Como compreende “cultura digital experimental”?
Flavia - Pesquisa experimental (processual e que pode ou não ter um produto final fechado) de tecnologia que interfira no modo de vida cotidiana.
Mas, esses projetos experimentais meio que não seriam o inverso? O dia-a-dia das pessoas gerando novas tecnolgias e improvisos na tentativa de resolver necessidades e criar algo novo? As redes tem fomentado esses processos, não?
Flavia – Bem, vocês me perguntaram o que entendo por “cultura digital experimental” e para mim, toda “cultura digital” é algo implementado socialmente… falo dos computadores.
E também um pouco além dos computadores, envolve uma cultura de artesanato digital/tecnologico e bricolagem. desfazer e refazer máquinas
Flavia – Sim, sim. Porém, interessa-me mais a cultura experimental como a desconstrução e construção do conhecimento e liberdade, sem necessariamente uma apologia as máquinas ou ainda os homens-máquinas. Nem toda tecnologia é digital ou máquinas. Penso que não é necessario ser digital para ser cultura, para ser experiemental ou ainda tecnológica. Também, podemos dizer que toda pesquisa para que avance e possa gerar uma inovação, uma tecnologia nova ou um conhecimento replicável, necessitará de dedicação cotidiana por um período justo para ser solução de algo. Conheço pessoas que fizeram das suas casas, das suas comunidades, verdadeiros laboratórios experimentais que geram soluções geniais e conhecimento compartilhado… no entanto, o uso do computador ou da tecnologia digital não estão necessariamentes incluídos no processo e isto é importante também.
Então, mas falamos justamente desse conceito mais amplo: o que é tecnologia? Tecnologia não é processo que criou os moinho de vento, os relógios solares? a decantação de água com pedras mais grossas e mais finas?
Flavia – Sim, a tecnologia, não necessariamente digital (realmente acredito que usar esta nomenclatura pode ser limitante para processos culturais inovadores, ou que resgatam tradições ancestrais importantes, na geração de transformações necessárias hoje), parece surgir sobre a engenhosidade útil e otimizadora do cotidiano a partir da observação da inteligência e estética da natureza ambiental e humana. Me interesso especialmente pela Permacultura para pensar/atuar sistemas complexos e integrados, onde uma ação possui muitas funções, por exemplo.
As redes que vocês se referem são as redes sociais? Sobre redes sociais, podemos fazer considerações complexas e dizer que elas podem (mas não necessariamente) fomentar iniciativas experiementais. Mas podemos sim afirmar que as redes otimizaram os fluxos de conhecimento e informação, comunicação, mobilização e alcance social, difusão em escala, articulação a longas distâncias… mas repito, não necessariamente essas redes são plataformas de criação ou solução de algo, já experimentei muitas vezes o contrário, a apresentação de conflitos intermediado por máquinas passivéis de manipulação e difíceis de clarear.
Talvez falar em redes “sociais” seja meio que um pleonasmo, não é?
Flavia - Sim, tem razão, um termo equivocado.
Acho que falamos em redes como redes de pessoas: MetaReiclagem, Submidialogia, Coro Coletivo, EL, Mocambos, BricoLabs…por aí.
Flavia – Sim, pessoas em relação = rede. Mas todas estas que você cita, utilizam alguma plataforma de comunicação pela internet, certo? Consegue indicar alguma rede sem o uso dessas tecnologias da web?
Se formos pensar em fases de trabalho, conseguiria pensar em espaços diferenciados para cada uma delas?
Flavia - Penso que estamos falando de processos de trabalho e pesquisa, onde podemos imaginar espaços físicos diversos e em rede, mas sobre tudo, contextos específicos que apresentam elementos determinantes ao processo.
Flavia - O designer cultural de um projeto, programa ou processo de trabalho é criação, estrategia e tática juntos. Temos como exemplo na última década os encontros de intervenções urbanas que conseguiram estabelecer um circuito próprio no país, com um modo de fazer arte e de se organizar de formas muito próprias. O Reverberações por exemplo, o considero um festival nômade, que acontece a cada edição em diferentes lugares, com formato diferenciado e novos parceiros, trazendo conteúdo atualissímo e podendo também acontecer em diferentes cidades. Na Argentina há uma residencia para artistas que pesquisam e trabalham em contexto rural e cada nova edição acontece em uma fazenda ou localidade diferente da anterior, gerando uma rede de iniciativas, espaços e pessoas. Pensar compartilhamento de infra-estruturas é bacana também. Processos de seleção e distribuição diferenciados necessitam ser pensados. Outra coisa muito importante são os registros documentais ou mesmo criação em objetos mutiplicáveis e de alta circulação.