Tempo livre

  • Martin Hose

    Tradução de Ricardo Ruiz

    Olá a todos aí usando o minix – Estou desenvolvendo um Sistema Operacional (livre) – é apenas um passatempo, não será grande e profissional como o GNU – para computadores AT 386 (e 486). Ele está sendo maturado desde abril, e está quase pronto. Eu gostaria de qualquer informação sobre as coisas que as pessoas gostam e não gostam no minix, uma vez que meu Sistema Operacional de alguma forma o reescreve (o mesmo modelo de sistema de arquivos – devido à razões práticas – além de outras coisas). Atualmente eu portei o bash 1.08 e o gcc 1.40 e as coisas parecem estar funcionando. Isso implica que eu vou ter alguma coisa prática em alguns poucos meses, e eu gostaria de saber quais as funcionalidades a maior parte das pessoas gostaria. Qualquer sugestão é bem-vinda. mas eu não prometo que irei implementá-las :-)
    Linus (torva… <at> kruuna.helsinki.fi

    Em contraste às economias de alienação, funcionalismo e produtividade a capturar o desavisado escravo do computador com um tempo fechado e circunscrito em todos os níveis da tão chamada funcionalidade, existe uma idéia de um tempo livre, sob o aviso óbvio de que o tempo só é definido graças ao seu acorrentado irmão, o trabalhador. O tempo livre demanda introduções paralelas, um organizado agrupamento de pontos de intersecção simultâneos através da história do software livre em relação à computação artística e, sem dúvidas, a específica natureza do tempo na computação. Tal noção igualmente nos leva diretamente ao terreno do feito em casa, das soluções faça-você-mesmo que fogem das economias estabelecidas e de um cenário de passatempos do qual o software livre em parte descende e promove. É tudo sobre o tempo: tempo de computação, tempo em uma simulação embutida e histórias do passado, de outros tempos; uma maquínica conexão paralela de idéias, indivíduos e interesses agudos.

    Com uma leitura equivocada da moderna cena de desenvolvimento de código, pessimistas inveterados defendem que o software livre é irrelevante à computação artística, prontamente citando o desgastado e erodido clichê que diz que o software livre imita ao invés de inovar. Sob tal argumento, baseado principalmente na interface gráfica GUI, desenvolvedores de códigos livres são condenados se experimentam, condenados se tentam (e conseguem) fazer as coisas mais fácil para usuários de outros sistemas. Tal adoentado atributo, lixo sem autor, repetido incessantemente através de grupos de notícias e blogs, age como um meme viral, escondendo a verdade.

    Apenas para contrastar, sem nem ao menos entrarmos com argumentações no mal-alocado campo da funcionalidade, é válido imaginarmos o presente sem o código aberto; uma desagradável realidade de compiladores proprietários e forjadas obras de arte no confinamento determinista da indústria. Em todo este terreno da encarceirada computação confiável e sem a livre distribuição ou a criação desimpedida de conteúdos, a computação de tempo livre se torna uma luxúria do consumo. Para que implementar padrões em um mundo de competição de produtos trancafiados que são melhor servidos por esconder tais detalhes? É um mundo de macro meios unicamente oferecidos para os consumidores e tal visão nos dá uma boa idéia da necessidade absoluta de softwares livres para a criatividade, bem como uma necessidade histórica muito percebida em diferentes narrativas.

    É importante lembrarmos que historicamente, códigos proprietários são a exceção, ao invés da regra. A história do Emacs e do GNU Emacs, estando na raíz do movimento do software livre, nos mostra um bom quadro da transição do código compartilhado para os executáveis travados, o surgimento das licenças como fator central para os softwares à medida que desenvolvedores de código viam-se em desvantagem numérica em relação aos usuários finais. E a história do UNIX é em boa parte sobre software livre, embora com acordos tácitos entre desenvolvedores e a indústria; uma criatura de membros soltos em comparação com as restrições da GPL que apresentam um reforço necessário à luz de um cenário cada vez mais intransigente. Ao mesmo tempo, essas histórias mostram como o código proprietário sempre foi engajado em uma batalha contra a Rede; e, acima de tudo, o crescimento inevitável da Rede através de BBSes (Bulletin Board Systems) revelou-se altamente significativo no desenvolvimento do GNU/Linux.

    Estes simples fatos são muitas vezes escondidos em comparações que se concentram demais em uma borda binária de funcionalidade percebida, por exemplo, no julgamento de qual Sistema Operacional possui a melhor aplicação para criação de conteúdo determinista, como o sequenciamento de áudio digital. Termos como aplicação, usuário e interface já são demasiado pesados. O modelo de computação contemporânea aparece fossilizado conforme as condições da indústria de software proprietário nos guia cegamente para a única coisa que tem para oferecer, a funcionalidade nua e branda. Richard Stallman deixa claro no projeto GNU como o verdadeiro panorama da computação foi historicamente reescrito por interesses de propriedade:

    A idéia de que o sistema social do software – o sistema que diz que você não tem permissão para compartilhar ou modificar software – é anti-social, que é anti-ético, que é simplesmente errado, pode vir como uma surpresa para alguns leitores. Mas o que mais poderíamos dizer sobre um sistema baseado na divisão do público e na manutenção de usuários desamparados? Os leitores que acham a idéia surpreendente podem ter tomado o sistema social do software proprietário como exclusivo, ou julgado-a sob os termos sugeridos pelas empresas de software proprietário. Editoras de software têm trabalhado muito duro para convencer as pessoas de que só há uma maneira de olhar para o problema.

    Software livre significa pensar fora da caixa preta da aplicação, a icônica pedra GUI. O contraste entre a relutante mímica da área de trabalho ao longo de um eixo maçante de funcionalidades e aplicações-chave como o GNU Emacs sublinham esta dicotomia como extensibilidade e auto-investigação, auto-reflexão como fonte predominante, personalização e documentação interna, e são novos temas dominantes.

    LAC, DAC, DIPPY DAP, LIO, DIO, JUMP2

    Anedotas recontando os primeiros dias dos laboratórios de Inteligência Artificial do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets) que literalmente forjou a cultura hacker e os princípios fundamentais do software livre, está bem documentada em Hackers, de Stephen Levy, e em outros, inclusive o comentário de Sam Williams do trabalho de Richard Stallman, Livre como em Liberdade (Free as in Freedom). Por padrão essas histórias pouco podem ignorar um envolvimento com os militares por meio do financiamento da ARPA por parte do do DoD (Departamento da Defesa do Estados Unidos) para projetos dos laboratórios de Inteligência Artificial do MIT.

    O que é interessante para retirarmos de ambas narrativas do UNIX e da cultura hacker é a forma como as questões de segurança surgem, refletem e contrastam durante as duas narrativas. Uma cultura que valoriza deixar arquivos abertos para que todos possam entrar, compartilhar e melhorar o seu código é vívida entre os hackers e fica gritante em relação ao projeto hierárquico do sistema operacional UNIX com um delimitado superusuário valorizado e recompensado acima de um confiável enxame de usuários comuns.

    Stephen Levy não relata apenas a abertura do código e do console para todos os companheiros hackers que compartilhavam uma ética comum, mas também uma abertura que se estendeu ao mundo físico. Portas, armários de arquivos e gavetas seriam deixadas abertas pelos iniciados. Portas fechadas era visto como um insulto, e eram respondidas no verdadeiro espírito hacker com engenhosa evasão, ou mais: proibindo o hacking. A Abertura foi valorizada acima de tudo à luz de um grandioso projeto gnóstico do conhecimento total, um Jogo da Vida compartilhado; nos termos de Levy, a busca dos hackers para descobrir e melhorar a forma como o mundo funcionava. No entanto, e ao mesmo tempo, um jogo tão animado, uma cruzada de conhecimento ativo e compartilhado foi realizada dentro de um ambiente fechado com hackers deliberadamente ignorantes do radical mundo exterior no final dos anos de 1960. Seu Jogo da Vida teve um limite terminal, conforme bloqueios avançados e pesadas questões de segurança se tornaram de rigueur, à luz dos protestos contra o aumento do financiamento da defesa. Um limite foi estabelecido, no entanto, internamente: os direitos de propriedade manteve-se um conceito absurdo.

    Em contraste, as palavras de Ken Thompson, em seu texto-chave Reflections on Trusting Trust, vão tão longe quanto ao argumento de que o ato de invadir um sistema de computador teria o mesmo estigma social de invadir a casa de um vizinho. Neste ponto tal metáfora se manteve, interligando a divisão físico-digital sob o signo da propriedade intelectual.

    Do UNIX para a computação confiável.

    Compare isto com as palavras de Richard Stallman, republicadas na mesma antologia que o trabalho de Thompson, Computers Under Attack, “… Eu julgo a segurança computacional como uma doença, e não uma cura, exceto para os bancos e coisas do tipo.” (Are Computer Property Rights Absolute?). E, embora seja um velho clichê dizer que todo a história é política, traçar os usos e os abusos da palavra hacker através de diferentes narrativas descompacta tanto sua qualidade quanto o uso político do termo em si. Diferentes usos da palavra refletiu a nova cultura e impactou fortemente sobre as interpretações do passado. No contexto do software livre o passado é, definitivamente, o mais reescrito. Stallman faz um excelente trabalho de dissecar este campo em aberto para as referências em um apêndice do Free as in Freedom, com o termo hacker transformado em uma bola de bilhar linguística, amadurecendo-o para a posterior linguagem dos hackers e dos jogos.

    Como um adento é importante notar a relação do espírito pranksterista de hackear, que Stallman e outros identificam exatamente como uma das raízes do termo dentro do jargão estudantil do MIT, neoísta através da remoção de uma subsequente ênfase na artesania e uma nova ênfase na poética lúdica. E, ainda assim, devemos caminhar com cautela. Qualquer investigação sobre o Neoísmo certamente entrará num verdadeiro covil de leões, dado que, nas palavras de Stewart Home, “… toda narrativa construída em torno do neoísmo é imprecisa e manipuladora.” No entanto, é um covil vivo de entretenimento e retórica, com respeito tanto para os esforços artísticos do século XX, como o dadaísmo, quanto para à luz de uma estética que não ousa dizer o seu nome sob a assinatura viral do plágio. O neoísmo hackeia a estétia, joga com a história e o contexto.

    Pode ser facilmente argumentado que alguns aspectos do modelo UNIX, apesar de satisfatório em termos de modularidade e conectividade de periféricos – o que acrescenta uma certa abertura – não parece tão bem adaptados à obcecada visão de liberdade de Stallman e seus companheiros de viagem do software livre. Nas palavras do próprio Stallman do Manifesto GNU:

    Unix não é o meu sistema ideal, mas não é tão ruim. As características essenciais do Unix parecem ser boas, e acho que posso preencher o que falta no Unix sem comprometê-lo. E um sistema compatível com o Unix seria conveniente para muitas outras pessoas adotarem.

    Um bom número de outros sistemas alternativos perseguiram e responderam essas questões com variados graus de sucesso, e sob uma variedade de filosofias aplicadas que se quebravam, de certa forma artificialmente, entre o núcleo de funcionalidade de um privilegiado kernel e o processamento livre, no espaço facilmente modificável dos usuários.

    FINALIZAR O SISTEMA

    Qualquer história de tais sistemas operacionais livres e abertos é forçada a voltar as raízes do hackearismo no MIT dos anos de 1960, com referência ao maravilhosamente intitulado Incompatible Time-sharing System – ITS (Sistema de Compartilhamento de Incompatibilidade Temporal) , que, embora parodiando o careta, carrancudo e excessivamente seguro Compatible Time-sharing System – Sistema de Partilha de Tempo, que também se encaixa perfeitamente com as preocupações de tempo livre. ITS, que gerou um bom número de subprojetos significativos ainda em uso hoje, como o GNU Emacs, descarta a própria noção de segurança com uma arquitetura totalmente aberta e sem restrições por senhas e afins. ITS foi desenhado para permitir e incentivar a partilha de dados do usuário e até mesmo tentativas de hackearismo ao vivo, com programadores capazes de bisbilhotar e cometar nas sessões do terminal de co-hackers. Nas palavras de Levy, ITS provou que a melhor segurança que havia era segurança nenhuma, citando o comando KILL SYSTEM (FINALIZAR SISTEMA), que causa falha no gracioso sistema PDP-6, ele mesmo um argumento de como o processamento das ações dos hackers era simplesmente muito simples.

    Além de uma arquitetura aberta, já ligado à crescente ARPAnet, ITS mostrou-se revolucionário em um bom número de aspectos, lançando as bases para futuros sistemas operacionais com uma sofisticada gestão de processos e um transparente sistema de acesso de rede. Tanto através de um rico conjunto de recursos doados e a participação de personalidades como Richard Stallman tanto nos laboratórios de Inteligência Artificial do MIT, onde o ITS foi gerado, como no futuro projeto GNU (GNU’s Not Unix), ITS ocupou uma posição vital na história do software livre. No entanto, através de contingência histórica, poderia ser argumentado que o ímpeto robusto incorporado à filosofia do ITS está longe de ser herdado pelas tecnologias contemporâneas do GNU/Linux.

    O próprio projeto GNU se iniciou nos anos de 1980, conforme Stallman testemunhava a morte da ética hacker no MIT, com evidentes e bem expressas preocupações políticas centradas em torno da liberdade e flexibilidade. Nos seus próprios termos, o projeto GNU e sua parceira, a Free Software Foundation (FSF) “… contribuem para difundir a conscientização das questões éticas e políticas da liberdade no uso de softwares.”

    Um sistema operacional que adereçasse tais questões dentro da áspera paisagem contemporânea que priorizava sistemas proprietários em suas agendas, com um modelo UNIX altamente aceitável por razões de ordem prática e conceitual. A maneira UNIX modular e eminentemente encaixável de fazer as coisas era atraente para aqueles que buscavam maior flexibilidade e um conjunto de ferramentas essenciais mais modulares e compartimentadas, o que significava que o software livre poderia ser trabalhado em pequenos pedaços por diversos desenvolvedores de código dentro de um ambiente de desenvolvimento colaborativo.

    UNIX oferecia padrões e portabilidade, características inestimáveis dentro de qualquer definição de liberdade em Sistemas Operacionais; a liberdade de executar em qualquer lugar, em qualquer coisa. O trabalho em um sistema operacional GNU continuou durante toda a década de 1980 com softwares livres extremamente úteis criados como projetos. No entanto, como todo bom estudioso de GNU/Linux sabe, havia um pedaço bastante grande do enigma UNIX que não havia sido feito no GNU, e que era o kernel. Até o início dos anos de 1990, uma pesada abordagem de base para um microkernel parecia surgir, e os códigos para o Hurd no Mach* começaram mais ou menos ao mesmo tempo do tão famoso passatempo de Torvalds, que não seria grande e profissional como o anúncio do GNU. O Hurd foi e ainda é o kernel do GNU oficial, mas ao mesmo tempo que o colaborador-chave do Hurd, Michael Bushnell, finalizava os ajustes necessários para implementação do sistema de arquivos e da bootstrap (cinta de arranque) para o Hurd, a criação de Torvalds apareceu brilhando no radar da Free Software Foundation – FSF, e o resto é história. Vale lembrar que, pelo menos aos olhos da FSF, o Linux é visto mais como um filho adotivo um pouco rebelde do que um membro da família real, e é frequentemente criticado a este respeito com golpes regulares centrados sobre a alcunha Linux.

    De volta para o futuro

    E ao contrário do que poderia muito bem ser considerado como um acontecimento histórico arbitrário, existe na história do software livre um detalhe que é de intensa importância: a codificação por passatempo de um Sistema Operacional baseado em UNIX, como exclamado por Torvalds; em outras narrativas, este detalhe poderia muito bem ser considerado como mobília de uma certa inevitabilidade para o software livre. Pode ser facilmente argumentado que o ímpeto político do movimento de software livre e o projeto GNU, e da escala social e as ambições da cena feito-em-casa, tanto sob a eletrônica artesanal – intenso faça-você-mesmo dos anos de 1970 – e a crescente cena caseira de codificação para computadores pessoais, proveram a ênfase necessária e inevitável para o software livre. Sem esse movimento não haveria alternativa à um ambiente proprietário mal iluminado pela presença de feios e horripilantes freewares. E a sugestão de Torvalds de ser apenas um passatempo, no entanto modesto, enraíza profundamente o GNU/Linux, uma das manifestações mais visíveis do software livre e um modelo de desenvolvimento aberto, nestas tão facinantes cenas iniciais.

    A história de feito-em-casa expõe as verdadeiras raízes da computação criativa e é certamente a crédito do movimento do software livre que com sucesso re-energizou as visões artísticas desta cena e forneceu um foco exclusivo em uma história envolvente. Se rebobinarmos 20 ou mesmo 30 anos, e examinarmos as idéias e as conexões feitas por inúmeros artistas como Alan Kay e Ted Nelson na área de comunidades locais prova, se não iluminadas, um pouco desanimadoras à luz de uma cena contemporânea mais ocupada com portabilidade de um sistema operacional estável para uma série de plataformas de hardware aleatório. Sob o signo do retrofuturismo, como cunhado por Howard Rheingold, e por meio de Stallman, talvez, agindo como uma espécie de médium, um canalizador psíquico, impregnando o mundo criativo do software livre com o espírito do passado, é mais gratificante remontar aos dias impetuosos tanto do MIT quanto da experimentação caseira.

    O feito-em-casa, com base nos semi-acessíveis sistema de 8-bit de meados dos anos de 1970, como a placa exposta KIM-1, foi principalmente sobre a recuperação da autonomia computacional das mãos das instituições e corporações para aqueles que não poderiam de forma alguma bancar o acesso a um mainframe. Tal espírito de computação criativa continuou bem até os anos de 1980, com microcomputadores de baixo custo provando-se funcionais apenas quando combinados com uma perícia autodidata em programação e um interpretador de linguagem adequado; o sistema operacional tendia a ser mínimo, longe de um sistema operacional totalmente lapidado sentado sobre um processador de 8-bit. Claro, o código poderia ser carregado a partir de fitas K7, compartilhados através das ondas do rádio ou distribuído em vinil, mas tais processos maçantes e demorados pouco atraíam em comparação com hackear as próprias aplicações ou, mais comumente, jogos. Códigos-fonte impressos, compartilhados entre revistas e fotocópias, para serem digitados à mão tornou-se a norma. Distribuição binária estava sujeita ao ruído; distribuição textual era muito mais eficiente.

    No entanto, conforme esses sistemas cresciam em complexidade e os sistemas operacionais dos computadores pessoais livres do passado (nada de compartilhamento de tempo para o hacker ansioso) expandiam em termos de tamanho e funcionalidade, o sistema operacional proveu um ponto de entrada para o domínio dos sistemas proprietários dentro do outrora autônomo ambiente da computação doméstica. Quando o primeiro tão conheido PC apareceu, a oferecer agora o acesso metafórico ubíquo para o conteúdo ou para o meio – ao contrário dos sonhos dos anos de 1970 descritos em revistas como a Creative Computing – o computador pessoal aderiu ao domínio das empresas. Produtividade e a maquínica mesclaram-se sob uma interface auto-idêntica e a batalha para uma leitura verdadeiramente artística e divergentemente política do Sistema Operacional começou.

    Rádio no Ar

    Uma realização radical da arte, então, seria a deposição do produtor soberano e um retorno da riqueza compartilhada da criatividade aos seus verdadeiros donos: a multidão. Por esta razão, uma reapropriação e transformação dos meios de produção artística vem à tona – uma abertura dos códigos-fonte culturais para um fim indeterminado – Bare Code, Josephine Berry Slater, 2002
    É possível argumentar de forma coerente que o software livre pode ser considerado ele mesmo uma obra de arte, quando o consideramos como uma cultura aberta e como uma escrita de auto-referenciação ou intertextualidade. Código visível, distribuição gratuita e um saudável conjunto de preocupações políticas são as palavras de ordem que inspiram a computação criativa. Em 1999, o kernel do Linux em si foi premiado com o Nica de Ouro na categoria Net do Ars Electronica, o mais prestigiado festival de artes digitais do mundo. E em fevereiro de 2002, as 4.141.432 linhas de código que então compunham o kernel do Linux foi difundida online e em FM com uma fala sintetizada pela Rádio Livre Linux, uma iniciativa criada pela coletivo de arte online r a d i o q u a l i a. Rádio Livre Linux obviamente usa software livre, como o Ogg Vorbis, e seus criadores argumentam com muito humor que o projeto continua a tradição das estações FM de código da década de 1980 que distribuía códigos-fonte via rádio, o que permitia que precoces hackers com computadores pessoais, como o Sinclair ZX81s ou Commodore 64s, demodulassem o sinal analógico através de um modem e executassem o código.

    A Rádio Livre Linux obviamente fornece um serviço semelhante para os hackers contemporâneo, desde que equipados com caneta e papel para a transcrição do código. O teórico baseado em Berlim, Micz Flor, argumenta que a Rádio Livre Linux escava profundamente as questões de código e linguagem, tecnologia, arte e cultura, bem como a abertura dos debates sobre a liberdade de expressão e a proteção de direitos autorais. Rádio Livre Linux expõe o amplo contexto cultural em torno do software livre e, como Larry Wall, criador do Perl, argumenta, uma língua não é apenas um conjunto de regras ou semântica, é muito mais a cultura completa que envolve a linguagem. Este contexto inclui todas as pessoas envolvidas na linguagem, como as pessoas aprendem a língua e ajudam uns aos outros com a linguagem e, por fim, como interagem uns com os outros. E não é difícil argumentar que tal rico contexto cultural só pode existir sob um modelo de desenvolvimento de software livre. Esta é uma mensagem que a Rádio Livre Linux claramente transmite. E as dimensões políticas da Rádio Livre Linux, que resumem as questões de código e da linguagem, são mais óbvias ainda, com um claro paralelismo com a publicação do código fonte de Pretty Good Privacy (PGP) pelo MIT em 1995, com esquizofrênicas proibições legais colocadas em sua distribuição .

    E é também importante mencionar o desastre DeCSS, com camisetas com o código-fonte do utilitário sendo analisadas em tribunal. Esse modelo de distribuição foi nitidamente plagiados pelo grupo de artistas de Bolonha 0100101110101101.ORG, em seu trabalho Biennale.py, um vírus de computador falsificado baseado em Python, que foi exibido em mil camisetas, durante a abertura da Bienal de Veneza em 2001 . Dada a prontamente reconhecida influência neoísta em 0100101110101101.ORG, e à luz do vírus MacMag, inspirador e de mesma forma, Biennale.py decreta uma homenagem à natureza verdadeiramente artística do vírus de computador, como código da linguagem processado como comum e altamente contemporâneo; uma pergunta sempre sobre os meios de distribuição e também atribuição cada vez mais perturbadora na mídia de massa pelo simples binário.

    Substância

    O software livre está preocupado com a abertura da misteriosa substância do código, que vertiginosamente oculta o hardware, e até mesmo a compútação. GNU/Linux se estabelece em toda a sua glória através de uma paisagem montanhosa de fontes impressas onde mostram-se todas as hierarquias de abstração promulgadas. Dentro de um ambiente de software livre, por exemplo, é possível ler a narrativa de vida do processo de inicialização, uma transição do hardware mudo para o ativamente interrogativo e linguístico software; uma história que começa em /usr/src/linux/arch/i386/boot.

    Ainda mais, para questionar a própria essência do software, este contrário de código fechado, é talvez válido examinar um outro texto, incorporando no seu título a principal preocupação: Não Há Nenhum Software (There is No Software), do teórico Friedrich Kittler (1995). É um trabalho rico que talvez seja imune à sumarização, mas o argumento central de que o software esconde os níveis mais baixos de hardware, a eletrônica, pode ser claramente extraído. Além disso:

    Precisamente porque o software não existe como uma máquina independente de um corpo, o software como um meio comercial ou estadunidense incide em todo o resto.

    A cobertura retrátil das licença é o fato de insistência neste caso; é o que torna efervescentes softwares reais. Vale a pena citar a conclusão em pleno, com a ressalva de que os argumentos de Kittler poderiam muito bem serem vistos em um bom número de aspectos, como se referindo apenas ao código proprietário:

    O hardware Silicon obedece muitos dos requisitos para tais sistemas não programáveis altamente conectados. Entre seus milhões de células transístoras, alguns milhões para o poder de duas interações acontecem já; há difusão eletrônica, há túneis mecânico-quânticos por todo o chip. No entanto, tecnicamente, essas interações ainda são tratadas em termos de limitações do sistema, efeitos colaterais físicos, e assim por diante. Minimizar todo barulho possível de eliminar é o prêmio pago para máquinas estruturalmente programáveis. A estratégia inversa da maximização do ruído não irá apenas encontrar o caminho de volta da IBM para o Shannon, ele pode muito bem ser a única forma de entrar nesse corpo de números reais originalmente conhecido como caos.

    A substância é articulada por meio do ruído e do real, tudo o que, segundo Kittler, o software como um fantasma controlado pela indústria deve esconder; uma criptografia de dados de mão única. Ainda que essas preocupações e os escritos de Kittler podem ser situado nos anos de declínio do DOS, com o GNU/Linux exposto apenas a pequenos grupos de hackers, apontando no sentido de uma nova estética e cultura da computação liberada pelo movimento do software livre. Ensaios adicionais, tais como o texto de Kittler maravilhosamente intitulado Protected Mode (Modo Protegido), de 1993, apenas dois anos depois da mensagem de Linus Torvalds sobre seu passatempo, ilumina seus próprios sentimentos como um tema da Microsoft, subjugados, embutidos e escondidos dentro das maquinações do DOS; código proprietário escondendo e negando o acesso ao passatempo dos hardwares obsoletos. Tal subjugação é bem encaixado nas conversas sobre trabalhar sob um sistema operacional. Ainda sob o signo do tempo livre, podemos agora trabalhar facilmente em um sistema operacional, hackeando e desviando funcionalidades expostas por um corpo de código.

    E, talvez, em um mundo ideal com apenas softwares livres, há SOMENTE o software. O hardware desaparece em uma transubstanciação invertida promulgada por São Ignacius, como RMS divertidamente referencia a si mesmo nas performances, exercendo o sagrado compilador GNU/GCC.

     

    NT – * GNU Hurd é o kernel oficial do sistema operacional GNU. É composto de servidores (ou daemons, na terminologia de Unix) que utilizam o microkernel GNU Mach. Está em desenvolvimento desde 1990 pelo Projeto GNU e é distribuído como software livre sob a licença GPL. O Hurd almeja superar os kernels tipo Unix em termos de funcionalidade, segurança e estabilidade, e ao mesmo tempo manter uma certa compatibilidade com o Unix. – http://pt.wikipedia.org/wiki/GNU_Hurd

     

     

    Bahia, 2009

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