Caricatura Sapiens
(Original de 11 de fevereiro de 2006)
Desde que o mundo é mundo, gente é gente e deuses são deuses, o embate celestial é travado por entre os jardins terrenos do éden sem a menor cerimônia (mas com muitos cerimoniais), e sem o menor pecado, estejamos do lado de cima ou do lado de baixo do equador. Em meio a semideuses, oráculos, nereidas, centauros, ninfas, cavalos alados, e toda sorte de deidades, uma parte da civilização começou a lutar pelo seu oportuno pedaço de ramo de oliveira. Enquanto isso, os irmãos mais ao sul do planeta estavam literalmente enrolados em ataduras e bálsamos, na leve esperança que seus corações fossem, no máximo, tão pesados quanto uma pena, ao mesmo tempo em que eram mais cortantes que uma espada. Mais ao oriente, a batalha era para manter a harmonia universal, “Tao” qual em suas vidas, ou melhor, seguindo os seus próprios anseios, não importando quais seriam os anseios de seus vizinhos mais próximos.
Do momento em que substituímos a braquiação (deslocamento com os braços, de galho em galho) pela locomoção bípede no solo, descobrimos o manuseio do fogo, começamos a construir habilmente ferramentas, ganhamos a postura totalmente ereta, até algum momento antes dos nossos globalizados dias, nos disseminamos pela Terra, disseminando os nossos diferentes costumes por todo o planeta, sem nos importarmos em tolerar limites antropológicos. Afinal, o mundo era bastante grande, e comportava todo e qualquer tipo de divindade, sendo ela infinita ou não.
Porém, felizmente (ou infelizmente), apareceram o telégrafo, o telefone, o rádio, a televisão, os satélites, a rede mundial de computadores, e o serviço postal melhorou (?), enfim, a modernidade e nossa cultuada globalização fizeram aquilo que nos parecia grande, se tornar pequeno o bastante para nos aproximar contra a nossa vontade, nos afastando cada vez mais como nós sempre desejamos, revelando ao evoluído homem, nossos instintos mais primitivos. Foi uma traumática mudança para aqueles deuses que viviam em reinos distintos, onde cada um somente ouvia falar no outro sem maiores alardes. De repente, estavam habitando no mesmo condomínio, porta com porta, obrigados a se suportarem. Agora, qualquer comemoração mais efusiva de um dos inquilinos, é respondida, pelo menos, com uma cara de poucos amigos pelos demais moradores.
A publicação oficial ou não de insultos de qualquer uma das partes, o desrespeito mútuo, a intolerância sócio-cultural fazem o ser humano, um animal notoriamente social, torna-se um deus solitário no alto de seu monte olimpo, arremessando raios e trovões de intransigência. O medo do isolamento em um mundo selvagem e hostil faz as nossas igualdades ainda mais iguais e nossas diferenças muito mais diferentes. A incerta certeza de uma verdade absoluta nos enquadra em facções completamente apartadas. O sentimento de (des)união entre irmãos me traz uma certa nostalgia dos tempos de braquiação.
Caricaturas à parte, nessa briga de foice sagrada, quem sempre irá sair perdendo, somos nós pobres mortais, caricaturas de nossas próprias inseguranças, caricaturas de nós mesmos.
Data: 04/08/2009
Categorias: Mea Sententia