terça-feira, 16 de março de 2010

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Como está o ensino e a investigação em jornalismo em Portugal e na Espanha?

Essa foi a proposta da Jornadas da OBCiber, que foram realizadas nos dias 4 e 5 de dezembro de 2009, com o foco na temática “O jornalismo nos novos media: ensino e investigação”. Participaram diversos professores e profissionais, alguns já conhecidos aqui pelo Brasil, quer por seus trabalhos, quer por partilharem experiências no ensino e na pesquisa.

Entre os participantes, duas apresentações julgo essenciais (já que a finalidade do que escrevo aqui no Blog Ensino de Jornalismo e no blog do Gipo é o ensino e a pesquisa): a primeira, do prof. Javier Díaz Noci, da Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona, que apontou para a temática Pesquisa em ciberjornalismo: tendências, e, a segunda proferida pelo Prof. António Granado, da Universidade Nova de Lisboa, intitulada 10 coisas que as universidades precisam fazer para melhorar o ensino do jornalismo.
Caso prefira assistir as apresentações, coloca-as no Blog do Gipo (clique aqui para assistir). Encaro como essenciais para quem está estudando o ensino de jornalismo.

Entre letras e palavras, constrói-se o jornalismo

Letras, palavras, frases, sentenças bem elaboradas… Não faltam possibilidades no fazer jornalístico. Mas achar que esse “fazer” reduz-se apenas a contar uma boa história, é um ledo engano.
O trabalho de escrita jornalística compara-se ao trabalho de historiar. Não é de hoje que digo isso. Já declarei anteriormente que “existe uma linha muito tênue entre história e jornalismo” (Pôrto Jr, Gilson (Org). História do Tempo Presente, Edusc, 2007). O historiador tem seu objeto de cientificidade no tempo passado (não tão distante como normalmente se assume) e, o jornalista, no tempo presente (o ontem, não tão distante, mas também no agora).
É nessa construção passado-presente, que emaram-se palavras, criando histórias de um presente efêmero, que encantam e informam. Mas o trabalho do jornalista e do próprio jornalismo, é mais do que apenas a escrita de uma boa história publicável.  Jeff Javis, que é professor na Universidade de Nova York, aponta para outras possibilidades no trabalho jornalístico. Ele defende o trabalho jornalístico como processo e não apenas como produto

Por que é esse posicionamento importante? Javis argumenta que o trabalho do jornalismo no presente assume diversas possibilidades que vão desde a construção de dados e algoritmos, até escrita em colaboração e o crowdsourcing. Todos esses são vistos por ele enquanto processo.

O contar histórias não. Ele é produto, está acabado. E, nesse aspecto, o escritor de uma história “reinvidica para si o papel de centro da história”, de criador e do “tom” que ele deve assumir. É como ele afirma: “contador de histórias está no controle”.Não é esse o papel do jornalista? Também o é. Mas não deveria ser apenas esse.

Javis resume bem sua defesa de um jornalismo centrado nos processos e não apenas no produto:

Mas se continuarmos a assumir que o nosso papel é o do contador de histórias, e nos limitar a isso, então corremos o risco de fechar-nos às formas de captação e partilha de informações que não acabem sob a forma de histórias, que não estão organizados dessa forma. Quando nos abrimos, podemos pensar nos jornalistas como catalisadores, como organizadores da comunidade (e não apenas de informação, mas de uma comunidade, com habilidade para organizar as suas próprias informações), como professores, como curadores (como eu poderia passar por isso sem usar a palavra pelo menos uma vez?), como filtros, como fabricantes de ferramentas, como escritores de algoritmos.

Penso que essa defesa de Jarvis, indica bem quais os caminhos, ou melhor, que competências e habilidades devem fazer parte de qualquer  processo de formação. É claro que não descartamos a construção de histórias, mas não podemos reduzir o fazer jornalístico a apenas histórias efêmeras, quando temos pela frente um “rio de possibilidades” nesse século que apenas está começando.

Jornalismo, formação e emprego

Paul Bradshaw, diretor do curso de jornalismo da Birmingham City University, no Reino Unido, escreveu uma reflexão bem interessante sobre a formação em jornalismo. O artigo escrito para o Online Journalism Blog intitulado Are there too many journalism courses?, apresentou uma série de competências necessárias para a formação do profissional que atua em jornalismo.
Segundo Bradshaw, a diversidade de graus possíveis para a formação em “jornalismo não existem apenas para treinar as pessoas para entrar na indústria de notícias. Esta é a diferença entre “educação” e “formação” ” e, indicou um conjunto de competências/habilidades que são desenvolvidas durante esse percurso:

* Construção do núcleo de competências acadêmicas, como a investigação, o conhecimento conceitual e as habilidades críticas;
* Desenvolver habilidades práticas, tais como a comunicação, pesquisa e produção;
* Desenvolver habilidades criativas;
* Desenvolver habilidades de gerenciamento de projetos;
* Desenvolver habilidades de trabalho em equipe e a capacidade de trabalho por iniciativa;
* Criar uma compreensão crítica dos processos de notícias e relações de poder;
* Fornecer espaço para explorar como o jornalismo ea  publicação é, e poderia ser diferente, (particularmente importante quando se está em crise);
* Permitir que as pessoas saibam se eles querem trabalhar na indústria de notícias;
* Permitir que os estudantes compreendam que conseguirão uma graduação em uma área que é  desafiadora e gratificante;
* E sim, a formação de pessoas para entrar na indústria de notícias;
* E qualquer indústria que envolve profissionais da comunicação;

 Será a formação universitária a chave para o sucesso profissional? Bradshaw afirma que, apesar de todos estudarem jornalismo, nem todos que tem “esperança de ser”, serão, por exemplo, âncoras ou titulares de editoria em grandes jornais (já que essas posições já encontram-se ocupadas), mas é extremamente importante essa formação.  Porquê? Ele afirma:
Algumas pessoas não são muito boas, algumas pessoas não se esforçam muito, algumas pessoas apenas se “encostam” ao longo do caminho,  na lei do menor esforço – não se pode conceber que, em nosso sistema de ensino, sem excluir aqueles que trabalham duro, que são talentosos e dedicado e querem conseguir grandes coisas. Um diploma não é a promessa de uma carreira bonita – é a promessa de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, que  é embasado em seu próprio compromisso e capacidade individuais, tanto quanto a dos professores,  do pessoal de apoio e das universidades.
É, está aqui uma visão bem sóbria da formação universitária! Ela permite “uma oportunidade de desenvolvimento pessoal”, que agregada as competências e habilidades, desenvolvidas ao longo do curso, podem dar valor ao conhecimento adquirido durante todo o processo e permitir uma melhor inserção profissional.

Objetividade atrapalha o trabalho jornalístico?

Desde cedo na formação dos jornalistas, a palavra “objetividade” torna-se parte do seu vocabulário central. Espera-se, que essa competência, seja “ensinada” e desenvolvida durante todo o processo formativo. Mas o que é essa objetividade? Defende-se (e, com isso, esforçamo-nos a ensinar), que o trabalho do jornalista deve ser isento, neutro, como condição de legitimidade da prática jornalística.

Que habilidades são exigidas nesse processo de objetividade? Podemos indicar algumas: uma linguagem simplificada, a construção em terceira pessoa do texto, imparcialidade e um registro fidedigno dos diálogos. Essas habilidades, permitem ao jornalista, a realização de um recorte do “real”, construindo a sua “realidade”, que posteriormente, é partilhada com os leitores. Esses, por sua vez, exercitam sua própria leitura.
Temos nisso um problema: a objetividade repousa sobre a linguagem. De um lado, temos o jornalista, que constrói seu olhar sobre o fato e, do outro lado, temos o leitor que interage com o texto e, nessa tecitura, cria, transforma, destrói e reconstrói sua(s) leitura(s). Essa leitura (que não é mais “a leitura”), desenvolve-se em “maneiras de ler” o mundo a nossa volta. O sujeito – quer o falante, quer o leitor – lança seu olhar, que de nenhuma forma consegue ser neutro. A leitura do signo é sempre ímpar e, a ação compreensiva, uma experiência única, que teimamos em achar que pode ser reproduzida, ipsis literis, de um leitor a outro.

Vamos agregar mais um ingrediente: a presença do editor. Esse tem um papel de intermediar o processo de construção da informação. Na verdade, esse pré-leitor qualificado, exerce o papel de consolidar o “pacto de leitura”, que a área da comunicação tem com as demais áreas do conhecimento. Espera-se, que a notícia produzida, atenda ao critério da objetividade para ser publicada/veiculada.

E aqui o “caldo fica mais grosso”, quando o editor faz o recorte na narração produzida, que obviamente não é e, dificilmente será, objetiva. O editor assume para si toda a carga ideológica, que faz parte do processo de escolha de qual tipo de escrita será ou não aceita.

E como está o panorama de atuação desse profissional? Craig Newmark, escreveu para o The Huffington Post, sobre a crise da “curadoria de notícias”. No artigo intitulado A nerd’s take on the future of news media, Newmark critica a atuação, ou melhor, a falta de atuação dessas “curadorias” no processo da notícia e, aproveita o espaço, para criticar a objetividade jornalística. Para ele, a objetividade que é praticada, por apenas se ouvir as partes e suas justificativas, não é um agregador de valor. Ao contrário, seria um motivo para  perda de credibilidade.

Será que ele vislumbra algum caminho para a ação jornalística no futuro? É claro que sim. Para ele, o futuro está na criação de modelos mais híbridos, com a presença de outros atores nesse processo de edição, onde a “transparência é a nova objetividade” e o “[...] futuro das organizações jornalísticas será determinado pelas tendências emergentes que já são visíveis”.


Esperança? É possível pensar em um futuro para o jornalismo?

Quando a palavra “esperança” é usada, parece remeter a idéia de alcançar algo que está ainda muito distante de nós, mas que é extremamente necessário. Usando um dicionário de língua portuguesa (ou será brasileira?), a idéia é associada a “espera de algo que se deseja que aconteça”.

Podemos chamar “esperança” de utopia, isto é, aquilo que está em um tempo futuro (um amanhã incerto), ainda distante do presente (hoje, concreto), mas que pode ser alcançado. Um autor interessante, nesse sentido, é Ernest Bloch, que discute a utopia (esperança). Antonio Rufino Veira, professor do Departamento de Filosofia da UFPB, resume bem a idéia do pensamento de Bloch:

Segundo a linha de reflexão de Bloch, a utopia não é algo fantasioso, simples produto da imaginação, mas possui uma base real, com funções abertas à reestruturação da sociedade, obrigando a militância do sujeito, engajado em mudanças concretas, visando à nova sociedade. Assim, a utopia se torna viável à medida que possui o explícito desejo de ser realizada coletivamente.
Todos nós, obviamente, queremos muito que o jornalismo saia da possível “crise” de identidade ou, pelo menos, amadureça o suficiente, para assumir uma identidade mais próxima das demandas do século XXI que se inicia.
Porém, aguardamos “esperançosamente” que isso aconteça, quase de forma “miraculosa”. Isso não acontecerá. A(s) mudança(s) na identidade do jornalismo e de seu profissional, são desencadeadas por nossa discussão qualificada sobre a área e o fazer profissional. Apesar de termos “esperança” de um futuro para o jornalismo, não cabe ficarmos esperando, cabe ação; a espera é importante em um processo de conhecimento e elaboração de idéias. Mas até quando o jornalismo (e o jornalista) ficará esperando? Basta delegar para outro (ou a outros), o poder decisório sobre que identidade profissional queremos, ou que realmente necessitamos, em nosso espaço laboral?
O futuro do jornalismo, não pode ser “escrito” com tintas abstratas de uma esperança de mudança. Ele precisa ser escrito na concretude do hoje, mesmo que com dificuldade interpretativa e discursiva. Essa construção do “hoje jornalístico” é essencial para a estruturação da identidade profissional e dos processos formativos envolvidos.
Bloch, de base marxista, entendia que a “militância” e o “engajamento” eram palavras que necessitavam de um complemento, isto é, eram palavras que isoladas da ação coletiva, não significavam muito em termos práticos. Dessa forma, apesar de termos “esperança” nas mudanças que o jornalismo deve passar, não cabe aguardarmos que alguém faça as mudanças necessárias. Não podemos nos dar ao luxo, como área de conhecimento, de deixarmos o futuro ser construído por fatalidades ou acasos, mas temos de “tomar as rédeas” desse presente concreto e do futuro incerto.
Nós somos parte desse processo. Na verdade, podemos desencadeá-lo em nossas práticas diárias e nas reflexões sobre nosso fazer, desde que compreendamos e tomemos consciência que estamos dentro desse processo.

Jornalismo: olhando para o futuro, mas qual?

Howard Tumber, professor da  City of London University, no Reino Unido e, Barbie Zelizer, professora da University of Pennsylvania, nos Estados Unidos, exercitaram a difícil tarefa de pensar, em poucas linhas, sobre o futuro do jornalismo. No editorial da revista Journalism, intitulado “Special 10th anniversary issue – the future of journalism“, apresentaram uma visão ponderada, para não dizer filosófica, da idéia do futuro do jornalismo.
Falando sobre a problemática da idéia de futuro, os professores apontaram para a influência que o futuro tem sobre o presente. Como assim? Bem, a idéia dos autores é que em práticas jornalísticas amplas, tais como a previsão do clima, a projeção de risco de um determinado evento ou mesmo em uma notícia sobre a aplicação da Lei, o futuro tem relevância na forma como nos envolvemos com o presente. Dito de outro forma: o presente é modificado pela previsões futuras do que pode vir a ser, mas ainda não o é.

Para os autores,

A academia não está imune aos encantos sedutores e limitações do futuro. [...] O jornalismo vem com um conjunto contraditório de expectativas. Por um lado, a volatilidade financeira, a diminuição de receitas, as aquisições, a diminuição de audiência, as preocupações com a segurança física [...] Inversamente, espera-se florescer: a informação é abundante e, é mais acessível do que nunca, as variedades de conteúdo e forma, são inigualáveis na história, e há mais pessoas envolvidas do que em qualquer outro ponto no tempo, no jornalismo, sejam produtores e seus consumidores. A tarefa de “auguriar” um futuro vem de encontro a esses conjuntos de conflitantes expectativas sobre a próxima etapa do desenvolvimento do jornalismo.

Na antiga Roma, nada era feito sem a aprovação dos áugures e dos presságios que esses tinham a trazer. O futuro era “portado” por alguém que trazia as notícias do “portão celeste dos deuses” e as decifravam aos meros mortais. Será que o jornalista assume uma função semelhante? Não me arrisco a dizer que sim, mas pela fala dos autores, não tenho como não lembrar desse evento e da função desempenhada pelo portadores da notícia.

De qualquer forma, algo apontado pelos autores faz muito sentido no tempo que nos encontramos. Para eles,

Por um lado, projetar o futuro poderia tentar-nos a pensar sobre o que vem com mudanças, como complacência, otimismo e uma renovada fé em tudo o que nós identificamos como notícia. Por outro lado, pode intensificar as nossas preocupações, comprometer as nossas esperanças e deixar-nos saber o que fazer com um fenômeno que tem estado conosco enquanto informação, mas cuja durabilidade não é mais reconhecível ao certo.

É, esss afirmações deixam dúvidas no ar. Qual será o real papel do jornalismo e, desse portador de notícias, o jornalista? (Se é que tem algum definido ou a definir.) Qual sua “identidade”, em um tempo de indefinições e de ausências discursivas, que defendam posicionamentos claros e praticáveis? Não sei as respostas, mas tenho pistas que construo uma a uma, ao caminhar em meus estudos da área.

Dessa forma, ficam as minhas indagações e, as dos autores, sobre isso que nós chamamos de “futuro do jornalismo”:

É apenas a natureza humana a lamentar sobre o presente, de modo a manter-nos em movimento em direção a um futuro meta-orientado por nossas ações? Ou será que estamos focados em um real e relativo conjunto de problemas? [...] É o modelo de notícia europeu que liderará o projeto jornalístico? Pode uma “multiplataforma” jornalística alterar a “paisagem” da notícia? O jornalismo vai salvar-se por meio de uma reorientação para os trabalhadores e os consumidores? 

E você, o que acha disso? Deixe suas impressões sobre o que apresentamos. Será útil nessa discussão.


Competências de um jornalista

David Brewer, jornalista com mais de 30 anos de experiência na área profissional, tendo trabalhado na BBC News Online, CNN.com Europe, Middle East and Africa, CNNArabic.com e Al Jazeera English, partilhou alguns “segredos” de profissão no Media Helping Media (MHM).
Essas dicas, são competências diversas que o jornalista deve desenvolver durante seu processo formativo inicial, em atividade enquanto profissional e ao longo de toda a vida. Veja as 50 dicas:

    1. Ser jornalista é uma vocação, não um trabalho;
    2. Você nasceu com um senso de notícias, esse não pode ser ensinado;
    3. Seu dever é o de fiscalizar o executivo, sendo uma tocha que brilha em locais escuros;
    4. Todos devem ser jornalistas investigativos;
    5. Você está de plantão 24 horas por dia x 7 dias por semana;
    6. Não espere que as histórias lhe sejam dadas, seu trabalho é encontrá-las;
    7. Seu trabalho é fazer perguntas, informações de pesquisa e descobrir fatos e, em seguida,  entregar esses fatos para o público da forma mais eficaz;
    8. Viva a sua vida pela regra de que “se não fosse por você, o mundo nunca teria conhecido’;     9. Trabalhar sempre na sua própria investigação e chegar a algo original;
   10. Não viva a ‘vida por um fio’;
   11. Não seja competitivo, tendo sempre o objetivo de estar à frente, encontrando suas próprias histórias e ângulos;
   12. Sempre verifique outras histórias, pois pode haver uma notícia melhor (perda de emprego ou más notícias), que podem ser de maior interesse para o público;
   13. Transmita informações e publique para o seu público, não para sua própria glória ou a aprovação dos seus pares;
   14. Cuide, nutra e alimente os contatos;
    15. Aplique o mesmo rigor jornalístico para aqueles com quem você concorda;
   16. Você não tem favoritos;
   17. Não faça negócios;
   18. Não aceite presentes, esses geralmente acabam um dia em sua porta;
   19. Não faça exceções;
   20. Respeite a privacidade;
   21. Tome notas e mantenha-as seguras;
   22. Olhe para atrás de você, quando estiver refazendo os passos;
   23. Conheça os fatos;
   24. Conheça os seus limites;
   25. Verifique e, verifique novamente;
   26. Tenha cuidado com o pensamento, principalmente o que escreveu e o que você acha que escreveu;
   27. Sempre obtenha uma segunda opinião para verificar a  sua escrita, mesmo que essa pessoa não seja um jornalista;
   28. Resista à pressão de trabalho de fazer uma boa introdução ou um título sensacionalista, se a história é ruim em outras partes;
   29. Deixe uma nota ao sair disfarçado, só para o caso de…;
   30. Mantenha um diário de histórias cobertas e acompanhamentos, em média por três meses, se a história valer a pena, é provavelmente que valha a pena acompanhar; 
   31. Manter cópias de todos os e-mails, textos, datas de telefonemas e não se esqueça nunca de utilizar um notebook quando estiver a distância;
  32. Confie nos seus instintos quando pesquisando, mas atenha-se aos fatos quanto a transmissão ou a publicação; 
   33. Verifique nas ruas “quando houver um incêndio na rua principal”; 
   34. Perceba que um político sempre terá um script preparado;
   35. Preste atenção naqueles que gostariam de vê-lo comprometido;
   36. Faça um acordo com seus próprios motivos, gostos, desgostos, sentimentos, crenças; eles não devem ter impacto na prestação de um jornalismo equilibrado, imparcial e objetivo;
   37. Não coloque entrevistados em perigo;
   38. Respeite a propriedade intelectual, mesmo quando partir de um comentário de conteúdo gerado pelo usuário e sempre reconhece-o; 
   39. Nunca use “terá que esperar e ver” ou “o tempo vai dizer,” se você não sabe como a história vai acabar; 
   40. Nunca diga “a vítima não foi identificada’, pois ela tem identificação desde o nascimento; o que se quer dizer é “a polícia não disponibilizou o nome da vítima”;
   41. Mais do que = quantidade, mas = sobre; 
   42. Não use palavras longas quando palavras curtas terão melhor resultado;
   43. Evite cláusulas que podem complicar e obscurecer as informações que você está tentando transmitir;
   44. Transmita uma sensação de urgência, apenas quando é conveniente, mas seja honesto e não inflacione a importância, se a notícia não merecer;
   45. Nunca “adoçar” uma notícia com respeito, se não for devido; 
   46. As pessoas nunca são evacuadas de edifícios, mas intestinos são evacuados;
   47. Seja sensível ao bater na porta das vítimas, algumas vão querer convidá-lo para uma xícara de chá, mostrar fotos da família e, outros irão soltar os cachorros em você;
   48. Os boatos são úteis como visualizadores (heads-up) de uma história em potencial, mas eles não são notícia até que sejam verificadas;
   49. Seja profundo e garanta que o seu trabalho está no local, mas não tome tempo  demais polindo a notícia, existem pessoas lá fora que precisam saber sobre os fatos que você descobriu;
   50. Sempre garanta a sua volta (compre uma bebida no bar).

Boas? Algumas são importantes, pois revelam um amadurecimento profissional. Outras são próprias de iniciantes que devem estar atentos às gafes. De qualquer forma, no conjunto do que foi apresentado, representam competências importantes a serem desenvolvidas pelo jornalista.

Comunicação Social: consulta pública sobre os referenciais formativos

O Ministério da Educação (MEC) iniciou uma consulta pública para definir competências formativas. O projeto Referenciais Nacionais dos Cursos de Graduação é uma sistemática de trabalho participativo, onde a comunidade acadêmica e  demais segmentos interessados, participam com problematizações pedagógicas que resultarão em um Referencial Nacional para os cursos. São discutidos, dessa forma, referenciais e linhas de formação da área.
Nessa rodada serão o foco da consulta 17 cursos da área de Ciências Exatas e da Terra, 14 cursos da área de Comunicação e Artes e, 21 cursos da área de Humanidades.

O que são os referenciais de curso? O MEC define como

[...] um descritivo que aponta, em linhas gerais, um perfil do profissional formado, os temas abordados durante a formação, as áreas em que o profissional poderá atuar e a infraestrutura necessária para a implantação do curso. Ele não limita as instituições na proposição de cursos, uma vez que traça um referencial que não é limitador, mas apenas orientador. Portanto, cada Instituição de Ensino Superior (IES) pode, respeitando o mínimo apontado no referencial, inserir novas temáticas, bem como delinear linhas de formação no curso.
Em outras palavras: os referenciais agregam as competências gerais e as habilidades que resultarão do processo formativo no curso avaliado. Trata-se de um importante instrumento, que auxilia universidades e outros espaços formativos, a conceberem a formação.

E que dizer da linhas de formação? O MEC intende que

As Linhas de Formação particularizam o curso, enfocando aspectos teóricos ou práticos pertinentes para o curso oferecido pela IES no contexto histórico e social em que ela se insere. No entanto, não se configuram como habilitações, pois não aparecem no nome do curso, apenas nas habilidades e competências desenvolvidas pelo aluno ao longo de sua formação e no detalhamento do seu histórico escolar.
No passado, chamamos essas linhas de formação de ênfase do curso. É importante entender que, ao permitir e incentivar a sua definição, na prática, não teremos um profissional com um perfil apenas de formação, mas dezenas ou centenas de perfis formativos debaixo de uma mesma nomenclatura. A princípio, pensando do ponto de vista do mercado, isso facilitará a inserção do egresso, mas cria dificuldades no momento que o(a) aluno(a) transfere-se de instituição, por algum motivo.
Pode-se dizer, então, que essa consulta vai definir um currículo mínimo? Bem, o próprio Ministério afirma que “o Referencial de Curso não se configura como currículo mínimo, nem deve ser entendido como uma diretriz curricular, visto que os cursos que já possuem diretrizes estabelecidas devem continuar seguindo-as”.
Então, se não é um currículo mínimo, nem é uma definição de currículos, o que vem a ser essa proposta? Em outro post feito aqui, apontei uma pequena consulta que fiz no Portal SiedSup, do MEC, sobre a situação do ensino superior: são 686 cursos de Comunicação Social (com várias habilitações) e 376 cursos de Jornalismo no Brasil.  Uma das questões que apontei foi que “não é possível, com pesquisa no SiedSup conseguir as informações sobre estruturas curriculares, o que mostraria em muito a diversidade do que é feito em cada instituição sob a égide de “Comunicação Social” e “Jornalismo”.
Isso vai ao encontro do que o MEC faz agora: ele pretende sistematizar, em um primeiro momento, as nomenclaturas, diminuindo o ‘universo’ vasto existente. É o que o MEC chama de “Convergência de Denominação (De – Para):
A Convergência de Denominação (De – Para) é uma lista que apresenta os nomes dos cursos atualmente vigentes, na coluna DE, e as sugestões de denominação a serem adotadas, na coluna PARA. A convergência foi realizada por especialistas nas áreas e deve ser entendida como uma sugestão de nova denominação. Cabe às Instituições de Ensino Superior (IES), com base nas características de cada curso, adotar a denominação que julgar mais pertinente, dentre as opções disponíveis na Convergência de Denominação (De – Para) e, de acordo com a nova denominação adotada, se necessário, adaptar a matriz curricular.
Mais do que apenas a mudança de nomenclatura (que por si só já pressupõe uma mudança de identidade), o curso pode adotar também adaptações na matriz curricular, modificando a atual estrutura e, transformando o próprio projeto. Isso fica claro no conjunto sugerido como referencial de jornalismo, disponibilizado pelo MEC.

A consulta está aberta e todos podem participar. Basta acessar o formulário on-line do MEC.


Formação jornalística: qual identidade?

O que é ser jornalista? Essa é a pergunta que Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação da USP, desenvolve em seu texto publicado no sítio do Observatório da Imprensa. A discussão de Bucci perpassa a formação múltipla do jornalista e, os “problemas” que isso ocasiona na prática profissional.
Temos um problema epistemológico real e, segundo Bucci, a situação é ainda pior:

Agora, olhe bem à sua volta: o diploma caiu, a Lei de Imprensa deixou a vida para entrar na pré-história e a regulamentação, bem, a regulamentação não é nada nem ninguém. Ela não existe mais. Isso significa que, se alguém for perguntar à Lei o que é um jornalista, não encontrará resposta alguma. Se os olhos da sociedade se voltarem à Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), encontrará o mesmo vazio. A Fenaj não define satisfatoriamente o que é um jornalista. Não definia antes – e, agora, muito menos.

Por que a angústia dessa fala? Pela inerente dificuldade de dizer quem é o jornalista, tendo suas funções e, obviamente, sua ética bem definida. Não seria o nosso Código de Ética um instrumento de definição de identidade? Para Bucci o problema ainda persite, pois:

O Código de Ética da Fenaj afirma que o jornalista é tanto o assessor de imprensa como o jornalista propriamente dito. Trata-se de uma ambivalência insustentável. Jornalistas são pagos para perguntar o que a sociedade tem o direito de saber; assessores são pagos para responder aquilo que seus clientes ou empregadores gostariam que a sociedade tomasse por verdade. Não que assessores desempenhem funções estruturalmente indignas ou ilegítimas, longe disso: eles desempenham um papel indispensável na comunicação social; apenas desempenham um papel que não se confunde, nem pode pretender se confundir, com o papel da imprensa. Por isso, tenho sustentado que o Código de Ética da nossa categoria repousa sobre um conflito de interesses.

Está aí um problema, que tenho que concordar com o autor: temos o mesmo indivíduo exercendo papéis contraditórios. Conheci uma colega que era jornalista em um expediente e assessora de comunicação  em  órgão público em outro. Indaguei sobre isso e, percebi que a angústia é real: o conflito era generalizado quando ela tinha de exercer o papel de jornalista ‘perguntando a si mesma’ enquanto assessora. Essa é uma contradição insuportável e, que não deveria ocorrer.

Pela necessidade de sobrevivência – todos precisamos trabalhar – somos submetidos a uma situação limítrofe. Explico melhor: qual a linha que demarca a ação do jornalista do assessor de comunicação de uma entidade/instituição?  Nesse caso, ela é tão tênue e, por vezes não existe na plenitude, deixando a decisão ética a cargo do colega e do momento.

É como pontua Bucci no artigo sobre essa “ambivalência”:

O que define o jornalista, nós sabemos, é a independência que ele guarda em relação ao poder do Estado e ao poder econômico. Agora, se o assessor de imprensa pode, segundo o nosso Código de Ética, ser entendido como jornalista, o requisito da independência cai por terra. Assessores não precisam ter compromisso com a independência editorial.
[...]
Pergunte-se: [...] Como um assessor de imprensa, encarregado por dever de ofício a prestigiar apenas um dos lados de um acontecimento, pode ser obrigado a observar a “precisa apuração dos acontecimentos”? Ele ouvirá todos os lados? Se não, por que, aqui também, não lhe foi outorgada a dispensa de cumprir os deveres do jornalista? Será que os redatores do código se distraíram?
[...]
Portanto, é indiscutível, o código confere uma autorização tácita para que o profissional acumule duas funções, a de repórter num veículo jornalístico e a de assessor de alguma repartição. Será que esse acúmulo de funções é desejável para a ética de imprensa? Dez entre dez bons jornalistas responderão que não. Não obstante, só o que o código não autoriza é que esse profissional faça reportagem para esse veículo jornalístico sobre a entidade para a qual trabalhe como assessor. Pior ainda: segundo o mesmo código, o profissional agirá eticamente se realizar, por exemplo, uma reportagem sobre a entidade rival àquela que o emprega como assessor. Desse modo, o assessor de imprensa de um time de futebol poderá escrever uma matéria sobre o time adversário para um veículo em que trabalhe, digamos, como editor. E não incorrerá, segundo o mesmo código, em nenhuma falta ética. Só o que ele não pode é escrever sobre o lugar em que trabalha como assessor. Novamente, a contradição é chocante. 

É, o problema está posto e é grave. Qual a identidade, ou melhor, as possíveis identidades do jornalista? Sua formação deveria dar conta dessa(s) demanda(s)? Se sim, qual o estatuto de cientificidade de cada uma delas? Já vimos que um único não tem funcionado tão bem. Resta-nos pensar…


Universidades no Brasil: alguns números

O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), disponibiliza desde 1995 o Censo da Educação Superior, que constitui-se em uma radiografia da situação das universidades brasileiras. O último relatório disponível, Sinopse Estatística da Educação Superior, é de 2007. Alguns dados são bem interessantes e reveladores. Vejamos.
O gráfico a seguir, construído com dados da Sinopse Estatística de 2007,  trata das instituições de ensino superior por categoria administrativa. No Brasil, são reconhecidas as Universidades, os Centros Universitários, as Faculdades Integradas, as Faculdades, escolas e institutos e, por último, os Centros de Ensino Tecnológicos e/ou Faculdades Tecnológicas.
Observamos uma realidade triste: 72% de todo o ensino superior no Brasil é feita por Faculdades, escolas e institutos privados, o que corresponde a 1.594 instituições particulares de ensino; o ensino público e gratuito é feito pelas Universidades, que correspondem a apenas 8% das instituições superiores ou 106 instituições que gozam da prerrogativa de universidade pública.
Outro dado interessante é o localização das instituições superiores no Brasil. O gráfico a seguir demonstra os dados da Sinopse de 2007:
Pelo que os dados revelam, a grande parte das instituições de ensino superior encontram-se localizadas no interior do Brasil: são ao todo 1.456 instituições (Federal, Estadual, Municipal, Particular, Comunitárias/Confessionais e Filantrópicas) no interior contra 825 nas capitais. É um número bastante expressivo, mas fica a dúvida: quanto a produção de conhecimento acadêmico – pesquisa e extensão – são essas também referência de excelência? Ou continuamos com a máxima de somente termos ensino para a população do interior e, a pesquisa e extensão de excelência na capital (mesmo assim em poucas instituições)?
Outro dado é a organização acadêmica das instituições de ensino superior. No Brasil temos a seguinte classificação, determinada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) nº 9.394/96:
  • Federal: mantidas pela União, com recursos provenientes do Tesouro Nacional. Fiscalizadas pelo Ministério da Educação e Conselho Nacional de Educação (CNE);
  • Estadual: mantidas pelos Estados/DF, com recursos provenientes do Tesouro Estadual. Fiscalizadas pelo Ministério da Educação e Conselho Estadual de Educação (CEE), do respectivo estado;
  • Municipal: mantidas pelos Municípios, com recursos provenientes do Tesouro Municipal. Fiscalizadas pelo Conselho Estadual de Educação (CEE), do respectivo estado;
  • Particular (em sentido estrito): mantida por instituições privadas, com recursos próprios. Fiscalizadas, autorizada e credenciada pelo Ministério da Educação e Conselho Nacional de Educação (CNE);
  • Particulares sem fins lucrativos:
    • Comunitárias: instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas jurídicas, inclusive cooperativas de professores e alunos que incluam, na sua entidade mantenedora, representantes da comunidade;
    • Confessionais: instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas jurídicas que atendam à orientação confessional e ideológica específicas;
    • Filantrópicas: são as instituições de educação ou de assistência social que prestem os serviços para os quais foram instituídas e os coloquem à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem qualquer remuneração.
Quanto a essa situação, o gráfico a seguir nos permite ver o panorama:
Novamente os dados assustam um pouco: 70% ou 1.648 das instituições de ensino superior no país são de instituições privadas; 19% de instituições privadas sem fins lucrativos (comunitárias, filantrópicas e confessionais); 5% de instutições públicas federais; 3% de instituições públicas estaduais e 3% de instituições municipais. 
E que dizer das funções docentes? A Sinopse de 2007 mostra o panorama das contratações docentes em três categorias: tempo integral, tempo parcial e horista. Vejamos:

O regime de  trabalho dos que desenvolvem funções docentes não é muito animador: 38% estão em tempo integral em suas funções, 20% em tempo parcial e 42% são horistas. O que significa na prática? Que quase metade dos docentes do ensino superior no Brasil fazem “bico” em poucas horas na docência. Isso explica, mas não justifica, a baixa produtividade científica das instituições de ensino no Brasil. 

Esses são apenas alguns dos dados disponíveis sobre o ensino superior no Brasil. Eles revelam a necessidade de transformação premente da estrutura universitária, permitindo a inserção do docente plenamente e, não apenas pauperizando e proletarizando as funções de professor, como é visível pelos dados de 2007.