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A Cultura Digital Brasileira na conferência sobre o ‘Commons’ em Berlim


David Bollier, especialista e autor de Viral Spiral, faz a palestra de abertura do evento

Através de alguns encontros oportunos em viagens ao exterior, onde temos a chance de divulgar o que está acontecendo no Brasil no âmbito do que chamamos Cultura Digital, fui convidado a participar na primeira Conferência Internacional sobre Commons (“I International Commons Conference“).

Realizada recentemente pela Fundação Heinrich Boll em Berlim, a Conferência reuniu por volta de 200 pesquisadores, ativistas e especialistas, e teve como objetivo principal evidenciar os pontos em comum entre movimentos aparentemente distintos como por exemplo, o software livre, e as organizações locais para governança de recursos fundamentais como a água, ou ainda as iniciativas para criação de bancos de sementes como alternativa ao uso de sementes genéticamente modificadas protegidas por copyright.

O plano era fomentar uma convergência entre os estudiosos dos diversos ‘commons’, e os ativistas que estão desenvolvendo os projetos na prática, criando assim as condições para o lançamento de uma “plataforma política baseada no ‘commons’”.

‘Commons’?

A Wikipedia traduz the commons como ‘bens comunais‘, ou ‘comunais’. Quando pensamos em estratégias para promover esta aproximação entre os diferentes grupos que valorizam os modelos de gerenciamento sobre propriedades coletivas, vale indagar se o termo ‘commons’, no momento em que é portado para outras línguas e culturas, se presta a esclarecer / comunicar os conceitos e valores embutidos.

O que pude perceber em Berlim é que existem diferenças consideráveis entre os que se reúnem para tratar deste tão específico tema. Os chamados ‘commons tradicionais’, que se interessam pelas modelos clássicos de governança sobre propriedade coletiva, e os vibrantes ‘commons digitais’, a turma que se converteu ao compartilhamento e ao trabalho coletivo em rede, constituem por si duas tribos já bem distintas.

Fato é que os ‘commons tradicionais’ apresentam interessante acúmulo no tema, focando nos modelos históricos de governança para gerenciar recursos compartilhados. O elemento confiança é destacado como fundamental para que os pares respeitem as normas estabelecidas, e a propriedade comum configura um fator de agregação social que irá facilitar a cooperação em outras áreas.

Entretanto, é preciso admitir que os ‘commons tradicionais’ foram sistemáticamente atacados durante todo o século passado pelas estratégias hegemônicas do mercado, que se valeram de parábolas como a Tragédia dos Comuns (‘Tragedy of the Commons‘) para naturalizar uma prevalência da propriedade privada como referência de eficácia gerencial. O prêmio nobel de economia para Elinor Ostrom em 2009, por seus estudos em governança econômica do commons, promete inaugurar uma nova fase para o conceito.

‘Commons Digitais’ na ofensiva

Michel Bawuens da P2P Foundation, em sua palestra na ICC em Berlim, afirmou que os ‘commons digitais’, por sua vez, estão na ofensiva. O sucesso do modelo de produção em software livre, que se tornou infra-estrutura fundamental da rede mundial de computadores, e também das corporações que apresentam melhor desempenho nos novos modelos de negócio da web, demonstra de maneira definitiva a eficácia destas novas formas de produção.

Neste cenário, os ‘commons digitais’ se mostram prontos para apresentar soluções inovadoras às questões colocadas pelas crises política e econômica globais. As licenças Creative Commons para expressão individual e compartilhamento, e a GPL (General Public License) como geradora de “commons”, são soluções bem acabadas e inovadoras para um novo momento econômico.

Com a queda nos custos de coordenação / comunicação, a hierarquia (instituições) deixa de ser necessária à coordenação de iniciativas coletivas. Dessa forma, dinâmicas locais podem se tornar globais. Quanto ao elemento confiança, fundamental para o funcionamento das dinâmicas commons, vem claramente se reconfigurando e mudando de foco especialmente entre os mais jovens: “confio mais em pessoas como eu, com quem eu posso me relacionar diretamente, do que em instituições opacas”.

Cultura Digital Brasileira

No Brasil, o uso intensivo das possibilidades de interatividade da Internet e dos ambientes de redes sociais tem gerado um público que se apropria muito rápido da cultura digital. Sempre gosto de destacar o fato de que no Brasil experimentamos o fenômento da rede social ubíqua (Orkut – 2005/6) bem antes do resto do mundo (Facebook – 2009/10).

Por outro lado, o Programa Cultura Viva do MinC, com a implementação dos Pontos de Cultura, tornou o Brasil o primeiro Estado a promover como política pública o exercício de uso efetivo e integrado das duas principais soluções inovadoras dos ‘commons digitais': o software livre e as licenças alternativas como o Creative Commons.

A vitalidade dinâmica que emergiu do exercício digital dos Pontos de Cultura impactou o MinC de maneira irreversível, e em 2009 foi criada a Coordenação de Cultura Digital, que deu origem à rede social CulturaDigital.BR — plataforma para a construção colaborativa de políticas públicas e ambiente permanente do processo do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Um novo jeito de fazer política pública.

A rede CulturaDigital.BR, além de servir de plataforma para publicação de conteúdos das iniciativas fomentadas, proveu tecnologia e hospedou processos de colaboração interativa como a elaboração do Marco Civil da Internet e a consulta pública sobre a revisão da Lei de Direito Autoral. A rede é também avatar político no Fórum Brasil Conectado, instância consultiva do Programa Nacional de Banda Larga. O projeto de uma rede social aberta lançada por um governo, único no mundo, ganhou menção honrosa no Prix Ars Electronica 2010.

Ao tentar explicar em Berlim, como e porque estas inovações estão acontecendo no Brasil, e mais especificamente no Ministério da Cultura, tive que fazer referência a Gilberto Gil e sua postura como ministro-hacker. Mencionei também a presença de elementos da Tropicália na narrativa que propõe o exercício da cultura digital. Enfim, disponibilizo a apresentação abaixo:

Nesta apresentação, a intenção foi mostrar como as iniciativas de aproximação de arte e tecnologia do MinC foram exitosas em promover a rápida apropriação de novos modos de fazer amparados no digital. Além disso, tentei demonstrar como estes novos modos de fazer impulsionaram a inovação na condução da política pública, agora realizada através de plataformas tecnológicas, ambientes digitais interativos.

Minha manifestação ao final do evento foi de que, para se criar uma plataforma política baseada no commons, seria importante criar o ambiente e a cultura de interatividade capaz de promover a desejada convergência. Trata-se da cultura de se utilizar efetivamente estas ferramentas. Me parece que é neste aspecto que os ‘commons digitais’ podem se colocar a serviço das outras modalidades commons, e do resto da sociedade. Este é um dos traços marcantes da inovação que a cultura digital brasileira representa no cenário global.

Veja também:

Pew Internet (EUA): A Terceira Idade e as Mídias Sociais

Esta pesquisa da Pew Internet & American Life Project, sobre os usuários de internet nos Estados Unidos, aponta um crescimento meteórico no uso de mídias sociais pela terceira idade.

Embora o uso de mídia social tenha crescido dramaticamente em todos os grupos etários, no decorrer do último ano os usuários mais velhos têm se mostrado especialmente entusiasmados em abraçar as novas ferramentas da rede. O uso de redes sociais da Internet entre as idades acima de 50 quase dobrou, passando de 22% em abril de 2009 para 42% em maio de 2010.

  • - Entre abril de 2009 e Maio de 2010, o uso de redes sociais por usuários de internet entre as idades de 50-64 cresceu 88% – de 25% para 47%.
  • - Durante o mesmo período do uso, entre as idades de 65 e mais velhos cresceram 100% – de 13% para 26%.
  • - Em comparação, o uso de redes sociais entre os usuários de idades 18-29 cresceu 13%-de 76% para 86%.

“Os jovens continuam a ser os maiores usuários dos meios de comunicação social, mas seu crescimento empalidece em comparação com os ganhos recentes feitas por usuários mais velhos”, explica Mary Madden, especialista de pesquisa sênior e autora do relatório. “E-mail ainda é a principal maneira que os usuários mais velhos mantém contato com amigos, familiares e colegas, mas muitos idosos usuários agora contam com plataformas de rede social para ajudar a gerenciar suas comunicações diárias.”

Sobre a pesquisa

Este relatório é baseado nos resultados de um inquérito baseado em um acompanhamento diário dos norte-americanos e sua utilização da Internet. Os resultados apresentados neste relatório baseiam-se principalmente em dados de entrevistas telefônicas realizadas pela Princeton Survey Research Associates International entre 29 de abril e 30 de maio de 2010, entre uma amostra de 2.252 adultos, 18 anos de idade e mais velhos. As entrevistas foram conduzidas em Inglês. A combinação de linhas fixas e celulares com ligação aleatória dígitos (RDD) amostras foi usado para representar todos os adultos nos Estados Unidos continentais que têm acesso a qualquer linha fixa ou um telefone celular. Para resultados baseados na amostra total, pode-se dizer com 95% de confiança que o erro atribuído à amostragem e outros efeitos aleatórios é mais ou menos 2,4 pontos percentuais. Para resultados baseados utilizadores da Internet (n = 1.756), a margem de erro é de mais ou menos 2,7 pontos percentuais.Além do erro de amostragem, a redação das perguntas e as dificuldades práticas na condução de inquéritos telefónicos podem introduzir algum erro ou viés para os resultados das pesquisas de opinião. Para obter mais informações, consulte a secção de metodologia.

Acesse a pesquisa (em inglês):

Explore as Questões da Pesquisa (em inglês):

Rushkoff: “Programe, ou seja programado”

Na semana do FISL, achei legal preparar esta versão de trecho (5 min.) da fala do Douglas Rushkoff no SXSW, onde ele apresenta os 10 mandamentos para a era digital.

Programe ou seja programado! Gostei especialmente do trecho onde ele diz:

” e agora que temos o computador, você acha que seremos uma nação de ‘codeiros’? NÃO! Somos uma nação de blogueiros!! ”

Vale conferir:

Ronaldo Lemos: A reinvenção da cidade viaja de bicicleta

Folha de São Paulo, 12/07/2010 – por Ronaldo Lemos (Filho) – Caderno Folhateen.

Bicleta BIXIESTIVE EM Montréal (Canadá) na semana passada à convite da HEC, importante escola de administração de Québec. Havia muita coisa acontecendo na cidade. Entre elas o festival de Jazz, que neste ano trouxe Lou Reed e Laurie Anderson, Dave Brubeck (com 90 anos!) e boas performances de novatos, como a da furiosa cantora e multi-instrumentista Sophie Hunger.

Mas o que mais me impressionou foi uma revolução silenciosa que está acontecendo de bicicleta.

Explico. Existe uma batalha entre pedestres e donos de carros acontecendo ali. E os carros estão perdendo.

Um dos recentes movimentos da disputa é um serviço chamado Bixi (www.bixi.com), que consiste em estações de bicicleta espalhadas pela cidade.
Funciona assim: você vai até uma estação e pega uma bike (dá para pagar na hora com cartão de crédito). A partir daí, pedala até onde quiser e deixa a bicicleta de volta na estação mais próxima do destino.

O sistema é totalmente diferente do aluguel de bicicletas para passear. Ele é um sistema de transporte público. Tanto que a tarifa anual custa R$ 140. A partir daí, o uso por até meia hora é grátis. Se a bike ficar mais de meia hora sem retornar a uma estação, R$ 3 são cobrados por hora.

Onde entra a internet nisso? A tecnologia é que faz tudo funcionarO Sol alimenta o leitor do cartão de crédito e a conexão com a rede.

Não há nenhum fio, então as estações podem ser deslocadas rapidamente.

Por meio de um aplicativo de celular, é possível saber quais as estações mais próximas e quantas bicicletas estão disponíveis.

Com isso, tudo se auto-organiza. Uma horda de bicicletas circula todos os dias guiadas pela “mão invisível” dos usuários, que vão distribuindo e redistribuindo as magrelas de maneira mais eficiente do que se houvesse alguém controlando tudo.

Ao ver isso, fiquei sonhando com o dia em que a batalha entre pedestres e donos de carro vai começar no Brasil. Eu já escolhi o meu lado.