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Como está o ensino e a investigação em jornalismo em Portugal e na Espanha?
Essa foi a proposta da Jornadas da OBCiber, que foram realizadas nos dias 4 e 5 de dezembro de 2009, com o foco na temática “O jornalismo nos novos media: ensino e investigação”. Participaram diversos professores e profissionais, alguns já conhecidos aqui pelo Brasil, quer por seus trabalhos, quer por partilharem experiências no ensino e na pesquisa.
Entre letras e palavras, constrói-se o jornalismo
Por que é esse posicionamento importante? Javis argumenta que o trabalho do jornalismo no presente assume diversas possibilidades que vão desde a construção de dados e algoritmos, até escrita em colaboração e o crowdsourcing. Todos esses são vistos por ele enquanto processo.
Javis resume bem sua defesa de um jornalismo centrado nos processos e não apenas no produto:
Mas se continuarmos a assumir que o nosso papel é o do contador de histórias, e nos limitar a isso, então corremos o risco de fechar-nos às formas de captação e partilha de informações que não acabem sob a forma de histórias, que não estão organizados dessa forma. Quando nos abrimos, podemos pensar nos jornalistas como catalisadores, como organizadores da comunidade (e não apenas de informação, mas de uma comunidade, com habilidade para organizar as suas próprias informações), como professores, como curadores (como eu poderia passar por isso sem usar a palavra pelo menos uma vez?), como filtros, como fabricantes de ferramentas, como escritores de algoritmos.
Jornalismo e mídias sociais
Não misturar o profissional e o pessoal, desencadeando formas/processos que possam trazer descrédito a ABC.
Não prejudicar a sua eficácia no trabalho.
Não implicar o endosso de suas opiniões pessoais à ABC.
Não divulgar informações confidenciais obtidas através do trabalho desenvolvido na ABC.
É uma pena que as “regras” sejam apresentadas no “imperativo negativo”. Ainda penso que isso faz parte da lógica e da ética do trabalho jornalístico. Nem precisava dizer. Mas, já deixa os profissionais mais tranquilos quanto a utilização.
O design pode salvar os jornais?
Muitas propostas foram feitas para salvar os jornais. Essas incluem a redefinição do foco jornalístico, o redesenho de suas plataformas e até a mudança na forma como o fato é tratado. Todas, apesar de bem estruturadas, encontram o mesmo problema: menos leitores.
O grande problema, parece ter sido fidelizar os leitores e, dificilmente, neoleitores são agregados aos jornais de forma massiva. Mas a resposta pode estar em outro local. Pode estar na produção de imagens. Essa é a proposta de Jacek Utko, designer polonês, que tem trabalhado na Europa Oriental a mais de 20 anos em jornais.
Jacek Utko, especializou-se em designer de jornais. Ele reconhece que a crise dos jornais, em âmbito mundial, é resultado da mudança de nicho, do impressso para o virtual e, também, da forma como os leitores interagem com os diversos tipos de mídias. Porém, ele defende que, uma cultura visual, pode fazer a diferença e salvar os jornais.
Utko defende, de forma bem radical, um outro olhar, bem pessoal para a cultura visual dos jornais:
A primeira página virou nossa assinatura. Era meu canal pessoal para falar com os leitores. [...] Eu queria minha declaração artística, minha interpretação da realidade. Eu queria fazer pôsteres, não jornais, nem sequer revistas. Pôsteres. Experimentavámos com tipografia, com ilustrações, com fotos. E nos divertíamos. Logo começaram a aparecer os resultados. Na polônia, nossas páginas foram eleitas capas do ano por três vezes consecutivas. Mas o segredo não é só a capa. O segredo é que tratávamos o jornal como uma peça única, como uma composição – uma música. A música tem altos e baixos. O design é responsável por essa experiência.
Essa é uma proposta que parece nova (face às já defendidas em 2009): o jornal como criação individual, o jornal com cara de outra coisa, menos tradicional. Utko apresentou estatísticas de fazer qualquer dono de jornal sonhar: na Rússia, após o redesenho, o aumento foi de 11% em um ano, seguido de 19% no segundo ano e, de 29% no terceiro; na Polônia, o aumento foi de 13% no primeiro ano, de 22% no segundo e, de 35% no terceiro; e, na Bulgária, o aumento foi de 100% na circulação no primeiro ano.
É o design a salvação dos jornais? Utko reconhece que o design é parte do processo. É preciso mais. “Não basta apenas melhorar a aparência, mas melhorar o produto como um todo, mudando a rotina de trabalho dentro do jornal”, reforça.
Veja a apresentação feita por Jacek Utko no TED. A apresentação está traduzida para 14 idiomas, inclusive o português (basta clicar em subtítulos, se necessitar).
Clique aqui.
Jornalismo, formação e trabalho
[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes. Uma pesquisa realizada com estudantes, após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão. Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.
[...] há “muitos cursos de ‘jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um” debate sério “sobre o futuro do ensino de jornalismo”. Algumas universidades estão olhando apenas para o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos, podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.
Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas não implicam em sucesso, necessariamente.
O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo “apologia ao mercado”, queria poder não depender dele, mas a verdade é “nua e crua”: somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?
Jornalismo, formação e emprego
* Construção do núcleo de competências acadêmicas, como a investigação, o conhecimento conceitual e as habilidades críticas;
* Desenvolver habilidades práticas, tais como a comunicação, pesquisa e produção;
* Desenvolver habilidades criativas;
* Desenvolver habilidades de gerenciamento de projetos;
* Desenvolver habilidades de trabalho em equipe e a capacidade de trabalho por iniciativa;
* Criar uma compreensão crítica dos processos de notícias e relações de poder;
* Fornecer espaço para explorar como o jornalismo ea publicação é, e poderia ser diferente, (particularmente importante quando se está em crise);
* Permitir que as pessoas saibam se eles querem trabalhar na indústria de notícias;
* Permitir que os estudantes compreendam que conseguirão uma graduação em uma área que é desafiadora e gratificante;
* E sim, a formação de pessoas para entrar na indústria de notícias;
* E qualquer indústria que envolve profissionais da comunicação;
Algumas pessoas não são muito boas, algumas pessoas não se esforçam muito, algumas pessoas apenas se “encostam” ao longo do caminho, na lei do menor esforço – não se pode conceber que, em nosso sistema de ensino, sem excluir aqueles que trabalham duro, que são talentosos e dedicado e querem conseguir grandes coisas. Um diploma não é a promessa de uma carreira bonita – é a promessa de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, que é embasado em seu próprio compromisso e capacidade individuais, tanto quanto a dos professores, do pessoal de apoio e das universidades.
Objetividade atrapalha o trabalho jornalístico?
Desde cedo na formação dos jornalistas, a palavra “objetividade” torna-se parte do seu vocabulário central. Espera-se, que essa competência, seja “ensinada” e desenvolvida durante todo o processo formativo. Mas o que é essa objetividade? Defende-se (e, com isso, esforçamo-nos a ensinar), que o trabalho do jornalista deve ser isento, neutro, como condição de legitimidade da prática jornalística.
Vamos agregar mais um ingrediente: a presença do editor. Esse tem um papel de intermediar o processo de construção da informação. Na verdade, esse pré-leitor qualificado, exerce o papel de consolidar o “pacto de leitura”, que a área da comunicação tem com as demais áreas do conhecimento. Espera-se, que a notícia produzida, atenda ao critério da objetividade para ser publicada/veiculada.
E aqui o “caldo fica mais grosso”, quando o editor faz o recorte na narração produzida, que obviamente não é e, dificilmente será, objetiva. O editor assume para si toda a carga ideológica, que faz parte do processo de escolha de qual tipo de escrita será ou não aceita.
E como está o panorama de atuação desse profissional? Craig Newmark, escreveu para o The Huffington Post, sobre a crise da “curadoria de notícias”. No artigo intitulado A nerd’s take on the future of news media, Newmark critica a atuação, ou melhor, a falta de atuação dessas “curadorias” no processo da notícia e, aproveita o espaço, para criticar a objetividade jornalística. Para ele, a objetividade que é praticada, por apenas se ouvir as partes e suas justificativas, não é um agregador de valor. Ao contrário, seria um motivo para perda de credibilidade.
Será que ele vislumbra algum caminho para a ação jornalística no futuro? É claro que sim. Para ele, o futuro está na criação de modelos mais híbridos, com a presença de outros atores nesse processo de edição, onde a “transparência é a nova objetividade” e o “[...] futuro das organizações jornalísticas será determinado pelas tendências emergentes que já são visíveis”.
Jornalismo em queda livre?
Conboy parte da idéia de que o
[...] jornalismo é ameaçado por todos os lados na contemporaneidade. A reputação dos jornalistas continua a despencar e o jornalismo, parece ser incapaz de gerar interesse ativo, consistente, no processo político. [...] O principal motivo para preocupação, parece ser que, à luz do colapso das receitas de publicidade e da fragmentação das audiências, impulsionado em parte pela introdução de novas tecnologias no campo da comunicação pública, o jornalismo está lutando com o fim de um modelo de negócios. O futuro do jornalismo depende, em grande medida, do que entendemos por jornalismo.
Essa é uma constatação real: vivenciamos uma “crise”, isto é, o modelo atual de negócios do jornalismo não responde mais as demandas impostas pelo mercado e, principalmente, pelos leitores. O papel dos jornais no processo de comunicação, como elemento central, já deixou há vários anos (melhor dizendo, décadas) de ser o que ele tensionava que ainda fosse. É claro que ainda há nichos muito fortes e tradicionais de leitores, mas os neoleitores atuais, já não creditam a força necessária para o modelo sobreviver.
E qual será esse futuro? Conboy defende que esse futuro passa pela redefinição do que é o jornalismo e de suas funções, sobretudo no papel desempenhado por alguns veículos que agem como verdadeiros “cães de guarda” de segmentos.
É interessante o reconhecimento por parte de Conboy, nesse artigo, da existência de “polaridades de espectro de jornalismo”. O que vem a ser isso? É o que, em outros autores, conhecemos como nicho. Ele cita George Newnes, editor inglês, que escreveu em 1890, classificando dois modelos de jornais: “um que dirige as notícias para os assuntos das nações e, outro, não tão ambicioso, mas que, ano após ano, leva diversão e entretenimento para as camadas de trabalhadores”. E esse, parece ser, um problema para Conboy, já que o jornalismo (e seus profissionais), parecem querer apenas o “jornalismo que gera prêmios”, o jornalismo dos grandes veículos, do reconhecimento nacional e internacional e, bem poucos, fazem um jornalismo cultural para as massas.
E onde entra a idéia de “queda livre” anunciada por ele? Justamente na noção de crise. Para ele, a crise no jornalismo, é uma “tentativa tardia de chegar a termos em questões que tem permeado outras construções culturais e políticas ao logo dos últimos 20 anos ou mais”. Outras áreas do conhecimento, já vivenciam essa indefinição epistemológica desde o início dos anos 1970, estando a comunicação “em crise”, com a chegada do novo modelo midiático com interface virtual, na década de 1990.
Mais do que uma mercadoria que é comprada e vendida a um preço determinado, mais do que notícias que atendam um nicho privilegiado e dominante, o jornalismo (e seus profissionais), tem um responsabilidade social, que deve ser encarada como estratégia de mobilização democrática. Daí, nessa concepção, Conboy afirmar que, blogs e redes sociais, são um caminho inevitável no futuro do jornalismo. É dentro desse “ecossistema midiático”, com suas experiências e vivências múltiplas, que os profissionais do futuro serão formados (ou deformados, dependendo do contexto!).
Esperança? É possível pensar em um futuro para o jornalismo?
Quando a palavra “esperança” é usada, parece remeter a idéia de alcançar algo que está ainda muito distante de nós, mas que é extremamente necessário. Usando um dicionário de língua portuguesa (ou será brasileira?), a idéia é associada a “espera de algo que se deseja que aconteça”.
Podemos chamar “esperança” de utopia, isto é, aquilo que está em um tempo futuro (um amanhã incerto), ainda distante do presente (hoje, concreto), mas que pode ser alcançado. Um autor interessante, nesse sentido, é Ernest Bloch, que discute a utopia (esperança). Antonio Rufino Veira, professor do Departamento de Filosofia da UFPB, resume bem a idéia do pensamento de Bloch:
Segundo a linha de reflexão de Bloch, a utopia não é algo fantasioso, simples produto da imaginação, mas possui uma base real, com funções abertas à reestruturação da sociedade, obrigando a militância do sujeito, engajado em mudanças concretas, visando à nova sociedade. Assim, a utopia se torna viável à medida que possui o explícito desejo de ser realizada coletivamente.











