dados da pesquisa ajudam a visualizar o tamanho da crise:

1. Variação percentual da audiência de 2007 a 2008, por setores da mídia.

 

2. Variação percentual da receita de anúncios de 2007 a 2008, por setores da mídia.

3. Declínio percentual de circulação durante seis meses, período de 2003-2008.

4.  Edições impressas vs. Receita de publicidade online no período 2003-2007.

5. Visitantes únicos por mês para sites selecionados de revistas (Novembro de 2006, novembro de 2007 e novembro 2008).
Longe de assustar, eles representam a migração para uma novo modelo, que ainda é “nascedouro”, mas que dá sinais de força. Vamos esperar para ver os resultados. O relatório está disponível completo em inglês e, um resumo executivo, em espanhol.

Ecossistema jornalístico, papel, internet e outros coisas mais

Quando se usa a palavra ecossistema, dificilmente pensamos em algo que não seja a natureza, florestas e árvores. Nos acostumamos a utilizar essa palavra com esse significado. Porém, ela já ganha contornos diferenciados que modifica o significado.
Steven Johnson propõe a utilização dessa palavra voltada para o jornalismo. Ele defende que o espaço da notícia é como um verdadeiro ecossistema. Isso se dá pela diversificação, complexidade e interligação presente no espaço de criação da notícia. Se pensarmos bem, faz muito sentido, já que as interligações (links, feeds, etc.) presentes na internet, são quase infinitas. E aí, é bom fazermos uma ressalva: entendemos que a “infinitude” da internet é ainda um conceito abstrato, que consolida-se, na medida em que, a tecnologia de armazenamento permite espaços nunca antes imaginados. A internet, comparada a um “cérebro virtual” está consolidando sua rede neural, suas conexões sinápticas.
Para Johnson, o mais importante “não é futuro da indústria da notícia, ou o negócio do jornal impresso, mas o futuro da notícia em si”. Por que essa preocupação? Basicamente, por causa dos discursos “truncados” quando falamos em futuro do jornalismo, que beira muitas vezes à falácia. Para o autor,

[...] há realmente dois cenários piores que nos preocupam agora, e é importante distinguir entre eles. Primeiro, há o pânico de que os jornais vão desaparecer como empresas. E, depois, há o pânico de que as informações cruciais vão desaparecer com eles, que nós vamos sofrer culturalmente, porque os jornais não serão, por muito tempo, capazes de gerar as informações que temos invocado por tantos anos.

A angústia de não saber que rumo tomar, ou antes, a agonia de tentar sobreviver, face à crise, tem levado empresas jornalísticas a atacar os blogs e as redes sociais. Esses se tornaram os “vilões”, os emissários  e ‘culpados’ pela crise do modelo jornalístico. Essa ingênua falácia, cria preconceito. O preconceito tenta desacreditar. Vimos isso recentemente no Brasil, pela campanha do Estadão contra os blogueiros. Longe de ter bons resultados, ampliou apenas o abismo de colaboração.
Nesse ecossistema jornalístico, os blogs já ganharam espaço. A era do papel e do jornal impresso ainda não acabou, mas os sinais de desgaste são evidentes. Como ressalta o autor:
[...] o novo ecossistema do jornalismo de investigação está em sua infância. Existem dezenas de projetos interessantes sendo encabeçados por pessoas muito inteligentes, algumas delas sem fins lucrativos, outras para alguns fins lucrativos. Mas elas são mudas.

Mudas? Embriões do quê? De um novo modelo de jornalismo. Um jornalismo híbrido, em que participam empresas jornalísticas, fundações sem fins lucrativos e blogueiros empreendedores. Esse é o novo modelo, ou pelo menos, é o que aparenta para Johnson. Ele afirma que esse ecossistema se parecerá com a figura a seguir:

Nesse ecossistema jornalístico, a produção de notícias não será exclusiva dos jornalistas, mas será o resultado de uma mescla de novos atores no espaço noticioso. É interessante a presença de um processo partilhado de edição (curadoria), onde haveria a presença de editores profissionais, mas não exclusivamente.

Comentando sobre essa proposta de Johnson, de um ecossistema jornalístico híbrido, Tim Kastelle escreveu no blog Innovation Leandership Network afirmou:

Parte da inovação, que nós estamos procurando, é como podemos criar uma combinação dessas funções em um único modelo, que vai ter alguma combinação de conteúdo livre, junto com um mecanismo de geração de renda. Porque eu continuo dizendo, em geral, as funções que parecem fazer o dinheiro ,neste tipo de sistemas, são agregação e filtragem – por isso, eu ainda acho, que o caminho para construir um modelo desse tipo de negócio é incluir uma ou ambas as funções.

 Já para Mindy McAdams, jornalista que atua na área de ensino, o gráfico de Johnson,

[...] tenta representar o ambiente de notícia como ela é agora, sem se inclinar em direção a um modelo idealista, que não corresponde à realidade. O que eu não concordo é, com as setas de um caminho único – tudo neste modelo tem fluxos em dois sentidos agora.

Seja qual for o futuro, com ou sem empresas jornalísticas (arrisco a dizer que elas existirão em outros formatos), com ou sem papel, algo é certo: a internet será um dos atores mais importantes nessa construção da notícia, assim como o é nesse começo de século XXI.


Jornais nos Estados Unidos: alguns dados

Pedro Fonseca, do blog português ContraFactos & Argumentos, disponibilizou algumas estatísticas sobre os jornais nos Estados Unidos, que dão muito em que pensar. Eles reforçam a idéia de crise que se alastra entre os jornais impressos. Mas ao mesmo tempo, já registram o que estamos cansados de saber: a internet cresce rapidamente e ganha o espaço da preferência dos leitores e neoleitores.  Bem, vamos aos dados.

A primeira informação, é descrita no gráfico a seguir, que mostra a situação de grandes jornais nos Estados Unidos. Por exemplo, o The Wall Street Journal, saiu da casa dos 1.8 milhões de jornais em 1995 para um pouco mais de 2 milhões de jornais em 2003. Porém, desde então, vem ocorrendo uma baixa na tiragem. Já outros jornais, como o The New York Times, The Washington Post, The Daily News e The New York Post, vem amargando quedas significativas em sua circulação na última década. Veja com mais detalhes no gráfico (clique para aumentar).

A segunda informação, está expressa na tabela a seguir, que demonstra os gastos com publicidade na mídia americana. Os dados revelam uma retração no investimento publicitário na mídia. Praticamente, todas as formas de publicidade tiveram um resultado menor do que o esperado, desde 2008. Obviamente, a internet escapa do negativo, mais amargou também uma redução significativa na publicidade. Veja com mais detalhes na tabela (clique para aumentar).

Fonte: The Business Insider, US Advertising Spending, By Medium

A terceira informação, está expressa no gráfico e na tabela a seguir, que mostra o “Top 10″ de sítios na internet, que abarcam os investimentos publicitários. Na frente, o Google vêm assumindo a maior fatia do mercado, seguindo bem de longe pelo Yahoo!, MSN e eBay. Veja com mais detalhes o gráfico e a tabela (clique para aumentar).

Jornais no Brasil: retratos e contornos

Dados estatísticos sempre colaboram com a reflexão dos rumos que serão tomados. Na situação dos jornais no Brasil não é diferente. A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) disponibilizou dados sobre os jornais brasileiros.

Esses dados podem ajudar a vislumbrar a situação que passa o modelo atual de negócios no Brasil da indústria jornalística. Vale ressaltar, que a presença da internet vem crescendo ano a ano, modificando relações e espaços.

Também é interessante que, na tabela 1 – circulação média diárias de jornais, podemos observar os “picos” negativos, começando em 1994, depois em 1996 e 2001 a 2003, com uma pequena recuparação após esse período. Mesmo com essas variações negativas, se vê que a tiragem média diária desde 2007 ultrapassa a marca dos 8 milhões de exemplares. Parece muito, mas comparando-se com os mais de 40 milhões de brasileiros economicamente ativos e, com os mais 80 milhões de brasileiros leitores, é muito pouco a inserção do jornal na vida do brasileiro. Veja a seguir outros dados do recorte:

(clique nas tabelas para aumentar a visualização)


Jornalismo cidadão: superação da crise?

Essa é uma boa questão: será o jornalismo cidadão uma alternativa para superar a crise dos meios? Para poder entender melhor, precisaremos dividir essa questão em outras duas: “o que é jornalismo cidadão?” e, “que crise dos meios ocorre?”.

Vamos a primeira questão: o que é jornalismo cidadão? Basicamente é a forma de produção da notícia em que a estruturação do conteúdo é realizada em parceria com pessoas sem formação jornalística e um profissional da área. Essa construção “colaborativa” , que obviamente padece de problemas de forma e estilo, não perde, na maioria dos casos, em consistência e fidedignidade factual, já que ele é registrado pelo espectador original.
Cabe aqui uma ressalva: o registro é, e sempre será, um recorte do “real”, consistindo em uma realidade própria do olhar do sujeito. O observador original constrói seu olhar, registrando os fatos que lhe parecem ser os mais importantes, mais significativos, isto é, sua “realidade”. Em muitos casos, a realidade do espectador não é a mesma do jornalista, que fará o ajuste na notícia, afim de garantir a noticiabilidade do fato. Esses “ajustes”, que podem ir desde a forma e o estilo e, que pode chegar até ao factível, faz a riqueza desse tipo de jornalismo, construído “a quatro mãos” ou, como alguns chamam, em rede.
Será esse tipo de jornalismo viável? As experiências mostram que sim. Por exemplo, David Watts Barton, editor chefe do Sacramento Press Journalism Open, abriu um concurso em que os cidadãos participam produzindo notícias. A idéia é que os participantes, cidadãos em geral da região de abrangência do jornal, possam “cometer atos de jornalismo”, registrando acontecimentos.
Outro jornal, o The Guardian, do Reino Unido, criou o “Guardian Local” com foco inicial em três cidades – Edimburgo (Escócia), Cardiff (País de Gales) e Leeds (Inglaterra). A proposta é que blogueiros e jornalistas cidadãos possam produzir notícias sobre corrupção das instituições a partir de 2010. Com isso, cria-se uma “vigilância” constante das instituições. Como participar? Os requisitos são bem práticos: não precisa ser jornalista diplomado ou com formação específica, mas é necessário ter um blog, ser usuário do Twitter, saber como estabelecer contato com a comunidade e sentir paixão pela informação local.
Ainda na Inglaterra, a Associated Northcliffe Digital, inicou uma campanha para a criação de 50 novos sítios hiperlocais. A aposta da entidade, sob o lema “Teu lugar, tua gente”, é desenvolver em cidades com menos de 50 mil habitantes, um sistema local de notícias. Esse desenvolvimento local da mídia, permite também o desenvolvimento de novos anunciantes. Uma visita rápida ao sítio, mostra que a idéia está dando certo.
Nas “bandas de cá” das Américas, o The New York Times, criou o “The Local“, onde os membros das comunidades locais de Nova York, Nova Jérsei, Long Island e Connecticut, podem produzir e divulgar suas notícias. O lema, bem interessante por sinal, é: “Sua cidade. Seu bairro, seu quarteirão. Coberto por e para você”.  Em Palmas (Tocantins), temos um experiência bem interessante: é o Jornal A Boca do Povo, com o lema “Aqui você faz a notícia”. A proposta, assim como outros periódicos produzidos, é a valorização da “presença do cidadão como autor dos textos e não apenas como fonte de informação”.
A resposta a questão “será esse tipo de jornalismo viável?”, é sim. Parece-me claro, que surge um modelo de negócio mais centrado no local e no potencial que esse tem de atrair novos anunciantes. Talvez aqui tenhamos uma saída para a crise dos meios. E já que tocamos nesse aspecto, “que crise dos meios ocorre?”. Em outros posts, indicamos que o jornalismo tradicional, baseado no modelo de negócios atual, com seu sistema de tiragem e assinaturas, encontra-se em crise. Essa crise, não constitui-se apenas na produção e impressão da notícia, mas vai pelo esgotamento que o modelo pago e a própria distribuição apresentam, face aos movimentos de notícia “free”.
Há saída para a crise? É claro que sim. Toda crise, pressupõe uma mudança de paradigma e, nesse sentido, o esgotamento do modelo de negócios atual dos jornais, que afeta a própria forma de fazer jornalismo e de atuação de seus profissionais, pode encontrar um “fôlego” nas experiências do jornalismo cidadão. É cedo para afirmar, que o jornalismo cidadão é a solução mais viável, mas já dá para vislumbrar uma “luz” no meio dessa tumultuada escuridão, que parece afetar todos os jornais.

Menos retórica, mais pensamento crítico

Foi assim que Tom Grubisich, editor sênior do Banco Mundial em Washington, DC, escreveu para o The Online Journalism Review, sobre o Relatório “A Reconstrução do jornalismo americano”, de Leonard Downie Jr. e Michael Schudson, publicado essa semana e que vem causando criticas no meio jornalístico.
Para Grubisich, o relatório é mais um ” exemplo do que o que há de errado com o debate sobre o futuro do jornalismo. [...] O relatório, patrocinado pela Columbia Journalism School, destaca sínteses, conclusões e recomendações da peso, mas com valor de algumas gramas de pensamento crítico”.
Mas o que há de tão controverso nesse relatório? Bem, ele aponta o problema, citando Jan Schaffer, que é diretor executivo da American University’s J-Lab: The Institute for Interactive Journalism e ganhador de um prêmio Pulitzer:
Se realmente queremos reconstruir o jornalismo americano, precisamos olhar mais do que o lado da oferta, temos necessidade de explorar o lado da procura, também. Temos de começar a prestar atenção à trilha de pistas no ecossistema dos novos meios de comunicação e seguir o ‘pão’. Que indústria  não teria dificuldade de corrigir-se pensando somente em “nós”, os fornecedores de notícias, e não ‘neles’, os consumidores de notícias? Eu não ouço a qualquer desses consumidores neste relatório.
É claro que o relatório tem sua importância. Já o discutimos aqui em outro post. Mas, ele é o olhar de apenas um lugar comum: o dos fornecedores de notícias. E, para Grubisich, foi esse o pecado de Downie Jr. e Schudson, deixarem de indagar-se com o olhar do outro, de perguntar o porquê, testar hipóteses e indicar recomendações apropriadas.
Essas observações feitas, reforçam o que já é realidade: a retórica e argumentos bem feitos sobre a crise do jornalismo, mas que não tenham uma visão do problema como um todo, e não apenas de suas partes (no caso, de uma única parte), será alvo de críticas, apesar de toda elegância que possa ter.

Objetividade atrapalha o trabalho jornalístico?

Desde cedo na formação dos jornalistas, a palavra “objetividade” torna-se parte do seu vocabulário central. Espera-se, que essa competência, seja “ensinada” e desenvolvida durante todo o processo formativo. Mas o que é essa objetividade? Defende-se (e, com isso, esforçamo-nos a ensinar), que o trabalho do jornalista deve ser isento, neutro, como condição de legitimidade da prática jornalística.

Que habilidades são exigidas nesse processo de objetividade? Podemos indicar algumas: uma linguagem simplificada, a construção em terceira pessoa do texto, imparcialidade e um registro fidedigno dos diálogos. Essas habilidades, permitem ao jornalista, a realização de um recorte do “real”, construindo a sua “realidade”, que posteriormente, é partilhada com os leitores. Esses, por sua vez, exercitam sua própria leitura.
Temos nisso um problema: a objetividade repousa sobre a linguagem. De um lado, temos o jornalista, que constrói seu olhar sobre o fato e, do outro lado, temos o leitor que interage com o texto e, nessa tecitura, cria, transforma, destrói e reconstrói sua(s) leitura(s). Essa leitura (que não é mais “a leitura”), desenvolve-se em “maneiras de ler” o mundo a nossa volta. O sujeito – quer o falante, quer o leitor – lança seu olhar, que de nenhuma forma consegue ser neutro. A leitura do signo é sempre ímpar e, a ação compreensiva, uma experiência única, que teimamos em achar que pode ser reproduzida, ipsis literis, de um leitor a outro.

Vamos agregar mais um ingrediente: a presença do editor. Esse tem um papel de intermediar o processo de construção da informação. Na verdade, esse pré-leitor qualificado, exerce o papel de consolidar o “pacto de leitura”, que a área da comunicação tem com as demais áreas do conhecimento. Espera-se, que a notícia produzida, atenda ao critério da objetividade para ser publicada/veiculada.

E aqui o “caldo fica mais grosso”, quando o editor faz o recorte na narração produzida, que obviamente não é e, dificilmente será, objetiva. O editor assume para si toda a carga ideológica, que faz parte do processo de escolha de qual tipo de escrita será ou não aceita.

E como está o panorama de atuação desse profissional? Craig Newmark, escreveu para o The Huffington Post, sobre a crise da “curadoria de notícias”. No artigo intitulado A nerd’s take on the future of news media, Newmark critica a atuação, ou melhor, a falta de atuação dessas “curadorias” no processo da notícia e, aproveita o espaço, para criticar a objetividade jornalística. Para ele, a objetividade que é praticada, por apenas se ouvir as partes e suas justificativas, não é um agregador de valor. Ao contrário, seria um motivo para  perda de credibilidade.

Será que ele vislumbra algum caminho para a ação jornalística no futuro? É claro que sim. Para ele, o futuro está na criação de modelos mais híbridos, com a presença de outros atores nesse processo de edição, onde a “transparência é a nova objetividade” e o “[...] futuro das organizações jornalísticas será determinado pelas tendências emergentes que já são visíveis”.


Jornalismo subsidiado? Soluções para uma crise declarada

Foi publicado pela Columbia University um estudo que analisa estratégias para a reconstrução do jornalismo nos Estados Unidos. O relatório intitulado  The Reconstruction of American Journalism é assinado por Michael Schudson, vice-presidente do The Washington Post e professor da Arizona State University e por Leonard Downie Jr, professor de jornalismo da Columbia University . A dica foi dada pelo Blog do GJOL.
O relatório expressa bem a situação de crise que os jornais passam, reconhecendo já de saída, que a base tradicional de manutenção econômica das edições, a publicidade, está em colapso. Para os autores do relatório, a crise de receitas não afeta apenas os jornais impressos, mas também os noticiários da televisão aberta. Mas, pelo menos, algo é positivo para eles: os jornais e os noticiários não vão desaparecer, mas serão reinventados pela evolução do mundo digital. Eles atribuem um papel duplo a internet: tornou possível novos espaços jornalísticos, mas prejudicou o apoio do mercado tradicional ao jornalismo impresso.
Como eles percebem a “saída” dessa constatação? Bem, eles fazem seis recomendações, no mínimo, bem polêmicas:
1. Controle do Congresso de organizações de notícias independentes, que deveriam ser criadas ou convertidas em entidades sem fins lucrativos ou com baixo lucro, para servir ao interesse público, independente de seu “mix financeiro”, com patrocínio comercial e publicitário, permitindo explicitamemte o investimento de fundações filantrópicas nessas novas organizações híbridas;
2. Filântropos, fundações e fundações comunitárias devem aumentar substancialmente o seu apoio a organizações de notícias que têm demonstrado um compromisso substancial com os assuntos públicos e prestação de contas;
3. O público do rádio e da televisão devem ser substancialmente reorientados para fornecer informações importantes à imprensa local em cada comunidade, servidas por estações públicas e seus sites. Isso exige uma ação urgente e reforma da Corporation for Public Broadcasting, bem como um aumento do financiamento e do apoio do Congresso para a comunicação pública;

4. Universidades, tanto públicas como privadas, deverão tornar-se fontes locais de sujeitos especializados, além de notícias e prestação de contas, como parte de sua missão educacional. Elas devem explorar as suas próprias organizações jornalísticas, sendo plataformas de acolhimento de notícias sem fins lucrativos e de organizações de jornalismo investigativo e, ser laboratórios para a inovação digital na captação e partilha de notícias e informações.

5. Um fundo nacional de notícia deve ser criado com o dinheiro do Federal Communications Commission, que poderia ser coletado dos usuários de telecomunicações, televisão e de radiodifusão sonora licenciados ou prestadores de serviços de internet, administrados por conselhos locais de notícias.

6. Mais deve ser feito por jornalistas, organizações sem fins lucrativos e governos para aumentar a acessibilidade e a utilidade das informações coletadas pelo público em âmbito federal, estadual e local, facilitando a captação e difusão da informação pública por parte dos cidadãos, ampliando o reconhecimento público das muitas fontes.

É, as propostas são fora do “convencional”, para um país capitalista. Retiram da mão de poucos o poder da informação e fragmenta em pequenas comunidades. Mas, a situação é muito mais complexa do que aparenta e, por mais que essas recomendações forneçam um caminho, vão enfrentar muitas críticas. De fato, mal o relatório tornou-se público, David Carr, William Carleton, Dan Gillmor e Jeff Jarvis, criticaram as posições assumidas.