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  • Idéias perigosas: um estudo do cotidiano

    Thaís Brito e Ricardo Ruiz


    Caros camaradas futuros

    revolvendo

    a merda fóssil

    de agora,

    pesquisando

    estes dias escuros,

    talvez perguntar

    eis por mim.

    Ora,

    começará

    vosso homem da ciência

    afagando os porquês

    num banho de sabença,

    conta-se que outrora

    um férvido cantor

    a água sem fervura

    combateu com fervor.

    Professor,

    jogue fora

    suas lentes de arame!

    A mim cabe falar

    de mim

    Eu? Incinerador,

    Eu? Sanitarista,

    a revolução me convoca e me alista.

    Troco pelo front

    a horticultura airosa

    da poesia?

    Vladimir Maiakóvski


    Experimentar a arte de
    re:volver o logos do conhecimento pelas práticas e desorientar as práticas pela imersão no sub-conhecimento. Considerar processos, mais que resultados. Negar a distinção sujeito-objeto, a neutralidade do olhar e da experiência com o mundo e mais ainda do relato sobre ele. Experimentações semi-territorializadas, temporárias, carnal e digitalmente alimentadas, gritantes… perigosas! As imbricações entre as noções amplamente discutidas como opostos relacionados – prática e teoria – são experimentadas, criticamente praticadas e teorizadas no festival Submidialogia que acontece desde 2005 em diferentes cantos do Brasil.


    Toda grande prática ou ação caminha como uma idéia. A manipulação de instrumentos tecnológicos enfraquece este elo uma vez que o utilitarismo e a racionalidade técnica vão tomando o espaço das singularidades – manifestações humanas espontâneas, artísticas e improvisadas. O objetivo da conferência é trazer diferentes experiências – teóricas e práticas – para contatarem-se; inserir articulações críticas entre teoria e prática nos meios tecnológicos e no sistema capital que o sustenta. É incentivar a ampla reflexão – através das micropolíticas das relações – sobre as (próprias) práticas, para não perderem-se no moribundo utilitarismo; é incentivar práticas sobre a teoria, aplicando experiências em prol de uma (sub) concepção do aparato tecno-midiático; criar um espaço tempo de subversão das práticas e teorias sobre tecnologia e cultura. As teorias sobre mídia, informação e comunicação pouco respondem se refletidas nas atuais experiências e atuações sociais e culturais, e estas por sua vez embaralham-se em contestação, experimentação, utilitarismo e mercado. Nesta confusão de suas essências, o risco das práticas se alienarem é constante e o conhecimento de perspectivas e visões quanto às questões sobre ciência, tecnologia, cultura, meios e formatos de transmissão de informação é fundamental para um investimento de desejos em ações sociais reformadoras. Pôr de cabeça para baixo os princípios disciplinares da midialogia e articular idéias de modo a fazê-las perigosas.


    Como as práticas desafiam a teoria? Como as teorias inspiram as práticas? Como subverter a relação dialética teoria-prática? Qual IDÉIA aumenta a potência de ação dos corpos nos meios mecânicos / eletrônicos / digitais / biológicos / políticos / sociais?


    Campos do conhecimento – principalmente áreas científicas tradicionalmente constituídas – relegaram pouca importância às relações entre subjetividades, limitando as vivências e as práticas ao mundo da literatura ou à condição de ‘relato’ ou ‘diário’ pessoal. E a idéia de que a realidade social é conhecida e transformada a partir das relações objetivas entre sujeitos, determinados por situações históricas, orienta diversos pensamentos e ações. Foucault (2002) ressalta que apenas em 1968 a questão das singularidades adquiriram uma dimensão política, “apesar da tradição marxista e apesar do Partido Comunista”. Tratava-se de “fazer passar o desejo para o lado da infra-estrutura, para o lado da produção, enquanto se fará passar a família, o eu e a pessoa para o lado da antiprodução.” (DELUZE & GUATARI, 1972). É interessante observar especialmente o contexto dos movimentos sociais surgidos a partir dos anos 1960/1970 (mulheres, homossexuais, negros, sem-terras, doentes em hospitais) etc., período de intensas modificações na concepção e, conseqüentemente, na própria ação política. Foi nesse período que surgiram organizações dissidentes das matrizes comunistas oficiais. Com a ruptura na tradição marxista, as lutas políticas particulares passam a ter sentido em si próprias, não convergindo mais, necessariamente, para um objetivo geral comum. A noção de sujeito político distancia-se do sujeito universal ao conceber focos territoriais específicos de transformação.


    No Brasil, há uma renovação da cultura política da esquerda, que se reflete no entendimento do sujeito histórico ordinário, do cidadão comum. A
    ultrapassagem possibilitada pela “insinuação do ordinário em campos científicos constituídos” é destacada por Michel de Certeau (2008) ao pensar nas relações entre teoria e prática. Uma consequência dessa mudança, da emergência do ordinário, é o aparecimento da cultura como campo compreensivo. “O enfoque da cultura começa quando o homem ordinário se torna o narrador, quando define o lugar (comum) do discurso e o espaço (anônimo) de seu desenvolvimento.” (CERTEAU, 2008, p. 63). E os relatos (práticas teóricas) têm papel definitivo nessa ultrapassagem, por serem “fundadores de espaços” (CEARTEAU, 2008, p. 209). Foucault (2002) refere-se a essa relação identificando a teoria com a própria prática, não apenas como sua expressão, tradução ou aplicação. E seu contemporâneo, Gilles Delleuze, refere-se a ele como um dos que, no domínio da teoria e da prática, primeiro considerou a perspectiva dos agentes, e falou da indignidade de falar pelos outros:


    Quero dizer que se ridicularizava a representação, dizia-se que ela tinha acabado, mas não se tirava a consequência desta conversão ‘teórica’, isto é, que a teoria exigia que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias. (FOUCAULT, 2002, p. 72)

    A idéia da indignidade de falar pelos outros, de exercer o poder, o fim do indivíduo alienado e sem singularidades, é fundamental para caracterizar a experiência que descrevemos. Experimentação que se remete não apenas ao território de trocas possibilitado pelo festival Submidialogia e seus (bons e maus) encontros, mas que envolve práticas e pensamentos disseminados nas atividades que adquirem maior intensidade num contexto, mais ou menos recente, de movimentos que tentam construir ações libertárias – portanto, ações contra as paixões tristes necessárias ao exercício do poder (SPINOZA, 2008) – muitas vezes tornadas possíveis por vias institucionais, penetrando as brechas e expondo as estratégias insólitas dessas mesmas instituições. Evidenciar e abalar essas fissuras pode ser entendido como uma “arte de fazer”, arte descrita por Certeau como práticas desviacionistas, de dissimulação: a sucata ou a bricolagem. A reutilização, do seu modo singular, das tecnologias disponíveis. Mais do que as edificações, as tecnologias e as instituições, são as ações humanas cotidianas e suas histórias – as práticas e as teorias na busca pela alegria – que moldam o mundo em que vivemos. Aqui é onde acontece o que não está previsto nos códigos de conduta, manuais ou no cinismo de muitas das normas que regem instituições e relações sociais.

    Na instituição a servir se insinuam assim um estilo de trocas sociais, um estilo de invenções técnicas e um estilo de resistência moral, isto é, uma economia do dom (de generosidades como revanche), uma estética de golpes (de operações de artistas) e uma ética da tenacidade (mil maneiras de negar à ordem estabelecida o estatuto de lei, de sentido ou fatalidade) (CEARTEAU, 2008, p.88).

    Não se sabe mensurar, entretanto – e nem se é possível fazê-lo pois não há medidas nem parâmetros definidos ou definitivos – o quanto essas práticas conseguem intensificar as fissuras ou mesmo se dá-se o efeito contrário: o quanto essas ações calcificam prévias fissuras.


    Podemos pensar essas questões no contexto das políticas de apoio à implementação do Software Livre no Brasil. No texto
    O impacto da sociedade civil (des)organizada (2005), é relatada a dificuldade em ampliar o apoio ao Software Livre para além da mera publicidade e o fato de que o tema é mais presente em fóruns e eventos públicos, que em ações governamentais efetivas. Os descompassos e dificuldades nas migrações de sistemas proprietários para sistemas livres são explicadas, em parte, pelo fato de os gerentes de tecnologia do setor público serem funcionários de carreira, que ocupam cargos estáveis, o que resulta em certa resistência à mudança. Entre as consequências dessa transição do uso de um sistema operacional proprietário para um sistema operacional livre e de código aberto – considerada uma profunda transformação de paradigma – está esse trabalho da sucata e da bricolagem, que podem ser identificados na Ação Cultura Digital do Ministério da Cultura, analisada no artigo supracitado. A Cultura Digital é definida não apenas pela troca de conhecimentos brutos e inadaptáveis, mas como “absurdo antropofágico, uma deglutição de conhecimentos” (VELOSO, 2008, p. 39). Processo que se traduz na organicidade construída, processualmente definida nos Pontos de Cultura, cuja práxis resultou numa nova concepção sobre a interação entre povo, políticas, economia da cultura, afetos e fios. É nessa realidade em que “aprende-se a editar vídeos e comer açaí com farinha” (VELOSO, 2008, p. 39), onde se reaprende a sabedoria perdida no tempo, nas redes, despertando novas dicotomias no campo cognitivo e sensorial e ampliando as ferramentas também de resistência ao poder:

    Por um lado, acentua-se a pressão exercida pelo pós-industrialismo em afastar as histórias das pessoas delas mesmas, desterrando o conhecimento como fruto da consciência humana. Por outro, tais culturas ancestrais ainda possuem no discurso oral, no contato corporal, na música, na dança e em rituais coletivos a sua principal maneira de manter as relações quântico-familiares. (…) Agora, em contato com novas tecnologias de comunicação, informação e convívio, essas culturas se mostram, mais uma vez, resistentes ao cruel processo imposto pela sociedade pós-industrial. (BALBINO & RUIZ, 2008, p. 45)


    Pois, ao estudarem a ferramenta tecnológica que lhes é apresentada, os indivíduos têm a possibilidade, com os sistemas livres, de construir pedaço por pedaço sua ferramenta, a seu jeito, para seus interesses, criando seus relatos na história com uma linguagem específica, que lhe é familiar, e que parte do sistema operacional escolhido para seus computadores ao formato de se trabalhar suas produções para satisfazer seus desejos em suas limitações ou aperfeiçoamentos tecnológicos. Entram assim em uma curva de aprendizado tecnológico – crítico e prático – que tende ao infinito. Não por acaso, essa curva têm um limite nos softwares proprietários (BACIC, 2003), estabelecido pelas instituições que ditam as regras a serem seguidas: que detêm o poder. Neste momento, a discussão teórica se mistura com a prática, se torna objeto (CERTEAU, 2008). E suscita a reflexão sobre as diferentes possibilidades para implementação de programas e políticas públicas que propõe uma horizontalização social através da incorporação das tecnologias da informação e comunicação pelos diversos cenários da tão rizomática e ressonante cultura brasileira. Quais os formatos práticos/teóricos para essa implementação (os afetos envolvidos nas relações); as ações políticas (a resolução da economia no campo da política); as tecnologias a serem utilizadas (suas ferramentas); e as expectativas sociais da associação cultura popular x tecnomídia (os desejos envolvidos).


    Essas dimensões devem considerar três aspectos, um fundamental: o fato de que as políticas públicas convertem a economia num problema a ser resolvido eminentemente no campo da política. (MARINI, 2000, p.284). Não podemos simplesmente ignorar essa relação, que aparece, volta e meia, como um problema em suas muitas dimensões. Fica evidente se percebemos a relevância que os dados e indicadores econômicos têm na definição das políticas públicas de governos. Entendemos que a inter-relação políticas públicas e definições econômicas, a partir da influência (maléfica) das grandes corporações na implementação das políticas, é colocada em contradição evidente com os desejos dos estratos sociais que as concebem e as colocam em prática junto às comunidades, pessoas, coletivos…Campo de disputa complexa que apresenta a contradição essencial de colocar o lucro e o mercado confrontados com desejos emancipatórios. Aparece, ainda, um segundo aspecto – em outros desses problemas de um tempo em que não há o tempo das respostas simples: tempo em que talvez seja preciso mudar as perguntas – uma inversão do lugar material, uma outra dicotomia: de como é possível e do quanto é imprescindível a autonomia política, material, prática e teórica. Cabe, finalmente, interrogar-nos sobre a dimensão do tensionamento da dicotomia entre esses dois aspectos. Como essas práticas cotidianas influenciam um cenário macropolítico e como sermos responsáveis por nossas
    idéias perigosas?

    I. Introdução

    1. Submidialogias: teoria, pratica, sujeito, subjetividade, técnica

    1.1 teoria x pratica # teoria = pratica

    1.2 sujeito e subjetividade

    1.3 festival submidialogia

    1.4 outros movimentos

    1.5 conclusão: o domínio da técnica

    1. A inventar cotidianos: Certeau e o quanto essas acoes surtem efeito

    2.1 Implementação de politicas publicas que propõe a horizontalização social através das tics na cultura

    2.1.1 Programas Gesac, Pontos de Cultura, Casa Brasil = apresentação

    2.1.2 Aspectos para analise

    2.1.2.1 resolução da economia na politica e influencia maléfica das corporações

    2.1.2.2 sobre autonomia, ecologias, permaculturas, agroecologias, economias solidarias

    2.1.2.3 tensionamento da dicotomia

    2.1.3 analise dos programas

    2.1.3.1 acoes politicas

    2.1.3.1.1 gesac e a industria militar

    2.1.3.1.2 Pontos de Cultura, PNUD e a cultura como mercado e não mercadoria

    2.1.3.2 ferramentas: tecnologia como arte e mais uma vez o domínio da técnica

    2.1.3.3 os afetos envolvidos

    2.1.3.3.1 teoria como pratica

    2.1.3.3.2 metodologia da implementação

    2.1.3.3.3 os desejos das multitudes

    2.1.3.3.4 Pontos de Cultura e Casa Brasil: metodologias diferentes, diferentes resultados

    3. Conclusão: a-própria-ação dos conceitos


    Referências

    BACIC, N.M. O software livre como alternativa ao aprisionamento tecnológico imposto pelo software proprietário. Campinas: Unicamp, 2003. Disponível em http://www.rau-tu.unicamp.br/nou-rau/softwarelivre/document/?down=107

    BALBINO, José; RUIZ, Ricardo. Anotações do Balcão do Sr. Didi in: Apropriações Tecnológicas: Emergência de textos, idéias e imagens do Submidialogia#3 (org. Karla Schuch Brunet). Salvador, BA: EDUFBA, 2008.


    CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Deleuze e Guattari se explicam. 1972 in: A ilha deserta. São Paulo, SP, Iluminuras, 2008


    ESPINOSA, Baruch de. Ética. São Paulo, SP: Autêntica, 2008.

    __ _ _ _ _ _ Tratado Teológico-Político. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2008.


    FOINA, Ariel; FONSECA, Felipe; FREIRE, Alexandre. O impacto da sociedade civil (des)Organizada: Cultura Digital, os Articuladores e Software Livre no Projeto dos Pontos de Cultura do Minc

    http://pub.descentro.org/o_impacto_da_sociedade_civil_des_organiza

    FOUCAULT, Michel. Os intelectuais e o poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. in: Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2002


    MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000


    VELOSO, Adriana. Pontos de Cultura, novas mídias, educação e democracia: Reflexões sobre o contexto de uma mudança estrutural no Brasil. in: Apropriações Tecnológicas: Emergência de textos, idéias e imagens do Submidialogia#3 (org. Karla Schuch Brunet). Salvador, BA: EDUFBA, 2008.

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