sábado, 11 de fevereiro de 2012

Quão penar!

(Original de 12 de maio de 2004)

A duras penas, reflete a primeira vogal na tela do micro
Poderei eu, livrar-me da consternação desse eterno mito?
Nunca pensara que tal movimento pudesse me fatigar tanto
Transformando minha amoral alegria em um lânguido pranto

Considero todos os milênios passados e a evolução humana
Vou buscar na seleção natural as causas dessa ignorância
O homem, afinal, ainda não se adaptou ao prático teclado
Essa máquina não nos é útil, tenho que voltar ao passado

Seguro uma caneta simples, dessas que compramos na banca
Nem vermelha, nem azul, sinto que agora há uma esperança
Mas a tinta parece coagular igual a cicatriz na epiderme
As idéias teimam em não jorrar, percebo o quão sou verme

Não adianta querer me lograr com esferográficas modernas
O lápis irá impor um bom ritmo nessas minhas mãos lerdas
Aperto um afiado apontador contra essa frágil ferramenta
Mais fácil quebrar-lhe a ponta que agir essa mente lenta

Que estupidez não ter visto, a solução está na leve pena
Grandes romances e épicos, certamente me livro da algema
Dizem que até amoladas espadas foram derrotadas por ela!
Pena, castigo, punição, sofrimento, que desgostosa cela!

Observo, porém, quanto é inútil culpar pobres utensílios
Meu dano foi nascer em um país que não educa seus filhos
Todavia tolice lhes digo acusando uma latitude diferente
Porque essa angústia já afligiu poetas mais inteligentes

Qual empecilho que faz não brotar essa impávida vontade?
Qual cadeado liberta o coração desse cinto de castidade?
Lembrei-me de uma burlesca metáfora que nos funde a cuca
“A arte de escrever é igual rapadura, é doce mas é dura”


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