domingo, 14 de março de 2010

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Mídia nos Estados Unidos: estado da arte em 2009

O Projeto Pew Research Center for Excellence in Journalism divulgou os resultados de sua pesquisa  – The State of News Media – sobre a mídia americana em 2008/2009. A pesquisa é desenvolvida desde 2004, permitindo uma série estatística dos indicadores, sendo financiada pelo Pew Charitable Trusts.

A pesquisa utiliza métodos empíricos para avaliar e estudar o comportamento da imprensa. Segundo a organização, o objetivo da realização das pesquisas na área jornalística:

[...] é ajudar os jornalistas que produzem as notícias e, os cidadãos que a consomem a desenvolver uma melhor compreensão do que a imprensa está entregando, como os meios de comunicação estão mudando, e as forças que estão moldando essas mudanças. Temos enfatizado a pesquisa empírica na crença de que, quantificar o que está ocorrendo na imprensa, em vez de simplesmente oferecer a crítica, é a melhor abordagem para a compreensão.

O que os dados de 2009 revelam? Novamente o que outros estudos tem apontado: uma crise generalizada no atual modelo de negócios da mídia. Segundo Tom Rosenstiel, jornalista que assina a pesquisa e coordena o projeto, os resultados “parecem assustadores”, pois

“as receitas de publicidade em jornais caíram 23% nos últimos dois anos. Alguns jornais estão em processo de falência e outros perderam 75% de seu valor. Estimamos que, cerca de um em cada cinco jornalistas, que trabalhavam em jornais, em 2001, não estavam mais nesse mercado no final de 2008 e 2009. [...] Ocorre uma migração acelerada do público para a Internet. O número de americanos que utilizam regularmente a Internet para acesso à notícias, de acordo com um levantamento, aumentou 19% nos últimos dois anos, sendo que em 2008, o tráfego para sites de notícias importantes aumentou 27%;

Apesar da sobrevida que as eleições americanas proporcionaram ao jornalismo impresso, a pesquisa foi enfática:

No ano passado, aconteceram duas coisas importantes que, efetivamente, reduziram o tempo restante no ‘relógio’. Em primeiro lugar, a migração acelerada da audiência para a Web, significando que a indústria da notícia deve se reinventar, mais cedo do que pensávamos, embora a maioria dessas pessoas estejam visitando os destinos tradicionais de notícias na web. Pelo menos, no curto prazo, o crescimento da audiência online tem piorado e não ajuda a situação de sites de notícias tradicionais.
Depois, veio o colapso da economia. Os números são apenas suposições, mas os executivos acreditam que a recessão, pelo menos, ocasionará o dobro de perdas de receitas no setor de mídia imprensa em 2008, e talvez ainda mais sobre as redes de televisão. Ainda mais importante, é o fato de que a recessão afetou os esforços para encontrar novas fontes de receita. Em uma tentativa de reinventar o negócio, 2008 parece ter sido um ano perdido e, 2009 ameaça ser a mesma coisa.

Alguns outros dados da pesquisa ajudam a visualizar o tamanho da crise:

1. Variação percentual da audiência de 2007 a 2008, por setores da mídia.

 

2. Variação percentual da receita de anúncios de 2007 a 2008, por setores da mídia.

3. Declínio percentual de circulação durante seis meses, período de 2003-2008.

4.  Edições impressas vs. Receita de publicidade online no período 2003-2007.

5. Visitantes únicos por mês para sites selecionados de revistas (Novembro de 2006, novembro de 2007 e novembro 2008).
Longe de assustar, eles representam a migração para uma novo modelo, que ainda é “nascedouro”, mas que dá sinais de força. Vamos esperar para ver os resultados. O relatório está disponível completo em inglês e, um resumo executivo, em espanhol.

Jornalismo em queda livre?

Essa é a discussão que Martin Conboy, professor da University of Sheffield, do Reino Unido, faz no artigo intitulado “A parachute of popularity for a commodity in freefall?“. O artigo foi publicado no número especial de junho da revista Journalism, e trata da problemática “crise” que vive o jornalismo (e seus profissionais) nesse início de século.

Conboy parte da idéia de que o

[...] jornalismo é ameaçado por todos os lados na contemporaneidade. A reputação dos jornalistas continua a despencar e o jornalismo, parece ser incapaz de gerar interesse ativo, consistente, no processo político. [...] O principal motivo para preocupação, parece ser que, à luz do colapso das receitas de publicidade e  da fragmentação das audiências, impulsionado em parte pela introdução de novas tecnologias no campo da comunicação pública, o jornalismo está lutando  com o fim de um modelo de negócios.  O futuro do jornalismo depende, em grande medida, do que entendemos por  jornalismo.

Essa é uma constatação real: vivenciamos uma “crise”, isto é, o modelo atual de negócios do jornalismo não responde mais as demandas impostas pelo mercado e, principalmente, pelos leitores. O papel dos jornais no processo de comunicação, como elemento central, já deixou há vários anos (melhor dizendo, décadas) de ser o que ele tensionava que ainda fosse. É claro que ainda há nichos muito fortes e tradicionais de leitores, mas os neoleitores atuais, já não creditam a força necessária para o modelo sobreviver.

E qual será esse futuro? Conboy defende que esse futuro passa pela redefinição do que é o jornalismo e de suas funções, sobretudo no papel desempenhado por alguns veículos que agem como verdadeiros “cães de guarda” de segmentos.

É interessante o reconhecimento por parte de Conboy, nesse artigo, da existência de “polaridades de espectro de jornalismo”. O que vem a ser isso? É o que, em outros autores, conhecemos como nicho. Ele cita George Newnes, editor inglês, que escreveu em 1890, classificando dois modelos de jornais: “um que dirige as notícias para os assuntos das nações e, outro, não tão ambicioso, mas que, ano após ano,  leva diversão e entretenimento para as camadas de trabalhadores”. E esse, parece ser, um problema para Conboy, já que o jornalismo (e seus profissionais), parecem querer apenas o “jornalismo que gera prêmios”, o jornalismo dos grandes veículos, do reconhecimento nacional e internacional e, bem poucos, fazem um jornalismo cultural para as massas.

E onde entra a idéia de “queda livre” anunciada por ele? Justamente na noção de crise. Para ele, a crise no jornalismo, é uma “tentativa tardia de chegar a termos em questões que tem permeado outras construções culturais e políticas ao logo dos últimos 20 anos ou mais”.  Outras áreas do conhecimento, já vivenciam essa indefinição epistemológica desde o início dos anos 1970, estando a comunicação “em crise”, com a chegada do novo modelo midiático com interface virtual, na década de 1990.

Mais do que uma mercadoria que é comprada e vendida a um preço determinado, mais do que notícias que atendam um nicho privilegiado e dominante, o jornalismo (e seus profissionais), tem um responsabilidade social, que deve ser encarada como estratégia de mobilização democrática. Daí, nessa concepção, Conboy afirmar que, blogs e redes sociais, são um caminho inevitável no futuro do jornalismo. É dentro desse “ecossistema midiático”, com suas experiências e vivências múltiplas, que os profissionais do futuro serão formados (ou deformados, dependendo do contexto!).