Raquel Rennó trabalhou durante três anos no MediaLab Madrid, atual MediaLab Prado. Colaborou com centros como Arteleku no País Basco, Hangar em Barcelona, além de outros pequenos centros na Catalunya e nosso próprio grupo, ZZZINC em Barcelona. Segundo a sua experiência o exemplo catalão de Lab é um dos mais interessantes:
A estrutura politico-administrativa da região, por ter se adaptado aos constantes ataques e proibições do governo central espanhol, principalmente até a ditadura de Franco, gerou uma consciência de organização em pequenos grupo que ao mesmo tempo procurar se reunir, trocar experiências e estar unido para que a fragmentação não se traduza necessariamente em fragilidade. E o governo local apóia micro-iniciativas, o que é fundamental para o desenvolvimento de projetos emergentes. Em Madrid isso não se nota, quer dizer, existem centros grandes, com bom financiamento, mas eles ficam reduzidos a poucos e para poucos. A possibilidade de interferencia e participação real na estrutura de como operam estes centros é minima. Os centros de produção e experimentação costumam ser bem equipados, com wifi gratis e encontros de grupos abertos para discussão e intercämbio de propostas. Esses ambientes informais são fundamentais para gerar encontros casuais que vão unindo pessoas das mais diferentes areas. Isso pode parecer irrelevante, mas uma coisa que me incomoda nos centros que vejo atualmente no Brasil, quando se referem a uma produção de fundo artístico, é que ainda possuem uma estrutura de museu ou centro de arte tradicional. A própria arquitetura e organização do espaço já cria certo distanciamento por parte do público não especializado. Me parece que sempre há a necessidade do espaço imponente, branco, clean. Os espaços na minha opinião refletem o hiato que há entre as classes socioeconômicas do país: por um lado o espaço do cidadão, que está nas comunidades economicamente menos favorecidas, que muitas vezes parece um espaço efêmero, montado às pressas, quase sem espaço para trabalhos em grupos mais pequenos. Como se o coletivo engolisse o indivíduo. Por outro lado, os espaços expositivos que querem se adaptar e incorporar a idéia de espaços de produção parecem inadequados para um trabalho coletivo, em grupo. Parece ainda o espaço do artista-individual-gênio. Acredito que o importante seria tentar combinar estes perfis, porque o conhecimento que vem sendo gerado e acumulado por grupos como o Metarec, For a do Eixo, etc não podem ser ignorados. E o background dos curadores, artistas também não. Superar esta separação não é uma tarefa fácil, mas é um desafio que deveria ser assumido para o futuro. Nos grupos da Catalunha que conheço esta tarefa foi e está sendo feita com muitas discusses, algumas brigas, mas a partir do respeito mútuo e da pluralidade de propostas a coisa vem caminhando. É importante pensar que há um objetivo em comum por trás: o trabalho com a cultura digital.
E como você entende “cultura digital experimental”?

Raquel: Acredito que existem muitas definições possíveis para cultura digital experimental. O mais interessante na minha opinião seria seguir o que já está sendo feito, quer dizer, pensar a cultura digital de modo amplo, não ignorando a participação do Mercado nesse âmbito (até mesmo para poder dialogar com pessoas que começam a entender esse contexto e vêm com muitas idéias pré-concebidas de que a tecnologia só pode ser entendida através do uso mercadológico que se faz dela. E também criar um ambiente onde a experimentação possa apontar para diversos caminhos, desde a criação artística até desenvolvimento de software e hardware livres para usos amplos, educação e tecnologia, ferramenta educacional de base, etc.

E, se formos pensar em fases de trabalho? Conseguiria pensar em espaços diferenciados para cada uma delas? Algumas fases precisam de mais isolamento e outras de mais troca e convívio, ou circulação?

Raquel: O financiamento à pesquisa em artes é o calcanhar de aquiles de todas as políticas culturais de modo geral. Se financia o desenvolvimento, mas não o trabalho de pesquisa. Esse, normalmente fica órfão e tem de ser financiado pelo próprio artista. Os centros de produção e experimentação devem, por essas e outras razões, possibilitar estes momentos de desenvolvimento emergentes, pelo menos em termos de espaço de trabalho (que inclui infra-estrutura) e discussão.

Acredito que desde a pesquisa até a construção/finalização é importante ter um espaço aberto que permita o convívio e a circulação de pessoas e grupos. No entanto, pelo que vejo, estes grupos se organizam de acordo com os interesses que possuem. Eles vão naturalmente ficando menores e mais múltiplos na medida em que vão adquirindo conhecimento e desenvolvendo projetos mais específicos. Nesse ponto o espaço precisa possibilitar isso. Obrigar a todos a trabalharem juntos pode gerar muito ruido e posterior desinteresse. Por exemplo, pode-se oferecer uma oficina de Processing, provavelmente o grupo de interessados sera grande, mas alguns vão terminar a oficina e querer trabalhar sozinhos em suas casas, outros vão querer fazer grupos mais específicos para um projeto coletivo ou individual. Não é necessaria uma grande infra-estrutura (além, claro, da básica para trabalho com tecnologia em um centro-lab ou como quer que se chame o local), mas sim lugares onde os grupos possam ir naturalmente se estruturando para encontros semanais ou o desenvolvimento de projetos. A pesquisa sempre tem um momento de reflexao individual ou quando o coletivo só trabalha entre eles (os que tëm um projeto em comum), e isso também tem de ser respeitado. Se a idéia for oferecer um espaço para isso também, deve-se contar com um ambiente menor e mais silencioso, para posteriormente poder voltar ao encontro com o grupo.

A exibição e distribuição dependem muito do tipo de arte digital que estamos falando. Existem as que podem ser vista no PC de casa ou em espaços flexíveis, outras que exigem um espaço mais estruturado, como grandes instalaçoes. Alguns projetos de artivismo vão pedir um contato direto com o público e inclusive negar o espaço expositivo e querer ir para a rua. Eu acredito que o conhecimento de curadores em arte digital pode ajudar muito nessas idéias. Se houver uma colaboração entre centros de arte para algumas das propostas expositivas será um ganho muito importante, acho que logo de cara pensar em um grande espaço fixo para exposição pode tirar a flexibilidade que é importante nestas propostas. Principalmente porque podemos estar diante de obras em processo, projetos que não resultam em um objeto concreto a ser contemplado. Em algumas oportunidades o que eu vi é que o espaço de produção era utilizado para a criação e o intercâmbio e a parte de difusão ocorria em outra esfera. Não podemos ser ingênuos nesse campo também, há de se pensar em modos para que o que é criado de forma livre e coletiva, se resultar el algo com valor mercantil, seja igualmente distribuído a todos. No Hangar, por exemplo há a obrigação de que o que se constrói com os equipamentos de lá, a partir o apoio de professores e pessoas que acessoram gratuitamente (o centro é financiado pelo governo local), tem de ser livre, quer dizer, o software tem de ser aberto, o desenho da placa tem de estar disponível no wiki do centro, etc. Por isso também a importância de se estimular um fluxo de interacai e conhecimento com o centros de arte, para que no final o centro que se propoe aqui nao se transforme em uma fonte de trabalho gratis para artistas que assinam a obra e a vendem ou apresentam em galerias e festivais sem dar o devido valor e reconhecimento à equipe que trabalhou junto. Nesse ponto eu, como professora de arte, ciência e tecnologia tento fazer a minha parte mostrando que no âmbito do digital já não podemos mais falar do “artista-criador” do conceito  vs. os “operários” que executam.

Links:
Mesa de discussão em que apresentou o tema dos centros de produção
http://culturadigital.br/seminariointernacional/tag/raquel-renno/

Apresentação no festival Pixelache em Helsinki sobre o contexto brasileiro na cultura digital

http://bjartlab.com/read.php?237
Sobre Raquel Rennó
Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2007), pós-doutoranda do departamento de fotônica da Universidade Mackenzie, professora-consultora dos cursos de extensão universitária em Arte e Tecnologia da UOC (Universitat Oberta de Catalunya), pesquisadora do CNPQ e do Institut Català D´Antropologia (ICA, Barcelona) e membro do comitê científico do festival FILE (São Paulo) e do International Center for Info Ethics (ICIE, ZKM, Karlsruhe). Participa de projetos de pesquisa e experimentação em cultura digital com artistas e pesquisadores latino-americanos e europeus na Associação Cultural ZZZINC [http://www.zzzinc.net]

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