Hip3rorgânicos: uma análise afetiva

  • É possível ser entusiasta sobre o uso contextualizado das novas tecnologias ao mesmo tempo sendo crítico à ideologia do progresso tecnológico que polui até mesmo tecno culturas de resistência” – Tapio Mäkelä


    Há muitas maneiras de se observar e relatar um evento. Aqui, vou focar no que mais me chamou a atenção dentro da minha participação na versão soteropolitana do simpósio Hip3orgânicos, durante a segunda quinzena de outubro, 2012.

    Uma das principais características do evento, importante de ser apontada aqui, é a telepresença. Disponível desde a década de 1990, a telepresença se refere a um conjunto de tecnologias que permita que as pessoas distantes geograficamente se sintam presentes em um mesmo lugar, que dê a aparência de estarem presentes, que cause o efeito sensório de estarem presentes. Necessita que os estímulos dos usuários desses sistemas sejam afetados de tal forma que traga a sensação de compartilhar o mesmo ambiente físico. Adicionalmente, aos mesmos usuários, deve-se possibilitar que afetem os espaços remotos. Para isso, a informação deve correr em todos os sentidos entre o usuário e sua localização remota. Aplicações populares podem ser vistas na telepresença via videoconferência, hoje disponível até em aparelhos celulares e dispositivos móveis.

    A Telepresença proposta e aplicada buscava a troca sensória-máquínica, tão bem descrita no texto de Glerm Soares.

    Aqui, vamos procurar analisar os efeitos dessa telepresença proposta no campo das relações humanas.

    Com o intuito claro da troca de dados OSC – Open Sound Control: protocolo de comunicação entre softwares, instrumentos musicais e demais dispositivos equipados com tal tecnologia –, as dificuldades técnicas apresentadas durante o primeiro e segundo dia de experimentações para a conexão entre o node Rio de Janeiro, impulsionou nos participantes de todos os outros nodes o uso de todas as tecnologias disponíveis até então para comunicação, para troca de impressões e informações, sobre o evento. Aplicativos de troca de textos via celular, salas de irc, mensagens por e-mail, chats e todos os outras penduricalhos tecno comunicacionais tomaram parte do cenário de telepresença que envolveu o encontro.

    Aqui é onde acredito que se deu a parte mais importante de trocas do evento. Foi saboroso perceber, que em meio a todas essas conversas em paralelo e simultâneas, mensagens institucionais de posicionamento do evento e composições musicais marginalizadas, conseguia-se afetar a todos os participantes, em seus respectivos entornos geográficos, com a mesma troca afetiva, ou bem próxima, das que se consegue em eventos de arte e tecnologia onde todos se fazem presentes fisicamente em um mesmo espaço.

    Fabiane Borges e Alexandre Freire, na agradável análise metodológica que fazem de eventos como processos de imersão e aprendizado Produção também é política: táticas para produção de pequenos encontros, afirmam que:

    Há algum tempo vêm se definindo nas práticas coletivas algumas outras formas de produção de encontros/eventos que não se fixam nem em super institucionalidade nem em descompromisso, mas que habitam entre essas coisas, que fazem dos seus métodos uma estrutura política que contribui para um pensamento político maior, que provoca pequenos processos democráticos (…) construindo ambientes propícios para a liberação de fluxos, agenciamento de devires, fluência de potenciais, conexão de desejos, necessidades, desenvolvimento de ritmos, remixagem de papéis sem centro catalizador (…)”

    E, um pouco à frente, salientam:

    Uma imersão é um recorte do mundo, com todas nuances que ele tem.”

    É importante notar que o surgimento da internet inspirou uma orgia do hype mcluhanista que – após os acontecimentos da década de 1990 da bolha dotcom – parece hoje absurdo. Vale também notar que, muito mais próximo de nós, Manuel Castells analisou a net como um “espaço de fluxos” que existia fora do mundo físico. Em contraste, as atuais tecnologias de mídia locativa criam os “espaços de lugares” que conecta as pessoas com seu entorno geográfico. No início da segunda década desse milênio, devemos combinar o tecno otimismo mcluhanista com o desdenho e o tecno pessimismo deleuziano (BARBROOK:2011). Se não queremos ser aprisionados por esses futuros imaginários devemos criar os nossos próprios – e melhores – futuros. Acima de tudo, devemos confiar na nossa habilidade para modelar as tecnologias de telepresença locativa. As reflexões e afecções promovidas pelo Hip3rorgânicos muito colaboraram para esse objetivo.

    Olinda, primavera de 2012.

3 Comments

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  • alvaro malaguti

    22 de outubro de 2012

    Salve Ruiz! Bom encontrar tua análise afetiva pós-encontro. O evento foi todo muito corrido e, como vc mesmo identificou, cheio de dificuldades técnicas, pois foi a primeira atividade naquela unidade da Funarte contando com a conexão à RNP. Apesar das dificuldades, minha avaliação do Hiperorgânicos é positiva pelos seguintes aspectos: 1) O encontro marcou uma aproximação mais concreta da Funarte com artistas, pesquisadores e produtores do campo da Arte e Tecnologia que mantém vínculos com as universidades. Afinal, este é um dado da realidade, ou seja, as universidades, apesar dos pesares, ainda são espaços que viabilizam a experimentação e por isso são procuradas por esta comunidade de prática; 2) o fato do encontro acontecer dentro da própria Funarte (Sala Portinari). Acho isto um dado simbólico importante pois se trata de uma instituição ainda fortemente marcada pelas fronteiras das tradicionais linguagens artísticas (Música, Cênicas, Visuais…). Não podemos esquecer que ainda existe no cenário defensores da ideia que diz que arte e tecnologia não existe enquanto campo de práticas, devendo tudo ser entendido com Artes Visuais e ponto final. 3) O evento, ainda que pequeno, conseguiu juntar uma galera bacana e representativa de alguns segmentos importantes. Teve gente de coletivo-empresa como vcs do Transecologia; teve gente de universidade que vem fazendo projetos de residência interessantes, como a Walmeri do Conexões Estéticas; teve gente com projetos de coletivos e residência fora dos grandes centros, como o pessoal da Estação Nuvem…. enfim, o encontro ajudou a materializar o fluxo de pessoas, saberes e práticas. Como disse lá atrás no CulturaDigital.br, acho que um dos desafios que temos é colocar estas infraestruturas de rede a serviço de novos fluxos – fluxos capazes de conferir novos sentidos aos fixos instalados no território, re-significando assim instituições e possibilitando novas interações. Quanto ao sentidos da Telemática, acho que este é um papo para desdobramos com mais tempo e atenção. Valeu a presença e atenção dos comentários. Vamos em frente!
    alvaro

  • Ação do Ecoarte para o Hiperorgânicos III – RJ

    26 de outubro de 2012

    […] Hip3orgânicos: Uma análise efetiva – Ricardo Ruiz […]

  • ruiz

    29 de outubro de 2012

    Hip3rorgânicos: affectionate analysis

    “It is possible to be enthusiastic about contextualised use of new technologies while being critical of technological progress ideology that still so thrroughly surrounds even critical techno-cultures.” – Tapio Mäkelä

    There are many ways to observe and report an event. At this point, I am gonna focus on what really caught my attention during my participation in Hip3orgânicos Symposium, Salvador da Bahia version, during the second half of October, 2012.
    One of the main features of the event, important to be pointed out here, is the telepresence. Available since the 1990s, telepresence refers to a set of technologies that allows geographically distant people feel present in the same place, giving the appearance of being present, causing the sensory effect of attending to an event. Stimuli of users of these systems need to be affected in such a way that brings a sense of sharing the same physical environment. Additionally, to those same users, it should be possible to affect remote spaces. To achieve it, information must flow in all directions between the user and the remote location. Popular telepresence applications by videoconferencing are available today even on mobile phones and mobile devices.

    Telepresence proposed and applied sought sensory-machinic exchange, so well described in Glerm Soares´ text: :http://hiperorganicossalvador.wordpress.com/2012/10/17/robotofagia-hyperorganismos-interacoes-assincronas-e-reflexao-sobre-hiperorganicos-ensaio/

    Here, we will try and analyze the effects of the proposed telepresence in the field of human relations.
    Clearly aiming OSC – Open Sound Control data exchange: protocol for communication between softwares, musical instruments and other devices equipped with this technology – the technical difficulties presented during the first and second day of trials for the connection to Rio de Janeiro node, boosted in participants from all other nodes the need to use all technologies available so far for communication, exchange of points of view and information about the event. Apps to exchange texts via cell phones, irc rooms, email messages, chats and all other techno communicational trinkets took part in the telepresence scenario involving the meeting.
    Here´s where I believe the most important exchanges of the event took part. I enjoyed to realize that, amidst all these parallel and simultaneous conversations, institutional messages from the event and marginalized musical compositions, it was possible to affect all participants in their respective geographical environments, with the same affective exchange, or pretty near to what is achieved in art and technology events where all participants are physically present in the same space.

    Fabiane Borges and Alexandre Freire, in the pleasant methodological analysis they present about events like immersion and learning processes at Produção também é política: táticas para produção de pequenos encontros (Production is also political: tactics for production of small gatherings), note that:

    “Long time passed since other production formats of meetings/events are beeing defined at the colective practices that don’t fit neither at super institutionality nor uncommitment, but something that stay in beetween, beeing a political structure that contributes to a larger political thought, that invokes small democratic processes (…) building proper environments to liberate the flow, agency of becoming, power fluency, desires connection, needs, rhythms devolpment, remixing the roles without a centralized catalyst(…)”

    And just ahead, highlight:
    “An immersion is a world cutout, with all nuances it has.”

    Importantly, the emergence of the internet has inspired an “orgy of a mcluhanist hype that – after the events of the 1990s dotcom bubble – now seems absurd. It is also worth noting that much closer to us, Manuel Castells has analyzed the net as a “space of flows” that existed outside the physical world. In contrast, current locative media technologies create the “space of places” that connects people to their geographical surroundings. At the beginning of the second decade of this millennium, we need to combine the mcluhanist techno-optimism with Deleuzian disdain and techno-pessimism” . “If we don´t want to be trapped by these imaginary futures we must create our own – and better – futures. Above all, we must trust our ability to model the technologies of locative telepresence”(Barbrook: 2011). The reflections and affections promoted by Hip3rorgânicos much contributed to that goal.

    Olinda, spring 2012.

    Tradução de/Tranlation by Raquel Rennó

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