Entre quarta e sábado da semana passada (21 a 24 de julho) aconteceu a décima primeira edição do FISL, em Porto Alegre. Eu nunca tinha participado do evento, embora desde 2008 – quando trabalhei na primeira edição do Campus Party – Sergio Amadeu, Mario Teza, Marcelo Branco e algumas outras pessoas me convidavam para interagir de alguma forma.

Em 2010 pude participar com a Coordenação de Cultura Digital do MINC, atuando como consultora do projeto sobre Laboratórios Experimentais. Junto com o efeefe, que não esteve “presencialmente”, organizei uma roda de conversa que acabou virando um debate sobre os tais labs. Aliás, debate muito válido, que iniciou um ciclo necessário.

Quando propusemos à Cordenação de Cultura Digital falar do projeto no FISL tínhamos ideia de duas coisas: não queríamos uma apresentação platéia-orador e não teríamos  muito o que apresentar, uma vez que nosso maior esforço até o momento tinha sido o de mapear ações, pessoas e projetos para entender o que é um lab? um lab pra quê? um lab pra quem?

Mostrar apenas isso seria chato.

Então pensamos em uma sessão aberta de mapeamento trazendo algumas pessoas para dar o start a uma discussão maior prevista para o final do mês que vem na Funarte_SP. O formato me colocou como “mediadora” (embora não tenha sido nem de longe esse o meu papel) entre Adriano Belisário, Vilson Vieira, Ricardo Ruiz, Glerm Soares + Simone e Dalton Martins mapeando a discussão com  o intuito de encontrar pontos de convergência entre as falas.

Pensamos em uma moderação “introdutória” e não para cortar ou limitar as colocações dos participantes. Nesse contexto, cada núcleo representado pelos nomes daí de cima teve cerca de 10 minutos para responder a pergunta (mas poderiam falar outra coisa se quisessem):

De que tipo de apoio espaços experimentais livres e experimentadores precisam?


Adriano Belisário comentou sobre a necessidade de apoiar atividades que estão em curso sem a infra-estrutura formal de laboratório, de construir nós de convergência e conectividade e não apenas criar espaços para a ocupação baseados em modelos de labs da europa que são datados e aplicavéis a determinados contextos dos países em que encontram-se sediados. Pontuou objetivamente a necessidade de apoio no sentido de estímulo e suporte continuo.



Vilson Vieira contou sobre o começo do MuSA em uma sala emprestada na universidade e sobre terem que sair de lá por não serem nem grupo de pesquisa, nem grupo de extensão. Relatou o “nascimento” do lab em um quarto na casa de Alfakini. Ao invés de trazer esse fato como ponto negativo sinalizou como ponto positivo para criação livre, mutante e colaborativa que nasce sem pressões, interesses de terceiros ou necessidade de apresentar produtos com resultados esperados.



Ricardo Ruiz começou a fala que Glerm e Simone continuaram: a importância dos labs como processos que unem pessoas e inovações  para a sociedade como bem comum. Ruiz tocou em um dos pontos fundamentais dos labs, a infra-estrutura livre e sustentável – desde usar energia com geradores bricolados até estudar formas de resolver problemas como poluição e potabilidade da água. Não tratá-los como centros fetichizados de produção de conteúdo hype mas como núcleos de rede que criam cultura de raqueamento e construção livre.



Simone reforçou a necessidade de apoiar as iniciativas que já existem e que nasceram legitimamente entre as redes, não sendo fruto de um formato ou política criada. Relatou a experiência de laboratório livre em que participou com algumas outras pessoas, sendo que na maior parte do tempo criavam e trocavam conhecimentos e projetos  remotamente. E ao se encontrarem em finais de semana imersivos alcançavam saltos exponenciais de experimentação.



Glerm (Organismo + DeVolts)esboçou um esquema de itens na lousa da sala que pareceu caótico para muitos, mas que expressou a angústia de processos genuínos que encontram-se escondidos diante das falas mais eloquentes, das articulações políticas mais interessantes ou das interfaces do cool. Itens que mostravam a necessidade de novos formatos para apoio a experimentação no país.





Disse que a maioria dos criadores trabalha com muito pouco e sem nenhum tipo de financiamento: “Eu faço software, mas o computador que uso é emprestado“. Sublinhou a importância de financiamento de processos, redes, cultura de experimentação livre, de desburocratizar esses fomentos por meio de pessoas físicas ao invés de jurídicas.






Dalton finalizou a rodada ressaltando a dinâmica caótica que norteou as falas. A característica fluída e autonôma dos processos, muitas vezes não tão bem interpretados por quem fica de fora,  que não podem depender substancialmente de incentivos nem públicos, nem de privados (veja o texto do Dalton sobre o FISL aqui). Por conta do horário de seu voo Dalton teve que ir embora antes de abrirmos para interação dos que estavam na sala. A atividade  inicialmente contemplaria uma hora de duração (17hs-18hs), porém como a sala estaria vazia no período seguinte ampliamos o debate em uma hora (18h-19h).


Durante os 60 minutos seguintes a discussão trouxe alguns pontos de atrito, como quando Ivana Bentes questionou se os Labs Experimentais que estavámos propondo não eram utópicos, uma vez que não queríamos nos basear no MIT nem nos labs de mídia da Europa. Andréa Saraiva levantou a necessidade, também citada por Glerm durante sua fala, de moedas alternativas de troca entre esses laboratórios. Apareceu uma MiMoSa e outras falas também. Esperamos o vídeo da TV Software Livre que poderá relatar melhor a diversidade de opiniões que reunimos.

A conversa teria sido mais interessante, agregadora e menos sufocada se desde o começo tivéssemos mais tempo previsto, como aconteceu na maioria dos outros dialógos Ecossistema/Cultura reaizados entre duas ou três horas. Além disso poderíamos ter optado pelo esquema “roda de conversa” usado pela Fabs para falar de Estúdio Livre. Mais democrático, geraria menos tensão e expectativa.

*imagens Robson Bonfim

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