Tag » competências formativas
Como está o ensino e a investigação em jornalismo em Portugal e na Espanha?
Essa foi a proposta da Jornadas da OBCiber, que foram realizadas nos dias 4 e 5 de dezembro de 2009, com o foco na temática “O jornalismo nos novos media: ensino e investigação”. Participaram diversos professores e profissionais, alguns já conhecidos aqui pelo Brasil, quer por seus trabalhos, quer por partilharem experiências no ensino e na pesquisa.
Entre letras e palavras, constrói-se o jornalismo
Por que é esse posicionamento importante? Javis argumenta que o trabalho do jornalismo no presente assume diversas possibilidades que vão desde a construção de dados e algoritmos, até escrita em colaboração e o crowdsourcing. Todos esses são vistos por ele enquanto processo.
Javis resume bem sua defesa de um jornalismo centrado nos processos e não apenas no produto:
Mas se continuarmos a assumir que o nosso papel é o do contador de histórias, e nos limitar a isso, então corremos o risco de fechar-nos às formas de captação e partilha de informações que não acabem sob a forma de histórias, que não estão organizados dessa forma. Quando nos abrimos, podemos pensar nos jornalistas como catalisadores, como organizadores da comunidade (e não apenas de informação, mas de uma comunidade, com habilidade para organizar as suas próprias informações), como professores, como curadores (como eu poderia passar por isso sem usar a palavra pelo menos uma vez?), como filtros, como fabricantes de ferramentas, como escritores de algoritmos.
Jornalismo, formação e trabalho
[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes. Uma pesquisa realizada com estudantes, após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão. Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.
[...] há “muitos cursos de ‘jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um” debate sério “sobre o futuro do ensino de jornalismo”. Algumas universidades estão olhando apenas para o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos, podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.
Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas não implicam em sucesso, necessariamente.
O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo “apologia ao mercado”, queria poder não depender dele, mas a verdade é “nua e crua”: somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?
Jornalismo, formação e emprego
* Construção do núcleo de competências acadêmicas, como a investigação, o conhecimento conceitual e as habilidades críticas;
* Desenvolver habilidades práticas, tais como a comunicação, pesquisa e produção;
* Desenvolver habilidades criativas;
* Desenvolver habilidades de gerenciamento de projetos;
* Desenvolver habilidades de trabalho em equipe e a capacidade de trabalho por iniciativa;
* Criar uma compreensão crítica dos processos de notícias e relações de poder;
* Fornecer espaço para explorar como o jornalismo ea publicação é, e poderia ser diferente, (particularmente importante quando se está em crise);
* Permitir que as pessoas saibam se eles querem trabalhar na indústria de notícias;
* Permitir que os estudantes compreendam que conseguirão uma graduação em uma área que é desafiadora e gratificante;
* E sim, a formação de pessoas para entrar na indústria de notícias;
* E qualquer indústria que envolve profissionais da comunicação;
Algumas pessoas não são muito boas, algumas pessoas não se esforçam muito, algumas pessoas apenas se “encostam” ao longo do caminho, na lei do menor esforço – não se pode conceber que, em nosso sistema de ensino, sem excluir aqueles que trabalham duro, que são talentosos e dedicado e querem conseguir grandes coisas. Um diploma não é a promessa de uma carreira bonita – é a promessa de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, que é embasado em seu próprio compromisso e capacidade individuais, tanto quanto a dos professores, do pessoal de apoio e das universidades.
Universidade múltipla: visões de Castells
1. A universidade que produz valores e legitimação social, própria da fase em que as escolas teológicas, centravam a atividade universitária;
2. Função de seleção de elites, através da educação e da configuração de sua rede social;3. A universidade formadora de profissionais da própria universidade tecnológica;
4. Função de produção de conhecimento. Castells fala em universidade, científica, função tardia que começou a desenvolver-se na segunda metade do século XIX na Alemanha e, depois, importada pelos EUA no final desse mesmo século;
5. A universidade educadora de massas. A universidade generalista, que estende o direito à educação universitária a todas as pessoas. Os recursos, não crescem proporcionalmente às necessidades projetadas, pelo aumento de alunos. Trata-se, do que Castells, alcunhou como “café para todos, mas descafeinado”.
6. Função empreendedora. A universidade empreendedora gere a ligação entre o mundo empresarial e da produção de conhecimento, que se desenvolve no seu seio. É a encarregada de traçar pontes de relacionamento para que o fluxo de conhecimentos, entre a universidade e a necessidade de desenvolvimento de aplicações e tecnologias da empresa privada seja contínuo, freqüente e de qualidade.
Cumplicidade? Até aonde vai o jornalismo…
Um odor emana do poço jornalístico. É o cheiro da cumplicidade com as agendas das elites empresariais, políticas e plutocráticas. É o cheiro da dependência da rotina de enganadores, da preguiça, da covardia e da arrogância. [...] A mídia dá cobertura a guerras travadas com falsos pretextos e à custa de “aleijões”. A rainha está no quarto, e os “impressores”, ficam na ponta dos pés, de forma educada e distraída, enquanto princípios constitucionais e direitos são desmontados e ridicularizados.
Forte? Talvez um pouco, para os padrões eufemísticos, que a mídia do século XXI parece querer explorar como objeto de desejo. Talvez seja esse um problema desse início de século, de uma lado temos a exploração da imagem dos “miseráveis e pobres” ao extremo e, de outro, a atenuação dos “pecados” dos países ricos, que não medem esforços na hora de invadir um país, como ele chama, um “aleijão”. Não é sem motivo, que ele cite o Afeganistão e o Iraque, como exemplos dessa cultura do eufemismo midiático.
[...] A grande mídia está adormecido ao volante, confortavelmente comunica o mundo través de lentes do poder plutocrático e autoritário. Raramente, eles exibem impetuosidade para a batalha em nome de pessoas comuns, sem levar em conta riqueza, raça, etnia e gênero. Ao invés de dar voz à verdade, eles dão voz ao poder.
Não há futuro para o jornalismo sem jornalistas
É difícil discordar da opinião de que uma combinação de inovação tecnológica, bem como a consolidação de empresas e governos neoliberais, tenha contribuído para a perda de emprego. Alguns argumentam que, o declínio nas fileiras dos jornalistas, como tradicionalmente se definiu, tem sido compensada pelo crescimento de novas formas de jornalismo, principalmente online, incluindo blogs, jornalismo cidadão, ‘I-reporting’, e uma variedade de adaptações a partir de sites de redes sociais. Estes são, reconhecidamente, importantes empreendimentos para se narrar histórias, mas, além de algumas exceções, aqueles contando as histórias não são jornalistas. Eles não são treinados no ofício. Eles não são treinados para recolher e avaliar informações [...] ou corroborar o que eles coletam. Além disso, as novas tecnologias também podem ser usadas para terceirizar o trabalho dos jornalistas profissionais, como a Reuters fez quando mudou, mais ou menos, mil postos de trabalho do Reino Unido para a Índia.
Especificamente, o futuro da saúde do jornalismo, depende da capacidade dos jornalistas se unirem, nacional e internacionalmente, para defender os seus interesses. Eles precisam convencer as pessoas, incluindo políticos, meios de comunicação, proprietários e consumidores de notícias, que o que importa para todos nós, é que os jornalistas funcionam melhor quando são profissionais seguros, e que a diversidade é essencial para a democracia. Mudanças na política do governo, pode ajudar, incluindo a limitação de fusões de mídia, que muitas vezes acontecem ao custo trabalhista, bem como facilitar o processo de criação de sindicatos e, se engajar em negociações coletivas.
Pesquisa no mundo: como vamos de produção?
O clichê básico diz que vamos bem. Mas não é o que mostram estudos realizados fora do Brasil. Em um mapa nada convencional aos padrões visuais que estamos acostumados, o sítio Worldmapper, bolou uma apresentação fora do comum, tendo por base a produção de artigos de pesquisa no mundo.
Diferente? É como seria a visualização, se o critério fosse pesquisa científica. O sítio aponta que
[...] o número de artigos científicos publicados pelos pesquisadores nos Estados Unidos foi três vezes mais do que foram publicados pela segunda maior população de publicação, o Japão. Há mais de investigação científica, ou da publicação dos resultados, nos territórios mais ricos. Este viés de localização, é tal que, cerca de três vezes mais artigos científicos por pessoa, são publicados na Europa Ocidental, América do Norte e do Japão, do que em qualquer outra região.
O comissário europeu para a Ciência e Investigação, Janez Potocnik, deu números concretos sobre a situação [em Portugal]: “em cada mil trabalhadores, apenas cinco são investigadores, nível inferior ao dos Estados Unidos da América, que está próximo dos nove, e ao do Japão, que se aproxima dos 10″.
“Hoje só temos entre cinco a cinco e meio investigadores por mil trabalhadores da população activa, enquanto nas grandes economias que competem com a UE esses números situam-se em cerca de oito”, acrescentou Mariano Gago.
O Brasil foi considerado o pior país em desenvolvimento tecnológico de toda América Latina, no terceiro trimestre de 2006. A constatação é do levantamento “Indicador da Sociedade da Informação”, realizado em parceria com a everis e a escola espanhola de pós-graduação vinculada à Universidade de Navarra (IESE). O estudo analisa o uso da Tecnologia da Informação em setores como educação, estratégias empresarias, oportunidades de negócio e desenvolvimento social. Com 3,93 pontos na avaliação, o Brasil registrou a pior posição no estudo pelo quinto semestre consecutivo. Ainda que tenha tido aumento de 0,7% em relação ao ano anterior, o resultado não é suficiente para que o país deixasse a lanterna do ranking.[...] Na América Latina como um todo, o Indicador da Sociedade da Informação chegou a 4,33 pontos, valor mais elevado registrado nos últimos sete anos. O Chile teve o melhor resultado, ficando com 5,59 pontos, enquanto Argentina e México estão no segundo e no terceiro lugares com 4,52 pontos e 4,31 pontos, respectivamente.
Jornalismo: olhando para o futuro, mas qual?
Para os autores,
A academia não está imune aos encantos sedutores e limitações do futuro. [...] O jornalismo vem com um conjunto contraditório de expectativas. Por um lado, a volatilidade financeira, a diminuição de receitas, as aquisições, a diminuição de audiência, as preocupações com a segurança física [...] Inversamente, espera-se florescer: a informação é abundante e, é mais acessível do que nunca, as variedades de conteúdo e forma, são inigualáveis na história, e há mais pessoas envolvidas do que em qualquer outro ponto no tempo, no jornalismo, sejam produtores e seus consumidores. A tarefa de “auguriar” um futuro vem de encontro a esses conjuntos de conflitantes expectativas sobre a próxima etapa do desenvolvimento do jornalismo.
De qualquer forma, algo apontado pelos autores faz muito sentido no tempo que nos encontramos. Para eles,
Por um lado, projetar o futuro poderia tentar-nos a pensar sobre o que vem com mudanças, como complacência, otimismo e uma renovada fé em tudo o que nós identificamos como notícia. Por outro lado, pode intensificar as nossas preocupações, comprometer as nossas esperanças e deixar-nos saber o que fazer com um fenômeno que tem estado conosco enquanto informação, mas cuja durabilidade não é mais reconhecível ao certo.
É, esss afirmações deixam dúvidas no ar. Qual será o real papel do jornalismo e, desse portador de notícias, o jornalista? (Se é que tem algum definido ou a definir.) Qual sua “identidade”, em um tempo de indefinições e de ausências discursivas, que defendam posicionamentos claros e praticáveis? Não sei as respostas, mas tenho pistas que construo uma a uma, ao caminhar em meus estudos da área.
Dessa forma, ficam as minhas indagações e, as dos autores, sobre isso que nós chamamos de “futuro do jornalismo”:
É apenas a natureza humana a lamentar sobre o presente, de modo a manter-nos em movimento em direção a um futuro meta-orientado por nossas ações? Ou será que estamos focados em um real e relativo conjunto de problemas? [...] É o modelo de notícia europeu que liderará o projeto jornalístico? Pode uma “multiplataforma” jornalística alterar a “paisagem” da notícia? O jornalismo vai salvar-se por meio de uma reorientação para os trabalhadores e os consumidores?
E você, o que acha disso? Deixe suas impressões sobre o que apresentamos. Será útil nessa discussão.















