A Ignorância Coletiva de um Coletivo
(Original de 12 de julho de 2006)
“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos… Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum…”
O prólogo das histórias em quadrinhos da conhecida personagem Asterix, o gaulês, poderia muito bem ter servido – com devidas modificações – de interlúdio à partida final desse mundial de futebol na Alemanha. Em um campo de batalha no centro da Europa, os destemidos gauleses (franceses) enfrentavam a poderosa legião romana e seus soldados (italianos), disputando assim a tão almejada conquista.
O meia francês Zinédine Zidane, uma versão calva e sem bigodes de Asterix, com sua sagacidade e inteligência ímpar dentro de campo, comandava os “gauleses” com coragem de quem nunca hesita, seja qual for a difícil missão que lhe é atribuída. E do outro lado do campo, os robustos e violentos (até demais) “guerreiros romanos” lutavam impiedosamente, comandados por seu “general” e excelente estrategista Marcello Lippi.
Como nas histórias dos franceses Albert Uderzo e René Goscinny, parecia que ao final da batalha os “gauleses” iriam levar a melhor mais uma vez. Com um começo de partida fulminante e um domínio quase completo durante o jogo, a equipe de Raymond Domenech demonstrava mais vontade de ser campeã. Porém, como que tomado pela força sobre-humana dada pela poção mágica do druida Panoramix, o nosso herói desferiu um golpe – digno de história em quadrinhos – sobre o “soldado romano” Marco Materazzi, pondo tudo por água abaixo. Nesse momento, saía de cena o sensato Asterix e entrava o seu inseparável e rude amigo Obelix, que não suporta comentários relativos ao seu peso (tal qual o nosso “fenômeno” Ronaldo).
Depois disso a história de novo se repetiu. Como Copa do Mundo não é ficção (acho eu), a conquista ficou para os “romanos”, assim lembrando o relato histórico do Imperador Júlio César chamado “Commentarii de bello gallico” (Comentários sobre a Guerra Gálica), que descreve como César fez para subjugar as tribos gaulesas.
Pois bem, terminado o mundial e esses fatos surreais, surgiram várias versões dos comentários do zagueiro italiano dirigidos para o meia francês (lhe garanto que não foi sobre o seu peso). Tirando os possíveis insultos a toda árvore genealógica de Zidane, um dos supostos insultos relatado pela impressa me surpreendeu. Materazzi teria chamado Zidane (descendente de berberes argelinos) de “argelino árabe terrorista”, logo para ele, Zizou, que sempre promoveu a tolerância racial e religiosa.
De tudo isso, o fato que realmente me espantou foi o motivo que o zagueiro italiano deu para negar o dito insulto racista (na verdade essa ofensa nunca existiu). Pasme! Ele desmentiu a notícia divulgando sua ignorância; jurou de pés juntos que não tinha a menor idéia o que significam as palavras “árabe”, “terrorista” e “islamismo”.
Eu seria ingênuo por querer que um jogador de futebol possuísse um mínimo de instrução (olha o preconceito!), entretanto, uma personalidade que estava representando seu povo em um evento de tal magnitude deveria possuir. Fico imaginando qual seria o nível da educação de um cidadão médio desse país. Não estou falando somente de instrução escolar (algo que existe muito bem em paises europeus), mas também em educação social de qualidade, aquela que nos livra das algemas do preconceito, da sombra da estupidez, e do medo daquilo que não conhecemos.
Talvez por essas lacunas existentes em nossa frágil formação humana, governantes “ignorantes”, como o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi e o atual presidente ianque George W. Bush, conduzem suas administrações públicas com base em seus ímpetos racistas. Se em nações ocidentais ditas “civilizadas” ocorre tal caso, em países atrasados cujo povo é educado através de crendices separatistas, nem se fala.
Diante de toda essa insana normalidade, lembro-me das lúcidas e quase sempre ignoradas frases que abriram todas as partidas dessa copa: “A time to make friends. Say no to racism.”
Data: 04/08/2009
Categorias: Mea Sententia