O Dia em que a Terra Pirou
(Original de 28 de fevereiro de 2007)
Xangai não fica mais do outro lado do mundo. Xangai está em Nova York. Xangai está em São Paulo. Xangai está em Brasília. Xangai está nas esquinas das ruas do centro da cidade, não somente nos tênis da “Nike” e em outras bugigangas, mas principalmente na força de seu estrondoso mercado. Não é preciso escavacar um buraco, como imaginávamos quando criança, ou embarcar em um avião (hoje em dia essa opção é bem mais complicada) para chegar ao outro lado do planeta. Estamos perigosa e irremediavelmente conectados.
Devo estar ficando maluco ou não compreendendo mais nada. Provavelmente as duas alternativas. Depois de um enorme período de crescente ascensão, com picos incríveis do índice da Bolsa de Valores de Xangai, ontem a economia chinesa entrou em colapso, provocando uma tsunami financeira de proporção mundial. Uma economia que ano passado ultrapassou os insuperáveis (?) 120 pontos percentuais, em um dia só sofreu um tombo de quase 9%, o maior em 10 anos. O mundo, que nos últimos anos, partilhava uma deliciosa sensação de bem-estar econômico, provou um sabor amargo de uma globalização economicamente selvagem.
Ibovespa, Dow Jones, Nasdaq caíram feito as Torres Gêmeas, aliás, sofreram a maior perda desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Até o momento ninguém sabe exatamente o que promoveu tal hecatombe. Especulações pipocam como ocorre nas frágeis Bolsas de Valores. Desde o aparente atentando sofrido pelo vice-presidente estadunidense Dick Cheney no Afeganistão, passando pela queda das encomendas de bens de consumo durável nos Estados Unidos, até as declarações de uma forte intervenção na economia pelo governo chinês (essa bem mais provável) levaram a um surto mundial de vendas de ações em alta. O negócio ficou mais esculachado que final de feira.
A loucura, já esperada, chegou a nossos “sensatos” dirigentes em Brasília. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou que isso é “uma boa lembrança aos mercados de que as taxas se movem em duas direções”. Há tempos não ouvia tamanha “sapiência”. Além da queda das Bolsas, houve uma queda momentânea no juízo dos senadores. O senador oposicionista Arthur Virgílio “inverteu” de posição com o senador governista Aloizio Mercadante. Após Aloizio Mercadante cobrar um taxa Selic menor para Henrique Meirelles, Arthur Virgílio saiu em suma defesa do presidente do Banco Central.
Depois de milênios de filosofia chinesa, não estamos mais preocupados com elucubrações metafísicas. Nada mais de Yin e Yang, I Ching, Taoísmo ou Budismo. Todas essas inquietações espirituais estão ultrapassadas. O ser humano moderno não necessita mais de respostas e consolos transcendentais. Substituímos o poderoso deus espiritual por um espírito incorpóreo muito mais atualizado: o onipotente, onipresente e onisciente MERCADO. Agora toda vez quando um mandarim espirrar em algum cruzamento em Xangai, ficarei deveras angustiado.
Data: 04/08/2009
Categorias: Mea Sententia