segunda-feira, 15 de março de 2010

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Ferramentas digitais ao alcance de todos

Já tinha lido o trabalho da jornalista argentina Sandra Crucianelli, que foi disponibilizado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas por ocasião do anúncio, mas tive tempo de disponibilizá-lo somente agora. O material intitulado Ferramentas digitais para jornalistas (em espanhol) é bem interessante. A versão em português, segundo o  Centro Knight ,estará disponível em breve. 
Entre os diversos pontos positivos do livro, encontram-se as discussões sobre a utilização de marcadores sociais, das redes sociais, da web semântica e, uma introdução sobre jornalismo cidadão e novos postos de trabalho, assunto na pauta geral dos cursos de formação.
Por certo, será um livro que figurará nas referências de cursos de formação, principalmente por ser totalmente free.

Como está o ensino e a investigação em jornalismo em Portugal e na Espanha?

Essa foi a proposta da Jornadas da OBCiber, que foram realizadas nos dias 4 e 5 de dezembro de 2009, com o foco na temática “O jornalismo nos novos media: ensino e investigação”. Participaram diversos professores e profissionais, alguns já conhecidos aqui pelo Brasil, quer por seus trabalhos, quer por partilharem experiências no ensino e na pesquisa.

Entre os participantes, duas apresentações julgo essenciais (já que a finalidade do que escrevo aqui no Blog Ensino de Jornalismo e no blog do Gipo é o ensino e a pesquisa): a primeira, do prof. Javier Díaz Noci, da Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona, que apontou para a temática Pesquisa em ciberjornalismo: tendências, e, a segunda proferida pelo Prof. António Granado, da Universidade Nova de Lisboa, intitulada 10 coisas que as universidades precisam fazer para melhorar o ensino do jornalismo.
Caso prefira assistir as apresentações, coloca-as no Blog do Gipo (clique aqui para assistir). Encaro como essenciais para quem está estudando o ensino de jornalismo.

Entre letras e palavras, constrói-se o jornalismo

Letras, palavras, frases, sentenças bem elaboradas… Não faltam possibilidades no fazer jornalístico. Mas achar que esse “fazer” reduz-se apenas a contar uma boa história, é um ledo engano.
O trabalho de escrita jornalística compara-se ao trabalho de historiar. Não é de hoje que digo isso. Já declarei anteriormente que “existe uma linha muito tênue entre história e jornalismo” (Pôrto Jr, Gilson (Org). História do Tempo Presente, Edusc, 2007). O historiador tem seu objeto de cientificidade no tempo passado (não tão distante como normalmente se assume) e, o jornalista, no tempo presente (o ontem, não tão distante, mas também no agora).
É nessa construção passado-presente, que emaram-se palavras, criando histórias de um presente efêmero, que encantam e informam. Mas o trabalho do jornalista e do próprio jornalismo, é mais do que apenas a escrita de uma boa história publicável.  Jeff Javis, que é professor na Universidade de Nova York, aponta para outras possibilidades no trabalho jornalístico. Ele defende o trabalho jornalístico como processo e não apenas como produto

Por que é esse posicionamento importante? Javis argumenta que o trabalho do jornalismo no presente assume diversas possibilidades que vão desde a construção de dados e algoritmos, até escrita em colaboração e o crowdsourcing. Todos esses são vistos por ele enquanto processo.

O contar histórias não. Ele é produto, está acabado. E, nesse aspecto, o escritor de uma história “reinvidica para si o papel de centro da história”, de criador e do “tom” que ele deve assumir. É como ele afirma: “contador de histórias está no controle”.Não é esse o papel do jornalista? Também o é. Mas não deveria ser apenas esse.

Javis resume bem sua defesa de um jornalismo centrado nos processos e não apenas no produto:

Mas se continuarmos a assumir que o nosso papel é o do contador de histórias, e nos limitar a isso, então corremos o risco de fechar-nos às formas de captação e partilha de informações que não acabem sob a forma de histórias, que não estão organizados dessa forma. Quando nos abrimos, podemos pensar nos jornalistas como catalisadores, como organizadores da comunidade (e não apenas de informação, mas de uma comunidade, com habilidade para organizar as suas próprias informações), como professores, como curadores (como eu poderia passar por isso sem usar a palavra pelo menos uma vez?), como filtros, como fabricantes de ferramentas, como escritores de algoritmos.

Penso que essa defesa de Jarvis, indica bem quais os caminhos, ou melhor, que competências e habilidades devem fazer parte de qualquer  processo de formação. É claro que não descartamos a construção de histórias, mas não podemos reduzir o fazer jornalístico a apenas histórias efêmeras, quando temos pela frente um “rio de possibilidades” nesse século que apenas está começando.

Jornalismo, formação e trabalho

Trabalho e emprego. Essas são duas palavras quase mágicas para todo recém-formado. O egresso acostumou-se a viver trabalhando (bicos, free, etc) e, na maioria dos casos, emprego que é bom nada! Essa é uma realidade em todos os campos de formação. A diferenciação entre as duas palavras, nem sempre, é facilmente entendida: trabalho não significa emprego. Com reestruturação do trabalho nos anos 1990, as duas palavras foram descoladas e, hoje, vivenciamos “trabalho” enquanto categoria que não significa necessariamente emprego. Entenda-se aqui emprego, como uma categoria que pressupõe carteira assinada, “direitos” (mesmo que poucos) assegurados, estabilidade, etc.
Lembro-me que, a uns 10 anos atrás já discutia com alunos da graduação a “formação para o desemprego”. Defendia na época, que o mercado modificava-se rapidamente e, a universidade também precisava entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade. Recordo-me que foi uma guerra: fui chamado na coordenação de curso e acusado de “terrorismo”, de fazer fazer alunos desistirem da área, pois alertava os acadêmicos para a possibilidade do desemprego e da necessidade de abertura de novos espaços laborais, sob pena de ficarmos “ultrapassados” para um mercado flutuante e em constante mutação.
O que esse tempo todo mostrou? Que essa é uma certeza inegável: diversas áreas encontram-se em “crise” de identidade, por não atualizarem seu cabedal de conhecimento e suas técnicas e/ou metodologias. Novas habilidades são exigidas diariamente e, nossos acadêmicos, devem ser alertados para as potencialidades de uma mercado em mutação, que exige novas competências a todo instante.
Nessa linha de pensamento, Dina Rickman escreveu uma reflexão bem interessante no Journalism.co.uk, site especializado em jornalismo. Sob o título What does a jobs crisis mean for journalism education?, Rickman alertou para a necessidades dos futuros jornalistas serem informados sobre a “crise de emprego”. Por que esse alerta é importante? Porque tem-se um aumento, segundo ela, de 15,7% ao ano no Reino Unido no ingresso de novos acadêmicos nas faculdades. Esses tem “sonhos” ( como qualquer acadêmico de aparecer na “telinha” ou ser um editor de algum grande jornal), porém encontram a realidade de um mercado saturado.
Segundo Rickman, citando as estatísticas divulgadas pela untistats.com’s,

[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes.  Uma pesquisa realizada com estudantes,  após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão.  Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.

O que pensam os formadores nas universidades? Sara McConnell, que dirige o curso de jornalismo na  Kingston University apontou que

[...] há “muitos cursos de ‘jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um” debate sério “sobre o futuro do ensino de jornalismo”. Algumas universidades estão olhando apenas para  o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos,  podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.

Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas  não implicam em sucesso, necessariamente.

O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo “apologia ao mercado”, queria poder não depender dele, mas a verdade é “nua e crua”: somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?


Jornalismo, formação e emprego

Paul Bradshaw, diretor do curso de jornalismo da Birmingham City University, no Reino Unido, escreveu uma reflexão bem interessante sobre a formação em jornalismo. O artigo escrito para o Online Journalism Blog intitulado Are there too many journalism courses?, apresentou uma série de competências necessárias para a formação do profissional que atua em jornalismo.
Segundo Bradshaw, a diversidade de graus possíveis para a formação em “jornalismo não existem apenas para treinar as pessoas para entrar na indústria de notícias. Esta é a diferença entre “educação” e “formação” ” e, indicou um conjunto de competências/habilidades que são desenvolvidas durante esse percurso:

* Construção do núcleo de competências acadêmicas, como a investigação, o conhecimento conceitual e as habilidades críticas;
* Desenvolver habilidades práticas, tais como a comunicação, pesquisa e produção;
* Desenvolver habilidades criativas;
* Desenvolver habilidades de gerenciamento de projetos;
* Desenvolver habilidades de trabalho em equipe e a capacidade de trabalho por iniciativa;
* Criar uma compreensão crítica dos processos de notícias e relações de poder;
* Fornecer espaço para explorar como o jornalismo ea  publicação é, e poderia ser diferente, (particularmente importante quando se está em crise);
* Permitir que as pessoas saibam se eles querem trabalhar na indústria de notícias;
* Permitir que os estudantes compreendam que conseguirão uma graduação em uma área que é  desafiadora e gratificante;
* E sim, a formação de pessoas para entrar na indústria de notícias;
* E qualquer indústria que envolve profissionais da comunicação;

 Será a formação universitária a chave para o sucesso profissional? Bradshaw afirma que, apesar de todos estudarem jornalismo, nem todos que tem “esperança de ser”, serão, por exemplo, âncoras ou titulares de editoria em grandes jornais (já que essas posições já encontram-se ocupadas), mas é extremamente importante essa formação.  Porquê? Ele afirma:
Algumas pessoas não são muito boas, algumas pessoas não se esforçam muito, algumas pessoas apenas se “encostam” ao longo do caminho,  na lei do menor esforço – não se pode conceber que, em nosso sistema de ensino, sem excluir aqueles que trabalham duro, que são talentosos e dedicado e querem conseguir grandes coisas. Um diploma não é a promessa de uma carreira bonita – é a promessa de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, que  é embasado em seu próprio compromisso e capacidade individuais, tanto quanto a dos professores,  do pessoal de apoio e das universidades.
É, está aqui uma visão bem sóbria da formação universitária! Ela permite “uma oportunidade de desenvolvimento pessoal”, que agregada as competências e habilidades, desenvolvidas ao longo do curso, podem dar valor ao conhecimento adquirido durante todo o processo e permitir uma melhor inserção profissional.

Universidade múltipla: visões de Castells

O Blog Novos Medios.org, destinado a estudos de jornalismo e comunicação, mantido pela Faculdade de Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), disponibilizou um resumo da palestra realizada por Manuel Castells.
Manuel Castells dispensa muitas apresentações. É professor de comunicação e tecnologia em inúmeras universidades européias, além de escritor de diversos livros nessas áreas. Na palestra realizada, Castells discutiu sobre a “universidade na era da informação” e, atribuiu a essa, o papel de “instituição central do mundo em que vivemos”.
Segundo ele, a universidade teve seis funções ao longo da história, conforme citado pelo sítio:

1. A universidade que produz valores e legitimação social, própria da fase em que as escolas teológicas, centravam a atividade universitária;
2. Função de seleção de elites, através da educação e da configuração de sua rede social;

3. A universidade formadora de profissionais da própria universidade tecnológica;
4. Função de produção de conhecimento. Castells fala em universidade, científica, função tardia que começou a desenvolver-se na segunda metade do século XIX na Alemanha e, depois, importada pelos EUA no final desse mesmo século;
5. A universidade educadora de massas. A universidade generalista, que estende o direito à educação universitária a todas as pessoas. Os recursos, não crescem proporcionalmente às necessidades projetadas, pelo aumento de alunos. Trata-se, do que Castells, alcunhou como “café para todos, mas descafeinado”.
6. Função empreendedora. A universidade empreendedora gere a ligação entre o mundo empresarial e da produção de conhecimento, que se desenvolve no seu seio. É a encarregada de traçar pontes de relacionamento para que o fluxo de conhecimentos, entre a universidade e a necessidade de desenvolvimento de aplicações e tecnologias da empresa privada seja contínuo, freqüente e de qualidade.
Poderia uma única universidade abarcar esse “universo” de possibilidades? Para Castells, não. A universidade deveria primar por algumas dessas funções, mas obrigatoriamente, “a excelência deve ser um dos primeiros fins da universidade, junto com a função de serviço público (que não implica, a exclusão das universidades privadas, que tenham também um boa trabalho de serviço ao público) e a necessidade de auto-constituir-se, como espaços com autonomia própria, para servir à sociedade num ambiente de liberdade”, frisa o sítio.
Ao ler essa notícia e as perpesctivas de Castells, não pude deixar de lembrar das leituras que fiz sobre a Universidade, principalmente as propostas de Robert Paul Wolff (O ideal da universidade), Wladimir Kourganoff (A face oculta da universidade), Geraldo Moisés Martins (Universidade federativa autônoma e comunitária), Clark Kerr (Os usos da universidade) e Durmeval Trigueiro Mendes (Ensaios sobre educação e universidade). Em maior ou menor grau, as propostas de Castells passam pelo olhar e discussão desses autores, que frisam a importância da universidade como estrutura basilar de formação humanística e técnica do cidadão.

Cumplicidade? Até aonde vai o jornalismo…

Essa é uma questão espinhosa, para não usar adjetivos constrangedores. Pelo menos, essa é a impressão, quando se lê o texto de Oliver Boyd-Barrett, professor do Departamento de Journalismo da Bowling Green State University, em Ohio (EUA). O artigo intitulado “Contra the journalism of complicity” foi publicado no número especial de junho da revista Journalism.
O texto é marcante, pois o autor não mede “exemplos” para falar do processo de cooptação que parece pairar sobre a mídia. Logo no início do artigo, Boyd-Barrett, de forma “poética”, que me fez lembrar das aulas de Teoria Marxista, afirmou:

Um odor emana do poço jornalístico. É o cheiro da cumplicidade com as agendas das elites empresariais, políticas e plutocráticas. É o cheiro da dependência da rotina de enganadores, da preguiça, da covardia e da arrogância. [...] A mídia dá cobertura a guerras travadas com falsos pretextos e à custa de “aleijões”. A rainha está no quarto, e os “impressores”, ficam na ponta dos pés, de forma educada e distraída, enquanto princípios constitucionais e direitos são desmontados e ridicularizados.

Forte? Talvez um pouco, para os padrões eufemísticos, que a mídia do século XXI parece querer explorar como objeto de desejo. Talvez seja esse um problema desse início de século, de uma lado temos a exploração da imagem dos “miseráveis e pobres” ao extremo e, de outro, a atenuação dos “pecados” dos países ricos, que não medem esforços na hora de invadir um país, como ele chama, um “aleijão”. Não é sem motivo, que ele cite o Afeganistão e o Iraque, como exemplos dessa cultura do eufemismo midiático.

Mas ele não pára aí. Ele dá mais ênfase a essa cooptção da mídia e da reificação dos países ricos:
[...] A grande mídia está adormecido ao volante, confortavelmente comunica o mundo  través de lentes do poder plutocrático e autoritário. Raramente, eles exibem impetuosidade para a batalha em nome de pessoas comuns, sem levar em conta riqueza, raça, etnia e gênero. Ao invés de dar voz à verdade, eles dão voz ao poder.
É, Boyd-Barrett não mediu palavras, ao indicar que a mídia, muitas vezes, tem sido porta-voz do poder. A outra comparação feita no texto, que dá muito em que pensar, é a da mídia como apenas observadora, inerte. Ele diz que a mídia é como uma “soldado em um cavalo, com sabre reluzente, farda bonita e ,que cavalga, entre centenas de milhares, milhões de cadáveres de homens, mulheres e crianças”, mas que não se compadece, já que de forma cúmplice, apenas tem como “missão observar a carnificina, não expor o esquema de guerra”. “Essa é a imprensa moderna, que é cúmplice na invasão do Iraque, assim como foi no Vietnã”, reforça Boyd-Barrett.
Não há como dizer, que o discurso está ultrapassado ou mesmo, que é parcial. Penso que não há imparcialidade quando vidas foram destruídas e a mídia silenciou. Posso não concordar com todo o discurso, mas não há como negar que, nesse campo, a mídia deixou a desejar nesse início de século. E continua, quando deixa de discutir esses temas, de uma história que está sendo construída todos os dias.

Não há futuro para o jornalismo sem jornalistas

Essa é a premissa defendida por Vincent Mosco, professor da Queen’s University do Canadá, no artigo “The future of journalism“, publicado no número especial de junho da revista Journalism. Mosco aponta para a “crise” que a área vive, sobretudo na manutenção dos postos de trabalho.
Para exemplificar isso, ele aponta para o estudo realizado pela American Society of Newspaper Editors (ASNE), que constata que no ano de 2007, houve uma queda de 4,4% no número de jornalistas em redações, o que significa menos 2400 profissionais empregados.
O movimento de crise foi também seguido, segundo Mosco, pela maior editora de jornais nos Estados Unidos, a Gannett, que anunciou a demissão de 3000 pessoas (10% de sua força de trabalho); o Times Inc., empresa responsável pelas revistas Time, People, Sports Ilustrated e Fortune, cortou 600 postos de trabalho; o Christian Science Monitor, jornal diário que existia a mais de uma século, anunciou que iria descontinuar a impressão; o Tribune Company, que após sucessivos cortes de equipe, anunciou o fechamento de mais 75 postos de trabalho na redação do Los Angeles Times, ficando com metade da equipe que tinha em 2001 e, mesmo o New York Times, que havia demitido membros da equipe de redação. Não é sem motivo, que em meio a essa “maré” de demissões, um colunista tenha dito, conforme parafraseado por Mosco, que o “céu está caindo e é difícil saber quantos serão deixados para cobrir a história”.
O que pensa concretamente Mosco dessa situação? Ele afirma que:

É difícil discordar da opinião de que uma combinação de inovação tecnológica, bem como a consolidação de empresas e governos neoliberais, tenha contribuído para a perda de emprego. Alguns argumentam que, o declínio nas fileiras dos  jornalistas, como tradicionalmente se definiu, tem sido compensada pelo crescimento de novas  formas de jornalismo, principalmente online, incluindo blogs, jornalismo cidadão, ‘I-reporting’, e uma variedade de adaptações a partir de sites de redes sociais. Estes  são, reconhecidamente, importantes empreendimentos para se narrar histórias, mas, além de algumas exceções, aqueles contando as histórias não são jornalistas. Eles não são treinados no ofício. Eles não são treinados para recolher e avaliar informações [...] ou corroborar o que eles coletam. Além disso, as novas tecnologias também podem ser usadas para terceirizar o trabalho dos jornalistas profissionais, como a Reuters fez quando mudou, mais ou menos, mil postos de trabalho do Reino Unido para a Índia.

O argumento tem lógica. A lógica do capitalismo e do lucro, que obviamente, em tempos de crise, procura meios de estabilizar e aumentar seus lucros. É claro que, aquele jornalista que perdeu seu emprego para um  “modelo de negócios baseado na internet” – que muitas vezes é o discurso enfatizado na hora da demissão – tenha inúmeras resistências ao jornalismo on-line, aos blogs ou mesmo ao jornalismo cidadão.

E qual é o futuro vislumbrado por Mosco? Para ele,

Especificamente, o futuro da saúde do jornalismo, depende da capacidade dos jornalistas se unirem, nacional e internacionalmente, para defender os seus interesses. Eles precisam convencer as pessoas, incluindo políticos, meios de comunicação, proprietários e consumidores de notícias, que o que importa para todos nós, é que os jornalistas funcionam melhor quando são profissionais seguros, e que a diversidade é essencial para a democracia. Mudanças na política do governo, pode ajudar, incluindo a limitação de fusões de mídia, que muitas vezes acontecem ao custo trabalhista, bem como facilitar o processo de criação de sindicatos e, se engajar em negociações coletivas.


Essa união dos trabalhadores da comunicação, é o que ele chama de “convergência de trabalho” (labor convergence) e, se fortaleceria, na medida em que “novas formas de organização dos trabalhadores se assemelhem a movimentos sociais”. É claro que Mosco reconhece que isso, por si só, não garante sucesso, mas a retomada das “raízes da profissão”, para reaquecer a organização dos profissioinais, pode ser um caminho.

Pesquisa no mundo: como vamos de produção?

O clichê básico diz que vamos bem. Mas não é o que mostram estudos realizados fora do Brasil. Em um mapa nada convencional aos padrões visuais que estamos acostumados, o sítio Worldmapper, bolou uma apresentação fora do comum, tendo por base a produção de artigos de pesquisa no mundo.

Os dados utilizados são de 2001, com base em artigos científicos que abrangem as grandes áreas da física, biologia, química, matemática, medicina clínica, pesquisa biomédica, engenharia, tecnologia e ciências da terra e do espaço. Ele está reproduzido a seguir:

Diferente? É como seria a visualização, se o critério fosse pesquisa científica. O sítio aponta que

[...] o número de artigos científicos publicados pelos pesquisadores nos Estados Unidos foi três vezes mais do que foram publicados pela segunda maior população de publicação, o Japão. Há mais de investigação científica, ou da publicação dos resultados, nos territórios mais ricos. Este viés de localização, é tal que, cerca de três vezes mais artigos científicos por pessoa, são publicados na Europa Ocidental, América do Norte e do Japão, do que em qualquer outra região.
Assustador?  Mais do que isso: é uma constatação visual de que engatinhamos na produção científica. Se pensarmos no continente africano, a situação ainda é pior.  Como andam as produções aqui no Brasil? Uma consulta rápida ao portal do CNPq mostra:
Os dados revelam um esforço das áreas na produção de conhecimento. Mas ainda é pouco se comparado com outros países. E a razão fica muitas vezes pela falta de visão da importância dos pesquisadores. Por exemplo, em uma matéria publicada na revista Ciência Hoje, de Portugal, afirmou que “a Europa precisa de mais meio milhão de investigadores”. E acrescentou um dado importante:

O comissário europeu para a Ciência e Investigação, Janez Potocnik, deu números concretos sobre a situação [em Portugal]: “em cada mil trabalhadores, apenas cinco são investigadores, nível inferior ao dos Estados Unidos da América, que está próximo dos nove, e ao do Japão, que se aproxima dos 10″.

“Hoje só temos entre cinco a cinco e meio investigadores por mil trabalhadores da população activa, enquanto nas grandes economias que competem com a UE esses números situam-se em cerca de oito”, acrescentou Mariano Gago. 

E aqui no Brasil? Qual a nossa proporção de pesquisadores por habitante? Não consegui acessar um informação mais concreta, para indicar números. Se alguém souber como fazer isso, por favor, indique nos comentários. Mas, colhendo informações na web, encontrei uma pista no Jornal da Propriedade Intelectual, que apresentou dados de 2006-7:
O Brasil foi considerado o pior país em desenvolvimento tecnológico de toda América Latina, no terceiro trimestre de 2006. A constatação é do levantamento “Indicador da Sociedade da Informação”, realizado em parceria com a everis e a escola espanhola de pós-graduação vinculada à Universidade de Navarra (IESE). O estudo analisa o uso da Tecnologia da Informação em setores como educação, estratégias empresarias, oportunidades de negócio e desenvolvimento social. Com 3,93 pontos na avaliação, o Brasil registrou a pior posição no estudo pelo quinto semestre consecutivo.  Ainda que tenha tido aumento de 0,7% em relação ao ano anterior, o resultado não é suficiente para que o país deixasse a lanterna do ranking.

[...] Na América Latina como um todo, o Indicador da Sociedade da Informação chegou a 4,33 pontos, valor mais elevado registrado nos últimos sete anos. O Chile teve o melhor resultado, ficando com 5,59 pontos, enquanto Argentina e México estão no segundo e no terceiro lugares com 4,52 pontos e 4,31 pontos, respectivamente.

 É claro que, esses dados não se referem exclusivamente a pesquisa científica e, nem nós ousaríamos querer comparar dados estatísticos de fontes e metodologias diferenciadas. Mas, de forma ilustrativa, esses dados causam preocupação e indefinições sobre o futuro tecnológico e científico do Brasil, no contexto da América Latina e no mundo.

Jornalismo: olhando para o futuro, mas qual?

Howard Tumber, professor da  City of London University, no Reino Unido e, Barbie Zelizer, professora da University of Pennsylvania, nos Estados Unidos, exercitaram a difícil tarefa de pensar, em poucas linhas, sobre o futuro do jornalismo. No editorial da revista Journalism, intitulado “Special 10th anniversary issue – the future of journalism“, apresentaram uma visão ponderada, para não dizer filosófica, da idéia do futuro do jornalismo.
Falando sobre a problemática da idéia de futuro, os professores apontaram para a influência que o futuro tem sobre o presente. Como assim? Bem, a idéia dos autores é que em práticas jornalísticas amplas, tais como a previsão do clima, a projeção de risco de um determinado evento ou mesmo em uma notícia sobre a aplicação da Lei, o futuro tem relevância na forma como nos envolvemos com o presente. Dito de outro forma: o presente é modificado pela previsões futuras do que pode vir a ser, mas ainda não o é.

Para os autores,

A academia não está imune aos encantos sedutores e limitações do futuro. [...] O jornalismo vem com um conjunto contraditório de expectativas. Por um lado, a volatilidade financeira, a diminuição de receitas, as aquisições, a diminuição de audiência, as preocupações com a segurança física [...] Inversamente, espera-se florescer: a informação é abundante e, é mais acessível do que nunca, as variedades de conteúdo e forma, são inigualáveis na história, e há mais pessoas envolvidas do que em qualquer outro ponto no tempo, no jornalismo, sejam produtores e seus consumidores. A tarefa de “auguriar” um futuro vem de encontro a esses conjuntos de conflitantes expectativas sobre a próxima etapa do desenvolvimento do jornalismo.

Na antiga Roma, nada era feito sem a aprovação dos áugures e dos presságios que esses tinham a trazer. O futuro era “portado” por alguém que trazia as notícias do “portão celeste dos deuses” e as decifravam aos meros mortais. Será que o jornalista assume uma função semelhante? Não me arrisco a dizer que sim, mas pela fala dos autores, não tenho como não lembrar desse evento e da função desempenhada pelo portadores da notícia.

De qualquer forma, algo apontado pelos autores faz muito sentido no tempo que nos encontramos. Para eles,

Por um lado, projetar o futuro poderia tentar-nos a pensar sobre o que vem com mudanças, como complacência, otimismo e uma renovada fé em tudo o que nós identificamos como notícia. Por outro lado, pode intensificar as nossas preocupações, comprometer as nossas esperanças e deixar-nos saber o que fazer com um fenômeno que tem estado conosco enquanto informação, mas cuja durabilidade não é mais reconhecível ao certo.

É, esss afirmações deixam dúvidas no ar. Qual será o real papel do jornalismo e, desse portador de notícias, o jornalista? (Se é que tem algum definido ou a definir.) Qual sua “identidade”, em um tempo de indefinições e de ausências discursivas, que defendam posicionamentos claros e praticáveis? Não sei as respostas, mas tenho pistas que construo uma a uma, ao caminhar em meus estudos da área.

Dessa forma, ficam as minhas indagações e, as dos autores, sobre isso que nós chamamos de “futuro do jornalismo”:

É apenas a natureza humana a lamentar sobre o presente, de modo a manter-nos em movimento em direção a um futuro meta-orientado por nossas ações? Ou será que estamos focados em um real e relativo conjunto de problemas? [...] É o modelo de notícia europeu que liderará o projeto jornalístico? Pode uma “multiplataforma” jornalística alterar a “paisagem” da notícia? O jornalismo vai salvar-se por meio de uma reorientação para os trabalhadores e os consumidores? 

E você, o que acha disso? Deixe suas impressões sobre o que apresentamos. Será útil nessa discussão.