Acabo de ler e entrevista de Luis Carlos Bresser-Pereira para o Valor Econômico, publicada na edição de ontem, sexta-feira, 08 de abril. A entrevista me chamou atenção logo de saída pelo título que recebeu do jornal – “Por uma idéia de nação”.
Imediatamente me veio à memória uma das disciplinas que pude cursar na UFRJ chamada “Intérpretes do Brasil”, cuja proposta era realizar um debate sobre autores que são considerados referências obrigatórias na interpretação do país. Nela pude ler e discutir um conjunto de pensadores brasileiros que ia de Joaquim Nabuco a Celso Furtado. Foi nesta disciplina que conheci o livro de Celso Furtado “Brasil, a construção interrompida” no qual ele , no início da década de noventa, faz um balanço e mostra como a construção de um sistema econômico nacional foi interrompida na década de oitenta.
Animado com as memórias me pus a ler a entrevista. À medida que eu avançava no texto no qual Bresser descreve sua trajetória intelectual e política ia ficando cada vez mais perplexo. Um dos trechos mais surpreendentes é aquele em que ele comenta a década de 70, quando conheceu e ficou amigo de FHC. Bresser diz que “daí cheguei no Cebrap. Eu estava perfeitamente de acordo com eles [os integrantes do Cebrap] na luta pela democracia (…). Só que não percebi que havia um conflito muito grande na parte nacionalista, que a teoria da dependência associada do Fernando Henrique era incompatível com o nacionalismo econômico. Só descobri isso depois que saí do governo de Fernando Henrique, muitos anos depois.”.
A afirmação é feita com uma tranqüilidade tal, como se ele, Bresser-Pereira, não tivesse percebido algo fundamental porque estava, assim, como que meio desligado, meio desatento. Bom, não fosse o ponto em questão algo tão central nos debates sobre a Teoria da Dependência, a fala de Bresser-Pereira poderia até convencer.
“Dependência e Desenvolvimento na América Latina”, foi publicado por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto em 1969. No entanto, é bom lembrar, como faz Teothônio dos Santos, que a partir de 1974, FHC começa a mudar sua posição. É a partir daí que FHC começa a formular que somos uma estrutura nascida dependente e por isso não teríamos condições de superar a dependência. Dito com outras palavras começa a dizer “olha não tem jeito, a única saída é se subordinar ao capitalismo central mesmo”. 1974, mesmo ano em que FHC começou a entrar na vida política brasileira pelo MDB.
Mas é cerca de quatro ou cinco anos depois, momento de aprovação da Lei da Anistia que abria a possibilidade para os exilados políticos retornarem ao Brasil, que FHC dá mais uma apertada no parafuso desqualificando as críticas que Ruy Mauro Marini fizera às suas formulações. FHC faz isso por meio de um artigo intitulado “As desventuras da dialética da dependência”, escrito em parceria com José Serra em 1978, quando ambos se encontravam na universidade de Princeton nos Estados Unidos. Ruy Mauro responde a ambos com o artigo “Las razones del neodesarrollismo. (respuesta a F. H. Cardoso y J. Serra)”, publicado também em 1978.
Voltando a Bresser-Pereira que em sua entrevista afirma só ter se dado conta das limitações da Teoria da Dependência Associada quando saiu do governo FHC, em 1999. Vinte e um anos após Ruy Mauro Marini ter lançado algumas luzes sobre os limites da Teoria da Dependência Associada como uma alternativa política para o Brasil. 21 anos.
A entrevista tem outros trechos que pedem comentários como aquele sobre o controle da inflação pelo Plano Real. Mas isso ficará para outro dia.
Fernando 9 de agosto
Excelente paulada, merecida!