quarta-feira, 17 de março de 2010

Arquivos do mês » novembro, 2009

Jornalismo e mídias sociais

Mark Scott, diretor da Australian Broadcasting Corporation (ABC), anunciou novas diretrizes para a utilização de mídias sociais, por parte dos jornalistas da emissora e dos funcionários. Essa é uma tendência na maioria dos grandes jornais e redes, que tentam impedir que seus “furos” sejam veiculados antes. Esses “vazamentos” de informação, já custaram empregos de bons profissionais da mídia.
As regras são bem simples e diretas, mas permitem aos jornalistas e funcionários o trânsito nas mídias sociais, tais como Facebook, MySpace, Twitter e You Tube. São elas:

Não misturar o profissional e o pessoal, desencadeando formas/processos que possam trazer descrédito a ABC.
Não prejudicar a sua eficácia no trabalho.
Não implicar o endosso de suas opiniões pessoais à ABC.
Não divulgar informações confidenciais obtidas através do trabalho desenvolvido na ABC.

É uma pena que as “regras” sejam apresentadas no “imperativo negativo”. Ainda penso que isso faz parte da lógica e da ética do trabalho jornalístico. Nem precisava dizer. Mas, já deixa os profissionais mais tranquilos quanto a utilização.


Twitter, jornalismo e confiabilidade

Um debate realizado na semana, no programa The Brian Lehrer Show, reacendeu a discussão sobre a utilização do Twitter como meio de divulgação de notícias. Um resumo da discussão foi apresentado no  EditorsWeblog.org. Como debatedores, estavam Paul Carr, autor do artigo NSFW: After Fort Hood, another example of how ‘citizen journalists’ can’t handle the truth publicado em  TechCrunch e Jeff Jarvis, professor e jornalista.
O artigo de Carr, apresentava uma discussão sobre o tiroteio ocorrido em Fort Hood, Texas, quando um soldado americano, o Major Nidal Malik, abriu fogo contra outros soldados aquartelados.
A crítica apresentada por Carr, consistia na ausência de informações iniciais “confiáveis” sobre o ocorrido. Essas informações não vieram por meio da mídia tradicional, nem  por meio de especialistas ou blogs militares, mas sim por uma conta de Twitter. É que Tearah Moore, um soldado de Linden (Michigan), que estava em Fort Hood na ocasião, vez vários tweets sobre o que se passava no interior do forte, inclusive divulgando uma foto de um soldado ferido (que estava no endereço http://twitpic.com/oejh5 e foi retirada). Rapidamente a foto e as notícias do Twitter se espalharam na rede como a  “informação mais qualificada”. Problema? A princípio, seria uma informação de uma fonte ocular, como tantas outras que já circularam pelo Twitter, mas era “mentira ou boato” (ou pelo menos, não era o que estava descrito).
Com isso, críticas ao uso do Twitter ecoaram nos meios tradicionais.  Jarvis, entusiático do jornalismo cidadão, veio em defesa do uso das mídias sociais e, apontou que essas deram uma grande contribuição na divulgação e fortalecimento do jornalismo. É claro, que Jarvis não é partidário da utilização de qualquer informação indiscriminadamente. Ele defende a utilização das técnicas jornalísticas (averiguação da veracidade, confirmação de fontes, etc.), aplicadas as mídias sociais.
O embate dos dois, no programa de Brian Lehrer, consistia na defesa de Carr de “quem faz tweets, não o faz para si mesmo e seus amigos, mas para o mundo” e que exige que “quem escreve tweets, o saiba fazer corretamente”. Já Jarvis, defendeu a própria postura do que é jornalismo cidadão. Ele disse
[...] o jornalismo cidadão é uma estrutura diferente, em que as testemunhas podem compartilhar o que vêem, e que vai mudar a notícia. Costumava ser, que a notícia não acontecia até o repórter chegar lá … e publicar as fontes. Agora, isso confunde os jornalistas, porque a história começa antes de os jornalistas chegarem. O que os jornalistas precisam se perguntar, é como adicionar o jornalismo a estas informações já existentes. [...] a notícia não é um produto,  é um processo. 
Pensando nos dois posicionamentos, não é possível dizer que ambos sejam antagônicos ou mesmo que um seja melhor do que o outro. Realmente, o uso do Twitter – um uso dado pelos próprios usuários – mudou. Não é mais o simples “estou em casa”, “estou na escola” ou mesmo “fui ao cinema ver o filme do…”, é um espaço de informação individual e, quanto maior a exposição do autor, maior será a credibilidade atribuída ao que se está veiculando em 140 caracteres. Mas também, não podemos nos dar ao luxo de obrigar a todos a repensarem um espaço – o Twitter – que surgiu sem regras, a assumirem o “seu espaço”, como espaço coletivo.
É aqui que o argumento de Jarvis é bem interessante: “os jornalistas precisam se perguntar, é como adicionar o jornalismo a estas informações já existentes”. Antes de publicar ou mesmo citar – e isso é uma regra simples que aprendemos na formação universitária – confirmem-se as fontes! Foi um equívoco da mídia publicar e dar crédito, sem verificar e investigar. E aqui, volta-se a um antigo problema: vou perder o furo?

O design pode salvar os jornais?

Muitas propostas foram feitas para salvar os jornais. Essas incluem  a redefinição do foco jornalístico, o redesenho de suas plataformas e até a mudança na forma como o fato é tratado. Todas, apesar de bem estruturadas, encontram o mesmo problema: menos leitores.

O grande problema, parece ter sido fidelizar os leitores e, dificilmente, neoleitores são agregados aos jornais de forma massiva. Mas a resposta pode estar em outro local. Pode estar na produção de imagens. Essa é a proposta de Jacek Utko, designer polonês, que tem trabalhado na Europa Oriental a mais de 20 anos em jornais.

Jacek Utko, especializou-se em designer de jornais. Ele reconhece que a crise dos jornais, em âmbito mundial, é resultado da mudança de nicho, do impressso para o virtual e, também, da forma como os leitores interagem com os diversos tipos de mídias. Porém, ele defende que, uma cultura visual, pode fazer a diferença e salvar os jornais.

Utko defende, de forma bem radical, um outro olhar, bem pessoal para a cultura visual dos jornais:

A primeira página virou nossa assinatura. Era meu canal pessoal para falar com os leitores. [...] Eu queria minha declaração artística, minha interpretação da realidade. Eu queria fazer pôsteres, não jornais, nem sequer revistas. Pôsteres. Experimentavámos com tipografia, com ilustrações, com fotos. E nos divertíamos. Logo começaram a aparecer os resultados. Na polônia, nossas páginas foram eleitas capas do ano por três vezes consecutivas. Mas o segredo não é só a capa. O segredo é que tratávamos o jornal como uma peça única, como uma composição – uma música. A música tem altos e baixos. O design é responsável por essa experiência. 

Essa é uma proposta que parece nova (face às já defendidas em 2009): o jornal como criação individual, o jornal com cara de outra coisa, menos tradicional. Utko apresentou estatísticas de fazer qualquer dono de jornal sonhar: na Rússia, após o redesenho, o aumento foi de 11% em um ano, seguido de 19% no segundo ano e, de 29% no terceiro; na Polônia, o aumento foi de 13% no primeiro ano, de 22% no segundo e, de 35% no terceiro; e, na Bulgária, o aumento foi de 100% na circulação no primeiro ano.

É o design a salvação dos jornais? Utko reconhece que o design é parte do processo. É preciso mais. “Não basta apenas melhorar a aparência, mas melhorar o produto como um todo, mudando a rotina  de trabalho dentro do jornal”, reforça.

Veja a apresentação feita por Jacek Utko no TED. A apresentação está traduzida para 14 idiomas, inclusive o português (basta clicar em subtítulos, se necessitar).

Clique aqui.


Jornalismo, formação e trabalho

Trabalho e emprego. Essas são duas palavras quase mágicas para todo recém-formado. O egresso acostumou-se a viver trabalhando (bicos, free, etc) e, na maioria dos casos, emprego que é bom nada! Essa é uma realidade em todos os campos de formação. A diferenciação entre as duas palavras, nem sempre, é facilmente entendida: trabalho não significa emprego. Com reestruturação do trabalho nos anos 1990, as duas palavras foram descoladas e, hoje, vivenciamos “trabalho” enquanto categoria que não significa necessariamente emprego. Entenda-se aqui emprego, como uma categoria que pressupõe carteira assinada, “direitos” (mesmo que poucos) assegurados, estabilidade, etc.
Lembro-me que, a uns 10 anos atrás já discutia com alunos da graduação a “formação para o desemprego”. Defendia na época, que o mercado modificava-se rapidamente e, a universidade também precisava entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade. Recordo-me que foi uma guerra: fui chamado na coordenação de curso e acusado de “terrorismo”, de fazer fazer alunos desistirem da área, pois alertava os acadêmicos para a possibilidade do desemprego e da necessidade de abertura de novos espaços laborais, sob pena de ficarmos “ultrapassados” para um mercado flutuante e em constante mutação.
O que esse tempo todo mostrou? Que essa é uma certeza inegável: diversas áreas encontram-se em “crise” de identidade, por não atualizarem seu cabedal de conhecimento e suas técnicas e/ou metodologias. Novas habilidades são exigidas diariamente e, nossos acadêmicos, devem ser alertados para as potencialidades de uma mercado em mutação, que exige novas competências a todo instante.
Nessa linha de pensamento, Dina Rickman escreveu uma reflexão bem interessante no Journalism.co.uk, site especializado em jornalismo. Sob o título What does a jobs crisis mean for journalism education?, Rickman alertou para a necessidades dos futuros jornalistas serem informados sobre a “crise de emprego”. Por que esse alerta é importante? Porque tem-se um aumento, segundo ela, de 15,7% ao ano no Reino Unido no ingresso de novos acadêmicos nas faculdades. Esses tem “sonhos” ( como qualquer acadêmico de aparecer na “telinha” ou ser um editor de algum grande jornal), porém encontram a realidade de um mercado saturado.
Segundo Rickman, citando as estatísticas divulgadas pela untistats.com’s,

[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes.  Uma pesquisa realizada com estudantes,  após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão.  Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.

O que pensam os formadores nas universidades? Sara McConnell, que dirige o curso de jornalismo na  Kingston University apontou que

[...] há “muitos cursos de ‘jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um” debate sério “sobre o futuro do ensino de jornalismo”. Algumas universidades estão olhando apenas para  o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos,  podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.

Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas  não implicam em sucesso, necessariamente.

O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo “apologia ao mercado”, queria poder não depender dele, mas a verdade é “nua e crua”: somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?


O futuro do jornalismo: especialistas fazem suas apostas

Em 2009, a expressão “O futuro do jornalismo” foi utilizado largamente em artigos e palestras pelo mundo acadêmico. A utilização da expressão, chama atenção para algo “novo”, que existe no campo discursivo e, que, dia-a-dia, parece criar um “pânico” em quem a lê. Digo isso, porque em conversa com colegas da área e acadêmicos, quando fala-se em “futuro do jornalismo”, a expressão aparentemente foi ressignificada para “crise”, “fim”, “desemprego” e palavras afetas a essas.

O futuro nunca pareceu tão complexo para uma área, como aparentemente, sentem os profissionais envolvidos no processo, quer acadêmico, quer laboral. É quase uma “escatologia jornalística”, aonde profissionais e acadêmicos parecem inflar e potencializar em suas falas, algo natural em outros campos do conhecimento, que é o esvaziamento de um modelo de negócios.
As palestras, artigos, notícias e outras comunicações do gênero, parecem atribuir um “fim” ao modelo de negócios da mídia tradicional, que realmente, deverá ser ressignificado, afim de se preservar. Mas o “fim”, apesar dos discursos inflamados, não ocorre com a perda de certos “direitos” (como no caso do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, no Brasil). Esse “fim”, encontra-se em um “futuro” ainda incerto, mas promissor. É o que revelam as falas dos três vídeos a seguir.
The Future of Journalism, é uma palestra realizada na Stanford University com Leonard Downie Jr., um dos vice-presidentes do The Washington Post e, que reforça o confronto que parece existir entre o iornalismo impresso e o ambiente web. Nessa fala, já se vê os indícios do que ele defenderia no relatório The Reconstruction of American Journalism, já falado aqui no Blog do Gipo.

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Também intitulado The Future of Journalism, Jonathan Este, diretor de comunicação da Media Alliance’s,  fala na University of South Australia. Entre os diversos pontos, Jonathan Este fala sobre a relação entre blogueiros e jornalistas pagos, o uso de ferramentas de mídia digital e a relação entre meios de comunicação social e notícias.

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O último vídeo, um pouco mais antigo, mas igualmente interessante, é a entrevista de Nicholas Lemann, da Journalism School of Columbia University, que discute a relação entre blogueiros, jornalismo e notícias. Apesar de nem sempre essa relação ser muito “amistosa”, Lemann vê um futuro para a difusão de notícias nesse modelo que parece ser desenhado.

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Rádio, jornalismo e difusão de notícias

Alguns afirmam que o rádio, em tempos de internet, é coisa obsoleta. Em certo sentido, isso até poderia ser afirmado, mas a realidade de alguns locais tem mostrado que ele continua forte como um veículo de difusão de notícias.

É o que o estudo realizado por Michael W. Link, da The Nielsen Company, mostrou. Ele disponibilizou o relatório intitulado How U.S. Adults Use Radio and Other Forms of Audio.O estudo aponta para o rádio como o mais importante meio de difusão de notícias entre os adultos norte-americanos.

O estudo foi realizado com base em 752 dias de programação. Os resultados são bem interessantes. Entre esses, o estudo concluiu:

• 90% dos adultos estão expostos a algum tipo de mídia de áudio em uma base diária, com transmissão, tendo no rádio a maior parte de tempo de audição;

• A exposição ao “áudio” se dá em quatro níveis de uso, entre os ouvintes:
(1) Usa a transmissão de rádio via satélite (atingiu 79,1% diariamente; sendo 122 minutos diários entre os usuários);
(2) CDs e fitas (chegou a 37,1% diariamente; 72 minutos);
(3) Áudio portátil, tais como iPods/MP3 (chegou a 11,6% diariamente; 69 minutos), áudio digital armazenado em um computador, tais como arquivos de música transferidos e utilizados em um computador (alcance de 10,4% diariamente; utilização média de 65 minutos), streaming de áudio digital em um computador (atingir 9,3% ao dia; 67 minutos) e;
(4) Áudio em celulares (chegou a 2% diariamente; 9 minutos).

• O papel dos dispositivos de áudio portátil:
i) Importância dos players de MP3 e iPod, com média de 8 minutos de escuta por dia entre toda a amostra observada;
ii) entre os ouvintes (11,6%), o maior alcance estava entre aqueles com idade de 18-34 anos (20,8%), solteiros (18,5%), e aqueles que tendem a ser mais esclarecidos quanto ao uso da tecnologia (18,2%);
iii) Mesmo entre aqueles que usam outras formas de mídia de áudio, a transmissão de rádio ainda tem um amplo alcance. Por exemplo, entre aqueles que também ouviram o áudio portátil, tais como dispositivos leitores de MP3 ou iPod, o rádio teve um alcance diário de 81,6% e, 97 minutos de média de tempo de audição.

• A exposição ao áudio na mídia tem o maior alcance entre aqueles com níveis mais elevados de educação e renda;

• A radiodifusão é a forma dominante de mídia de áudio em casa, no trabalho e no carro;

• O “Broadcast” do rádio atinge a faixa etária entre 18-34 anos, com taxas equivalentes às de adultos em geral, ficando na faixa de 79,2% dos ouvintes, com uma média de 104 minutos por dia;

• Entre as plataformas de mídia, a televisão ao vivo foi a mais elevada do alcance e uso diário entre os pesquisados (95,3%, 331 minutos), seguida pela transmissão de rádio (77,3% alcance, 109 minutos), Web / Internet [excluindo o uso do e-mail] (63,7%, 77 minutos), jornais (34,6%, 41 minutos) e revistas (26,5%, 22 minutos); 

• Em média, as pessoas gastam quase idêntico tempo durante a semana (454 minutos) e nos finais de semana (458 minutos), usando um das cinco principais fontes de mídia.

 Nos gráficos a seguir, provenientes do Nielsen Wire, esses dados são melhor visualizados:

Outro dado que “salta aos olhos”, é referente ao tempo, nos dias úteis, de audição aos meios. O rádio é o segundo colocado, perdendo apenas para a Televisão:

Longe de estar aposentado, o rádio continua a ser um veículo importante de difusão de notícias. Mas ,é importante, pensar em como ele será reinventado e se articulará com a própria web e com o jornalismo digital.

Você pode ler o estudo completo aqui.