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  • Uma Lenda de Duas Cidades

    Sean Dodson

    Foram tempos bons e ruins. Há uma década, o escritor de ficção científica David Brin publicou a Sociedade Transparente1. Uma lenda sobre duas cidades, que se passa 20 anos no futuro. Brin teve uma visão, ou melhor: duas. Ele previu a chegada onipresente de uma “sociedade monitorada”, e postulou duas questões muito polarizadas. Brin decidiu apresentar ao leitor uma escolha dentre duas: Qual caminho você quer seguir?

    Brin falou de duas cidades, vinte anos à frente. De longe as duas cidades pareciam muito iguais. Ambas, segundo ele, conteriam “estonteantes maravilhas tecnológicas”, ambas “sofreriam dilemas urbanos conhecidos de frustração e decadência”. As duas seriam exaustivamente modernas; ambas sofriam uma decadência urbana. Podiam ser Rotterdam ou Vancouver; Taipei ou Istambul. A localização exata não importava. O que importava era que os visitantes dessas cidades futuras notariam algo cruamente semelhante entre as duas: os crimes de rua seriam notáveis pela ausência. Foram completamente devastados. Porque, olhando para baixo a partir de “cada poste, nas coberturas e semáforos de rua”, pequenas câmeras que “giravam à esquerda e à direita” estariam sentinelas sobre os futuros habitantes de ambas as nossas cidades, “examinando o tráfego e os pedestres, observando tudo com uma visão plena”.

    Mas aí acabavam as semelhanças. A Cidade Número Um – A Cidade do Controle – era uma cidade saída de nossos piores pesadelos, rasgadas das páginas mais sombrias de 1984 de Orwell ou We de Zamyatin. É um lugar onde “uma infinidade de câmeras relatam suas cenas urbanas direto para a Central de Polícia, onde os agentes de segurança utilizam sofisticados processadores de imagem para buscar por infrações contra a ordem pública – ou talvez contra um pensamento estabelecido”. Nesta cidade de vidro, Brin alertou, os cidadãos andam pelas ruas conscientes de que “qualquer palavra ou ação poderia ser observada por agentes de um misterioso bureau”.

    Mas Brin também pintou outra cidade. Esta cidade seria tão transparente como o vidro; aqui também haviam câmeras, “empoleiradas em todos os pontos que a vista alcança”, mas uma sutil diferença liberta estes cidadãos da Cidade de Controle supracitada. Aqui as sentinelas silenciosas não transmitem direto para a polícia secreta, ao contrário, “todos os cidadãos desta metrópole podem levantar o seu relógio de pulso/TV e ver as imagens de qualquer câmera na cidade. Nela, um carrinho de bebê circula pela noite enquanto sua babá certifica-se que ninguém se esconde na próxima esquina. Não muito longe, um jovem atrasado disca para ver se as pessoas ainda esperam por ele na fonte em frente à prefeitura da cidade. A um quarteirão dali, um pai ansioso examina a área e encontra o caminho pelo qual seu filho se afastou. Ao longo do shopping, um ladrão adolescente é levado cautelosamente sob custódia, com atenção minuciosa aos direitos, porque o policial que o prendeu sabe que todo o processo está sendo examinado por um número incontável de pessoas que assistem atentamente, para evitar um lapso de profissionalismo”.

    Mas essa não é a única diferença na lenda das duas cidades de Brin. A privacidade também seria melhor mantida e pensada. Micro-câmeras (como câmeras de telefones), tão amadas por nossos cidadãos em locais públicos, são banidas de muitos lugares privados (mas não dentro da sede da polícia). Esta é uma cidade construída mais na confiança do que o controle.

    As futuras cidades de Brin eram muito diferentes; a beleza de sua obra é que ele apresentou um par de contrastantes modos de vida que representam “relações completamente opostas entre cidadãos e seus responsáveis ​​civis”.

    Uma década depois da visão de Brin, qual cidade você acha que o mundo escolheu? A cidade do controle ou a cidade de confiança? A resposta, provavelmente, é um pouco de cada. Ambas as visões de Brin entraram no tecido das nossas vidas diárias em uma década onde CCTV (circuito fechado de televisão) e telefones-câmeras se tornaram itens comuns: onde cada qual se tornou mais prevalente em diferentes cidades de todo o mundo. De fato, ambas visões do futuro são condenados ao fracasso, como todos esses tipos de visões são. Como todas as obras proféticas, elas nos dizem mais sobre a época em que foram escritas do que o tempo que tentam prever. O mundo, como sempre, segue em frente e até mesmo o profeta mais perceptivo não pode ver o que está no virar da esquina.

    Mas como seria a visão de Brin para hoje, para 2008: ao pintarmos nossas visões da cidade de controle e da cidade de confiança? O que vemos? Em nosso ponto de vista das cidades daqui a 20 anos, vemos duas cidades que de longe se parecem muito. Ambas são completamente modernas, ambas sofrem a degradação urbana, ambas são transparentes como se fossem feitas de quartzo. Mas a coisa que tão perturbou Brin a uma década – a onipresença de câmeras – já não é mais a tecnologia que define as nossas cidades. De fato, a um maior ou menor número, essas câmeras poderiam parecer irrelevantes para uma série de tenconologias mais sofisticadas e desenvolvidas atualmente.

    Em nossas futuras cidades – 20 anos à frente – tecnologias muito mais sutis estão todas em seu devido lugar. Ao invés de um ninho de uma infinidade de câmeras no topo de cada poste, reside uma quase invisível rede de freqüências sem fio, onde praticamente qualquer objeto e espaço podem ser localizados e monitorados, encontrados e registrados tão facilmente como um item no eBay ou o preço de um vôo na easyJet.

    Nossas duas cidades estão atadas como uma “internet das coisas”. São lugares onde a infra-estrutura urbana é incorporada com uma sofisticada rede de itens rastreáveis​​. Elas são lugares onde aos bens de consumo são atribuídos endereços IP, assim como páginas da web. E como a Sociedade Transparente de Brin, nossas futuras cidades de vidro podem seguir dois caminhos.

    Então, pergunte a si mesmo, qual caminho você gostaria? Vamos considerar a Cidade da Controle: É um lugar onde a implantação de etiquetas de identificação por radiofreqüência (RFID) tornaram-se não apenas comuns, mas onipresentes. Objetos, espaços e, sim, até mesmo as pessoas estão marcadas e com um número único, tal como endereços da web. As noções de público e privado começaram a dissolver; ou são irrelevantes; noções de propriedade estão sendo rapidamente repensadas. A segurança é a questão crucial para aqueles que podem pagar, mas também para aqueles que não podem. Muito em breve, o acesso a partes da cidade estará esculpido: permitindo a entrada de ricos e poderosos onde quiserem e os pobres com acesso para onde forem permitidos.

    Cada item que você compra no supermercado na Cidade Número Um – a Cidade do Controle – está monitorado e potencialmente seus dados estão sendo minados para que não haja uma combinação de bens em sua cesta que as autoridades não gostem. Seus movimentos são observados, e não pelo uso de imagens brutas de câmeras (que provaram ser bastante ineficientes no combate ao crime), mas por etiquetas embutidas em seus gadgets ou roupas e até mesmo sob a pele. Transmissíveis sem fio e instantâneas, se conectam com sistemas de satélites que registram suas pegadas digitais infinitamente. Cada coisa que você compra, cada pessoa que conhece, a cada movimento que você faz. Eles podem estar observando você. A Cidade Número Dois – a Cidade da Confiança – à primeira vista se parece muito com a Cidade do Controle. Mas aqui, aos cidadãos foi dado muito mais controle: Aqui pervasivos sistemas foram incorporados, mas oferecidos como uma opção e não como um padrão. Você esquece seu laptop no trem, e não há problema: com a “Internet das Coisas” é possível localizá-lo em um motor de busca, até mesmo providenciar para que possa ser entregue de volta à sua casa. Da mesma forma, assim como nas cidades do futuro de Brin, câmeras ficaram na estação policial, na nossa cidade da Confiança os movimentos dos nossos Guardiões são rastreados para que os cidadãos sejam livres para desligar as suas câmeras do lado de fora.

    Quando Brin fez a previsão de suas duas cidades, ele fez uma série de pressupostos que até agora provaram-se falsos. Em ambas as cidades, ele pensou que a prevalência de câmeras causaria o fim da criminalidade nas rua e desapareceria. Isso não aconteceu. Mas suas previsões sobre a quantidade extras de câmeras, tanto para a vigilância como para uso privado, foram incrivelmente prescientes. Hoje nós estamos em um limiar semelhante; à beira da chamada “internet das coisas”. A implantação do RFID é apenas uma forma de computação ubíqua, um termo cunhado pelo falecido Mark Weiser em 1988, durante seu mandato como tecnólogo-chefe da Xerox Palo Alto Research Centre (Parc), que prevê uma maior implantação de tecnologia da informação em nosso cotidiano. Para Weiser, o futuro da tecnologia da informação era como um utilitário, algo que existiria enquanto infraestrutura, como gás e eletricidade.2

    A diferença entre a visão de visões de Brin e a nossa é a visibilidade das ferramentas de vigilância do nosso futuro. A computação ubíqua (muitas vezes referida como ubicomp) descreve um conjunto de processos em que a tecnologia da informação tem sido completamente integradas em objetos e atividades cotidianas: a tal ponto que o usuário muitas vezes é alheio a interferir.

    Como Naomi Klein assinalou recentemente, os planos para a Cidade do Controle já foram encenados. Klein nos aponta para3 Shenzhen, uma das megacidades emergentes da China. Trinta anos atrás, Shenzhen não existia. Era apenas “uma série de pequenas aldeias de pescadores a cultivar coletivamente arrozais, um lugar de estradas de terra esburacadas e templos tradicionais “. Mas Shenzhen, graças à sua proximidade com Hong Kong, foi escolhida como o local para Primeira “zona econômica especial” da China, uma das únicas quatro áreas onde o capitalismo seria permitido em caráter experimental. “O resultado foi uma cidade de comércio puro, não diluído pela história ou cultura enraizada – a pedra de cocaína do capitalismo”.

    Era uma força tão viciante para os investidores que Shenzhen experimentou rápida expansão, engolindo não apenas o Delta do Rio das Pérolas ao redor, que agora abriga cerca de 100.000 fábricas, mas “a maior parte do resto do país.” Hoje, Shenzhen é uma cidade de 12,4 milhões de pessoas, em uma enorme expansão industrial, cheia de fábricas que fazem tudo, desde iPods a laptops, de tênis a carros: “Há um metrô super leve ainda em fase de construção – que em breve irá conectar tudo em alta velocidade; cada carro possui várias telas de TV conectadas através de uma rede Wi-Fi gratuita. À noite, toda a cidade se ilumina como um Hummer conservado, com cada hotel cinco estrelas e torre de escritórios competindo para apresentar o melhor show de luzes”.

    Mas Klein notou algo mais sobre Shenzhen. Ela diz que é “mais uma vez servindo como um laboratório, um campo de testes para a próxima fase deste vasto experimento social”. Trata-se de uma vasta rede de cerca de 200 mil câmeras de vigilância instaladas ao longo da cidade. A maioria são em espaços públicos, disfarçados de postes de iluminação. Logo o circuito fechado de câmeras de TV será conectadas a uma “rede nacional única, um sistema que tudo vê que será capaz de rastrear e identificar qualquer pessoa dentro de seu alcance… ao longo dos próximos três anos, os executivos de segurança chinesas prevêem que irão instalar até dois milhão de CCTV em Shenzhen, o que a tornaria a cidade com maior audiência no mundo”. É praticamente a visão de Brin há uma década.

    O olho que tudo vê chinês é apenas uma parte de uma experiência muito mais ampla em vigilância. A China também está desenvolvendo um projeto chamado “Escudo Dourado”.

    “O objetivo final é utilizar a mais recente tecnologia de rastreamento de pessoas – cuidadosamente fornecido por gigantes da tecnologia americana como IBM, Honeywell e General Electric – para criar um hermético casulo ao consumidor: um lugar onde os cartões Visa, tênis Adidas, celulares, McLanche Feliz, cerveja Tsingtao e entrega UPS… possa ser desfrutado sob o olho aberto do Estado, sem a ameaça da democracia romper tudo. Com a agitação política em ascensão em toda a China, o governo espera usar o escudo de vigilância para identificar e neutralizar a dissidência antes que ela surja como um movimento de massas como a que chamou a atenção do mundo na Praça da Paz Celestial”.

    O ponto é que as tecnologias que conduzem A Cidade do Controle não precisam estar restritas à China. Esta integração de câmeras de TV com a internet, telefones celulares, softwares de reconhecimento facial e de monitoramento GPS que está sendo testado com o “Escudo Dourado” deve ser estendido por toda a China e além. Sistemas que controlam nossos movimentos através de cartões de identidade nacionais com chips de computador RFID contendo informações biométricas estão sendo ordenados ao redor do mundo. Como nossos sistemas operacionais que carregam nossas imagens a bases de dados policiais e ligadas à registros de dados pessoais. Conforme Klein aponta, “o elemento mais importante de tudo: a conexão de todas essas ferramentas em conjunto em um enorme banco de dados pesquisável de nomes, fotos, informações residenciais, histórico de trabalho e dados biométricos. Quando o Escudo Dourado estiver concluído, haverá uma foto nessas bases de dados de todas as pessoas na China: 1,3 mil milhões de rostos”.

    Já as mesmas corporações ocidentais que ajudaram a China a construir sua “Golden Shield” estão pressionando os governos ocidentais para construir sistemas similares. Os EUA já tem planos para construir a “Operação Escudo Noble”, enquanto os projetos para cidades similares aos de Shenzhen estão sendo introduzidos em Nova York, Chicago e Washington DC. Londres tem muito mais câmeras de vigilância do que Shenzhen. Nas páginas abaixoNT, Rob van Kranenburg irá delinear sua visão do futuro. Ele dirá de seus primeiros encontros com tecnologias baseadas em localização que tarnarão-se comuns e o que isso pode significar para todos nós. Ele irá explorar o surgimento da “internet das coisas”, traçando-nos através de suas mundanas origens, back-end, e o mundo da cadeia de abastecimento internacional para aplicações domésticas que já existem em um estágio embrionário. Ele também irá explicar como a adoção de tecnologias do controle da cidade não é inevitável, nem algo que devemos aceitar cegamente como sonâmbulos. No relato de van Kranenburg sobre a criação da rede internacional de Bricolabs, ele também sugere como cada um de nós pode ajudar na construção de tecnologias de confiança e nos fortalecer na era da vigilância de massa e tecnologias ambientais.

    Assim como Brin argumentou na Sociedade Transparente, que um maior bem comum pode ser estabelecido se a vigilância é igual para todos, e que o público tenha o mesmo acesso que as pessoas no poder, defendemos que seria bom para a sociedade se a arquitetura da “internet das coisas” fosse igual para todos, e que o público tenha as mesmas ferramentas dos que estão no poder.

     

    1 | David Brin, The Transparent Society: Will Technology Force Us to Choose Between Privacy and Freedom?, Cambridge, MA: Perseus Books, 1998.

    2 | Mark Weiser, ‘The Computer for the Twenty-First Century’, Scientific American (September 1991), p. 94-10. http://www.ubiq.com/hypertext/weiser/SciAmDraft3.html

    3 | Naomi Klein, ‘China’s All-Seeing Eye’, Rolling Stone 1053 (May 2008). http://www.rollingstone.com/politics/story/20797485/chinas_allseeing_eye

    4 | Greg Walton, China’s Golden Shield: Corporations and the Development of Surveillance Technology in the People’s Republic of China, Montréal (Québec): Rights & Democracy, 2001.

    NT | Este texto é a introdução do livro The Internet of Things – A critique of ambient technology and the all-seeing network of RFID de Rob van Kranenburg disponível em http://www.networkcultures.org/_uploads/notebook2_theinternetofthings.pdf

    Tradução de Ricardo Ruiz

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  • Tempo livre

    Martin Hose

    Tradução de Ricardo Ruiz

    Olá a todos aí usando o minix – Estou desenvolvendo um Sistema Operacional (livre) – é apenas um passatempo, não será grande e profissional como o GNU – para computadores AT 386 (e 486). Ele está sendo maturado desde abril, e está quase pronto. Eu gostaria de qualquer informação sobre as coisas que as pessoas gostam e não gostam no minix, uma vez que meu Sistema Operacional de alguma forma o reescreve (o mesmo modelo de sistema de arquivos – devido à razões práticas – além de outras coisas). Atualmente eu portei o bash 1.08 e o gcc 1.40 e as coisas parecem estar funcionando. Isso implica que eu vou ter alguma coisa prática em alguns poucos meses, e eu gostaria de saber quais as funcionalidades a maior parte das pessoas gostaria. Qualquer sugestão é bem-vinda. mas eu não prometo que irei implementá-las :-)
    Linus (torva… <at> kruuna.helsinki.fi

    Em contraste às economias de alienação, funcionalismo e produtividade a capturar o desavisado escravo do computador com um tempo fechado e circunscrito em todos os níveis da tão chamada funcionalidade, existe uma idéia de um tempo livre, sob o aviso óbvio de que o tempo só é definido graças ao seu acorrentado irmão, o trabalhador. O tempo livre demanda introduções paralelas, um organizado agrupamento de pontos de intersecção simultâneos através da história do software livre em relação à computação artística e, sem dúvidas, a específica natureza do tempo na computação. Tal noção igualmente nos leva diretamente ao terreno do feito em casa, das soluções faça-você-mesmo que fogem das economias estabelecidas e de um cenário de passatempos do qual o software livre em parte descende e promove. É tudo sobre o tempo: tempo de computação, tempo em uma simulação embutida e histórias do passado, de outros tempos; uma maquínica conexão paralela de idéias, indivíduos e interesses agudos.

    Com uma leitura equivocada da moderna cena de desenvolvimento de código, pessimistas inveterados defendem que o software livre é irrelevante à computação artística, prontamente citando o desgastado e erodido clichê que diz que o software livre imita ao invés de inovar. Sob tal argumento, baseado principalmente na interface gráfica GUI, desenvolvedores de códigos livres são condenados se experimentam, condenados se tentam (e conseguem) fazer as coisas mais fácil para usuários de outros sistemas. Tal adoentado atributo, lixo sem autor, repetido incessantemente através de grupos de notícias e blogs, age como um meme viral, escondendo a verdade.

    Apenas para contrastar, sem nem ao menos entrarmos com argumentações no mal-alocado campo da funcionalidade, é válido imaginarmos o presente sem o código aberto; uma desagradável realidade de compiladores proprietários e forjadas obras de arte no confinamento determinista da indústria. Em todo este terreno da encarceirada computação confiável e sem a livre distribuição ou a criação desimpedida de conteúdos, a computação de tempo livre se torna uma luxúria do consumo. Para que implementar padrões em um mundo de competição de produtos trancafiados que são melhor servidos por esconder tais detalhes? É um mundo de macro meios unicamente oferecidos para os consumidores e tal visão nos dá uma boa idéia da necessidade absoluta de softwares livres para a criatividade, bem como uma necessidade histórica muito percebida em diferentes narrativas.

    É importante lembrarmos que historicamente, códigos proprietários são a exceção, ao invés da regra. A história do Emacs e do GNU Emacs, estando na raíz do movimento do software livre, nos mostra um bom quadro da transição do código compartilhado para os executáveis travados, o surgimento das licenças como fator central para os softwares à medida que desenvolvedores de código viam-se em desvantagem numérica em relação aos usuários finais. E a história do UNIX é em boa parte sobre software livre, embora com acordos tácitos entre desenvolvedores e a indústria; uma criatura de membros soltos em comparação com as restrições da GPL que apresentam um reforço necessário à luz de um cenário cada vez mais intransigente. Ao mesmo tempo, essas histórias mostram como o código proprietário sempre foi engajado em uma batalha contra a Rede; e, acima de tudo, o crescimento inevitável da Rede através de BBSes (Bulletin Board Systems) revelou-se altamente significativo no desenvolvimento do GNU/Linux.

    Estes simples fatos são muitas vezes escondidos em comparações que se concentram demais em uma borda binária de funcionalidade percebida, por exemplo, no julgamento de qual Sistema Operacional possui a melhor aplicação para criação de conteúdo determinista, como o sequenciamento de áudio digital. Termos como aplicação, usuário e interface já são demasiado pesados. O modelo de computação contemporânea aparece fossilizado conforme as condições da indústria de software proprietário nos guia cegamente para a única coisa que tem para oferecer, a funcionalidade nua e branda. Richard Stallman deixa claro no projeto GNU como o verdadeiro panorama da computação foi historicamente reescrito por interesses de propriedade:

    A idéia de que o sistema social do software – o sistema que diz que você não tem permissão para compartilhar ou modificar software – é anti-social, que é anti-ético, que é simplesmente errado, pode vir como uma surpresa para alguns leitores. Mas o que mais poderíamos dizer sobre um sistema baseado na divisão do público e na manutenção de usuários desamparados? Os leitores que acham a idéia surpreendente podem ter tomado o sistema social do software proprietário como exclusivo, ou julgado-a sob os termos sugeridos pelas empresas de software proprietário. Editoras de software têm trabalhado muito duro para convencer as pessoas de que só há uma maneira de olhar para o problema.

    Software livre significa pensar fora da caixa preta da aplicação, a icônica pedra GUI. O contraste entre a relutante mímica da área de trabalho ao longo de um eixo maçante de funcionalidades e aplicações-chave como o GNU Emacs sublinham esta dicotomia como extensibilidade e auto-investigação, auto-reflexão como fonte predominante, personalização e documentação interna, e são novos temas dominantes.

    LAC, DAC, DIPPY DAP, LIO, DIO, JUMP2

    Anedotas recontando os primeiros dias dos laboratórios de Inteligência Artificial do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets) que literalmente forjou a cultura hacker e os princípios fundamentais do software livre, está bem documentada em Hackers, de Stephen Levy, e em outros, inclusive o comentário de Sam Williams do trabalho de Richard Stallman, Livre como em Liberdade (Free as in Freedom). Por padrão essas histórias pouco podem ignorar um envolvimento com os militares por meio do financiamento da ARPA por parte do do DoD (Departamento da Defesa do Estados Unidos) para projetos dos laboratórios de Inteligência Artificial do MIT.

    O que é interessante para retirarmos de ambas narrativas do UNIX e da cultura hacker é a forma como as questões de segurança surgem, refletem e contrastam durante as duas narrativas. Uma cultura que valoriza deixar arquivos abertos para que todos possam entrar, compartilhar e melhorar o seu código é vívida entre os hackers e fica gritante em relação ao projeto hierárquico do sistema operacional UNIX com um delimitado superusuário valorizado e recompensado acima de um confiável enxame de usuários comuns.

    Stephen Levy não relata apenas a abertura do código e do console para todos os companheiros hackers que compartilhavam uma ética comum, mas também uma abertura que se estendeu ao mundo físico. Portas, armários de arquivos e gavetas seriam deixadas abertas pelos iniciados. Portas fechadas era visto como um insulto, e eram respondidas no verdadeiro espírito hacker com engenhosa evasão, ou mais: proibindo o hacking. A Abertura foi valorizada acima de tudo à luz de um grandioso projeto gnóstico do conhecimento total, um Jogo da Vida compartilhado; nos termos de Levy, a busca dos hackers para descobrir e melhorar a forma como o mundo funcionava. No entanto, e ao mesmo tempo, um jogo tão animado, uma cruzada de conhecimento ativo e compartilhado foi realizada dentro de um ambiente fechado com hackers deliberadamente ignorantes do radical mundo exterior no final dos anos de 1960. Seu Jogo da Vida teve um limite terminal, conforme bloqueios avançados e pesadas questões de segurança se tornaram de rigueur, à luz dos protestos contra o aumento do financiamento da defesa. Um limite foi estabelecido, no entanto, internamente: os direitos de propriedade manteve-se um conceito absurdo.

    Em contraste, as palavras de Ken Thompson, em seu texto-chave Reflections on Trusting Trust, vão tão longe quanto ao argumento de que o ato de invadir um sistema de computador teria o mesmo estigma social de invadir a casa de um vizinho. Neste ponto tal metáfora se manteve, interligando a divisão físico-digital sob o signo da propriedade intelectual.

    Do UNIX para a computação confiável.

    Compare isto com as palavras de Richard Stallman, republicadas na mesma antologia que o trabalho de Thompson, Computers Under Attack, “… Eu julgo a segurança computacional como uma doença, e não uma cura, exceto para os bancos e coisas do tipo.” (Are Computer Property Rights Absolute?). E, embora seja um velho clichê dizer que todo a história é política, traçar os usos e os abusos da palavra hacker através de diferentes narrativas descompacta tanto sua qualidade quanto o uso político do termo em si. Diferentes usos da palavra refletiu a nova cultura e impactou fortemente sobre as interpretações do passado. No contexto do software livre o passado é, definitivamente, o mais reescrito. Stallman faz um excelente trabalho de dissecar este campo em aberto para as referências em um apêndice do Free as in Freedom, com o termo hacker transformado em uma bola de bilhar linguística, amadurecendo-o para a posterior linguagem dos hackers e dos jogos.

    Como um adento é importante notar a relação do espírito pranksterista de hackear, que Stallman e outros identificam exatamente como uma das raízes do termo dentro do jargão estudantil do MIT, neoísta através da remoção de uma subsequente ênfase na artesania e uma nova ênfase na poética lúdica. E, ainda assim, devemos caminhar com cautela. Qualquer investigação sobre o Neoísmo certamente entrará num verdadeiro covil de leões, dado que, nas palavras de Stewart Home, “… toda narrativa construída em torno do neoísmo é imprecisa e manipuladora.” No entanto, é um covil vivo de entretenimento e retórica, com respeito tanto para os esforços artísticos do século XX, como o dadaísmo, quanto para à luz de uma estética que não ousa dizer o seu nome sob a assinatura viral do plágio. O neoísmo hackeia a estétia, joga com a história e o contexto.

    Pode ser facilmente argumentado que alguns aspectos do modelo UNIX, apesar de satisfatório em termos de modularidade e conectividade de periféricos – o que acrescenta uma certa abertura – não parece tão bem adaptados à obcecada visão de liberdade de Stallman e seus companheiros de viagem do software livre. Nas palavras do próprio Stallman do Manifesto GNU:

    Unix não é o meu sistema ideal, mas não é tão ruim. As características essenciais do Unix parecem ser boas, e acho que posso preencher o que falta no Unix sem comprometê-lo. E um sistema compatível com o Unix seria conveniente para muitas outras pessoas adotarem.

    Um bom número de outros sistemas alternativos perseguiram e responderam essas questões com variados graus de sucesso, e sob uma variedade de filosofias aplicadas que se quebravam, de certa forma artificialmente, entre o núcleo de funcionalidade de um privilegiado kernel e o processamento livre, no espaço facilmente modificável dos usuários.

    FINALIZAR O SISTEMA

    Qualquer história de tais sistemas operacionais livres e abertos é forçada a voltar as raízes do hackearismo no MIT dos anos de 1960, com referência ao maravilhosamente intitulado Incompatible Time-sharing System – ITS (Sistema de Compartilhamento de Incompatibilidade Temporal) , que, embora parodiando o careta, carrancudo e excessivamente seguro Compatible Time-sharing System – Sistema de Partilha de Tempo, que também se encaixa perfeitamente com as preocupações de tempo livre. ITS, que gerou um bom número de subprojetos significativos ainda em uso hoje, como o GNU Emacs, descarta a própria noção de segurança com uma arquitetura totalmente aberta e sem restrições por senhas e afins. ITS foi desenhado para permitir e incentivar a partilha de dados do usuário e até mesmo tentativas de hackearismo ao vivo, com programadores capazes de bisbilhotar e cometar nas sessões do terminal de co-hackers. Nas palavras de Levy, ITS provou que a melhor segurança que havia era segurança nenhuma, citando o comando KILL SYSTEM (FINALIZAR SISTEMA), que causa falha no gracioso sistema PDP-6, ele mesmo um argumento de como o processamento das ações dos hackers era simplesmente muito simples.

    Além de uma arquitetura aberta, já ligado à crescente ARPAnet, ITS mostrou-se revolucionário em um bom número de aspectos, lançando as bases para futuros sistemas operacionais com uma sofisticada gestão de processos e um transparente sistema de acesso de rede. Tanto através de um rico conjunto de recursos doados e a participação de personalidades como Richard Stallman tanto nos laboratórios de Inteligência Artificial do MIT, onde o ITS foi gerado, como no futuro projeto GNU (GNU’s Not Unix), ITS ocupou uma posição vital na história do software livre. No entanto, através de contingência histórica, poderia ser argumentado que o ímpeto robusto incorporado à filosofia do ITS está longe de ser herdado pelas tecnologias contemporâneas do GNU/Linux.

    O próprio projeto GNU se iniciou nos anos de 1980, conforme Stallman testemunhava a morte da ética hacker no MIT, com evidentes e bem expressas preocupações políticas centradas em torno da liberdade e flexibilidade. Nos seus próprios termos, o projeto GNU e sua parceira, a Free Software Foundation (FSF) “… contribuem para difundir a conscientização das questões éticas e políticas da liberdade no uso de softwares.”

    Um sistema operacional que adereçasse tais questões dentro da áspera paisagem contemporânea que priorizava sistemas proprietários em suas agendas, com um modelo UNIX altamente aceitável por razões de ordem prática e conceitual. A maneira UNIX modular e eminentemente encaixável de fazer as coisas era atraente para aqueles que buscavam maior flexibilidade e um conjunto de ferramentas essenciais mais modulares e compartimentadas, o que significava que o software livre poderia ser trabalhado em pequenos pedaços por diversos desenvolvedores de código dentro de um ambiente de desenvolvimento colaborativo.

    UNIX oferecia padrões e portabilidade, características inestimáveis dentro de qualquer definição de liberdade em Sistemas Operacionais; a liberdade de executar em qualquer lugar, em qualquer coisa. O trabalho em um sistema operacional GNU continuou durante toda a década de 1980 com softwares livres extremamente úteis criados como projetos. No entanto, como todo bom estudioso de GNU/Linux sabe, havia um pedaço bastante grande do enigma UNIX que não havia sido feito no GNU, e que era o kernel. Até o início dos anos de 1990, uma pesada abordagem de base para um microkernel parecia surgir, e os códigos para o Hurd no Mach* começaram mais ou menos ao mesmo tempo do tão famoso passatempo de Torvalds, que não seria grande e profissional como o anúncio do GNU. O Hurd foi e ainda é o kernel do GNU oficial, mas ao mesmo tempo que o colaborador-chave do Hurd, Michael Bushnell, finalizava os ajustes necessários para implementação do sistema de arquivos e da bootstrap (cinta de arranque) para o Hurd, a criação de Torvalds apareceu brilhando no radar da Free Software Foundation – FSF, e o resto é história. Vale lembrar que, pelo menos aos olhos da FSF, o Linux é visto mais como um filho adotivo um pouco rebelde do que um membro da família real, e é frequentemente criticado a este respeito com golpes regulares centrados sobre a alcunha Linux.

    De volta para o futuro

    E ao contrário do que poderia muito bem ser considerado como um acontecimento histórico arbitrário, existe na história do software livre um detalhe que é de intensa importância: a codificação por passatempo de um Sistema Operacional baseado em UNIX, como exclamado por Torvalds; em outras narrativas, este detalhe poderia muito bem ser considerado como mobília de uma certa inevitabilidade para o software livre. Pode ser facilmente argumentado que o ímpeto político do movimento de software livre e o projeto GNU, e da escala social e as ambições da cena feito-em-casa, tanto sob a eletrônica artesanal – intenso faça-você-mesmo dos anos de 1970 – e a crescente cena caseira de codificação para computadores pessoais, proveram a ênfase necessária e inevitável para o software livre. Sem esse movimento não haveria alternativa à um ambiente proprietário mal iluminado pela presença de feios e horripilantes freewares. E a sugestão de Torvalds de ser apenas um passatempo, no entanto modesto, enraíza profundamente o GNU/Linux, uma das manifestações mais visíveis do software livre e um modelo de desenvolvimento aberto, nestas tão facinantes cenas iniciais.

    A história de feito-em-casa expõe as verdadeiras raízes da computação criativa e é certamente a crédito do movimento do software livre que com sucesso re-energizou as visões artísticas desta cena e forneceu um foco exclusivo em uma história envolvente. Se rebobinarmos 20 ou mesmo 30 anos, e examinarmos as idéias e as conexões feitas por inúmeros artistas como Alan Kay e Ted Nelson na área de comunidades locais prova, se não iluminadas, um pouco desanimadoras à luz de uma cena contemporânea mais ocupada com portabilidade de um sistema operacional estável para uma série de plataformas de hardware aleatório. Sob o signo do retrofuturismo, como cunhado por Howard Rheingold, e por meio de Stallman, talvez, agindo como uma espécie de médium, um canalizador psíquico, impregnando o mundo criativo do software livre com o espírito do passado, é mais gratificante remontar aos dias impetuosos tanto do MIT quanto da experimentação caseira.

    O feito-em-casa, com base nos semi-acessíveis sistema de 8-bit de meados dos anos de 1970, como a placa exposta KIM-1, foi principalmente sobre a recuperação da autonomia computacional das mãos das instituições e corporações para aqueles que não poderiam de forma alguma bancar o acesso a um mainframe. Tal espírito de computação criativa continuou bem até os anos de 1980, com microcomputadores de baixo custo provando-se funcionais apenas quando combinados com uma perícia autodidata em programação e um interpretador de linguagem adequado; o sistema operacional tendia a ser mínimo, longe de um sistema operacional totalmente lapidado sentado sobre um processador de 8-bit. Claro, o código poderia ser carregado a partir de fitas K7, compartilhados através das ondas do rádio ou distribuído em vinil, mas tais processos maçantes e demorados pouco atraíam em comparação com hackear as próprias aplicações ou, mais comumente, jogos. Códigos-fonte impressos, compartilhados entre revistas e fotocópias, para serem digitados à mão tornou-se a norma. Distribuição binária estava sujeita ao ruído; distribuição textual era muito mais eficiente.

    No entanto, conforme esses sistemas cresciam em complexidade e os sistemas operacionais dos computadores pessoais livres do passado (nada de compartilhamento de tempo para o hacker ansioso) expandiam em termos de tamanho e funcionalidade, o sistema operacional proveu um ponto de entrada para o domínio dos sistemas proprietários dentro do outrora autônomo ambiente da computação doméstica. Quando o primeiro tão conheido PC apareceu, a oferecer agora o acesso metafórico ubíquo para o conteúdo ou para o meio – ao contrário dos sonhos dos anos de 1970 descritos em revistas como a Creative Computing – o computador pessoal aderiu ao domínio das empresas. Produtividade e a maquínica mesclaram-se sob uma interface auto-idêntica e a batalha para uma leitura verdadeiramente artística e divergentemente política do Sistema Operacional começou.

    Rádio no Ar

    Uma realização radical da arte, então, seria a deposição do produtor soberano e um retorno da riqueza compartilhada da criatividade aos seus verdadeiros donos: a multidão. Por esta razão, uma reapropriação e transformação dos meios de produção artística vem à tona – uma abertura dos códigos-fonte culturais para um fim indeterminado – Bare Code, Josephine Berry Slater, 2002
    É possível argumentar de forma coerente que o software livre pode ser considerado ele mesmo uma obra de arte, quando o consideramos como uma cultura aberta e como uma escrita de auto-referenciação ou intertextualidade. Código visível, distribuição gratuita e um saudável conjunto de preocupações políticas são as palavras de ordem que inspiram a computação criativa. Em 1999, o kernel do Linux em si foi premiado com o Nica de Ouro na categoria Net do Ars Electronica, o mais prestigiado festival de artes digitais do mundo. E em fevereiro de 2002, as 4.141.432 linhas de código que então compunham o kernel do Linux foi difundida online e em FM com uma fala sintetizada pela Rádio Livre Linux, uma iniciativa criada pela coletivo de arte online r a d i o q u a l i a. Rádio Livre Linux obviamente usa software livre, como o Ogg Vorbis, e seus criadores argumentam com muito humor que o projeto continua a tradição das estações FM de código da década de 1980 que distribuía códigos-fonte via rádio, o que permitia que precoces hackers com computadores pessoais, como o Sinclair ZX81s ou Commodore 64s, demodulassem o sinal analógico através de um modem e executassem o código.

    A Rádio Livre Linux obviamente fornece um serviço semelhante para os hackers contemporâneo, desde que equipados com caneta e papel para a transcrição do código. O teórico baseado em Berlim, Micz Flor, argumenta que a Rádio Livre Linux escava profundamente as questões de código e linguagem, tecnologia, arte e cultura, bem como a abertura dos debates sobre a liberdade de expressão e a proteção de direitos autorais. Rádio Livre Linux expõe o amplo contexto cultural em torno do software livre e, como Larry Wall, criador do Perl, argumenta, uma língua não é apenas um conjunto de regras ou semântica, é muito mais a cultura completa que envolve a linguagem. Este contexto inclui todas as pessoas envolvidas na linguagem, como as pessoas aprendem a língua e ajudam uns aos outros com a linguagem e, por fim, como interagem uns com os outros. E não é difícil argumentar que tal rico contexto cultural só pode existir sob um modelo de desenvolvimento de software livre. Esta é uma mensagem que a Rádio Livre Linux claramente transmite. E as dimensões políticas da Rádio Livre Linux, que resumem as questões de código e da linguagem, são mais óbvias ainda, com um claro paralelismo com a publicação do código fonte de Pretty Good Privacy (PGP) pelo MIT em 1995, com esquizofrênicas proibições legais colocadas em sua distribuição .

    E é também importante mencionar o desastre DeCSS, com camisetas com o código-fonte do utilitário sendo analisadas em tribunal. Esse modelo de distribuição foi nitidamente plagiados pelo grupo de artistas de Bolonha 0100101110101101.ORG, em seu trabalho Biennale.py, um vírus de computador falsificado baseado em Python, que foi exibido em mil camisetas, durante a abertura da Bienal de Veneza em 2001 . Dada a prontamente reconhecida influência neoísta em 0100101110101101.ORG, e à luz do vírus MacMag, inspirador e de mesma forma, Biennale.py decreta uma homenagem à natureza verdadeiramente artística do vírus de computador, como código da linguagem processado como comum e altamente contemporâneo; uma pergunta sempre sobre os meios de distribuição e também atribuição cada vez mais perturbadora na mídia de massa pelo simples binário.

    Substância

    O software livre está preocupado com a abertura da misteriosa substância do código, que vertiginosamente oculta o hardware, e até mesmo a compútação. GNU/Linux se estabelece em toda a sua glória através de uma paisagem montanhosa de fontes impressas onde mostram-se todas as hierarquias de abstração promulgadas. Dentro de um ambiente de software livre, por exemplo, é possível ler a narrativa de vida do processo de inicialização, uma transição do hardware mudo para o ativamente interrogativo e linguístico software; uma história que começa em /usr/src/linux/arch/i386/boot.

    Ainda mais, para questionar a própria essência do software, este contrário de código fechado, é talvez válido examinar um outro texto, incorporando no seu título a principal preocupação: Não Há Nenhum Software (There is No Software), do teórico Friedrich Kittler (1995). É um trabalho rico que talvez seja imune à sumarização, mas o argumento central de que o software esconde os níveis mais baixos de hardware, a eletrônica, pode ser claramente extraído. Além disso:

    Precisamente porque o software não existe como uma máquina independente de um corpo, o software como um meio comercial ou estadunidense incide em todo o resto.

    A cobertura retrátil das licença é o fato de insistência neste caso; é o que torna efervescentes softwares reais. Vale a pena citar a conclusão em pleno, com a ressalva de que os argumentos de Kittler poderiam muito bem serem vistos em um bom número de aspectos, como se referindo apenas ao código proprietário:

    O hardware Silicon obedece muitos dos requisitos para tais sistemas não programáveis altamente conectados. Entre seus milhões de células transístoras, alguns milhões para o poder de duas interações acontecem já; há difusão eletrônica, há túneis mecânico-quânticos por todo o chip. No entanto, tecnicamente, essas interações ainda são tratadas em termos de limitações do sistema, efeitos colaterais físicos, e assim por diante. Minimizar todo barulho possível de eliminar é o prêmio pago para máquinas estruturalmente programáveis. A estratégia inversa da maximização do ruído não irá apenas encontrar o caminho de volta da IBM para o Shannon, ele pode muito bem ser a única forma de entrar nesse corpo de números reais originalmente conhecido como caos.

    A substância é articulada por meio do ruído e do real, tudo o que, segundo Kittler, o software como um fantasma controlado pela indústria deve esconder; uma criptografia de dados de mão única. Ainda que essas preocupações e os escritos de Kittler podem ser situado nos anos de declínio do DOS, com o GNU/Linux exposto apenas a pequenos grupos de hackers, apontando no sentido de uma nova estética e cultura da computação liberada pelo movimento do software livre. Ensaios adicionais, tais como o texto de Kittler maravilhosamente intitulado Protected Mode (Modo Protegido), de 1993, apenas dois anos depois da mensagem de Linus Torvalds sobre seu passatempo, ilumina seus próprios sentimentos como um tema da Microsoft, subjugados, embutidos e escondidos dentro das maquinações do DOS; código proprietário escondendo e negando o acesso ao passatempo dos hardwares obsoletos. Tal subjugação é bem encaixado nas conversas sobre trabalhar sob um sistema operacional. Ainda sob o signo do tempo livre, podemos agora trabalhar facilmente em um sistema operacional, hackeando e desviando funcionalidades expostas por um corpo de código.

    E, talvez, em um mundo ideal com apenas softwares livres, há SOMENTE o software. O hardware desaparece em uma transubstanciação invertida promulgada por São Ignacius, como RMS divertidamente referencia a si mesmo nas performances, exercendo o sagrado compilador GNU/GCC.

     

    NT – * GNU Hurd é o kernel oficial do sistema operacional GNU. É composto de servidores (ou daemons, na terminologia de Unix) que utilizam o microkernel GNU Mach. Está em desenvolvimento desde 1990 pelo Projeto GNU e é distribuído como software livre sob a licença GPL. O Hurd almeja superar os kernels tipo Unix em termos de funcionalidade, segurança e estabilidade, e ao mesmo tempo manter uma certa compatibilidade com o Unix. – http://pt.wikipedia.org/wiki/GNU_Hurd

     

     

    Bahia, 2009

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  • Hip3rorgânicos: uma análise afetiva

    É possível ser entusiasta sobre o uso contextualizado das novas tecnologias ao mesmo tempo sendo crítico à ideologia do progresso tecnológico que polui até mesmo tecno culturas de resistência” – Tapio Mäkelä


    Há muitas maneiras de se observar e relatar um evento. Aqui, vou focar no que mais me chamou a atenção dentro da minha participação na versão soteropolitana do simpósio Hip3orgânicos, durante a segunda quinzena de outubro, 2012.

    Uma das principais características do evento, importante de ser apontada aqui, é a telepresença. Disponível desde a década de 1990, a telepresença se refere a um conjunto de tecnologias que permita que as pessoas distantes geograficamente se sintam presentes em um mesmo lugar, que dê a aparência de estarem presentes, que cause o efeito sensório de estarem presentes. Necessita que os estímulos dos usuários desses sistemas sejam afetados de tal forma que traga a sensação de compartilhar o mesmo ambiente físico. Adicionalmente, aos mesmos usuários, deve-se possibilitar que afetem os espaços remotos. Para isso, a informação deve correr em todos os sentidos entre o usuário e sua localização remota. Aplicações populares podem ser vistas na telepresença via videoconferência, hoje disponível até em aparelhos celulares e dispositivos móveis.

    A Telepresença proposta e aplicada buscava a troca sensória-máquínica, tão bem descrita no texto de Glerm Soares.

    Aqui, vamos procurar analisar os efeitos dessa telepresença proposta no campo das relações humanas.

    Com o intuito claro da troca de dados OSC – Open Sound Control: protocolo de comunicação entre softwares, instrumentos musicais e demais dispositivos equipados com tal tecnologia –, as dificuldades técnicas apresentadas durante o primeiro e segundo dia de experimentações para a conexão entre o node Rio de Janeiro, impulsionou nos participantes de todos os outros nodes o uso de todas as tecnologias disponíveis até então para comunicação, para troca de impressões e informações, sobre o evento. Aplicativos de troca de textos via celular, salas de irc, mensagens por e-mail, chats e todos os outras penduricalhos tecno comunicacionais tomaram parte do cenário de telepresença que envolveu o encontro.

    Aqui é onde acredito que se deu a parte mais importante de trocas do evento. Foi saboroso perceber, que em meio a todas essas conversas em paralelo e simultâneas, mensagens institucionais de posicionamento do evento e composições musicais marginalizadas, conseguia-se afetar a todos os participantes, em seus respectivos entornos geográficos, com a mesma troca afetiva, ou bem próxima, das que se consegue em eventos de arte e tecnologia onde todos se fazem presentes fisicamente em um mesmo espaço.

    Fabiane Borges e Alexandre Freire, na agradável análise metodológica que fazem de eventos como processos de imersão e aprendizado Produção também é política: táticas para produção de pequenos encontros, afirmam que:

    Há algum tempo vêm se definindo nas práticas coletivas algumas outras formas de produção de encontros/eventos que não se fixam nem em super institucionalidade nem em descompromisso, mas que habitam entre essas coisas, que fazem dos seus métodos uma estrutura política que contribui para um pensamento político maior, que provoca pequenos processos democráticos (…) construindo ambientes propícios para a liberação de fluxos, agenciamento de devires, fluência de potenciais, conexão de desejos, necessidades, desenvolvimento de ritmos, remixagem de papéis sem centro catalizador (…)”

    E, um pouco à frente, salientam:

    Uma imersão é um recorte do mundo, com todas nuances que ele tem.”

    É importante notar que o surgimento da internet inspirou uma orgia do hype mcluhanista que – após os acontecimentos da década de 1990 da bolha dotcom – parece hoje absurdo. Vale também notar que, muito mais próximo de nós, Manuel Castells analisou a net como um “espaço de fluxos” que existia fora do mundo físico. Em contraste, as atuais tecnologias de mídia locativa criam os “espaços de lugares” que conecta as pessoas com seu entorno geográfico. No início da segunda década desse milênio, devemos combinar o tecno otimismo mcluhanista com o desdenho e o tecno pessimismo deleuziano (BARBROOK:2011). Se não queremos ser aprisionados por esses futuros imaginários devemos criar os nossos próprios – e melhores – futuros. Acima de tudo, devemos confiar na nossa habilidade para modelar as tecnologias de telepresença locativa. As reflexões e afecções promovidas pelo Hip3rorgânicos muito colaboraram para esse objetivo.

    Olinda, primavera de 2012.

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  • Video-tutorial web radio com IDJC

    Fizemos após os estudos com o Internet DJ Console, ótimo software para stream de áudio. O servidor usado é o estudiolivre.org. Postem aqui nos comentários suas dúvidas.

    [vimeo 17521483 tutorial webradio]

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  • Rio 40 Caos

    ontem ela sentiu necessidade de voltar.

    radio madame satan – transmitido ao vivo da agencia mídia livre by felipecastro

    ela, que conhece as ruas como o bom e velho exu, que circula por entre os desgarrados e desalmados, pelos desumanizados.

    ela, que se defende com os proprios punhos, que não é homem nem mulher, pois são todos, ela, que é a alegria despojada de viver dos que não têm mais nada. Ela, que é Madame, no meio do Caos, sentiu vontade de voltar. E Voltou.

    No Ar. Direto da L.A.P.A. Coração pulsante da babilônica guanabara. A Madame dos que não têm voz.

    Rádio Madamẽ Satã: De volta com 4 horas de transmissão ontem, com a presença de tuxauas, pontos de cultura, secretarias estaduais, MCs, jovens moradores da Rua, Intelectuais, Radialistas, Punks, Rastas, Orixás.

    Coração Pulsante de Paz, Amor, Alegria. Nas ondas do Rádio e pela internet. Cidade Caos.

    E continuamos na mesma frequência positiva de ontem, difundindo o amor.

    Amor, sapiência, paz. São nossas únicas armas para lutar.

    Ontem, nós as usamos.

    Valeu, Madame Satã!

    No blog da Madame:

    Nos dias 25 e 26 de novembro a rádio Madame Satan hospedou a oficina de cultura digital realizada pela secretaria de cultura para os pontos de cultura.
    Nestes dois de dias de interação e troca em fluxo, diversas frentes foram ativadas e a galera colocou a mão na massa.

    Tivemos oficina de sofware livre que mostrou a facilidade da migração para o Linux, repositórios, pacotes e familiarizou a galera com o terminal.

    No dia seguinte tivemos uma oficina de streaming de rádio, ação que resultou em um programa que foi veiculado durante 5 horas com diversas inserções de processos criativos de grupos presentes.

    Mais no blog da Radio Madame Satã

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  • Gravações em Vitória da Conquista

    Transmissão Rádio Amnésia durante Festejos do aniversário da cidade de Vitória da Conquista – Bahia

    Bia Novaes e Iracema Miller by ruiz

    choro

    Samba de artista

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  • E-mail para TT Catalão

    caro tt. catalao

    este email visa elucidar falhas de comunicação que estao rolando entre alguns envolvidos com os pontos de cultura e o programa cultura viva

    Após uma boa conversa com um de seus melhores funcionarios, caetano ruas, vimos que estamos tendo varias problemas de comunicação por coisas bem simples, e ele me sugeriu enviar esse email pra ficar tudo mais fácil. Achei a idéia ótima, tanto que a acato.

    O maior problema que tentei levantar em todos essas conversas foi a falta de informações oficiais por parte da SCC em relação ao processo do atraso de pagamentos. Uma nota no site, um ofício assinado por voce, teriam sido suficientes. É só isso. É simples.

    Mas além, o email é uma proposta para que a SCC faça um boletim semanal de suas atividades, publique lá no site, pra gente poder acompanhar mais de perto todos os difíceis processos que estão atravessando.

    espero que esse email solucione dezenas de falhas de comunicação.

    na paz, galera.

    só pode dar dilma, claro.

    há braços,

    ruiz

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  • Oficinas mimoSa durante o Curta-se 10

    Confira as produções, como a panoramica da visita à laranjeiras – clique aqui  – http://ruiz.descentro.org/360laranjeiras:

    Produzimos também alguns filminhos:

    e também esse filminho aqui:

    E logico que fizemos uma mimoSa, olha ela aqui:

    gravava audio e video, trocava os efeitos visuais da filmagem conforme a voz do contador de histórias e era cheia de pinduricalhos. Valeu Aracaju!

    Leia mais sobre a oficina – http://curtase.org.br/2010/09/oficina-de-conteudos-digitais-traz-novidades-para-alunos-sergipanos/

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  • A culpa é dos Pontos!

    Questionado sobre os atrasos no repasse, o secretário tt catalão

    Coloque fone de ouvido que está mal o audio

    pergunta:

    resposta:

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  • semuSSum Brasil e coco da umbigada

    Gravamos, mixamos e masterizamos lá, na alegria, no terreiro da umbigada, semussum rulez!
    Boa noite da umbigada by amnesiadiscos

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  • Listen to Jah music!

    rockers control + daniel ganjaman + instituto. Eu amo muito tudo isso!

    Rockers Control + Instituto + Curumin by danielganjaman

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  • Laboratórios de Experimentação em Cultura Digital, as Gangues e a Indústria Criativa

    por Ricardo Ruiz e Cary Grant

    Nas “facções” temidas por Hobbes é possível encontrarmos um caminho a seguir. Uma (e não A) multitude de pessoas agindo transversalmente ao (e não por fora do) Estado, do bem comum, e de outras instituições (e facções), não necessariamente contra qualquer um deles, mas de acordo com suas próprias idéias. Isso é o que eu quero chamar aqui de ‘gangue’. O formato das redes permite para tais gangues unir não somente territorialmente, mas também através de setores, transversalmente, pelas práticas, idéias e objetivos.

    J.J. King

    Esse texto é uma série de pequenas reflexões a respeito da construção e manutenção de uma Rede de Laboratórios de Experimentação em Cultura Digital, ou RedeLabs, no território brasileiro, levantando considerações econômicas, sociais e ecológicas. Propõe ampliar o debate sobre o tema e também propor algumas possibilidades.

    Inevitável, ao se falar em Laboratórios de Experimentação em Cultura Digital, portanto, laboratórios de mídia, focarmos primeiramente (e às vezes exclusivamente) nas questões que envolvem o já escovado conceito de Indústria Criativa. Caracterizado como um efeito do acelerado desenvolvimento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), o termo foi cunhado pelas Secretarias de Cultura do governo britânico de Tony Blair durante a década de 1990, e procurava abarcar os novos (e inúmeros) produtores de conteúdo (música, vídeos, festivais, design, obras de arte, softwares, peças de teatro etc) que afloravam em Londres 1pelas mãos de uma nova classe de trabalhadores intelectuais (chamados na última década de diferentes nomes como New Independents, E-lancers, Multitude, New Barbarians, Bobos, Free Agents, Cibertariado, Netocracia entre outros2) que cada vez mais inundavam o país com empregos e estufavam o PIB nacional de libras esterlinas. Desde então, o termo inunda estudos sobre cultura, comunicação, internet e economia.

    No Brasil, durante a mesma década de 1990, o governo de Fernando Henrique Cardoso buscava restaurar o sucateado Ministério da Cultura, extinto durante todo o breve governo de Fernando Collor de Mello3. Acreditando num Poder Público capaz de direcionar os produtos comerciáveis da ainda tão ativa Indústria Cultural tupiniquim, o novo Ministério foi composto em Secretarias responsáveis pelos então “segmentos da cultura”: Cinema e Vídeo, Teatro e Dança, Audiovisual, Belas Artes, Patrimônio Histórico e Bibliotecas. Em 1999, o Ministério da Cultura, em parceria com a Fundação João Pinheiro, lança um estudo que mostra dados empíricos sobre a quantidade e a qualidade dos empregos gerados pelo segmento Cultural no país, bem como do valor agregado ao PIB nacional por este mesmo segmento. Apoiado por suas ideologias neoliberais, o estudo apontava os benefícios de empresas, públicas e privadas, em apoiarem a cultura ao invés de utilizarem formas mais tradicionais do marketing publicitário (anúncios, spots de rádio, comerciais de TV etc). A Lei Rouanet era proclamada então como uma ótima alternativa para a reconstrução dos apoios (através do mecenato) e de uma própria política cultural brasileira.4

    Com o novo governo de Luís Inácio Lula da Silva, impulsionado pela administração do ministro pop-star da Indústria Cultural Gilberto Gil, o Ministério da Cultura aposta em potencializar, então com apenas 1% do orçamento desse Ministério (R$ 4 milhões), um conceito mais amplo e antropológico do termo “Cultura”: surge então o programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura – muito mais construído em parceria com diversos segmentos da sociedade civil cultural brasileira do que dentro dos gabinetes modernistas da capital federal. No programa, as “questões referentes à democratização do acesso da produção e à valorização das experiências locais e da diversidade cultural são enunciadas com total clareza e estão sintonizadas com demandas e valores contemporâneos na área cultural. O programa também reformulava os papéis e a atuação do Estado, ao procurar ampliar os espaços públicos de compartilhamento de decisões e execução de políticas com a sociedade, estando, portanto, adequados às proposições de democratização, participação e transparência na gestão dos recursos.”5

    A seguinte reflexão era levantada pelos gestores culturais na época:

    O Programa tem uma conotação comunitarista6 e prenuncia um novo paradigma de política pública cultural, muito pouco explorado e desenvolvido em experiências concretas de reorganização da atuação do Estado. Esse paradigma pressupõe uma ampla base de organização e de iniciativas autônomas da sociedade civil, que repercuta na dinamização da ação pública estatal. Entretanto, ainda se conhece pouco dessas experiências e é possível que elas ganhem visibilidade ou organicidade a partir de iniciativas como a do próprio Programa Cultura Viva.7

    Além de disponibilizar recursos diretamente para centros culturais ou outros lugares produtores e difusores da cultura no País (como terreiros de candomblé, grupos de capoeira, espaços de preservação ambiental etc), o Programa Cultura Viva também concederia Kits Tecnológicos para a produção multimídia utilizando-se de software livre, bem como momentos de encontro e fortalecimento das Redes de afinidades que se formavam e para a troca de conhecimentos, valorizando na mesma superfície plana8 saberes tecnológicos com saberes tradicionais, produção midiática e xamanismo, histórias e estórias.

    Conscientemente, o Ministério da Cultura, amplamente apoiado pela sociedade civil, fortalecia uma cadeia de organizações sociais e indivíduos capazes de estabelecer a “Indústria Criativa” no Brasil: produtores de conteúdos midiáticos e atores sociais responsáveis por movimentar a iconoclástica civilização do século XXI. Porém, dentro do próprio Ministério, sabia-se que Indústria Criativa não se tratava apenas em produzir subjetividades – coletivas e individuais – para veiculação e venda de produtos culturais, embora muitas vezes isso fosse encarado como uma constante9. O próprio site do Ministério da Cultura, na seção de Economia da Cultura, anuncia que “Economia Criativa inclui a cultura, a criatividade e o conhecimento em seu processo de produção, independente de ter finalidade cultural.”10 Mais do que apoiar a construção de nós produtores de mídia e conteúdo cultural, o Ministério da Cultura brasileiro funcionava, ele mesmo, e na medida do possível, como uma Indústria Criativa: ao invés de manterem secretarias gestoras de segmentos já tão orgânicos e mesclados da cultura (como Secretaria de Belas Artes, Secretaria de Dança e Teatro etc), apostava em uma rede descentralizada e espalhada de produtores e gestores culturais funcionando em suas localidades e, sempre que possível, colaborando no todo. Ao invés de uma hierarquia rígida e uma linha de produção montada entre todos os atores culturais do país, preferiu um esquema de trabalho mais colaborativo entre todos os atores envolvidos, alterando hierarquias, e uma cadeia de produção que não se encerrava no produto final, ao contrário, potencializava os processos. E, crucialmente, ao invés de apoiar a ferramenta principal da Indústria Cultura, o copyright, estimulava as trocas como ponto culminante no processo cultural, tornando o produto final, assim, no diálogo, na troca de saberes, de informações burocráticas, de afetos. Esse funcionamento criativo do Ministério foi fundamental para a construção e transformação das identidades culturais e tomou um primeiro passo para a consolidação da comunidade cultural da América Latina no século XXI.

    Voltemos aos Laboratórios de Experimentação em Cultura Digital e sua possível relação com as Indústrias Criativas. No final de outubro de 2009, em Lisboa, o SUDOE – Programa de Cooperação Territorial do Sudoeste Europeu (que compreende os países de Portugal, Espanha e França) – organizou um seminário intitulado “Promover a Criatividade, a Inclusão Social e o Crescimento: Explorar o potencial das indústrias criativas ”. O folheto de apresentação trazia a seguinte descrição sobre o tema:

    As indústrias criativas são, com efeito, um elemento fundamental da nova economia do conhecimento e devem ser utilizadas como maneira essencial de criar valor acrescentado num contexto de crise global. Por outro lado, é fulcral promover um crescimento sustentável, que exige uma melhor integração social e uma utilização mais completa do potencial dos cidadãos comunitários. Neste contexto, o objectivo do seminário seria estudar o modo como a inclusão social e o talento das pessoas podem ser utilizados da melhor forma para explorar o potencial das indústrias criativas, a fim de reforçar a produtividade e a competitividade européia.11

    Já em junho de 2010, o programa SUDOE apoiou mais 223 projetos para compor a vasta lista de patrocínios oferecidos pela entidade.12 As prioridades apoiadas são, segundo o site do programa:

    • Inovação : para projetos de inovação tecnológica e manutenção de redes de pesquisa e informação;
    • Ambiente : para projetos focados na preservação do meio ambiente e a geração de energias limpas;
    • Acessibilidade : para projetos estratégicos no desenvolvimento policêntrico das cidades, como nas áreas de transporte, infraestrutura e distribuição demográfica;
    • Desenvolvimento Urbano Sustentável: para projetos que proponham sinergia entre as cidades e o campo e a produção e a valorização do patrimônio cultural.13

    Como é possível perceber, a produção midiática – de signos, significados, subjetividades e demais possíveis produções de expressões culturais – é apenas uma parte do amplo emaranhado de empresas, grupos, setores da sociedade, instituições acadêmicas e etc. que compõe o atual quadro da Indústria Criativa do Sudoeste Europeu. Muito mais do que produtores de material comerciável através dos meios, as supostas Indústrias Criativas buscam novas formas de estruturação social, econômica, empresarial etc. O que se busca são novos paradigmas para a análise e o funcionamento da sociedade no século XXI, inflada com a superpopulação, o desgaste ecológico, a concentração de renda, as desigualdades intercontinentais, os abusos de poder e a democraticidade possível com o advento das novas tecnologias. Visualizemos sob este ponto de vista o funcionamento de uma Rede de Laboratórios de Experimentação em Cultura Digital pelo país.

    Com isto, é possível citar e analisar brevemente dois exemplos de desenvolvimento, em diferentes áreas de atuação, da Indústria Criativa nacional e a transversalidade com outros países menos fincados nas ferramentas de análises e práticas remanescentes do século passado.

    Durante a segunda metade da primeira década do século, um imprevisível golpe foi aplicado contra os meios de comunicação de massa, promovido pela ânsia mercadológica dos mesmos grandes meios: a digitalização do sistema de transmissão de TV (o broadcast). Graças às possibilidades da digitalização, os moduladores dos sinais de transmissão poderiam transportar uma quantidade muito maior de dados na mesma faixa de frequência das ondas magnéticas produzidas pelas antenas de transmissão. Nos Estados Unidos, país ainda tão fincado nos modelos de negócios do século XX, a novidade tecnológica foi usada unicamente para uma satisfação do consumo do broadcast: a melhora da qualidade da transmissão do áudio e do vídeo. O mesmo fato ocorreu no Japão, com alterações apenas nos sistemas de multiplexação e codificação. E na Europa, uma pouca quantidade de interatividade foi permitida nos aparelhos, dada a possibilidade de transmissão também de dados a até 18Mbit/seg. nesse novo sistema de transmissão. No Brasil, um amplo e caloroso debate entre sociedade civil, órgãos governamentais, academia e inúmeras forças econômicas e políticas nortearam a construção das normas para a radiotransmissão digital14. Ao final, mesmo com muito de sua capacidade limitada pelo lobby dos conglomeratos de comunicação de massa, o sistema brasileiro de TV digital apresentava uma novidade: o middleware15 Ginga16. Funcionando sobre um sistema operacional Linux (Fedora 7), trabalha através de sistemas de APIs para a programação de aplicações diversas para a TV. Isso possibilitou que o sistema fosse adotado na grande maioria dos países do hemisfério Sul do planeta (que já adotaram a tecnologia), com suaves diferenças nos sistemas para cada país. A flexibilidade desse conjunto de softwares permite diferentes aplicações para os atuais aparelhos de TV. Na Argentina, toda a capacidade no desenvolvimento de aplicações já estão disponíveis (o que ainda não acontece no mercado brasileiro). No Chile, dado o problema enfrentado por terremotos e tsunamis, os aparelhos de TV rodando o sistema Ginga serão responsáveis por, no risco de tsunamis, se auto ligarem com alarme anti-tsunami e apresentar em sua tela a melhor rota de fuga para o alto das montanhas para cada um dos habitantes, evitando congestionamentos e tumultos17. Na Índia e na África do Sul, busca-se adaptar o aparelho para a circulação de uma maior produção regional nas telinhas. O aparelho ainda possui uma porta de saída/entrada USB, o que amplia para um fator exponencial as possibilidades de criação de aplicações para as TVs localmente ou em redes locais e regionais. Sem o uso do software livre e as consequentes liberdades na propriedade intelectual dos códigos computacionais e sem o fortalecimento de uma rede acadêmica e da sociedade civil contando com diversos atores espalhados pelo país e pensando descentralizadamente, o desenvolvimento de tal ferramenta seria impossível. Obviamente, o mercado de broadcast ainda tem fortemente incrustado em suas raízes a Indústria Cultural e o modelo de comercialização em massa de bens culturais proibidos de cópia e adaptação, mas se alterações forem feitas nos modelos de negócios nesse segmento, serão feitas graças ao sistema de middleware Ginga.

    Também na segunda metade da década, um outro exemplo de laboratórios impulsionantes da Indústrias Criativas surge, advindo da ideia de um laboratório de mídia18: Descentro – nó emergente de ações colaborativas. Descentro caracteriza-se por um modo ético, e não moral, no qual se exclui todo juízo a priori ou sistema de julgamento fundado em referências ou reivindicações de qualquer espécie, que pretende atingir, ao invés de um princípio de organização, um plano imanente e emergente que encontre a própria unidade de composição das relações no acontecimento simultaneamente múltiplo e singular, cuja afirmação é expressão da própria potência que cresce sem centro.19 Nascida da necessidade de diferentes atores em mídia e ativismo político se articularem, a associação buscou não seguir nenhum modelo pré-determinado de instituição, e tem em seu estatuto uma tentativa de expressar judicialmente novos formatos de funcionamento institucional: abrangência nacional (uma vez que a desterritorialização ainda não é possível judicialmente); uma hierarquia composta por dois conselhos: um deliberativo e um consultivo, sem a figura de um só presidente ou representante legal; uso intenso das TICs para a comunicação dos envolvidos como listas de discussão e sítios colaborativos, assembleias via IRCs; e divulgação de suas pesquisas e orçamentos em licenças livres na Internet. Acima de tudo, o Descentro propõe, ainda, pesquisar os protocolos necessários para o funcionamento colaborativo de um instituto de pesquisa do século XXI, que utilize de seu objeto de estudo na constante reestruturação de suas metodologias políticas, sociais e econômicas. Desenvolvem ações nos campos da mídia, arte, meio ambiente, valorização cultural, cultura digital, administração de servidores web e articulação política em diversas esferas. Produzem subjetividade em campos tão diversos quanto o da preservação ambiental, da comunicação livre e das metodologias de implementação de políticas públicas. Além disso, seus membros operam abertamente no formato que J.J. King define como uma “gangue”. Segundo ela, uma vez que “(..)em toda parte, poderíamos dizer, as pessoas estão cada vez menos convencidos da eficácia e relevância das organizações com hierarquias de cima para baixo e cada vez mais convencidos da potência dos atores em rede em trabalho transversal (isto é, não “dentro”, mas não fora) entre eles” que “(..) essas condições sob o modelo capitalista nos leva à uma estrutura parecida com a das gangues, (…) reabilitadas como uma forma política ”20. Muito embora contando com um número limitado de associados, outras pessoas que possuem similaridades com o formato estrutural e metodológico do Descentro colaboram com a associação de alguma forma e, mesmo seus membros, se distribuem em diversos outros setores da produção criativa brasileira, bem como outras instituições públicas e privadas, direcionando sempre que possível suas atividades cotidianas para a construção do coletivo.

    Esses dois exemplos seriam impulsos para um possível formato de uma rede distribuída de laboratórios de experimentação em cultura digital: uma RedeLab, nós autônomos de pesquisa em áreas que vão do desenvolvimento sustentável à produção midiática e tecnológica, construindo entre eles “protocolos21” de comunicação e operação – como o intenso uso das tecnologias da informação (até mesmo com o uso de algumas plataformas em comum), a generosidade intelectual, o fortalecimento de estruturas mais colaborativas e menos hierárquicas etc. – que permitam a transversalidade entre eles, sem interferirem no funcionamento de cada um. O apoio à uma Rede de Laboratórios em Experimentação em Cultura Digital é também o apoio ao desenvolvimento da Indústria Criativa nacional, e é de suma importância que tais laboratórios usem a criatividade, a cultura e as TICs para a busca de soluções inovadoras para os atuais problemas sociais, políticos, econômicos e ecológicos. É também necessário a compreensão de que uma busca em comum dos laboratórios é sua própria manutenção econômica, que explore além da simplista troca comercial de bens imateriais por dinheiro, sem cair na morosidade do assistencialismo estatal e que valorize, muito além das cifras, a experiência, a alegria e o bem estar – de cada um e de todos.

    Além disso, essa Rede de Laboratórios de Experimentação em Cultura Digital deve atentar-se para alguns problemas já levantados nas relações da nova Indústria Criativa. Volker Grassmuck, pesquisador alemão atualmente residindo no Brasil, alerta para quatro problemas inerentes das Indústrias Criativas22:

    1. A exploração individual privada de recursos e saberes públicos;
    2. Uma possível estratégia para cortar os gastos públicos para a cultura e restringir a competição pelos bens criativos conectivos;
    3. Posicionar a forma de trabalho precária de artistas e trabalhadores da web como o modelo de trabalho do século XXI;
    4. Mobilizar o “trabalho grátis” - ou a produção social – (modificação e construção de fases e personagens nos jogos eletrônicos ou usuários da web 2.0) para interesses corporativos.

    Contudo, algumas propostas podem ser pensadas desde já para os problemas apresentados, e muitas outras devem surgir trilhando novas soluções:

    1. O uso de licenças alternativas ao copyright são um bom princípio de busca por soluções nessa área. Reconhecimento da autoria coletiva, liberdade de uso não-comercial de obras e etc. Além disso, buscar novas formas de expressão e de integração entre produtores e objetos. Essa nova força socio-político-econômica como motora de novos tipos de relação, menos individualizados, com focos mais positivos nos objetivos e com uma nova visão da arte. Isso passa por não fazer mais sentido a produção privada, através de uma nova relação entre as pessoas e entre elas e seus trabalhos. Trata-se, enfim, de desconstruir o sentido da apropriação privada com uma nova construção interpessoal e entre as pessoas e o fruto de seus trabalhos. Uma nova estética do sensível!
    2. Aqui, o autor se preocupa com a força desse movimento em cortar os custos do Estado com cultura e inovações. Porém, no Brasil vemos já o inverso. O Estado financiou como nunca a produção descentralizada – o mercado criativo – e, ao mesmo tempo, manteve as grande produções culturais e tecnológicas. Aqui, a solução é política, ou seja, nunca deixar que essas forças auto modeláveis, liquidas, substituam a importância do Estado e do financiamento dele e de suas empresas público-privadas.
    3. A busca de uma solução, tanto dos atores envolvidos como dos órgãos públicos responsáveis, que vão desde sistemas previdenciários específicos para o setor, quanto para os formatos de patrocínio, apoios, mecenatos e compra e venda de produção tecnológica e intelectual focados num desenvolvimento econômico e social para o todo. Para isso se faz necessária a desburocratização pra a troca de pequenas quantidades de capitais, encontrando para isso protocolos possíveis dessas trocas (como paypal etc.)23;
    4. Buscar alternativas de retornos possíveis das empresas privadas para o público. Uma vez que as empresas buscam trabalho “grátis” de seus consumidores, políticas podem ser estruturadas para que as mesmas empresas retornem ao público benefícios, que podem ser, por exemplo, o apoio à uma rede laboratórios de experimentação cultural, ou preservação de áreas verdes para a educação ambiental etc.

    Acreditamos, portanto, que o apoio à uma Rede de Laboratórios Para a Experimentação em Cultura Digital possa ter como seus objetivos a busca de inovações tecnológicas, políticas, econômicas e sociais para os desafios do nosso século. Para tanto, se faz fundamental a sinergia entre todos os produtores, órgãos públicos, sociedade civil e empresas do setor privado na busca por protocolos e objetivos em comum para o bem comum, sem perderem nunca sua autonomia de produção, estruturação e gestão.

    1INDÚSTRIAS CRIATIVAS E A VIRADA CULTURAL, Pedro F. Bendassolli e Thomaz Wood Jr.. Disponível em http://www.cult.ufba.br/maisdefinicoes/INDUSTRIACRIATIVA.pdf

    2Richard Barbrook faz um estudo com todos os termos referentes às novas classes de trabalhadores existentes desde o século XIX no seu livro THE CLASS OF THE NEW, disponível para download em http://www.theclassofthenew.net/ e para venda em http://www.metamute.org/en/the_class_of_the_new_1

    3IPEA - Política Cultural no Brasil, 2002-2006: acompanhamento e análise . Página 17. Disponível em http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/livros/cardenosdepoliticas/caderno02.pdf

    4Pesquisa Economia da Cultura – Resumo – Fundação João Pinheiro. Disponível em http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2007/10/estudo-fund-joao-pinheiro.pdf

    5IPEA - Política Cultural no Brasil, 2002-2006: acompanhamento e análise . Página 123.

    6Não se trata de comunidade em sentido clássico, ou seja, com grau de homogeneidade, tradicionalidade e territorialidade definida, mas se refere a espaços de solidariedade e convívio e pode englobar a atuação de entidades estatais, associações, organizações governamentais etc.

    7IPEA - Política Cultural no Brasil, 2002-2006: acompanhamento e análise . Página 125.

    8Para um estudo sobre a superfície e a linguagem, ver Gilles Deleuze – Á lógica do Sentido

    9Ana Jaguaribe afirma que a Indústria Criativa é ligada somente à produção de textos, imagens e símbolos. JAGUARIBE, Ana. As Indústrias Criativas: Parâmetros para as Políticas Públicas. In Workshop da UNCTAD sobre as Indústrias Criativas Empreendedoras. São Paulo, 9 de junho de 2004.

    10Nanan Catalão – Ministério da Cultura. Disponível em http://www.cultura.gov.br/site/2006/02/16/cultura-e-desenvolvimento/

    11SUDOE – Open Days 2009. Folhet prévio à conferência. Disponível em http://ec.europa.eu/regional_policy/conferences/od2009/doc/pdf/le/fold_country/pt.pdf

    15Conjunto de ferramentas de software que controlam um hardware específico.

    20JJ King – On The Plane Of The Para-Constituted: Towards A Grammar Of Gang Power . Traduzido pelo autor. Disponível em http://www.shiftspace.cc/jamie/gang_grammar.pdf

    21Baseada nos estudos da ARPANet de Licklider, J.J. King acredita que, para a transição de uma “massa dominada” para uma “multidude de atores sociais trocando subjetividades” os protocolos são peças fundamentais do processo. Segundo ela, esses protocolos são indispensáveis para a troca entre subgrupos de afinidades e outras forma de organização em rede.

    22Palestra proferida no EACH-USP. Folheto prévio disponível em http://www.aepidemia.org/comentarios/industrias-criativas-software-livre

    23Boas investigações sobre o tema forma feitas por Leo Germani sobre o livro “Small is beautifull”, de Ernst Friedrich Schumacher em http://pirex.com.br/2006/08/23/small-is-beautiful/

    Agradecimentos especiais para Paulo José Pajé Lara e Leo Germani na eterna busca por soluções.

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  • Prêmio Tuxáua: Oficinas mimoSa no SemuSSum Olinda!

    Rolaram as gravações das músicas para compor o álbum SemuSSum em olinda!

    Aqui estão as fotos da sambada, que gravamos em software livre ao vivo, que também estará disponível online em breve! Juntamente a vídeos e outras gravações de áudio de terreiros e quilombos de diferentes partes do Brasil.

    sambada no guadalupe antes das sessões do semussum

    Vale conferir a notícia no blog do coco de umbigada!

    flyer da Sambada!

    e aqui mestre quinho pancando nas congas enquanto eu frito no ardour2GTK:

    em breve coloco mais informações sobre as gravações do disco, que foram lindas!

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  • Tuxáua: oficinas mimoSa WebTV em Aracaju

    Rolaram oficinas porretas de WebTV na casa curta-se, em aracaju.

    jose gonçalves, sempre presente

    História da Internet, programação, html, php, servidores de webtvs, stream, buffer, rss, clientes web….

    No final, produzimos um piloto de um portal de TVweb onde voce pode construir seu próprio canal. baseada em wordpress, estamos abrindo um grupo de estudos pra desenvolver melhor a plataforma.

    clique aqui para conhecer o portal

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  • Prêmio Tuxáua: Copyfight na ECO – UFRJ

    Foram intensos os dois dias que passei no seminário Copyfight, organizado pelo Pontão da ECO – UFRJ.

    Além das oficinas de Glerm, que sempre me jogam na superfície da linguagem, os debates também forma intensos.

    Na noite do último dia, muitas divergências mas também muitas convergências. Todos já sabem que existem movimentos de libertação midiática. Precisamos agora, achar o melhor caminho.

    Destaque especial para o programa de rádio feito pela galera da Radio Independência ou Marte, de São Carlos, com músicas liberadas em Creative Commons e entrevista com os organizadores do evento.

    Estou aguardadno a galera do Pontão liberar os vídeos dos debates para publicá-los por aqui.

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  • Prêmio Tuxáua: Oficinas mimoSa mídia e autonomia em Aldeia Velha – BA

    Oficinas realizadas em Aldeia Velha, Porto Seguro, Bahia, com parentes Pataxós:

    veja o sítio construído: http://aldeiavelha.descentro.org/

    tatuagem pataxó


    mapa da internet usado no começo das oficinas, pra quem ficou curioso!

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  • Prêmio Tuxáua: O melhor da teia 2010 – fortaleza

    Festa de muita alegria, a teia 2010.

    os melhores momentos, que participei, foi o GT de cultura digital, o gt dos tuxáuas, o gt dos pontões de cultura…

    GT Tuxáua

    e em especial para o show de bnegão:

    A orquestra de tambores de aço:

    O Ilu-minado com afoxé alafin oyó e ricardo brazileiro:

    Ilu-minado na teia 2010

    e o Afoxé Ara Won Ufu Ufu, de Mãe Lúcia:


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  • Prêmio Tuxáua: Oficinas A incrível máquina de fazer moedas + mimoSa em Cachoeira – BA

    Rolou uma oficina performance A Incrível Máquina de Fazer Moedas durante o salão do recôncavo!

    confira as fotos:

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  • Semussum rulez

    semussum rulez

    semussum rulez

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  • Prêmio Tuxáua: Tuxauísmo de Bolso

    Já está disponível para download a revista tuxauísmo de bolso.

    Esta edição traz informações úteis para todxs xs tuxáuas sobre arte, tecnologia, política e cultura.

    tuxauísmo de bolso

    tuxauísmo de bolso

    clique na capa para baixar a revista ou vá até o estúdio livre.

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  • Prêmio Tuxáua: Podcasts Radio Cidadao Comum

    Os podcasts Radio Cidadão Comum são transmitidos na Rádio Amnésia, Rádio Livre do Ponto de Cultura Coco de Umbigada, e em muitas outras radios livres do país.

    Aproveitem e retransmitam em seus Pontos de Cultura!

    Podcast1: Especial Fela Kuti

    http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=7510

    Podcast 2: (sub)desenvolvimento de idades do interior

    http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=7799

    Podcast 3: GraffitaMhhob

    http://estudiolivre.org/el-gallery_view.php?arquivoId=7785

    Rádio Cidadão Comum é produzida pelos Tuxáuas Ricardo Ruiz e José Balbino. Confira!

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  • Prêmio Tuxáua: GraffitaMhhob

    O evento GraffitaMhhob foi mais uma chance de Tuxáuas da Rede Nordeste Livre se Encontrarem para ações junto às pessoas!

    graffitamhhob

    graffitamhhob

    O projeto propõe a interação entre a cidade e a web, construindo panorâmicas em 360º dos mutirões de graffite, que ocorrem todo o mês de março em teresina, uma parceria com o Pontão de Cultura Preto Góez Vive.

    tuxáuas Gil bv, ruiz e balbino durante o graffitamhhob

    tuxáuas Gil bv, ruiz e balbino durante o graffitamhhob

    positividade no ar!

    positividade no ar!

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  • Prêmio Tuxaua: Lançamento do Pontão de Cultura Preto Goez Vive

    Alguns Tuxáuas premiados pelo cultura viva atuantes na rede Nordeste Livre estiveram presentes no lançamento do Pontão de Cultura Preto Goez Vive, no Centro de Referência da cultura Hip Hop, em Teresina, Piauí.

    lançamento!

    lançamento!

    break

    break

    festejos

    festejos

    Além das festividades de abertura, foi também o momento para a preparação do projeto GraffitaMhhob, que acontecerá durante todo o mês de março em Teresina. Axé!

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  • Prêmio Tuxáua: Gravações SemuSSum Coco de Griôs

    Foi com muito axé que finalizamos o encontro de tuxáuas da rede nordeste livre em Olinda, durante a gravação do Coco de umbigada e seus griôs: zeca do rolete, selma do coco, pombo roxo, mãe lúcia e aurinha

    maracujá...

    maracujá...

    ô piaba danada pa nada

    ô piaba danada pa nada

    salve oxum!

    salve oxum!

    Agora é só aguardar o lançamento do CD do semuSSum Brasil, que ainda vai percorrer cinco quilombos em cada uma das regiões do país.

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  • Prêmio Tuxáua: Oficinas mimoSa para Construção de Fotos Panorâmicas Interativas no Coco de Umbigada

    Foi uma delícia a oficina de construção de panoramas interativos que aconteceu em fevereiro no Ponto de Cultura Coco de Umbigada.

    work-out

    work-out

    o maravilhoso resultado pode ser conferido no sítio coco360.descentro.org

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  • Premio Tuxaua: Encontro de Tuxáuas em Olinda (PE)

    Rolou na ultima semana de fevereiro, em Olinda, o primeiro encontro entre os Tuxáuas contemplados pelo prêmio Cultura Viva 2009 que atuam junto à rede Nordeste Livre.

    almoço
    almoço de tuxauas

    almoço de tuxauas

    deste descontraído e alegre encontro, várias metas foram traçadas para o ano de trabalho do coletivo, que atuará não só no nordeste, mas nas cinco regiões do país.

    Planos nacionais

    Planos nacionais

    É isso Tuxáuas do Nordeste Livre! Boa sorte para todxs nós!

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  • Idéias perigosas: um estudo do cotidiano

    Thaís Brito e Ricardo Ruiz


    Caros camaradas futuros

    revolvendo

    a merda fóssil

    de agora,

    pesquisando

    estes dias escuros,

    talvez perguntar

    eis por mim.

    Ora,

    começará

    vosso homem da ciência

    afagando os porquês

    num banho de sabença,

    conta-se que outrora

    um férvido cantor

    a água sem fervura

    combateu com fervor.

    Professor,

    jogue fora

    suas lentes de arame!

    A mim cabe falar

    de mim

    Eu? Incinerador,

    Eu? Sanitarista,

    a revolução me convoca e me alista.

    Troco pelo front

    a horticultura airosa

    da poesia?

    Vladimir Maiakóvski


    Experimentar a arte de
    re:volver o logos do conhecimento pelas práticas e desorientar as práticas pela imersão no sub-conhecimento. Considerar processos, mais que resultados. Negar a distinção sujeito-objeto, a neutralidade do olhar e da experiência com o mundo e mais ainda do relato sobre ele. Experimentações semi-territorializadas, temporárias, carnal e digitalmente alimentadas, gritantes… perigosas! As imbricações entre as noções amplamente discutidas como opostos relacionados – prática e teoria – são experimentadas, criticamente praticadas e teorizadas no festival Submidialogia que acontece desde 2005 em diferentes cantos do Brasil.


    Toda grande prática ou ação caminha como uma idéia. A manipulação de instrumentos tecnológicos enfraquece este elo uma vez que o utilitarismo e a racionalidade técnica vão tomando o espaço das singularidades – manifestações humanas espontâneas, artísticas e improvisadas. O objetivo da conferência é trazer diferentes experiências – teóricas e práticas – para contatarem-se; inserir articulações críticas entre teoria e prática nos meios tecnológicos e no sistema capital que o sustenta. É incentivar a ampla reflexão – através das micropolíticas das relações – sobre as (próprias) práticas, para não perderem-se no moribundo utilitarismo; é incentivar práticas sobre a teoria, aplicando experiências em prol de uma (sub) concepção do aparato tecno-midiático; criar um espaço tempo de subversão das práticas e teorias sobre tecnologia e cultura. As teorias sobre mídia, informação e comunicação pouco respondem se refletidas nas atuais experiências e atuações sociais e culturais, e estas por sua vez embaralham-se em contestação, experimentação, utilitarismo e mercado. Nesta confusão de suas essências, o risco das práticas se alienarem é constante e o conhecimento de perspectivas e visões quanto às questões sobre ciência, tecnologia, cultura, meios e formatos de transmissão de informação é fundamental para um investimento de desejos em ações sociais reformadoras. Pôr de cabeça para baixo os princípios disciplinares da midialogia e articular idéias de modo a fazê-las perigosas.


    Como as práticas desafiam a teoria? Como as teorias inspiram as práticas? Como subverter a relação dialética teoria-prática? Qual IDÉIA aumenta a potência de ação dos corpos nos meios mecânicos / eletrônicos / digitais / biológicos / políticos / sociais?


    Campos do conhecimento – principalmente áreas científicas tradicionalmente constituídas – relegaram pouca importância às relações entre subjetividades, limitando as vivências e as práticas ao mundo da literatura ou à condição de ‘relato’ ou ‘diário’ pessoal. E a idéia de que a realidade social é conhecida e transformada a partir das relações objetivas entre sujeitos, determinados por situações históricas, orienta diversos pensamentos e ações. Foucault (2002) ressalta que apenas em 1968 a questão das singularidades adquiriram uma dimensão política, “apesar da tradição marxista e apesar do Partido Comunista”. Tratava-se de “fazer passar o desejo para o lado da infra-estrutura, para o lado da produção, enquanto se fará passar a família, o eu e a pessoa para o lado da antiprodução.” (DELUZE & GUATARI, 1972). É interessante observar especialmente o contexto dos movimentos sociais surgidos a partir dos anos 1960/1970 (mulheres, homossexuais, negros, sem-terras, doentes em hospitais) etc., período de intensas modificações na concepção e, conseqüentemente, na própria ação política. Foi nesse período que surgiram organizações dissidentes das matrizes comunistas oficiais. Com a ruptura na tradição marxista, as lutas políticas particulares passam a ter sentido em si próprias, não convergindo mais, necessariamente, para um objetivo geral comum. A noção de sujeito político distancia-se do sujeito universal ao conceber focos territoriais específicos de transformação.


    No Brasil, há uma renovação da cultura política da esquerda, que se reflete no entendimento do sujeito histórico ordinário, do cidadão comum. A
    ultrapassagem possibilitada pela “insinuação do ordinário em campos científicos constituídos” é destacada por Michel de Certeau (2008) ao pensar nas relações entre teoria e prática. Uma consequência dessa mudança, da emergência do ordinário, é o aparecimento da cultura como campo compreensivo. “O enfoque da cultura começa quando o homem ordinário se torna o narrador, quando define o lugar (comum) do discurso e o espaço (anônimo) de seu desenvolvimento.” (CERTEAU, 2008, p. 63). E os relatos (práticas teóricas) têm papel definitivo nessa ultrapassagem, por serem “fundadores de espaços” (CEARTEAU, 2008, p. 209). Foucault (2002) refere-se a essa relação identificando a teoria com a própria prática, não apenas como sua expressão, tradução ou aplicação. E seu contemporâneo, Gilles Delleuze, refere-se a ele como um dos que, no domínio da teoria e da prática, primeiro considerou a perspectiva dos agentes, e falou da indignidade de falar pelos outros:


    Quero dizer que se ridicularizava a representação, dizia-se que ela tinha acabado, mas não se tirava a consequência desta conversão ‘teórica’, isto é, que a teoria exigia que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias. (FOUCAULT, 2002, p. 72)

    A idéia da indignidade de falar pelos outros, de exercer o poder, o fim do indivíduo alienado e sem singularidades, é fundamental para caracterizar a experiência que descrevemos. Experimentação que se remete não apenas ao território de trocas possibilitado pelo festival Submidialogia e seus (bons e maus) encontros, mas que envolve práticas e pensamentos disseminados nas atividades que adquirem maior intensidade num contexto, mais ou menos recente, de movimentos que tentam construir ações libertárias – portanto, ações contra as paixões tristes necessárias ao exercício do poder (SPINOZA, 2008) – muitas vezes tornadas possíveis por vias institucionais, penetrando as brechas e expondo as estratégias insólitas dessas mesmas instituições. Evidenciar e abalar essas fissuras pode ser entendido como uma “arte de fazer”, arte descrita por Certeau como práticas desviacionistas, de dissimulação: a sucata ou a bricolagem. A reutilização, do seu modo singular, das tecnologias disponíveis. Mais do que as edificações, as tecnologias e as instituições, são as ações humanas cotidianas e suas histórias – as práticas e as teorias na busca pela alegria – que moldam o mundo em que vivemos. Aqui é onde acontece o que não está previsto nos códigos de conduta, manuais ou no cinismo de muitas das normas que regem instituições e relações sociais.

    Na instituição a servir se insinuam assim um estilo de trocas sociais, um estilo de invenções técnicas e um estilo de resistência moral, isto é, uma economia do dom (de generosidades como revanche), uma estética de golpes (de operações de artistas) e uma ética da tenacidade (mil maneiras de negar à ordem estabelecida o estatuto de lei, de sentido ou fatalidade) (CEARTEAU, 2008, p.88).

    Não se sabe mensurar, entretanto – e nem se é possível fazê-lo pois não há medidas nem parâmetros definidos ou definitivos – o quanto essas práticas conseguem intensificar as fissuras ou mesmo se dá-se o efeito contrário: o quanto essas ações calcificam prévias fissuras.


    Podemos pensar essas questões no contexto das políticas de apoio à implementação do Software Livre no Brasil. No texto
    O impacto da sociedade civil (des)organizada (2005), é relatada a dificuldade em ampliar o apoio ao Software Livre para além da mera publicidade e o fato de que o tema é mais presente em fóruns e eventos públicos, que em ações governamentais efetivas. Os descompassos e dificuldades nas migrações de sistemas proprietários para sistemas livres são explicadas, em parte, pelo fato de os gerentes de tecnologia do setor público serem funcionários de carreira, que ocupam cargos estáveis, o que resulta em certa resistência à mudança. Entre as consequências dessa transição do uso de um sistema operacional proprietário para um sistema operacional livre e de código aberto – considerada uma profunda transformação de paradigma – está esse trabalho da sucata e da bricolagem, que podem ser identificados na Ação Cultura Digital do Ministério da Cultura, analisada no artigo supracitado. A Cultura Digital é definida não apenas pela troca de conhecimentos brutos e inadaptáveis, mas como “absurdo antropofágico, uma deglutição de conhecimentos” (VELOSO, 2008, p. 39). Processo que se traduz na organicidade construída, processualmente definida nos Pontos de Cultura, cuja práxis resultou numa nova concepção sobre a interação entre povo, políticas, economia da cultura, afetos e fios. É nessa realidade em que “aprende-se a editar vídeos e comer açaí com farinha” (VELOSO, 2008, p. 39), onde se reaprende a sabedoria perdida no tempo, nas redes, despertando novas dicotomias no campo cognitivo e sensorial e ampliando as ferramentas também de resistência ao poder:

    Por um lado, acentua-se a pressão exercida pelo pós-industrialismo em afastar as histórias das pessoas delas mesmas, desterrando o conhecimento como fruto da consciência humana. Por outro, tais culturas ancestrais ainda possuem no discurso oral, no contato corporal, na música, na dança e em rituais coletivos a sua principal maneira de manter as relações quântico-familiares. (…) Agora, em contato com novas tecnologias de comunicação, informação e convívio, essas culturas se mostram, mais uma vez, resistentes ao cruel processo imposto pela sociedade pós-industrial. (BALBINO & RUIZ, 2008, p. 45)


    Pois, ao estudarem a ferramenta tecnológica que lhes é apresentada, os indivíduos têm a possibilidade, com os sistemas livres, de construir pedaço por pedaço sua ferramenta, a seu jeito, para seus interesses, criando seus relatos na história com uma linguagem específica, que lhe é familiar, e que parte do sistema operacional escolhido para seus computadores ao formato de se trabalhar suas produções para satisfazer seus desejos em suas limitações ou aperfeiçoamentos tecnológicos. Entram assim em uma curva de aprendizado tecnológico – crítico e prático – que tende ao infinito. Não por acaso, essa curva têm um limite nos softwares proprietários (BACIC, 2003), estabelecido pelas instituições que ditam as regras a serem seguidas: que detêm o poder. Neste momento, a discussão teórica se mistura com a prática, se torna objeto (CERTEAU, 2008). E suscita a reflexão sobre as diferentes possibilidades para implementação de programas e políticas públicas que propõe uma horizontalização social através da incorporação das tecnologias da informação e comunicação pelos diversos cenários da tão rizomática e ressonante cultura brasileira. Quais os formatos práticos/teóricos para essa implementação (os afetos envolvidos nas relações); as ações políticas (a resolução da economia no campo da política); as tecnologias a serem utilizadas (suas ferramentas); e as expectativas sociais da associação cultura popular x tecnomídia (os desejos envolvidos).


    Essas dimensões devem considerar três aspectos, um fundamental: o fato de que as políticas públicas convertem a economia num problema a ser resolvido eminentemente no campo da política. (MARINI, 2000, p.284). Não podemos simplesmente ignorar essa relação, que aparece, volta e meia, como um problema em suas muitas dimensões. Fica evidente se percebemos a relevância que os dados e indicadores econômicos têm na definição das políticas públicas de governos. Entendemos que a inter-relação políticas públicas e definições econômicas, a partir da influência (maléfica) das grandes corporações na implementação das políticas, é colocada em contradição evidente com os desejos dos estratos sociais que as concebem e as colocam em prática junto às comunidades, pessoas, coletivos…Campo de disputa complexa que apresenta a contradição essencial de colocar o lucro e o mercado confrontados com desejos emancipatórios. Aparece, ainda, um segundo aspecto – em outros desses problemas de um tempo em que não há o tempo das respostas simples: tempo em que talvez seja preciso mudar as perguntas – uma inversão do lugar material, uma outra dicotomia: de como é possível e do quanto é imprescindível a autonomia política, material, prática e teórica. Cabe, finalmente, interrogar-nos sobre a dimensão do tensionamento da dicotomia entre esses dois aspectos. Como essas práticas cotidianas influenciam um cenário macropolítico e como sermos responsáveis por nossas
    idéias perigosas?

    I. Introdução

    1. Submidialogias: teoria, pratica, sujeito, subjetividade, técnica

    1.1 teoria x pratica # teoria = pratica

    1.2 sujeito e subjetividade

    1.3 festival submidialogia

    1.4 outros movimentos

    1.5 conclusão: o domínio da técnica

    1. A inventar cotidianos: Certeau e o quanto essas acoes surtem efeito

    2.1 Implementação de politicas publicas que propõe a horizontalização social através das tics na cultura

    2.1.1 Programas Gesac, Pontos de Cultura, Casa Brasil = apresentação

    2.1.2 Aspectos para analise

    2.1.2.1 resolução da economia na politica e influencia maléfica das corporações

    2.1.2.2 sobre autonomia, ecologias, permaculturas, agroecologias, economias solidarias

    2.1.2.3 tensionamento da dicotomia

    2.1.3 analise dos programas

    2.1.3.1 acoes politicas

    2.1.3.1.1 gesac e a industria militar

    2.1.3.1.2 Pontos de Cultura, PNUD e a cultura como mercado e não mercadoria

    2.1.3.2 ferramentas: tecnologia como arte e mais uma vez o domínio da técnica

    2.1.3.3 os afetos envolvidos

    2.1.3.3.1 teoria como pratica

    2.1.3.3.2 metodologia da implementação

    2.1.3.3.3 os desejos das multitudes

    2.1.3.3.4 Pontos de Cultura e Casa Brasil: metodologias diferentes, diferentes resultados

    3. Conclusão: a-própria-ação dos conceitos


    Referências

    BACIC, N.M. O software livre como alternativa ao aprisionamento tecnológico imposto pelo software proprietário. Campinas: Unicamp, 2003. Disponível em http://www.rau-tu.unicamp.br/nou-rau/softwarelivre/document/?down=107

    BALBINO, José; RUIZ, Ricardo. Anotações do Balcão do Sr. Didi in: Apropriações Tecnológicas: Emergência de textos, idéias e imagens do Submidialogia#3 (org. Karla Schuch Brunet). Salvador, BA: EDUFBA, 2008.


    CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Deleuze e Guattari se explicam. 1972 in: A ilha deserta. São Paulo, SP, Iluminuras, 2008


    ESPINOSA, Baruch de. Ética. São Paulo, SP: Autêntica, 2008.

    __ _ _ _ _ _ Tratado Teológico-Político. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2008.


    FOINA, Ariel; FONSECA, Felipe; FREIRE, Alexandre. O impacto da sociedade civil (des)Organizada: Cultura Digital, os Articuladores e Software Livre no Projeto dos Pontos de Cultura do Minc

    http://pub.descentro.org/o_impacto_da_sociedade_civil_des_organiza

    FOUCAULT, Michel. Os intelectuais e o poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. in: Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2002


    MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000


    VELOSO, Adriana. Pontos de Cultura, novas mídias, educação e democracia: Reflexões sobre o contexto de uma mudança estrutural no Brasil. in: Apropriações Tecnológicas: Emergência de textos, idéias e imagens do Submidialogia#3 (org. Karla Schuch Brunet). Salvador, BA: EDUFBA, 2008.

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