sexta-feira, 19 de março de 2010

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Caminhos para o jornalismo do século XXI?

Web 2.0, Twitter, Blogs, P2P, Wikipedia, MySpace, Facebook, Youtube, Orkut, Iphone, Wi-Fi, jornalismo participativo… Nenhuma dessas expressões existia no dia 1º. de janeiro de 2000. Mais que termos com inspiração geek, essas palavras materializam uma modificação na relação das pessoas com o mundo e como se conformam as articulações do que se acessa, do que se produz.(Editorial Revista Ícone)

Concorda com essa idéia? Pois é, a Revista Ícone, editada pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pernambuco, disponibilizou o seu mais recente número, intitulado “Jornalismo no início do século XXI“.
O número problematiza as tecnologias e possíveis simbioses com a prática jornalística, entrecruzado com a prática dialógica existente. E neste aspecto, os editores tem razão: as tecnologias amplificaram a relação comunicativa nas práticas jornalísticas. Quem de nós pode fechar os olhos a isso, sem deixar de fora o futuro da comunicação? Você pode até discordar, mas vale a pena a leitura das considerações deste número!

Como está o ensino e a investigação em jornalismo em Portugal e na Espanha?

Essa foi a proposta da Jornadas da OBCiber, que foram realizadas nos dias 4 e 5 de dezembro de 2009, com o foco na temática “O jornalismo nos novos media: ensino e investigação”. Participaram diversos professores e profissionais, alguns já conhecidos aqui pelo Brasil, quer por seus trabalhos, quer por partilharem experiências no ensino e na pesquisa.

Entre os participantes, duas apresentações julgo essenciais (já que a finalidade do que escrevo aqui no Blog Ensino de Jornalismo e no blog do Gipo é o ensino e a pesquisa): a primeira, do prof. Javier Díaz Noci, da Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona, que apontou para a temática Pesquisa em ciberjornalismo: tendências, e, a segunda proferida pelo Prof. António Granado, da Universidade Nova de Lisboa, intitulada 10 coisas que as universidades precisam fazer para melhorar o ensino do jornalismo.
Caso prefira assistir as apresentações, coloca-as no Blog do Gipo (clique aqui para assistir). Encaro como essenciais para quem está estudando o ensino de jornalismo.

Efeitos imaginados da mídia?

Quando o assunto é teoria, não faltam possibilidades para se estudar o jornalismo. A hipótese do efeito da terceira pessoa é uma delas e, parte do pressuposto de efeitos imaginados.
A idéia é que esses efeitos ocorrem (ou podem ocorrer) sobre o “outro” e não sobre o “eu”. Essa hipótese foi cunhada por W. Phillips Davison em 1983, no artigo intitulado “The Third-Person Effect in comunication” onde ele aponta a possibilidade de que uma pessoa exposta à comunicação persuasiva na mídia massiva vê isso como de grande efeito nos demais (outros) do que em si mesmo (eu).
Ela pode ser aplicada a diversas situações, tais como política, programação, vendas ou mesmo para se assumir uma conduta censurante. Você poderá ler mais sobre essa teoria no artigo que publiquei na revista Estudos em Jornalismo e Mídia, vol.6, n° 2, mantida pelo Programa de Pós-Graduação da UFSC, editada em 2009, sob o título “Entre fronteiras: explorando o efeito da terceira pessoa”.

Entre letras e palavras, constrói-se o jornalismo

Letras, palavras, frases, sentenças bem elaboradas… Não faltam possibilidades no fazer jornalístico. Mas achar que esse “fazer” reduz-se apenas a contar uma boa história, é um ledo engano.
O trabalho de escrita jornalística compara-se ao trabalho de historiar. Não é de hoje que digo isso. Já declarei anteriormente que “existe uma linha muito tênue entre história e jornalismo” (Pôrto Jr, Gilson (Org). História do Tempo Presente, Edusc, 2007). O historiador tem seu objeto de cientificidade no tempo passado (não tão distante como normalmente se assume) e, o jornalista, no tempo presente (o ontem, não tão distante, mas também no agora).
É nessa construção passado-presente, que emaram-se palavras, criando histórias de um presente efêmero, que encantam e informam. Mas o trabalho do jornalista e do próprio jornalismo, é mais do que apenas a escrita de uma boa história publicável.  Jeff Javis, que é professor na Universidade de Nova York, aponta para outras possibilidades no trabalho jornalístico. Ele defende o trabalho jornalístico como processo e não apenas como produto

Por que é esse posicionamento importante? Javis argumenta que o trabalho do jornalismo no presente assume diversas possibilidades que vão desde a construção de dados e algoritmos, até escrita em colaboração e o crowdsourcing. Todos esses são vistos por ele enquanto processo.

O contar histórias não. Ele é produto, está acabado. E, nesse aspecto, o escritor de uma história “reinvidica para si o papel de centro da história”, de criador e do “tom” que ele deve assumir. É como ele afirma: “contador de histórias está no controle”.Não é esse o papel do jornalista? Também o é. Mas não deveria ser apenas esse.

Javis resume bem sua defesa de um jornalismo centrado nos processos e não apenas no produto:

Mas se continuarmos a assumir que o nosso papel é o do contador de histórias, e nos limitar a isso, então corremos o risco de fechar-nos às formas de captação e partilha de informações que não acabem sob a forma de histórias, que não estão organizados dessa forma. Quando nos abrimos, podemos pensar nos jornalistas como catalisadores, como organizadores da comunidade (e não apenas de informação, mas de uma comunidade, com habilidade para organizar as suas próprias informações), como professores, como curadores (como eu poderia passar por isso sem usar a palavra pelo menos uma vez?), como filtros, como fabricantes de ferramentas, como escritores de algoritmos.

Penso que essa defesa de Jarvis, indica bem quais os caminhos, ou melhor, que competências e habilidades devem fazer parte de qualquer  processo de formação. É claro que não descartamos a construção de histórias, mas não podemos reduzir o fazer jornalístico a apenas histórias efêmeras, quando temos pela frente um “rio de possibilidades” nesse século que apenas está começando.

Jornalismo, formação e trabalho

Trabalho e emprego. Essas são duas palavras quase mágicas para todo recém-formado. O egresso acostumou-se a viver trabalhando (bicos, free, etc) e, na maioria dos casos, emprego que é bom nada! Essa é uma realidade em todos os campos de formação. A diferenciação entre as duas palavras, nem sempre, é facilmente entendida: trabalho não significa emprego. Com reestruturação do trabalho nos anos 1990, as duas palavras foram descoladas e, hoje, vivenciamos “trabalho” enquanto categoria que não significa necessariamente emprego. Entenda-se aqui emprego, como uma categoria que pressupõe carteira assinada, “direitos” (mesmo que poucos) assegurados, estabilidade, etc.
Lembro-me que, a uns 10 anos atrás já discutia com alunos da graduação a “formação para o desemprego”. Defendia na época, que o mercado modificava-se rapidamente e, a universidade também precisava entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade. Recordo-me que foi uma guerra: fui chamado na coordenação de curso e acusado de “terrorismo”, de fazer fazer alunos desistirem da área, pois alertava os acadêmicos para a possibilidade do desemprego e da necessidade de abertura de novos espaços laborais, sob pena de ficarmos “ultrapassados” para um mercado flutuante e em constante mutação.
O que esse tempo todo mostrou? Que essa é uma certeza inegável: diversas áreas encontram-se em “crise” de identidade, por não atualizarem seu cabedal de conhecimento e suas técnicas e/ou metodologias. Novas habilidades são exigidas diariamente e, nossos acadêmicos, devem ser alertados para as potencialidades de uma mercado em mutação, que exige novas competências a todo instante.
Nessa linha de pensamento, Dina Rickman escreveu uma reflexão bem interessante no Journalism.co.uk, site especializado em jornalismo. Sob o título What does a jobs crisis mean for journalism education?, Rickman alertou para a necessidades dos futuros jornalistas serem informados sobre a “crise de emprego”. Por que esse alerta é importante? Porque tem-se um aumento, segundo ela, de 15,7% ao ano no Reino Unido no ingresso de novos acadêmicos nas faculdades. Esses tem “sonhos” ( como qualquer acadêmico de aparecer na “telinha” ou ser um editor de algum grande jornal), porém encontram a realidade de um mercado saturado.
Segundo Rickman, citando as estatísticas divulgadas pela untistats.com’s,

[...] os dados sobre o emprego de pessoas com cursos de graduação de jornalismo revelam algumas estatísticas preocupantes.  Uma pesquisa realizada com estudantes,  após seis meses da formatura, verificaram que, com excepção dos licenciados de Bournemouth e Kingston [universidades inglesas], nenhum curso teve mais de 40 por cento dos formandos de jornalismo trabalhando em alguma mídia associada à profissão.  Um quarto dos diplomados da University of the Creative Arts estavam trabalhando como assistentes ou caixas de vendas de varejo, em comparação com apenas 15 por cento que tinham emprego garantido na mídia ou em indústrias associadas.

O que pensam os formadores nas universidades? Sara McConnell, que dirige o curso de jornalismo na  Kingston University apontou que

[...] há “muitos cursos de ‘jornalismo no Reino Unido e é preciso haver um” debate sério “sobre o futuro do ensino de jornalismo”. Algumas universidades estão olhando apenas para  o rendimento dos estudantes e, universidades sem escrúpulos,  podem ser desonestas a respeito de perspectivas de emprego. Seria irresponsável para nós fingimos que uma graduação é uma porta de entrada para um emprego.

Independente do que pensemos, é importante sermos honestos: um diploma não é, necessariamente, sinônimo de emprego. Isso acontece lá nos Estados Unidos e aqui também no Brasil. É claro que, as chances aumentam para aqueles que possuem competências e habilidades adquiridas no espaço acadêmico, mas  não implicam em sucesso, necessariamente.

O que temos de fazer? Como formadores nas universidades, assumir o que defendi a 10 anos atrás: o mercado modifica-se rapidamente e, a universidade precisa entender isso e, proporcionar aos alunos, condições de competitividade, sobretudo, as que dizem respeito ao jornalismo digital. Não estou aqui fazendo “apologia ao mercado”, queria poder não depender dele, mas a verdade é “nua e crua”: somos peças de uma jogo bem elaborado nessa máquina capitalista. Ela sabe bem as regras, e nós?


O futuro do jornalismo: especialistas fazem suas apostas

Em 2009, a expressão “O futuro do jornalismo” foi utilizado largamente em artigos e palestras pelo mundo acadêmico. A utilização da expressão, chama atenção para algo “novo”, que existe no campo discursivo e, que, dia-a-dia, parece criar um “pânico” em quem a lê. Digo isso, porque em conversa com colegas da área e acadêmicos, quando fala-se em “futuro do jornalismo”, a expressão aparentemente foi ressignificada para “crise”, “fim”, “desemprego” e palavras afetas a essas.

O futuro nunca pareceu tão complexo para uma área, como aparentemente, sentem os profissionais envolvidos no processo, quer acadêmico, quer laboral. É quase uma “escatologia jornalística”, aonde profissionais e acadêmicos parecem inflar e potencializar em suas falas, algo natural em outros campos do conhecimento, que é o esvaziamento de um modelo de negócios.
As palestras, artigos, notícias e outras comunicações do gênero, parecem atribuir um “fim” ao modelo de negócios da mídia tradicional, que realmente, deverá ser ressignificado, afim de se preservar. Mas o “fim”, apesar dos discursos inflamados, não ocorre com a perda de certos “direitos” (como no caso do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, no Brasil). Esse “fim”, encontra-se em um “futuro” ainda incerto, mas promissor. É o que revelam as falas dos três vídeos a seguir.
The Future of Journalism, é uma palestra realizada na Stanford University com Leonard Downie Jr., um dos vice-presidentes do The Washington Post e, que reforça o confronto que parece existir entre o iornalismo impresso e o ambiente web. Nessa fala, já se vê os indícios do que ele defenderia no relatório The Reconstruction of American Journalism, já falado aqui no Blog do Gipo.

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Também intitulado The Future of Journalism, Jonathan Este, diretor de comunicação da Media Alliance’s,  fala na University of South Australia. Entre os diversos pontos, Jonathan Este fala sobre a relação entre blogueiros e jornalistas pagos, o uso de ferramentas de mídia digital e a relação entre meios de comunicação social e notícias.

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O último vídeo, um pouco mais antigo, mas igualmente interessante, é a entrevista de Nicholas Lemann, da Journalism School of Columbia University, que discute a relação entre blogueiros, jornalismo e notícias. Apesar de nem sempre essa relação ser muito “amistosa”, Lemann vê um futuro para a difusão de notícias nesse modelo que parece ser desenhado.

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Jornalismo subsidiado? Soluções para uma crise declarada

Foi publicado pela Columbia University um estudo que analisa estratégias para a reconstrução do jornalismo nos Estados Unidos. O relatório intitulado  The Reconstruction of American Journalism é assinado por Michael Schudson, vice-presidente do The Washington Post e professor da Arizona State University e por Leonard Downie Jr, professor de jornalismo da Columbia University . A dica foi dada pelo Blog do GJOL.
O relatório expressa bem a situação de crise que os jornais passam, reconhecendo já de saída, que a base tradicional de manutenção econômica das edições, a publicidade, está em colapso. Para os autores do relatório, a crise de receitas não afeta apenas os jornais impressos, mas também os noticiários da televisão aberta. Mas, pelo menos, algo é positivo para eles: os jornais e os noticiários não vão desaparecer, mas serão reinventados pela evolução do mundo digital. Eles atribuem um papel duplo a internet: tornou possível novos espaços jornalísticos, mas prejudicou o apoio do mercado tradicional ao jornalismo impresso.
Como eles percebem a “saída” dessa constatação? Bem, eles fazem seis recomendações, no mínimo, bem polêmicas:
1. Controle do Congresso de organizações de notícias independentes, que deveriam ser criadas ou convertidas em entidades sem fins lucrativos ou com baixo lucro, para servir ao interesse público, independente de seu “mix financeiro”, com patrocínio comercial e publicitário, permitindo explicitamemte o investimento de fundações filantrópicas nessas novas organizações híbridas;
2. Filântropos, fundações e fundações comunitárias devem aumentar substancialmente o seu apoio a organizações de notícias que têm demonstrado um compromisso substancial com os assuntos públicos e prestação de contas;
3. O público do rádio e da televisão devem ser substancialmente reorientados para fornecer informações importantes à imprensa local em cada comunidade, servidas por estações públicas e seus sites. Isso exige uma ação urgente e reforma da Corporation for Public Broadcasting, bem como um aumento do financiamento e do apoio do Congresso para a comunicação pública;

4. Universidades, tanto públicas como privadas, deverão tornar-se fontes locais de sujeitos especializados, além de notícias e prestação de contas, como parte de sua missão educacional. Elas devem explorar as suas próprias organizações jornalísticas, sendo plataformas de acolhimento de notícias sem fins lucrativos e de organizações de jornalismo investigativo e, ser laboratórios para a inovação digital na captação e partilha de notícias e informações.

5. Um fundo nacional de notícia deve ser criado com o dinheiro do Federal Communications Commission, que poderia ser coletado dos usuários de telecomunicações, televisão e de radiodifusão sonora licenciados ou prestadores de serviços de internet, administrados por conselhos locais de notícias.

6. Mais deve ser feito por jornalistas, organizações sem fins lucrativos e governos para aumentar a acessibilidade e a utilidade das informações coletadas pelo público em âmbito federal, estadual e local, facilitando a captação e difusão da informação pública por parte dos cidadãos, ampliando o reconhecimento público das muitas fontes.

É, as propostas são fora do “convencional”, para um país capitalista. Retiram da mão de poucos o poder da informação e fragmenta em pequenas comunidades. Mas, a situação é muito mais complexa do que aparenta e, por mais que essas recomendações forneçam um caminho, vão enfrentar muitas críticas. De fato, mal o relatório tornou-se público, David Carr, William Carleton, Dan Gillmor e Jeff Jarvis, criticaram as posições assumidas. 

Universidade múltipla: visões de Castells

O Blog Novos Medios.org, destinado a estudos de jornalismo e comunicação, mantido pela Faculdade de Comunicação da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), disponibilizou um resumo da palestra realizada por Manuel Castells.
Manuel Castells dispensa muitas apresentações. É professor de comunicação e tecnologia em inúmeras universidades européias, além de escritor de diversos livros nessas áreas. Na palestra realizada, Castells discutiu sobre a “universidade na era da informação” e, atribuiu a essa, o papel de “instituição central do mundo em que vivemos”.
Segundo ele, a universidade teve seis funções ao longo da história, conforme citado pelo sítio:

1. A universidade que produz valores e legitimação social, própria da fase em que as escolas teológicas, centravam a atividade universitária;
2. Função de seleção de elites, através da educação e da configuração de sua rede social;

3. A universidade formadora de profissionais da própria universidade tecnológica;
4. Função de produção de conhecimento. Castells fala em universidade, científica, função tardia que começou a desenvolver-se na segunda metade do século XIX na Alemanha e, depois, importada pelos EUA no final desse mesmo século;
5. A universidade educadora de massas. A universidade generalista, que estende o direito à educação universitária a todas as pessoas. Os recursos, não crescem proporcionalmente às necessidades projetadas, pelo aumento de alunos. Trata-se, do que Castells, alcunhou como “café para todos, mas descafeinado”.
6. Função empreendedora. A universidade empreendedora gere a ligação entre o mundo empresarial e da produção de conhecimento, que se desenvolve no seu seio. É a encarregada de traçar pontes de relacionamento para que o fluxo de conhecimentos, entre a universidade e a necessidade de desenvolvimento de aplicações e tecnologias da empresa privada seja contínuo, freqüente e de qualidade.
Poderia uma única universidade abarcar esse “universo” de possibilidades? Para Castells, não. A universidade deveria primar por algumas dessas funções, mas obrigatoriamente, “a excelência deve ser um dos primeiros fins da universidade, junto com a função de serviço público (que não implica, a exclusão das universidades privadas, que tenham também um boa trabalho de serviço ao público) e a necessidade de auto-constituir-se, como espaços com autonomia própria, para servir à sociedade num ambiente de liberdade”, frisa o sítio.
Ao ler essa notícia e as perpesctivas de Castells, não pude deixar de lembrar das leituras que fiz sobre a Universidade, principalmente as propostas de Robert Paul Wolff (O ideal da universidade), Wladimir Kourganoff (A face oculta da universidade), Geraldo Moisés Martins (Universidade federativa autônoma e comunitária), Clark Kerr (Os usos da universidade) e Durmeval Trigueiro Mendes (Ensaios sobre educação e universidade). Em maior ou menor grau, as propostas de Castells passam pelo olhar e discussão desses autores, que frisam a importância da universidade como estrutura basilar de formação humanística e técnica do cidadão.

Cumplicidade? Até aonde vai o jornalismo…

Essa é uma questão espinhosa, para não usar adjetivos constrangedores. Pelo menos, essa é a impressão, quando se lê o texto de Oliver Boyd-Barrett, professor do Departamento de Journalismo da Bowling Green State University, em Ohio (EUA). O artigo intitulado “Contra the journalism of complicity” foi publicado no número especial de junho da revista Journalism.
O texto é marcante, pois o autor não mede “exemplos” para falar do processo de cooptação que parece pairar sobre a mídia. Logo no início do artigo, Boyd-Barrett, de forma “poética”, que me fez lembrar das aulas de Teoria Marxista, afirmou:

Um odor emana do poço jornalístico. É o cheiro da cumplicidade com as agendas das elites empresariais, políticas e plutocráticas. É o cheiro da dependência da rotina de enganadores, da preguiça, da covardia e da arrogância. [...] A mídia dá cobertura a guerras travadas com falsos pretextos e à custa de “aleijões”. A rainha está no quarto, e os “impressores”, ficam na ponta dos pés, de forma educada e distraída, enquanto princípios constitucionais e direitos são desmontados e ridicularizados.

Forte? Talvez um pouco, para os padrões eufemísticos, que a mídia do século XXI parece querer explorar como objeto de desejo. Talvez seja esse um problema desse início de século, de uma lado temos a exploração da imagem dos “miseráveis e pobres” ao extremo e, de outro, a atenuação dos “pecados” dos países ricos, que não medem esforços na hora de invadir um país, como ele chama, um “aleijão”. Não é sem motivo, que ele cite o Afeganistão e o Iraque, como exemplos dessa cultura do eufemismo midiático.

Mas ele não pára aí. Ele dá mais ênfase a essa cooptção da mídia e da reificação dos países ricos:
[...] A grande mídia está adormecido ao volante, confortavelmente comunica o mundo  través de lentes do poder plutocrático e autoritário. Raramente, eles exibem impetuosidade para a batalha em nome de pessoas comuns, sem levar em conta riqueza, raça, etnia e gênero. Ao invés de dar voz à verdade, eles dão voz ao poder.
É, Boyd-Barrett não mediu palavras, ao indicar que a mídia, muitas vezes, tem sido porta-voz do poder. A outra comparação feita no texto, que dá muito em que pensar, é a da mídia como apenas observadora, inerte. Ele diz que a mídia é como uma “soldado em um cavalo, com sabre reluzente, farda bonita e ,que cavalga, entre centenas de milhares, milhões de cadáveres de homens, mulheres e crianças”, mas que não se compadece, já que de forma cúmplice, apenas tem como “missão observar a carnificina, não expor o esquema de guerra”. “Essa é a imprensa moderna, que é cúmplice na invasão do Iraque, assim como foi no Vietnã”, reforça Boyd-Barrett.
Não há como dizer, que o discurso está ultrapassado ou mesmo, que é parcial. Penso que não há imparcialidade quando vidas foram destruídas e a mídia silenciou. Posso não concordar com todo o discurso, mas não há como negar que, nesse campo, a mídia deixou a desejar nesse início de século. E continua, quando deixa de discutir esses temas, de uma história que está sendo construída todos os dias.

Não há futuro para o jornalismo sem jornalistas

Essa é a premissa defendida por Vincent Mosco, professor da Queen’s University do Canadá, no artigo “The future of journalism“, publicado no número especial de junho da revista Journalism. Mosco aponta para a “crise” que a área vive, sobretudo na manutenção dos postos de trabalho.
Para exemplificar isso, ele aponta para o estudo realizado pela American Society of Newspaper Editors (ASNE), que constata que no ano de 2007, houve uma queda de 4,4% no número de jornalistas em redações, o que significa menos 2400 profissionais empregados.
O movimento de crise foi também seguido, segundo Mosco, pela maior editora de jornais nos Estados Unidos, a Gannett, que anunciou a demissão de 3000 pessoas (10% de sua força de trabalho); o Times Inc., empresa responsável pelas revistas Time, People, Sports Ilustrated e Fortune, cortou 600 postos de trabalho; o Christian Science Monitor, jornal diário que existia a mais de uma século, anunciou que iria descontinuar a impressão; o Tribune Company, que após sucessivos cortes de equipe, anunciou o fechamento de mais 75 postos de trabalho na redação do Los Angeles Times, ficando com metade da equipe que tinha em 2001 e, mesmo o New York Times, que havia demitido membros da equipe de redação. Não é sem motivo, que em meio a essa “maré” de demissões, um colunista tenha dito, conforme parafraseado por Mosco, que o “céu está caindo e é difícil saber quantos serão deixados para cobrir a história”.
O que pensa concretamente Mosco dessa situação? Ele afirma que:

É difícil discordar da opinião de que uma combinação de inovação tecnológica, bem como a consolidação de empresas e governos neoliberais, tenha contribuído para a perda de emprego. Alguns argumentam que, o declínio nas fileiras dos  jornalistas, como tradicionalmente se definiu, tem sido compensada pelo crescimento de novas  formas de jornalismo, principalmente online, incluindo blogs, jornalismo cidadão, ‘I-reporting’, e uma variedade de adaptações a partir de sites de redes sociais. Estes  são, reconhecidamente, importantes empreendimentos para se narrar histórias, mas, além de algumas exceções, aqueles contando as histórias não são jornalistas. Eles não são treinados no ofício. Eles não são treinados para recolher e avaliar informações [...] ou corroborar o que eles coletam. Além disso, as novas tecnologias também podem ser usadas para terceirizar o trabalho dos jornalistas profissionais, como a Reuters fez quando mudou, mais ou menos, mil postos de trabalho do Reino Unido para a Índia.

O argumento tem lógica. A lógica do capitalismo e do lucro, que obviamente, em tempos de crise, procura meios de estabilizar e aumentar seus lucros. É claro que, aquele jornalista que perdeu seu emprego para um  “modelo de negócios baseado na internet” – que muitas vezes é o discurso enfatizado na hora da demissão – tenha inúmeras resistências ao jornalismo on-line, aos blogs ou mesmo ao jornalismo cidadão.

E qual é o futuro vislumbrado por Mosco? Para ele,

Especificamente, o futuro da saúde do jornalismo, depende da capacidade dos jornalistas se unirem, nacional e internacionalmente, para defender os seus interesses. Eles precisam convencer as pessoas, incluindo políticos, meios de comunicação, proprietários e consumidores de notícias, que o que importa para todos nós, é que os jornalistas funcionam melhor quando são profissionais seguros, e que a diversidade é essencial para a democracia. Mudanças na política do governo, pode ajudar, incluindo a limitação de fusões de mídia, que muitas vezes acontecem ao custo trabalhista, bem como facilitar o processo de criação de sindicatos e, se engajar em negociações coletivas.


Essa união dos trabalhadores da comunicação, é o que ele chama de “convergência de trabalho” (labor convergence) e, se fortaleceria, na medida em que “novas formas de organização dos trabalhadores se assemelhem a movimentos sociais”. É claro que Mosco reconhece que isso, por si só, não garante sucesso, mas a retomada das “raízes da profissão”, para reaquecer a organização dos profissioinais, pode ser um caminho.