terça-feira, 29 de maio de 2012

O Futuro a Nós Pertence

(Original de 27 julho de 2006)

Daqui a 14 anos, eu terei 45 anos, vários cabelos grisalhos, apartamento quitado, carros na garagem, substanciosos rendimentos, casas na praia e no campo, família feliz, grandes amigos, “mens sana in corpore sano”, ou seja, uma vida boa e estabilizada nas diversas áreas da felicidade individual do consciente coletivo. Isso se conseguir sobreviver às intempéries dos nossos (e de outros) governos, aos arroubos de loucura dos meus compatriotas, às grandes catástrofes mundiais (tsunamis, pandemias etc.) apregoadas pelos nada otimistas profetas-catásfrofe, e “last but not least”, a mim mesmo. Esses exercícios de futurologia são bastantes complicados quando tentamos entrever nossas próprias vidas em um futuro não tão próximo. Imagine antever como estará o Planeta Terra – incluindo nós, terráqueos – daqui a 14 anos, ano 20 do atual século. O relatório da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA), “Como será o mundo em 2020″ estreou entre os 10 livros mais vendidos no país nesse mês, quesito de não-ficção (?), edição brasileira do jornalista Heródoto Barbeiro.

Muitos escritores já deram asas à imaginação “precognitiva” para recriar o futuro nas páginas de mirabolantes livros-oráculo, na tentativa de matar nossa imortal curiosidade de conhecer o porvir. Digo “recriar”, pois para esses adivinhos, o futuro é apenas um distante passado que ainda não aconteceu. Tais devaneios nos presentearam com admiráveis obras literárias. Desde invasões alienígenas em “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, passando por um “Big Brother” em “1984″ de George Orwell, resvalando por uma exorbitante violência juvenil em “Laranja Mecânica” de Anthony Burgess, até as diferentes formas apocalípticas de dar cabo da raça humana em “Escolha a Catástrofe” de Isaac Asimov. Esse último autor, um dos mais incríveis “videntes” da ficção científica, nos brindou com a famosa “Três Leis da Robótica” e também com um primoroso esboço do que seria uma enciclopédia mundial livre, tal como a Wikipédia atualmente.

Voltando ao assunto da não-ficção, eu ainda não li o tal relatório da CIA, mas vi alguns comentários na mídia especializada, o que não é lá grande coisa. Excluindo a supremacia estadunidenses que ainda vai imperar solitária e soberana em 2020 (segundo a CIA), podemos retirar alguns “fatos” interessantes do relatório. A América Latina estará com a mesma importância que possui hoje, ou seja, quase nenhuma. O Brasil (leia-se país do futuro) poderá vir a ser uma grande potência, e uma boa parte da nossa infra-estrutura será privatizada, devido ao distanciamento do Estado ou mesmo ao crescimento do próprio setor privado. Aliás, ainda estaremos desejando uma vaga como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Resumindo; ou os ianques não ligam a mínima para nós que estamos do lado de baixo da fronteira do Texas, ou eles estão corretos (e também não ligam a mínima).

Ainda de acordo com o “profético” relatório, os únicos países que poderão desempenhar um papel de destaque no cenário mundial são os gigantes Índia e China. Estou seriamente pensando em virar “Hare Krishna” ou aprender mandarim. Em outros pontos o relatório “revela” sobre o futuro do Oriente Médio e do petróleo, na verdade, uma releitura quase integral do presente. Descreve também sobre o aumento da concentração mundial de renda, mesmo nos países ditos potências. Uma situação narrada bastante aterradora é que a segunda atividade criminosa mais lucrativa será o tráfico de mulheres, perdendo somente para o tráfico de drogas.

Com isso, podemos notar que o futuro – não para eles, é lógico – será um tanto nebuloso. Porém, como nada está escrito nas estrelas, ainda temos a possibilidade de arregaçar as mangas e reverter esse quadro desalentador. Repetindo os versos daquela antiga canção; “depende de nós se este mundo ainda tem jeito”. Eu vou tentar ler o livro-relatório, e aguardarei. Daqui a exatos 14 anos, se eu ainda estiver na ativa, vou reler esse texto e verificar quem acertou mais a pontaria, a CIA ou eu.

E aí, vai arriscar algum palpite?


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