segunda-feira, 15 de março de 2010

Tag » identidade

Como está o ensino e a investigação em jornalismo em Portugal e na Espanha?

Essa foi a proposta da Jornadas da OBCiber, que foram realizadas nos dias 4 e 5 de dezembro de 2009, com o foco na temática “O jornalismo nos novos media: ensino e investigação”. Participaram diversos professores e profissionais, alguns já conhecidos aqui pelo Brasil, quer por seus trabalhos, quer por partilharem experiências no ensino e na pesquisa.

Entre os participantes, duas apresentações julgo essenciais (já que a finalidade do que escrevo aqui no Blog Ensino de Jornalismo e no blog do Gipo é o ensino e a pesquisa): a primeira, do prof. Javier Díaz Noci, da Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona, que apontou para a temática Pesquisa em ciberjornalismo: tendências, e, a segunda proferida pelo Prof. António Granado, da Universidade Nova de Lisboa, intitulada 10 coisas que as universidades precisam fazer para melhorar o ensino do jornalismo.
Caso prefira assistir as apresentações, coloca-as no Blog do Gipo (clique aqui para assistir). Encaro como essenciais para quem está estudando o ensino de jornalismo.

Um pouco de “I dreamed a dream”, ou o jornalismo no ano 2000

Circula em vários sites a reprodução de um texto supostamente (digo isso, pois não consegui encontrar um banco de dados com a cópia fac-símile da edição, quem souber avisa) publicado no jornal português “Jornal do Comércio”, de 25 de Fevereiro de 1868, intitulado “O jornalismo no ano 2000″.

O texto é muito interessante, pois reflete o sonho de um outro jornalismo, mais engajado (se é que ainda podemos esperar que isso aconteça de fato). Algumas “predições” são interessantes. Por exemplo, a de que o jornal

Daqui a 50 anos, os jornais publicarão uma folha, inteiramente nova, de hora a hora, e, daqui a 100 anos, de minuto a minuto, de instante a instante. Será um moto-contínuo e ainda não satisfará a curiosidade pública. Cada cidadão fará um jornal: o artigo de fundo constará sempre das notícias da sua vida pública e íntima.

Essa idéia, longe de ser a realidade no meio impresso, o é no mundo virtual da web. A cada instante temos centenas de novas informações circulando. Em poucas horas, milhões transitam freneticamente. E que dizer do jornal pessoal, que “constará sempre das notícias da sua vida pública e íntima”? Não serão os blogs, Twitter e outras comunidades sociais a resposta a essa idéia? Bem, leia e tire suas conclusões.

A seguir reproduzo o artigo que circula. Agradeço a Nuno Costa e Gabriel Silva, ambos de Portugal, pela dica.

«O Jornalismo no ano 2000

Considerando no que é hoje, observando as suas tendências, pode conjecturar-se, aproximadamente, o que virá a ser. Um curioso aprofundou esta questão e lisonjeia-se de ter descoberto, com plausibilidade, as condições em que há-de achar-se o jornalismo no ano 2000.

Há fome e sede de notícias: todos querem saber tudo – o que pode e deve saber-se e o que não pode nem deve saber-se -, a máquina reproduz em minutos o pensamento, para ser transmitido a todos os pontos da terra, e já não é só a máquina para estampar o jornal, é também a máquina para compor; inventou-se o tipógrafo-máquina e deve esperar-se, portanto, que venha a idear-se o redactor-máquina.

O jornal é hoje diário e o mais é que chega a reproduzir a mesma folha em duas ou três edições, com alguns aditamentos ou notícias. Isto será atraso e fossilismo no ano 2000. Daqui a 50 anos, os jornais publicarão uma folha, inteiramente nova, de hora a hora, e, daqui a 100 anos, de minuto a minuto, de instante a instante. Será um moto-contínuo e ainda não satisfará a curiosidade pública. Cada cidadão fará um jornal: o artigo de fundo constará sempre das notícias da sua vida pública e íntima.

Como o jornalismo assume tais proporções, talvez se pense que faltará papel, porque é necessário advertir que de cada jornal se tirarão, de minuto a minuto, milhares de folhas; mas a isto há-de ocorrer-se com facilidade, porque, assim como o jornal é instantâneo, instantânea há-de ser a leitura; e o papel vai, minutos depois de lido, para a fábrica, a fim de se reproduzir [...] apenas o superfino será reservado para os brindes aos assinantes, os quais, ao cabo da sua assinatura, já possuirão uma biblioteca de 525 000 volumes, pois tantos são os minutos que tem o ano; já se vê que a cada folha acompanhará um brinde.

O telégrafo eléctrico generalizar-se-á, cada cidadão terá o seu telégrafo em correspondência mútua, de maneira que em um minuto se saberá o que se passa nos pontos mais afastados e, em Lisboa, se poderá saber, de instante a instante, até à vida caseira do mais boçal esquimó; com o que os povos hão-de folgar, deleitar-se e instruir-se.

O jornal caseiro será alheio à política; para esta haverá jornais especialíssimos e os seus redactores nem serão amigos, nem distintos, quando não forem da mesma parcialidade; quando, porém, comungarem na mesma pia (também em 2000 se darão destas), então serão inteligências robustas, caracteres provados… no que forem.

Mas como é de crer que no ano 2000 já exista a paz universal e a união entre todos os homens, acabará a política, os governos governarão sempre conforme… à nossa vontade, portanto, serão inúteis os jornais políticos; não haverá, pois, nem turibulários, nem oposicionistas; todos serão amigos e distintíssimos cavalheiros, unidos no pensamento comum de amarem a sua pátria. Assim seja.»


Entre letras e palavras, constrói-se o jornalismo

Letras, palavras, frases, sentenças bem elaboradas… Não faltam possibilidades no fazer jornalístico. Mas achar que esse “fazer” reduz-se apenas a contar uma boa história, é um ledo engano.
O trabalho de escrita jornalística compara-se ao trabalho de historiar. Não é de hoje que digo isso. Já declarei anteriormente que “existe uma linha muito tênue entre história e jornalismo” (Pôrto Jr, Gilson (Org). História do Tempo Presente, Edusc, 2007). O historiador tem seu objeto de cientificidade no tempo passado (não tão distante como normalmente se assume) e, o jornalista, no tempo presente (o ontem, não tão distante, mas também no agora).
É nessa construção passado-presente, que emaram-se palavras, criando histórias de um presente efêmero, que encantam e informam. Mas o trabalho do jornalista e do próprio jornalismo, é mais do que apenas a escrita de uma boa história publicável.  Jeff Javis, que é professor na Universidade de Nova York, aponta para outras possibilidades no trabalho jornalístico. Ele defende o trabalho jornalístico como processo e não apenas como produto

Por que é esse posicionamento importante? Javis argumenta que o trabalho do jornalismo no presente assume diversas possibilidades que vão desde a construção de dados e algoritmos, até escrita em colaboração e o crowdsourcing. Todos esses são vistos por ele enquanto processo.

O contar histórias não. Ele é produto, está acabado. E, nesse aspecto, o escritor de uma história “reinvidica para si o papel de centro da história”, de criador e do “tom” que ele deve assumir. É como ele afirma: “contador de histórias está no controle”.Não é esse o papel do jornalista? Também o é. Mas não deveria ser apenas esse.

Javis resume bem sua defesa de um jornalismo centrado nos processos e não apenas no produto:

Mas se continuarmos a assumir que o nosso papel é o do contador de histórias, e nos limitar a isso, então corremos o risco de fechar-nos às formas de captação e partilha de informações que não acabem sob a forma de histórias, que não estão organizados dessa forma. Quando nos abrimos, podemos pensar nos jornalistas como catalisadores, como organizadores da comunidade (e não apenas de informação, mas de uma comunidade, com habilidade para organizar as suas próprias informações), como professores, como curadores (como eu poderia passar por isso sem usar a palavra pelo menos uma vez?), como filtros, como fabricantes de ferramentas, como escritores de algoritmos.

Penso que essa defesa de Jarvis, indica bem quais os caminhos, ou melhor, que competências e habilidades devem fazer parte de qualquer  processo de formação. É claro que não descartamos a construção de histórias, mas não podemos reduzir o fazer jornalístico a apenas histórias efêmeras, quando temos pela frente um “rio de possibilidades” nesse século que apenas está começando.

Jornalismo e mídias sociais

Mark Scott, diretor da Australian Broadcasting Corporation (ABC), anunciou novas diretrizes para a utilização de mídias sociais, por parte dos jornalistas da emissora e dos funcionários. Essa é uma tendência na maioria dos grandes jornais e redes, que tentam impedir que seus “furos” sejam veiculados antes. Esses “vazamentos” de informação, já custaram empregos de bons profissionais da mídia.
As regras são bem simples e diretas, mas permitem aos jornalistas e funcionários o trânsito nas mídias sociais, tais como Facebook, MySpace, Twitter e You Tube. São elas:

Não misturar o profissional e o pessoal, desencadeando formas/processos que possam trazer descrédito a ABC.
Não prejudicar a sua eficácia no trabalho.
Não implicar o endosso de suas opiniões pessoais à ABC.
Não divulgar informações confidenciais obtidas através do trabalho desenvolvido na ABC.

É uma pena que as “regras” sejam apresentadas no “imperativo negativo”. Ainda penso que isso faz parte da lógica e da ética do trabalho jornalístico. Nem precisava dizer. Mas, já deixa os profissionais mais tranquilos quanto a utilização.


O design pode salvar os jornais?

Muitas propostas foram feitas para salvar os jornais. Essas incluem  a redefinição do foco jornalístico, o redesenho de suas plataformas e até a mudança na forma como o fato é tratado. Todas, apesar de bem estruturadas, encontram o mesmo problema: menos leitores.

O grande problema, parece ter sido fidelizar os leitores e, dificilmente, neoleitores são agregados aos jornais de forma massiva. Mas a resposta pode estar em outro local. Pode estar na produção de imagens. Essa é a proposta de Jacek Utko, designer polonês, que tem trabalhado na Europa Oriental a mais de 20 anos em jornais.

Jacek Utko, especializou-se em designer de jornais. Ele reconhece que a crise dos jornais, em âmbito mundial, é resultado da mudança de nicho, do impressso para o virtual e, também, da forma como os leitores interagem com os diversos tipos de mídias. Porém, ele defende que, uma cultura visual, pode fazer a diferença e salvar os jornais.

Utko defende, de forma bem radical, um outro olhar, bem pessoal para a cultura visual dos jornais:

A primeira página virou nossa assinatura. Era meu canal pessoal para falar com os leitores. [...] Eu queria minha declaração artística, minha interpretação da realidade. Eu queria fazer pôsteres, não jornais, nem sequer revistas. Pôsteres. Experimentavámos com tipografia, com ilustrações, com fotos. E nos divertíamos. Logo começaram a aparecer os resultados. Na polônia, nossas páginas foram eleitas capas do ano por três vezes consecutivas. Mas o segredo não é só a capa. O segredo é que tratávamos o jornal como uma peça única, como uma composição – uma música. A música tem altos e baixos. O design é responsável por essa experiência. 

Essa é uma proposta que parece nova (face às já defendidas em 2009): o jornal como criação individual, o jornal com cara de outra coisa, menos tradicional. Utko apresentou estatísticas de fazer qualquer dono de jornal sonhar: na Rússia, após o redesenho, o aumento foi de 11% em um ano, seguido de 19% no segundo ano e, de 29% no terceiro; na Polônia, o aumento foi de 13% no primeiro ano, de 22% no segundo e, de 35% no terceiro; e, na Bulgária, o aumento foi de 100% na circulação no primeiro ano.

É o design a salvação dos jornais? Utko reconhece que o design é parte do processo. É preciso mais. “Não basta apenas melhorar a aparência, mas melhorar o produto como um todo, mudando a rotina  de trabalho dentro do jornal”, reforça.

Veja a apresentação feita por Jacek Utko no TED. A apresentação está traduzida para 14 idiomas, inclusive o português (basta clicar em subtítulos, se necessitar).

Clique aqui.


Jornalismo, formação e trabalho

Trabalho e emprego. Essas são duas palavras quase mágicas para todo recém-formado. O egresso acostumou-se a viver trabalhando (bicos, free, etc) e, na maioria dos casos, emprego que é bom nada! Essa é uma realidade em todos os campos de formação. A diferenciação entre as duas palavras, nem sempre, é facilmente entendida: trabalho não significa emprego. Com reestruturação do trabalho nos anos 1990, as duas palavras foram descoladas e, hoje, vivenciamos “trabalho” enquanto categoria que não significa necessariamente emprego. Entenda-se aqui emprego, como uma categoria que pressupõe carteira assinada, “direitos” (mesmo que poucos) assegurados, estabilidade, etc.
Lembro-me que, a uns 10 anos atrás já discutia com alunos da graduação a “formação para o desemprego”. Defendia na época, que o mercado modificava-se rapidamente e, a universidade também precisava entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade. Recordo-me que foi uma guerra: fui chamado na coordenação de curso e acusado de “terrorismo”, de fazer fazer alunos desistirem da área, pois alertava os acadêmicos para a possibilidade do desemprego e da necessidade de abertura de novos espaços laborais, sob pena de ficarmos “ultrapassados” para um mercado flutuante e em constante mutação.
O que esse tempo todo mostrou? Que essa é uma certeza inegável: diversas áreas encontram-se em “crise” de identidade, por não atualizarem seu cabedal de conhecimento e suas técnicas e/ou metodologias. Novas habilidades são exigidas diariamente e, nossos acadêmicos, devem ser alertados para as potencialidades de uma mercado em mutação, que exige novas competências a todo instante.
Nessa linha de pensamento, Dina Rickman escreveu uma reflexão bem interessante no Journalism.co.uk, site especializado em jornalismo. Sob o título What does a jobs crisis mean for journalism education?, Rickman alertou para a necessidades dos futuros jornalistas serem informados sobre a “crise de emprego”. Por que esse alerta é importante? Porque tem-se um aumento, segundo ela, de 15,7% ao ano no Reino Unido no ingresso de novos acadêmicos nas faculdades. Esses tem “sonhos” ( como qualquer acadêmico de aparecer na “telinha” ou ser um editor de algum grande jornal), porém encontram a realidade de um mercado saturado.
Segundo Rickman, citando as estatísticas divulgadas pela untistats.com’s,

[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes.  Uma pesquisa realizada com estudantes,  após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão.  Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.

O que pensam os formadores nas universidades? Sara McConnell, que dirige o curso de jornalismo na  Kingston University apontou que

[...] há “muitos cursos de ‘jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um” debate sério “sobre o futuro do ensino de jornalismo”. Algumas universidades estão olhando apenas para  o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos,  podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.

Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas  não implicam em sucesso, necessariamente.

O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo “apologia ao mercado”, queria poder não depender dele, mas a verdade é “nua e crua”: somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?


Quão independente é o jornalista?

Essa é uma questão importante. O trabalho jornalístico, na modernidade, pressupõe a independência na produção da informação. Isso é tão evidente que, ao menor “ruído” de censura, as entidades representativas e os próprios profissionais já se manifestam.
De qualquer forma a pergunta intriga: quão independente é o jornalista? Se ele atuara em um grande jornal com uma linha editorial bem definida, como ele deve agir? E se, por outro lado, ele exerce suas funções em um pequeno veículo local, como responder aos anseios da comunidade e mesmo assim, ainda ser independente? Essas são situações que perpassam pela noção de ética.
É claro que, um código de ética, deve delinear essas questões limítrofes, permitindo aos profissionais da área, uma margem de atuação, dentro da Lei. É o que a França está fazendo, conforme noticiado pelo sítio Journalisme.com. Desde a eleição de Nicolas Sarkozy, a França passa por profundas modificações sociais. Segmentos antes “ignorados” (grupos minoritários, grupos religiosos e étnicos), são atualmente considerados “perigosos” ao convívio social democrático.
Com isso, a impresa e o jornalismo, precisam rever seus conceitos e a forma de atuação. É isso que Le Comité des Sages, composto por 11 jornalistas tem feito. Fazem parte desse comitê, figuras “ilustres” do  jornalismo francês: Marie-Laure Augry, Master Basile Ader, Alain Boulonne, Jerome Bouvier, Jean-Pierre Caffin, Olivier da Lage, Jean-Marie Dupont, Bruno Frappat Pascal Guenée, CatherineVincent Lorenzo Virgili.
O projeto francês do novo código de ética do jornalista, é bem curto. Compõe-se de apenas 4 temas e 15 artigos: 1. O Metier do Jornalista; 2. A recolha e o tratamento das informações; 3. A proteção da Lei às pessoas e, 4. A independência do jornalista. Apesar de bastante reduzido, ele estabelece bases amplas para a compreensão do fazer jornalístico.
O projeto de código tem algumas definições claras de atuação. Por exemplo, no artigo  1.2, deixa-se claro que o jornalista, quando atuar em uma editoria, com chefe definido e linha editorial clara, deve atuar conforme as regras definidas pela agência. Já no artigo 1.4, aponta-se para a liberdade do jornalista de veicular notícias, mas alerta o “jornalista deve sempre estar ciente das conseqüências, positivas ou negativas, das informações que divulga”.
No artigo 2.2 atesta-se para a importância da “análise com rigor e vigilância, de informações críticas, documentos, imagens ou sons que lhe chegaram”. É interessante que, mesmo em tempos de velocidade da informação, o código alerte para a importância de “não dispensar uma verificação prévia da credibilidade das fontes” e ser “sensível a críticas e sugestões do público”.
No artigo 4.2, achei algo bem interessante e, que não poderia ser diferente. O artigo diz: “O jornalista não confunde seu trabalho com o oficial de polícia ou juiz. Não se trata de um oficial de inteligência. Ele nega qualquer confusão entre informação e promoção ou publicidade”.
É, o novo código francês avança em algumas questões importantes. Agora resta saber, mesmo estando em lei própria, se os jornalistas conseguirão atuar nos moldes estabelecidos. Não por que eles sejam difíceis de serem atingidos, mas pela dificuldade de se definirem quais patamares discursivos servirão de base, para as decisões.
Leia o projeto do Código de Ética francês aqui.

Jornalismo, formação e emprego

Paul Bradshaw, diretor do curso de jornalismo da Birmingham City University, no Reino Unido, escreveu uma reflexão bem interessante sobre a formação em jornalismo. O artigo escrito para o Online Journalism Blog intitulado Are there too many journalism courses?, apresentou uma série de competências necessárias para a formação do profissional que atua em jornalismo.
Segundo Bradshaw, a diversidade de graus possíveis para a formação em “jornalismo não existem apenas para treinar as pessoas para entrar na indústria de notícias. Esta é a diferença entre “educação” e “formação” ” e, indicou um conjunto de competências/habilidades que são desenvolvidas durante esse percurso:

* Construção do núcleo de competências acadêmicas, como a investigação, o conhecimento conceitual e as habilidades críticas;
* Desenvolver habilidades práticas, tais como a comunicação, pesquisa e produção;
* Desenvolver habilidades criativas;
* Desenvolver habilidades de gerenciamento de projetos;
* Desenvolver habilidades de trabalho em equipe e a capacidade de trabalho por iniciativa;
* Criar uma compreensão crítica dos processos de notícias e relações de poder;
* Fornecer espaço para explorar como o jornalismo ea  publicação é, e poderia ser diferente, (particularmente importante quando se está em crise);
* Permitir que as pessoas saibam se eles querem trabalhar na indústria de notícias;
* Permitir que os estudantes compreendam que conseguirão uma graduação em uma área que é  desafiadora e gratificante;
* E sim, a formação de pessoas para entrar na indústria de notícias;
* E qualquer indústria que envolve profissionais da comunicação;

 Será a formação universitária a chave para o sucesso profissional? Bradshaw afirma que, apesar de todos estudarem jornalismo, nem todos que tem “esperança de ser”, serão, por exemplo, âncoras ou titulares de editoria em grandes jornais (já que essas posições já encontram-se ocupadas), mas é extremamente importante essa formação.  Porquê? Ele afirma:
Algumas pessoas não são muito boas, algumas pessoas não se esforçam muito, algumas pessoas apenas se “encostam” ao longo do caminho,  na lei do menor esforço – não se pode conceber que, em nosso sistema de ensino, sem excluir aqueles que trabalham duro, que são talentosos e dedicado e querem conseguir grandes coisas. Um diploma não é a promessa de uma carreira bonita – é a promessa de uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, que  é embasado em seu próprio compromisso e capacidade individuais, tanto quanto a dos professores,  do pessoal de apoio e das universidades.
É, está aqui uma visão bem sóbria da formação universitária! Ela permite “uma oportunidade de desenvolvimento pessoal”, que agregada as competências e habilidades, desenvolvidas ao longo do curso, podem dar valor ao conhecimento adquirido durante todo o processo e permitir uma melhor inserção profissional.

Ecossistema jornalístico, papel, internet e outros coisas mais

Quando se usa a palavra ecossistema, dificilmente pensamos em algo que não seja a natureza, florestas e árvores. Nos acostumamos a utilizar essa palavra com esse significado. Porém, ela já ganha contornos diferenciados que modifica o significado.
Steven Johnson propõe a utilização dessa palavra voltada para o jornalismo. Ele defende que o espaço da notícia é como um verdadeiro ecossistema. Isso se dá pela diversificação, complexidade e interligação presente no espaço de criação da notícia. Se pensarmos bem, faz muito sentido, já que as interligações (links, feeds, etc.) presentes na internet, são quase infinitas. E aí, é bom fazermos uma ressalva: entendemos que a “infinitude” da internet é ainda um conceito abstrato, que consolida-se, na medida em que, a tecnologia de armazenamento permite espaços nunca antes imaginados. A internet, comparada a um “cérebro virtual” está consolidando sua rede neural, suas conexões sinápticas.
Para Johnson, o mais importante “não é futuro da indústria da notícia, ou o negócio do jornal impresso, mas o futuro da notícia em si”. Por que essa preocupação? Basicamente, por causa dos discursos “truncados” quando falamos em futuro do jornalismo, que beira muitas vezes à falácia. Para o autor,

[...] há realmente dois cenários piores que nos preocupam agora, e é importante distinguir entre eles. Primeiro, há o pânico de que os jornais vão desaparecer como empresas. E, depois, há o pânico de que as informações cruciais vão desaparecer com eles, que nós vamos sofrer culturalmente, porque os jornais não serão, por muito tempo, capazes de gerar as informações que temos invocado por tantos anos.

A angústia de não saber que rumo tomar, ou antes, a agonia de tentar sobreviver, face à crise, tem levado empresas jornalísticas a atacar os blogs e as redes sociais. Esses se tornaram os “vilões”, os emissários  e ‘culpados’ pela crise do modelo jornalístico. Essa ingênua falácia, cria preconceito. O preconceito tenta desacreditar. Vimos isso recentemente no Brasil, pela campanha do Estadão contra os blogueiros. Longe de ter bons resultados, ampliou apenas o abismo de colaboração.
Nesse ecossistema jornalístico, os blogs já ganharam espaço. A era do papel e do jornal impresso ainda não acabou, mas os sinais de desgaste são evidentes. Como ressalta o autor:
[...] o novo ecossistema do jornalismo de investigação está em sua infância. Existem dezenas de projetos interessantes sendo encabeçados por pessoas muito inteligentes, algumas delas sem fins lucrativos, outras para alguns fins lucrativos. Mas elas são mudas.

Mudas? Embriões do quê? De um novo modelo de jornalismo. Um jornalismo híbrido, em que participam empresas jornalísticas, fundações sem fins lucrativos e blogueiros empreendedores. Esse é o novo modelo, ou pelo menos, é o que aparenta para Johnson. Ele afirma que esse ecossistema se parecerá com a figura a seguir:

Nesse ecossistema jornalístico, a produção de notícias não será exclusiva dos jornalistas, mas será o resultado de uma mescla de novos atores no espaço noticioso. É interessante a presença de um processo partilhado de edição (curadoria), onde haveria a presença de editores profissionais, mas não exclusivamente.

Comentando sobre essa proposta de Johnson, de um ecossistema jornalístico híbrido, Tim Kastelle escreveu no blog Innovation Leandership Network afirmou:

Parte da inovação, que nós estamos procurando, é como podemos criar uma combinação dessas funções em um único modelo, que vai ter alguma combinação de conteúdo livre, junto com um mecanismo de geração de renda. Porque eu continuo dizendo, em geral, as funções que parecem fazer o dinheiro ,neste tipo de sistemas, são agregação e filtragem – por isso, eu ainda acho, que o caminho para construir um modelo desse tipo de negócio é incluir uma ou ambas as funções.

 Já para Mindy McAdams, jornalista que atua na área de ensino, o gráfico de Johnson,

[...] tenta representar o ambiente de notícia como ela é agora, sem se inclinar em direção a um modelo idealista, que não corresponde à realidade. O que eu não concordo é, com as setas de um caminho único – tudo neste modelo tem fluxos em dois sentidos agora.

Seja qual for o futuro, com ou sem empresas jornalísticas (arrisco a dizer que elas existirão em outros formatos), com ou sem papel, algo é certo: a internet será um dos atores mais importantes nessa construção da notícia, assim como o é nesse começo de século XXI.


Jornalismo cidadão: superação da crise?

Essa é uma boa questão: será o jornalismo cidadão uma alternativa para superar a crise dos meios? Para poder entender melhor, precisaremos dividir essa questão em outras duas: “o que é jornalismo cidadão?” e, “que crise dos meios ocorre?”.

Vamos a primeira questão: o que é jornalismo cidadão? Basicamente é a forma de produção da notícia em que a estruturação do conteúdo é realizada em parceria com pessoas sem formação jornalística e um profissional da área. Essa construção “colaborativa” , que obviamente padece de problemas de forma e estilo, não perde, na maioria dos casos, em consistência e fidedignidade factual, já que ele é registrado pelo espectador original.
Cabe aqui uma ressalva: o registro é, e sempre será, um recorte do “real”, consistindo em uma realidade própria do olhar do sujeito. O observador original constrói seu olhar, registrando os fatos que lhe parecem ser os mais importantes, mais significativos, isto é, sua “realidade”. Em muitos casos, a realidade do espectador não é a mesma do jornalista, que fará o ajuste na notícia, afim de garantir a noticiabilidade do fato. Esses “ajustes”, que podem ir desde a forma e o estilo e, que pode chegar até ao factível, faz a riqueza desse tipo de jornalismo, construído “a quatro mãos” ou, como alguns chamam, em rede.
Será esse tipo de jornalismo viável? As experiências mostram que sim. Por exemplo, David Watts Barton, editor chefe do Sacramento Press Journalism Open, abriu um concurso em que os cidadãos participam produzindo notícias. A idéia é que os participantes, cidadãos em geral da região de abrangência do jornal, possam “cometer atos de jornalismo”, registrando acontecimentos.
Outro jornal, o The Guardian, do Reino Unido, criou o “Guardian Local” com foco inicial em três cidades – Edimburgo (Escócia), Cardiff (País de Gales) e Leeds (Inglaterra). A proposta é que blogueiros e jornalistas cidadãos possam produzir notícias sobre corrupção das instituições a partir de 2010. Com isso, cria-se uma “vigilância” constante das instituições. Como participar? Os requisitos são bem práticos: não precisa ser jornalista diplomado ou com formação específica, mas é necessário ter um blog, ser usuário do Twitter, saber como estabelecer contato com a comunidade e sentir paixão pela informação local.
Ainda na Inglaterra, a Associated Northcliffe Digital, inicou uma campanha para a criação de 50 novos sítios hiperlocais. A aposta da entidade, sob o lema “Teu lugar, tua gente”, é desenvolver em cidades com menos de 50 mil habitantes, um sistema local de notícias. Esse desenvolvimento local da mídia, permite também o desenvolvimento de novos anunciantes. Uma visita rápida ao sítio, mostra que a idéia está dando certo.
Nas “bandas de cá” das Américas, o The New York Times, criou o “The Local“, onde os membros das comunidades locais de Nova York, Nova Jérsei, Long Island e Connecticut, podem produzir e divulgar suas notícias. O lema, bem interessante por sinal, é: “Sua cidade. Seu bairro, seu quarteirão. Coberto por e para você”.  Em Palmas (Tocantins), temos um experiência bem interessante: é o Jornal A Boca do Povo, com o lema “Aqui você faz a notícia”. A proposta, assim como outros periódicos produzidos, é a valorização da “presença do cidadão como autor dos textos e não apenas como fonte de informação”.
A resposta a questão “será esse tipo de jornalismo viável?”, é sim. Parece-me claro, que surge um modelo de negócio mais centrado no local e no potencial que esse tem de atrair novos anunciantes. Talvez aqui tenhamos uma saída para a crise dos meios. E já que tocamos nesse aspecto, “que crise dos meios ocorre?”. Em outros posts, indicamos que o jornalismo tradicional, baseado no modelo de negócios atual, com seu sistema de tiragem e assinaturas, encontra-se em crise. Essa crise, não constitui-se apenas na produção e impressão da notícia, mas vai pelo esgotamento que o modelo pago e a própria distribuição apresentam, face aos movimentos de notícia “free”.
Há saída para a crise? É claro que sim. Toda crise, pressupõe uma mudança de paradigma e, nesse sentido, o esgotamento do modelo de negócios atual dos jornais, que afeta a própria forma de fazer jornalismo e de atuação de seus profissionais, pode encontrar um “fôlego” nas experiências do jornalismo cidadão. É cedo para afirmar, que o jornalismo cidadão é a solução mais viável, mas já dá para vislumbrar uma “luz” no meio dessa tumultuada escuridão, que parece afetar todos os jornais.