terça-feira, 29 de maio de 2012

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Quando a Liberdade Oprime

(Original de 17 de outubro de 2005)

Certa vez quando ainda criança, tentei averiguar pelo meio mais simples, e mais perigoso, o que poderia haver naqueles pequenos, redondos e brilhantes objetos grudados na parte de baixo da parede de casa, mas minha mãe, obviamente, me proibiu de colocar o meu singelo indicador dentro das ameaçadoras tomadas elétricas, às vezes até com umas boas palmadas, tentando me salvar do meu próprio ímpeto. Minha curiosidade era diretamente proporcional à minha imprudência.

Adorava ir à praia, e lá chegando, não queria esperar eternos três ou cinco minutos para me jogar naquela enorme piscina salgada e cheia de lúdicas ondas, mas minha mãe, obviamente, proibia o meu afoito ato de quase suicídio, caminhando mar adentro, às vezes utilizando daquelas velhas e boas palmadas. Minha ousadia era diretamente proporcional à minha falta de ponderação.

Há não mais de dois séculos a comercialização de pessoas era legal e permitida a todo cidadão de bem. Possuir outro ser humano como escravo era normal e dependia apenas do seu poder aquisitivo. Importavam-se e exportavam-se famílias inteiras tais quais mercadorias de consumo. Esse comércio foi tolerado até enquanto não existia uma lei proibindo a escravidão.

Em nosso sistema econômico atual, a total livre disputa de mercado impulsiona a falência e a degradação de vários pequenos grupos econômicos, nos trazendo desemprego e miséria. Medidas e leis proibitivas tentam impedir o monopólio e a ganância das grandes corporações.

A proibição do comércio da fauna e flora silvestre é uma tentativa de evitar a total depredação do nosso planeta por nós mesmos. A estúpida e desenfreada cobiça do homem o leva a tomar ações necessárias a brecar o próprio homem. Leis que proíbem aquilo, isso, ou aquilo outro, são criadas a todo instante pelo próprio ser humano em uma tentativa desesperada de fazer com que o mesmo consiga viver em sociedade. O que é lamentável.

Não pensem vocês que sou um reacionário de marca maior, sempre impelindo a liberdade, sem dúvida o nosso mais precioso bem. Até mesmo me intitulo como libertário ao extremo, e ainda chego a considerar que governo é apenas para escravos, homens livres na verdade se governam.

Porém, enquanto o próprio homem não possuir a dignidade de tratar o mundo em que vive, e sua própria espécie, com o devido amor e respeito, eu sou a favor da proibição de qualquer tipo de comércio e porte de armas de fogo. Enquanto nós, humanos, teimarmos em agir como crianças inconseqüentes (lembrando a minha própria infância), eu digo SIM à proibição.


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O Conto da Estrelinha Vermelha

(Original de 30 junho de 2005)

Era uma vez uma legenda política chamada Estrelinha Vermelha, ela morava com sua mamãe, Dona Oposição, em uma casa muito, muito distante, que ficava na outra extremidade do bosque Verde-Amarelo. Lá, elas viviam muito felizes, apesar das dificuldades e dos trabalhos árduos do dia-a-dia. Plantavam esperanças, colhiam votos, enfim, realizavam todo o fardo dos serviços do campo, utilizando uma foice e um martelo, mas nunca se afastavam do bloco leste do bosque.

Embora levassem uma vida humilde, ano após ano, elas batalhavam, lutavam, guerreavam, sem a menor sombra de desistência, para que suas vidas e de todos os companheiros do bosque melhorassem de forma igualitária. Entretanto, naquela mata existia um bicho muito feroz e matreiro, sempre à espreita para impedir qualquer manifestação de sucesso da nossa heroína. Ele se chamava Tucano-Mau.

Em uma linda tarde de sol, Dona Oposição chama sua filhinha e diz:

- Estrelinha, precisamos tomar alguma atitude, vovó Republica está muito adoentada e necessita de cuidados urgentes!

- Mas mamãe, o que poderemos fazer? – retruca Estrelinha.

- Tenho uma idéia, vou fazer uma cesta bem grande de ética e mudança para que você possa levá-la para a vovó. – responde mamãe Oposição toda contente.

Mal sabia Estrelinha, mas teria de enfrentar todo tipo de agruras e improvisar as mais sórdidas alianças até chegar à casa da vovozinha, que ficava bem longe, em cima de um amplo planalto.

Seguindo pela rampa de tijolos amarelos (?), Estrelinha caminha exultante, cantando: “Pela estrada afora, não vou mais sozinha, tenho alguns partidos na minha caixinha”. Quando de repente, o Tucano-Mau aparece (disfarçado de neoliberal pós-moderno) e pergunta:

- Estrelinha, para onde você está levando essa enorme cesta?

- Estou levando para a vovozinha, assim ela irá ficar boa logo e todos iremos ser felizes para sempre. – responde inocentemente.

- Ah, muito bem! Porém, tome cuidado com os perigos da floresta. – dissimula o Tucano.

- Muito obrigado. Observo que o senhor tem sorte, pois com esse par de asas, pode voar tranqüilamente sobre a mata fechada. – conclui Estrelinha.

- Ho, ho, ho! Minha filha, estas asas já não batem mais. Estão cobertas de lama desde meu último vôo pelo Planalto.

O Tucano-Mau começa a perceber que está dando com a língua no bico, então se despede de Estrelinha Vermelha, que docemente continua sua longa caminhada ao lar da vovó.

Chegando à soleira da casa da vovó República, Estrelinha bate na porta, toc, toc, toc, e uma voz rouca e cansada rebate lá de dentro:

- Quem está aí?

- Sou eu, vovozinha, Estrelinha Vermelha!

- Pode entrar, minha querida.

Estrelinha entra sem perceber os perigos que poderiam existir ali, pois está muito encantada, afinal havia chegado ao seu destino. Ela encosta-se ao lado centro-esquerdo da cabeceira da cama e diz:

- Vovozinha, veja que bela cesta eu trouxe para a senhora!

- Oh, minha querida, deixe-me ver! Mas… Mas não tem nada nesta cesta? – surpreende-se a vovó (ou melhor, o Tucano-Mau vestido de vovó).

- Desculpe, vovozinha, como eu tive de me coligar com algumas outras siglas, a cesta ficou muito pesada, então joguei tudo que estava dentro em um barranco aqui perto, junto a alguns bicheiros, ou melhor, bichos.

- Queridinha, estou muito velha, e não consigo ouvir você direito, se aproxime mais um bocadinho, por favor.

- Vovó, que olhos enormes a senhora tem! – assusta-se Estrelinha.

- É para lhe enxergar melhor. – responde o Tucano-Mau.

- Mas vovó, que bico enorme a senhora tem! – continua Estrelinha.

- É para dialogar melhor, minha querida. – continua o Tucano.

- Epa! Peraí! Que monte de deputado é esse aí debaixo das cobertas? – assombra-se Estrelinha.

- É para descontar aquela enxurrada de CPI do meu governo!

Bem, o resto da história vocês já conhecem, o caçador provavelmente fugiu para uma ilha da fantasia-fiscal e todos nós vivemos “felizes” como sempre.

FIM?

(Que os irmãos Grimm me perdoem!)


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A Dança dos Técnicos

(Original de 16 de junho de 2005)

“Estou mais do que tranqüilo. E ainda o Corinthians ganhou do Flamengo de 4 a 2!”, essa declaração ricocheteou na minha cabeça como a bola chutada pelo centroavante Adriano ricocheteou no “pé” da trave, em nossa última e acachapante derrota para a seleção portenha. Dois dias antes do depoimento (digno de final de copa do mundo) do deputado Roberto Jefferson no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara, o presidente Lula me vem com um petardo desses. Pois bem, já que a Seleção é a pátria de chuteiras, o nosso presidente é um exímio técnico (de futebol), e eu sou torcedor do Flamengo, resolvi escrever sobre o Corinthians e o escrete do governo.

Há alguns meses quando uma negociação milionária, dentre outras, trouxe o técnico Daniel Passarela para o comando do Corinthians, a torcida encheu-se de esperança, pois pensara que naquele momento os “galácticos” teriam o comandante certo que os guiariam para inesquecíveis vitórias. Há alguns anos quando o presidente Lula nomeou o deputado José Dirceu para um dos ministérios, na verdade ele o nomeara para o comando do país. Teríamos então, o terceiro período parlamentarista do Brasil, Lula como Chefe de Estado e Dirceu segurando a batuta de maestro.

Para desgosto da torcida, a experiência com o argentino Passarela não foi das melhores. “O que houve de errado?” – perguntavam os corintianos atônitos. Como um time de estrelas, treinado por um técnico de notoriedade internacional, continuava tão mal das pernas. Só poderia haver uma explicação. Complô dos jogadores. Isso mesmo. Os próprios atletas estariam fazendo “corpo mole” para derrubar Passarela. Um verdadeiro “golpe branco”.

Nessa semana, assistimos de camarote (pois geral agora está proibida) à derrocada do Chefe da Casa Civil. Perguntamos quais seriam os motivos que induziram nosso ministro a esse desfecho. Estamos ouvindo sobre um certo “bicho” que vários deputados recebiam para cada “jogo importante” no Congresso, tal qual nossos inestimáveis desportistas. No entanto, a origem desse tapetão parlamentar não foi desvendada e talvez nunca será. Incompetência na articulação com nossos deputados? Eles também fizeram “corpo mole”? Luta de interesses entre esquadrões diferentes? Não sei. Só sei que o “bicho pegou”. Pelo menos para José Dirceu.

Nesse troca-troca de técnicos, esperamos um final de campeonato limpo e democrático, que todos pratiquem o “fair play”, natural de grandes equipes. Para o Corinthians, a mudança do comando surtiu efeito, invicto com o novo treinador até agora.


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