(Original de 2 de julho de 2006)
É isso mesmo o que você leu. Não errei o placar. França DEZ, Brasil ZERO. Mais um baile do maestro Zizou. Pena para o futebol que o nosso maior carrasco em copas do mundo vai se aposentar. Sorte para nós que não teremos que enfrentá-lo novamente. Porém, não estou aqui para falar de futebol, ou exclusivamente de futebol. O placar a que me refiro – dez a zero para a França – não está dentro das quatro linhas dos gramados, mas dentro das quatro linhas das nossas tão abandonadas lousas escolares.
Passada a euforia futebolística e após de enxugadas as previsíveis – mas nem sempre esperadas – lágrimas da derrota, todas as nossas prosaicas dificuldades, depois de quase um mês escondidas ou encobertas pelo nosso patriotismo tetra anual, estão de volta com força total. Estamos à porta de mais uma eleição nacional, e ao contrário do que acontece com a FIFA, a CBF e os cartolas do futebol, os problemas e as sujeiras do nosso país e dos candidatos a uma sonhada vaga no congresso nacional aparecem à tona. Violência, desemprego, sistema de saúde falido, reforma agrária, reforma previdenciária, reforma política, reforma penal, e tantas outras reformas irão aparecer insistentemente em todos os tipos de mídia pelos quatros cantos do país. Entretanto, existe uma reforma, que a meu entender não despende tanto (não entendo porque nossos governantes a consideram como gasto), e que em paises sérios (lembrando a suposta declaração do General-Presidente Charles de Gaulle) como a França, sempre foi uma das prioridades. Estou falando da reforma educacional.
Coloco a educação não como uma das prioridades, mas como A prioridade de qualquer nação que deseja sair da idade média do subdesenvolvimento. Nunca, eu disse nunca (sem medo de errar), um presidente da república ousou realizar um projeto completo e sério de educação em nosso país. Talvez porque projetos desse porte, como a educação, não causem efeitos em um tempo tão curto de um mandato, mas demorem, no mínimo, uns quinze a vinte anos para darem resultados concretos. Não culpo o povo brasileiro por não considerar a educação como prioridade, pouquíssimos a consideram, pois o instinto de sobrevivência de um povo tão sofrido e maltratado durante tanto tempo é inevitavelmente instantâneo, quase que impossível esperar uma geração para que o crescimento da população comece realmente a acontecer.
Liberdade. Por mais que falemos que nós brasileiros gozamos de liberdade atualmente, sem educação de qualidade a todos, ainda existirão muitos prisioneiros da ignorância e escravos da falta de estudo. Sem educação de verdade, muitos de nós não possuem liberdade para escolher, por exemplo, a carreira que gostariam de seguir.
Igualdade. Sem dúvida alguma que um povo com um desigual sistema educacional nunca se tornará uma sociedade igualitária. Sistema de cotas pode amenizar essa disparidade social, mas é apenas um pequeno paliativo. O medicamento para curar toda essa diferença só encontraremos em uma base educacional e acesso igual à informação para todos.
Fraternidade. Essa vem com o tempo. Apenas uma sociedade genuinamente educada em sua moral e ética a consegue, e isso é para poucos.
O nosso atual Presidente abandonou o projeto educacional que prometera em campanha, e o ex-Ministro da Educação e ex-Senador, agora em campanha, promete uma revolução no campo da educação, levando esse objetivo como uma bandeira, e finalmente colocando a educação na mesa de debate.
Para todos esses pretendentes ao cargo máximo da república brasileira, dou um conselho. Depois da posse no dia primeiro de janeiro de 2007 escale imediatamente o jogador francês Thierry Henry para comandar o Ministério da Educação ou Ministério dos Esportes. Ele poderá alcançar o que acho mais do que óbvio e essencial. Permitir que todas as nossas crianças estudem das sete horas da manhã às cinco horas da tarde, como o mesmo declarou ser o método na França. Assim, quem sabe, com tempo integral de estudo aos nossos garotos, ele nos ensine a como fazer gol, não unicamente nos gramados sul-africanos em 2010, mas também nas mesas e bancos escolares. Que na próxima Copa do Mundo, após mais um mandato presidencial, possamos trazer não somente o hexa, mas principalmente a dignidade para todos nós, brasileiros de coração.