Os Filhos de Plutão
(Original de 25 de agosto de 2006)
Em 1930 quando um jovem aspirante a astrônomo da cidade de Kansas chamado Clyde Tombaugh descobriu a existência de um objeto trans-netuniano (além da órbita de Netuno), o qual foi classificado como o nono planeta do Sistema Solar, não imaginara que iria deixar vários órfãos bem aqui próximo, no Planeta Terra. Após dedicados e incansáveis anos a tentar descobrir tal planeta (antes mesmo de Tombaugh), mas sem sucesso algum, Percival Lowell, outro astrônomo norte-americano, contribuiu muito para que o status de planeta fosse conferido a Plutão (o nome “Plutão”, deus romano da escuridão e do submundo, irmão de Júpiter e Netuno, começa com “PL”, as iniciais de Lowell).
Porém, a vida de Plutão como planeta nunca foi fácil. Desde sua infância, várias controvérsias sobre sua identidade foram postas em debate. Talvez por motivos históricos e lobby norte-americano (único planeta descoberto por um ianque), Plutão ainda segurava o status de planeta. Finalmente, no último dia 24, a União Astronômica Internacional (UAI) decidiu por fim a esse erro interplanetário e rebaixar o já desacreditado Plutão. Na segunda sessão da Assembléia Geral da UAI foi votada a Resolução 5A, contendo as definições de Planeta do Sistema Solar e seus termos relacionados. Na Resolução ficou definido que “um planeta é um corpo celeste que (a) está em órbita em torno do Sol, (b) tem massa suficiente para que sua própria gravidade supere forças de corpo rígido de modo que assuma uma forma de equilíbrio hidrostático (aproximadamente esférica), e (c) mantenha limpa a vizinhança em torno de sua órbita”. Como na órbita do nosso frágil Plutão existem vários outros corpos celestes, ele acabou perdendo a patente.
Até aqui tudo bem. Mas o que é que um astrônomo da década de 1930, Plutão e objetos trans-netunianos têm haver com os distantes filhos órfãos terrestres? Tudo. Pelo menos para os adeptos da astrologia. Plutão e alguns outros corpos celestes do Sistema Solar influenciam a nossa vida inteira, desde o nascimento até o abotoar do paletó de madeira, de acordo com os astrólogos. Se Plutão agora não passa de um reles planeta anão, por que ele influenciaria mais do que outros como Ceres e 2003 UB313 (este maior que o próprio Plutão)? Isso, retirando 3 asteróides e 9 outros objetos trans-netunianos que estão na porta do cartório, prontos para receberem a escritura de planeta anão. Essa dor de cabeça vai ficar para os estudiosos do Zodíaco. Não sei se eles irão “re-mapear” os 360 graus da carta astrológica sem invalidar os mapas feitos até aqui. Provavelmente não assinarão o próprio atestado de imperícia, e deixarão tudo como está.
Fico triste em saber que milhares de escorpianos ficarão sem pai nem mãe, sem eira nem beira, ao leu, como filhos bastardos de um pai desconhecido. Afinal, o planeta regente – que agora não é mais planeta – do signo de Escorpião é o desmoralizado Plutão. De agora em diante, como os nascidos entre 23 de outubro e 21 de novembro nortearão suas vidas, se Plutão os abandonou? É realmente “intrigante”. Apesar de eu sempre ter achado que um carro estacionado na calçada exerça mais influência (ou atração gravitacional) do que um pequeno corpo celeste a muitos (muitos mesmo) quilômetros de distância.
Sem dúvida o estudo científico vem nos “pregando peça” a todo o instante, durante muito tempo. Até os próprios cientistas, muitas vezes, ficam em situações embaraçosas. Entretanto, as definições dos fenômenos naturais sempre serão discutidas e não apenas aceitas. Só tenho medo quando os astrólogos descobrirem que a gravidade entre astros ou quaisquer corpos que possuem massa – essa mesma gravidade que, segundo eles, exerce uma força na “ressonância” dos nossos cérebros, ou algo parecido – já “deixou” de ser uma força há muito tempo, e recebeu o conceito de curvatura do espaço-tempo. Mas isso é outra história.
Data: 04/08/2009
Categorias: Mea Sententia