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ago 26

Terras

Não ter pra onde ir é uma forma de ficar?

Será que estava condenado a certo nomadismo, ciganismo existencial, a ficar coletizando sensibilidades, fustigando novos territórios, entre poesias de botequim, projetos sócio-culturais, politiquices inaptas, arroubos estéticos, eternos novos amigos? Será que um dia ele viraria Árvore?

Agora é aqui, tudo bem, amanhã acolá, venta? Ventre? Ele vai! Quase uma afronta à ideia de Estado-Nação, de bom comportamento, de rima. Ir nem sempre é pra frente, sociologizava com certo interesse em agradar ou mesmo só escutar em si o Outro, praticar alteridades, efusivas ou não, de acordo com o calor; forma de querer estabelecer diálogos, de Ser, pois só na Troca, mesmo que infinitesimal, mas viva, eloquente, vibrante, colorida, dizendo: ok, Deus, acho que entendi.

Sair de si é uma forma de ficar?

Se for é aonde? Na terra? no chão? na casa? na cidade? Ou pra dentro, em si, deixando entrar, tipo escorrer-se água adentro, até ser uma coisa só, plasmático, dois sendo três, esse entre, vão incinerando-se.

Ou só oi, beijos, ó, comprei o jornal, você está linda hoje, vamos sim, quero ver esse filme, você faz tão gostoso meu bem, num sei o que é o Amor pra te dizer isso, nem eu, seus amigos são legais, sotaques são charmes, há quanto tempo mora aqui, pretende ficar, trabalha no governo, então você pensa em ir embora, vamos fazer projetos juntos, me abraça, sim, gosto de café, e se você cansar de mim, sou estranho, sou estranha, já experimentei de tudo também, vamos pedir uma cerveja que vou lhe contar meu passado.

Sim, contar o passado pra alguém é reescrever o corpo no presente. Um editor de sentimentos, bons e ruins, pra complexificar andares, rugas, olhares: serei espectadora do seu onirismo, mirando-lhe o Olho, poros pra imantar seu porvir. Vem.

Enfim: cotidianidades, celular, computador, pássaros, terra, água, suor, bibliotecas. O olhar visceral, grande, a íris, preta enorme, fitando, perpassando, doendo; algumas palavras soltas, letras no ar (num precipício ou na corda bamba) como devaneios captaneados ao léu pra estabelecer o mínimo de sociabilidade, acreditar nas pessoas, nomear conceitos de felicidade, brincar de entender.

Brincar de entender pode ser a coisa mais bonita desse mundo, como dormir na rede, carinho na nuca, ler poema e se salvar, batuques desordenadamente fluídos.

Porque tem hora que só com o pé cheio de terra pra por as ideias no lugar, conexão direta com algo que está aí e não,  quando o não-falar é o entender, marrom-vermelho-terroso contrastando com a saia branca, que gira e encobre a Terra; uma especialidade rara e completamente vulgar essa: Existir.

(Gosto quando diz amenidades, não me importo com o ficar dele, corpóreo ou existencial, me importo com a criação de estáticas, pequenuchos fogaréus. Homem, segura o segundo como a seu destino)

Os espíritos vêm e conversam, ele não lhe vê, nos destinos longos são pontos, nós de luz, potentes, desbravadores, enigmáticos, tesudos; mas pontos: se comprometendo apenas em não decantar as belezas das possibilidades, estrelas fodendo o Cosmos. Um ínfimo infinito.

A gente sai de mão dadas, reenergizados, terreirando. Saraivados de luzes, nos vemos nem olhamos

O que fazer com esse aceitar imensidões, essa quentura, esse nós? vermelhidão existencial desse céu do cerrado que te rasga, que só perdoa quem sabe. Amém?

Amar é uma forma de ficar?

Aquele silêncio.

Aquele silêncio que não incomoda, que só é burilado por um ranger de porta, uma tosse, um motor suave ao fundo; aquele silêncio inventado como forma de dizer Obrigado.

Você escovará os dentes, fechará o livro que pegou na biblioteca da melhor amiga pra estender-lhe melhor o mundo, me beijará dizendo boa noite com meus lábios, sonhará com alguma coisa que só diz respeito a seu íntimo (aquela parte que se guarda pra nunca se perder de si) e acordará em outro espaço-tempo. Vem.

Nesse apocalipse tranqüilo, entre o começo e o fim dos Tempos, transcendendo e tecendo divindades corpóreas entrelaçadas. Você diz que não sabe dançar só pra tirar o foco da humanidade, pra parecer alma perdida, anja torta, Iemanjá terrena. Queremos um nOutro é remembrar esse primeiro sentir; nosso plano é enganar o Futuro, desleixar com o tempo.

Uma maldição salva a outra?

Ele só queria aprender a plantar a flor pronta; impaciente (por isso deambula?), porque a planta, a flor, a árvore ficam, mesmo indo, mesmo sendo. Você solta o cabelo, diz que ele o liga a sua feminilidade, sua mãe-terra incrustada na cabeça, sua veia xamã-feminista, subconsciência corporal-política do que representa estar mulher nesse mundo. Abram-se, alas.

Sim, tem algo no ar; você, horizonte, sol se pondo, filosofias: provaremos ao universo, aos santos, às danças, aos toques, aos deuses, aos poetas, aos chefes, às horas, às árvores, que sim.

Meio raízes rizomas ambulantes.

Espera aí, eu vou pousar.

Vem.

2 comentários

  1. Letícia

    lindo léo…

  2. Camila

    profissional. estonteante. meu sonho virou ser chamada de “veia xamã feminista”.

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