Nada pode ser melhor que o estado
A poesia não deve ser elusiva
O que é meu não é teu
As mulheres não são salientes no que têm de melhor
O artista é o que se emite no que emite
Não se deve confundir u com unda
Só nado na minha praia
Não sou de aspirar mas aspiro ao poder
Se você deixar eu vou deixar você me deixar como quiser
Quem é bom sempre foi bom
Jamais deixamos a peteca cair
Saques sacadas sacanas
Antes só que acompanhado
Às vezes não rio
Eu acho que você se vira muito bem
Não dou conta dos recados
Esqueci a minha sanha
Se ligou é porque quer se ligar
Eu não sei lidar com o poder foi o recado que me fêz romper com ele
Bêbado, chapado e incréu
Ela me faz comer e beber além do que preciso
Presto-lhe a maior homenagem a uma mulher cortejo-a
Como me sinto poderoso dormindo à noite
Alimentar vários fogos pra que não te falte comida
Tem coisas que você diz que faz e que eu ainda não fiz
Encher você de mim
Nem sempre cabe mais um
Se até as pedras se movem
O que é meu eu não divido
Difícil é o que não é fácil
Não queira que eu queira o que eu não quero
Tudo se passa entre o 0 e o 1
Ah os meus defeitos
Como somos muitos temos que ser plurais
Foi-se o resto mas ficaram os dentes
Isso não pode dar certo
O que dizemos dos outros é o que vemos em nós mesmos
Não caibo nas tuas artimanhas
Todo mundo quer que o mundo caiba no seu bolso mas não cabe
Os males a todos afligem
Banalidades
maio 23rd, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroFagulhas
maio 16th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroComo não vou mais te ver preciso aproveitar ao máximo
Não deixe que nada mande no teu corpo
Os teus subindo os meus sumindo
Não se pode viver de ausências
Pra você dizer pros outros que tô pegando no teu pé?
Concordar ou discordar tem a ver com o coração?
O bem que dormir me faz
Pra não fazer o que se devia faz-se o que não se devia
A vida é de quem se solta
Já que ninguém curte curto eu
Nem ser e nem deixar de ser quem se é
Lei é lei mas o no entanto é que vigora
Não sufrago o falso moralismo de ninguém
É preciso não dar mole pras circunstancias
Tem a sumidade e tem o sumidouro
Você pode dar o que quiser pra quem quiser só não quero saber
Você devia acabar o que começou
Se posso estar com por que ficaria sem?
Antes cedo que mais tarde
E nós não leva vantagem alguma
O que você quer só casando
Você mantém minha tensão acesa
Qualquer um sempre quer qualquer outro
Pra quem não gosta de gostar tem coisa melhor que gostar?
É chato procurar a palavra exata melhor é pegar a que passa
Você acha que eu não sei que você tá doido para me ter?
Você nunca vai deixar eu te fazer feliz?
Dormi com o teu chulé no meu peito
Estreantes ganham mais que estreados?
Perguntas merecem resposta
Quem não mora no inferno gosta é de rosetar
Se espremer o tubo espirra
Se não faz pelo menos não desfaz
Assim se erige uma tôrre de dizeres
O bem apessoado não era boa pessoa
Não se perde a esperança perde-se a vida
Não se importe com o que se comporta
O tempo é uma dimensão do espaço
Talvez até faça sentido
A moça é pau pra toda obra
Palrares
maio 9th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroEla disse que tudo isso aqui é só para o meu gáudio
A maciez de tua curva até a anca
A medida do teu sucesso é quanto a gata goza
A realidade é melhor que o sonho
Isto não é amor isto é pecado
Deixa o que vier vir e o que não vier passar
Eu quero ser liberado do que é formal
Dizer o que é pra dizer sem retoques
É bom e é ruim você não ter aquela mesma mulher toda noite
Não sei se o fazer precede o querer
A borra do teu gôzo serve de leniente
A burocracia é a arte de resolver problemas não de criá-los
Se para uns é bom para todos será muito melhor
O que ela não sabe é que não se pode atrair o outro e depois sumir
É preciso viver com intensidade os bons e os maus momentos
É ruim querer o que não se tem
Antes ou depois mas que seja
Dá uma sensação de poder ver a gata prostrada
Depois de feito tá feito o jeito é não fazer de novo
Um homem que te trata assim merecia o teu melhor tratamento
Eu quero que você venha dormir nús comigo
Não pode em baixo mas pode em cima
Um bom dia a dia dispensa os eventos
A luta sexual é como se fôsse uma curra consentida
Ninguem deve possuir mais do que possa consumir
Ela pensa que é oráculo
O repouso é o que nos faz repousar
Equilibrar-se não é talento é necessidade
Não sei fazer o que não sei fazer
Não posso ensinar o que não aprendi
Não posso lembrar o que esqueci
Não se pode sair sem ter entrado
É preciso toda a liberdade para a criação das formas
Pensar nos obriga a ponderar
É mais legal deixar ao léu que pegar à garra
Não obstante é preciso obstar
Falar mal é melhor que não falar
Convencer é vencer junto
Se não complicar não precisa explicar
O ócio é a negação do negócio
Princípios
abril 25th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroO que é bom para o invasor não pode ser bom para o invadido
O amor brinca quando ama
Não sei se despretencioso é sem pretensão
A casa velha respinga por todo lado
Se queres que te fale direito não me podes ouvir torto
Eu quero até a tua orelha
Mesmo sem querermos eu como mesmo assim
Ela é minha sereia não sei o que fazer com ela
Não pode ser tão fácil mas também nem tão difícil
Não a vejo como santa e nem como megera vejo-a como um barco sem espera
Qualquer coisa que não me permite alimentar-me pra mim é merda
A vida exige uma certa malemolência de corpo e alma
Gozar é bom não importa com quem
Sinto tesão por quem não devo
Eu sou o que tu engole
Cada um vai querendo entrar em cada outro
Nada acontece entre mentes
Às vêzes sinto-me estranhamente estranho
A receita pra vida é viver muito
A sobrevivência é algo extraordinário
O dizer é fraco sem o fazer
Melhor trazer alguma água pra cá
Chupar o caroço é um bom esporte pra eles e pra elas
O dito pelo bendito
Não dá pra arriar tudo de uma vêz
Mais seis pra ficar freguês
Não me dás essa pele pra um lobo faminto saciar sua sede?
São frases soltas sem nenhum endereço a não ser o seu
Seu, de quem? De quem me lê!
Penso logo falo
À noite veio pra ficar
3, 2, 1
Achismos
abril 18th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroA felicidade de cada um fica mais feliz com a felicidade do outro
Quanto custa um barato de baixo custo?
Nem tudo é não
A existência precede a palavra
Mais com menos não é mais
Não quero quem não me quer
As filas andam
O ser telúrico
Mais pro fundo é mais profundo
Segundo o Obama mauboro pode maconha não pode
Ela não tem coração mas em compensação
Lá os catadores de algodão aqui os do lixão
Mulher boa dá mesmo sem querer
Acho que se deve ser meticulosamente cronológico
Pra lembrar é preciso esquecer
Nunca fomos tão pujantes não precisamos ser pungentes
Não peco por excesso
Temos que perder os criadores para só então salvar suas criações?
O cinema é um retrato só do que está a sua frente
Ninguém gosta de mim eles me acham arrogante
Mas se lhes dou enjoo que tomem um purgante
Voltar a cavalgar na tarde
Que pena que ela acorde
Um pouco mais e dormiria melhor
O que é redondo rola
Eu como você como você nunca vai esquecer
As mina precisa gozá
O artista liberta-nos a mente
Pensei que era uma profissional
Rebuscado é o de novo buscado
Quanto de vida e do mundo não silenciamos
Tem mais quem menos dá
Não se preocupe com o morcego preocupe-se com o meu desejo
Ela disse que eu já era
Ela pediu pra eu não levar a sério
Ela pediu pra eu reconsiderar
Ela pediu pra eu não levar a mal
Ela pediu pra eu ser compreensivo
Ela pediu pra eu esquecer
Ela pediu pra eu não ligar
Momentos
abril 11th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroEnquanto um não vai outro não vem
Não existe o depois sem o antes
Andar na noite é demais
Não queria que você me quisesse quanto quero você
Um na multidão
Eu merecia ter uma gata nova a cada noite
Essas meninas de hoje em dia se dão dão por que não dão pra mim?
Seria melhor se eu tivesse o que vou ter
E em casa continuo o passeio da noite mesmo sem ela
Por que escolher?
O que qualquer homem quer é aquela coisa
Mas aí o outro precisa interagir
É hora de desligar o mundo
O cara que planta bosta no caminho merecia nela atolar
As casadas me maternalizam as solteiras eu paternalizo
Eu queria desfolhar o teu recato
Saudade das tuas pernas e do que ainda não tive
Sem maiores pretensões vamos trilhando os futuros
É fácil execrar o execrável difícil é descobrí-lo
Talvez ninguém perceba mas estamos às vésperas de melhores momentos
Reprimo-os não dou vazão a meus instintos
Avançar sempre ou recuar até o infinito
Nada que se demore a resolver vale a pena
Às vezes é uma grata surpresa às vezes ingrata
Não pode ser só cansar é preciso descansar
Entre o que entra e o que sai fica um gostinho de quero mais
És esnobe ou és sapeca?
Meteoros não convém
Não sou romântico se demorar eu mudo o foco
O querer não sabe se pode
O olhar arrevesado pode dizer que sim
Se eu esquecer quem eu sou não saberei quem tu és
Você sabe o que quer dizer tudo?
Se não for pra virar pelo avesso não adianta caprichar na aparência
Prefiro as portas do que as janelas abertas
Entre o sorriso e o suspiro a moça sumiu
O remédio além de amargo não fez efeito
A noite esconde o barato do dia
Nenhum sacrifício é tolerável
Melhor que o mundo se arrumasse
Gostos
abril 4th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroÀs vêzes da artista sugerem contratar um motorista
Trocar os de exclamação ! pelos de interrogação ? não faz bem aos pontos
Prefiro cansada na volta
É fácil elogiar o elogiado difícil é descobrí-lo
Até quero mas não faço questão
A poesia é tudo que se afirme ser
Não asso meu bolo na beirada de ninguém
Daqui a pouco já é amanhã
Tão chata e burguesa que até dá pena
Não ter o que dizer é melhor que não dizer o que se tem
Você não se vê quem te vê é o outro
Perdi a piada mas salvei o amigo
De que vale a vida se há uma bala perdida
Estou justamente pensando isso agora
No kuduro não entra môsca
Não se pode esquecer o inesquecível
A palavra esconde
Nada é assim tudo é contínuo
Não nos aborreçamos
Tem solução pra tudo menos pra hipocrisia
Não me ufano de quem me afana
O diabo é a teia de relações sociais que sustenta a repressão
Nem vou lembrar de quem me esquecer
Quem tem só tem privilégios
Se eu comer com a mão é porque faltou-me o garfo
O princípio é o começo do fim
A paz estrangulada nem emitiu um som
A memória é mais que a lembrança
Se eu te contar um conto tu não me aumenta um ponto?
Quem tudo sabe não aprende
Olhar prum lado olhar pro outro e só então atravessar
Nem mais e nem menos desfaz o sabor
O que é caro não vale a pena
Nem se eu acreditar eu vou deixar barato
Meu é o que não me tiram
Sou inegociável ninguém vai querer pagar
Meus cuidados não impedem meus fracassos
A diferença entre tudo ou nada é mais ou menos
Adiantar-se é melhor que atrasar-se
O apressado morre mais cedo
Senãos
março 28th, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroEmpresário no Brasil só gosta é de comodidade
Não sei que benefício posso lhe dar em troca da tua entrega
O que vem de fora não é bom
Nessa quem vem é você
Se der duro não dê mole
Nada precisa ser agora
A ficção externaliza o interior torna o subjetivo objetivo
O documentário internaliza o exterior torna o objetivo subjetivo
O que é bom de ver é bom de ter
Amante chega sem avisar
Lá vem ela bancando a cortesã
Nem não
Cada um sabe o cós que tem
Ela diz que sabe o que estou querendo mas ela não
Não sei porque insisto
Agruras e doçuras são o chão por onde andamos
Tudo e o quanto quiser
O que eu não posso dizer é o que eu não posso dizer
Você não quer que eu diga o que você não quer ouvir
O dizer nunca é mais importante que o fazer
Todo mundo quer ouvir algo impossível
A diferença é que a indústria produz o descartável a cultura o permanente
A lógica mercantil é manhosa porque se retroalimenta de números
Legal é ver as pessoas se cumprimentarem
Tô bodeado não fique fico mais ainda
Aí mora o êrro
A remuneração deve ser o retorno do trabalho investido
A paciência não pode ter limite
O que quiser dizer diga
Fui? É passado?
Eu merecia um bom trato neste dia
O que está perdido não tem como ser achado
Tá bom mas não demora
E por todos os lados
O problema é que tudo tem razão de ser
Embora exista e talvez determine não se pode contar com o acaso
As estruturas sociais estão muito atrasadas face às mentais e técnicas
Nada pode ser mais que o máximo
Nada pode ser menos que o mínimo
A não ser o infinito
Pendengas
março 21st, 2012 by Sergio Costa de Magalhães SanteiroA fruta não o fruto
Inteira não pedaço
Quem menos procura menos acha
Por que o som do século é o gemido da guitarra?
Quem espera nunca alcança
Diferenças não afastam
Ninguém sabe a hora da passagem melhor que dure posto é infinita
Vai ser bom ter você à nossa disposição
A vida não é uma loucura
Tá carente? Não, tô querente.
Tudo é melhor que muito ou pouco
Calma rapaziada que o momento é tenso é difícil dá pra atravessar mas com cuidado
As mais novas deviam se dar aos mais velhos
Fico eu com sutilezas ela encontra um que empurra e tudo bem
Nem sempre dá certo mas é um bom começo
A democracia é o regime da máxima tolerancia
O que fazer espremido em sentimentos
Enquanto se atira a pedra não se atinge a vidraça
Por que conter por que contar teus sentimentos
Enquanto houver há
Um beijo furtivo não é melhor que um de verdade
Insuportável é só o que não conseguimos suportar
As palavras dão volta na boca à procura de uma sentença
Intangível
Quem diz não não pode esperar um sim
O sentido da revolução industrial é o pleno emprego e o máximo de lazer
De tanto repetir-se uma besteira não adianta ela continua a ser uma besteira
Amantes podem ser infiéis
Amenas sim a menos não
Tudo é conciliável
Manter a pia limpa isso é que é terapia
Não dá pra pensar o mundo com a nossa cabeça individual de hoje
E o que fazemos nós nesta vida
A arte é expressão da vida, boa ou má é parte
Mal cuido da minha vou me meter na dos outros
Jeitosa, ajeitada ou azeitada
Solto na noite não há quem o aprisione
Se deixar passar não vai atropelar
É-me indiferente o alheio
Não se atreva a errar pra menos
Anchieta José do Brasil
março 21st, 2012 by Sergio Costa de Magalhães Santeiro
Sobre a terra, o céu,
o mar, o homem e
Paulo César Saraceni
Por Sergio Santeiro
Em meio a todo o tiroteio nada como uma pausa que enobrece. O Cine ABI estará oferecendo ao público, nesta segunda, 27 de agosto, às 18h30min, a exibição de a “Etnografia da Amizade”, de Ricardo Miranda, que ainda não vi, documentário sobre o querido Paulo Cesar Saraceni, que nos tem ensinado a ousadia de filmar. Antecipando-me à exibição sobre o nosso poeta Paulo Cesar Saraceni, resolvi estampar aqui a resenha que fiz na época, na Filme/Cultura, 1978, sobre o seu filme “Anchieta José do Brasil”.
A TERRA, O CÉU, O MAR, O HOMEM
Espaços amplos, céus, terra, mares, tempos largos, assim se caracterizam os elementos com que contou Paulo Cesar Saraceni para contar uma de nossas primeiras estórias, um descobrimento. Ao
contrário do que se pode supor, por tratar-se de um tema ou fatos acontecidos verdadeiramente, de domínio de uma tradição historiográfica, algo da ordem, digamos, da objetividade, é, no entanto, nas mãos deste poeta da subjetividade, a estória de um descobrimento em qualquer tempo, e não só a daquele de há quatrocentos anos atrás.
Espremido nas concepções de um mundo parado, Anchieta anseia, ao ingressar na Companhia de Jesus, não pela existência do claustro, não pela reclusão da alma, mas pelo seu contágio com o mundo. A fé e seu apostolado terão representado, como representam ainda cada vez mais, basta verificarmos a experiência presente do papel da Igreja no Brasil, um espaço de revelação da existência social no mundo e não a segregação de seus postulantes no esoterismo de rituais tidos como sagrados.
Viver o profano, mesmo se delegado do sagrado, é o que fez Anchieta cruzar os mares, e fez recentemente, na América Latina, Camilo Torres mergulhar nas selvas, ou o nosso Frei Tito ou o Padre Penido atravessarem o martírio.
Quando se dispôs a contar esta estória da colonização, tenho como certo, e bem o demonstra o filme, que Saraceni tinha os olhos no nosso tempo, redescobrindo o passado não como algo distante e frio, mas como a prática do tempo presente; infelizmente, ou não, a história é um conceito, ninguém a vive de fato porque a vida humana contida pela morte pode, no máximo, ser uma experiência biográfica. Ou seja, em todos os tempos, cada homem vive e “experiencia” unicamente a sua biografia. O que nela houver de significativo, a superação e transformação de si mesmo, embora ilustrado pela vida de outros que nos antecederam, é inequivocamente determinado pelo aqui e agora dos seres e não pela transcendência, seja a materialista, histórica, ou a espiritual, religiosa.
Quanto foi profano o nosso Anchieta e quanto foi sagrado, o que tinha em si e o que lhe vinha de fora, a educação, a formação, a crença, este é o panorama que, junto ao nascer de uma civilização,
discorre o filme. Quem saberá as formas que tinha essa existência inaugural em um mundo ainda não parado pelo tempo dos homens, esse despotismo de espaço, de vida, de terra, em que o confronto do Velho Mundo e do Novo Mundo permitiria uma nova síntese para a humanidade.
Nós, que viemos bem depois, que sobrevivemos, sabemos que não resultou na melhor das soluções. O velho, como ainda hoje, mata o novo, porque a experiência de vida apenas tem ensinado a malícia, uma sobrevivência tem valido, a despeito de quaisquer racionalizações ideológicas, o
extermínio de coletividades, foi o que sobrou historicamente daquele confronto.
Um olhar crítico que não queira ver o real mas apenas legitimar-se teoricamente dirá, ou diria, que a operação jesuítica, trágica já neste primeiro patamar da vida brasileira, só viria a se agravar com o correr dos tempos. É verdade, e é justo. Certamente toda vez que à vida impõe-se um código de normas e regras, acaba-se com ela. Esta, no entanto, pode ser a prova dos nove para os indivíduos, que nenhum cabe em qualquer ortodoxia e, ao invés de legitimá-la, pode empenhar-se concretamente em superá-la, tal seria o Anchieta visto pelo talvez menos ortodoxo dos cineastas, pelo autor que justamente terá sempre aberto sua sensibilidade além dos determinismos
ideológicos, guiado pelo plasmar por seus sentimentos a descrição da vida a sua volta.
Em plena ebulição política dos anos sessenta, o filme de estréia de Paulo Cesar, que tanta impressão causou, sobretudo em nós, mais jovens na época, ainda não determinados politicamente pela prática, ainda abertos à revelação do mundo, o “Porto das Caixas”, em 1962, apontava entre as consideradas prioridades sociais, a experiência livre do ser que se liberta da opressão, manifestada não necessariamente ao nível das massas mas ao nível primeiro do indivíduo. Exagerando-lhe a proposta, e tomando a mim a frase, diria que a libertação coletiva passa, ou não existe, pela libertação individual. Isto que hoje é banal, no momento em que surgiu no seu filme poderia ser, e talvez tenha sido, visto como uma heresia. A libertação do jugo entre os seres, em sua própria convivência humana, antecede a consciência da luta de classes. Quem pensava outramente teve que sofrer a surpresa dos anos que se seguiram.
Nos anos que se seguiram, foi o mesmo Paulo Cesar Saraceni o reinventor do cinema político, tornado mais tarde, nos setenta, como sempre que lhe bota as mãos o poderio da metrópole, um vezo bobo de consumo comercial de massa em suas versões italianas, e mais recentemente, pasmem, no que ridiculamente se batizou de novo cinema americano. A experiência de “O Desafio” (1965) de Paulo Cesar, talvez inédita na história do cinema, a de retratar logo após o golpe, a
crise existencial que pudemos dolorosamente atestar e testemunhar até nossos dias, vinha prenunciada em um filme de improviso, de incertezas, mas guardando a esperança que os primeiros tempos de resistência ensejavam, como no histórico espetáculo “Opinião”, não por acaso documentado e parte integrante de sua narrativa fílmica. O cinema foi, então, mais do que hoje é, um pulmão que respirou quando ar não houve, o sentimento de que havia vida mesmo no apagar das luzes, agora tênue e toscamente reacendidas.
Tampouco em sua época de negras sombras pôde aparecer com clareza o toque de vida que havia em “O Desafio”, cujo título diz tudo. Não era o fim mas era um atravessar de tempos difíceis quando o amor de ontem era a mentira de hoje. Nessa trajetória do autor que se confunde com a de seus companheiros e com a própria vida e história recente do país, o que iremos ver é uma pronunciada descoberta de um caminho, o da escavação de si mesmo, desdobrando-se na experiência da vida. A vida acima do conhecido, do sabido, que o levaria desafiantemente a dançar o carnaval de rumbeiro em Amor, Carnaval e Sonho (1974), novamente um filme de improviso onde o que conta não é o desencanto mas, pelo contrário, um reencanto com suas próprias
possibilidades porque ainda vivas. A não reclusão em nossas perdas, em nossa alienação do mundo, mas o abrimento para o que der e vier.
Por outro lado, a experiência do sagrado, ou melhor dizendo, o seu mistério, é outra, me parece, das coordenadas do pensamento que Paulo Cesar aplica aos filmes que faz. A convivência e admiração que nutre por algo que chamaríamos de uma tradição quase subterrânea na cultura brasileira, a dos artistas católicos profanos, como Lucio Cardoso, seu parceiro de “Porto das Caixas” e guia existencial na “Crônica da Casa Assassinada” (1971), este painel terrível da vida confinada nas alcovas da família burguesa, certamente o inspirou para entender além da religião um misticismo básico, talvez o mesmo do homem frente ao infinito, mas apesar disso capaz e sujeito de sua, pelo
menos, biografia.
É com esta bagagem que se volta para descrever os tempos primitivos da terra brasileira e este desvendar da fé arcaica do frágil europeu, tomado pela maleita, febril mas imbatível em sustentar
sua missão, a que se deu de alma mas, sobretudo, de corpo. A pacificação do gentio, embora minada pelos males da civilização que inevitavelmente trazia consigo, e a defesa de sua proteção contra os colonos escravagistas nestes primórdios de colonização; em outras palavras, a implantação de um mundo pronto nesta imensidão quase vazia, teve no seu apostolado um marco referencial iniludível, transformando o evangelista das selvas, como o chamou o poeta FagundesVarella, em um evangelizado pelas selvas nessa visão do filme.
Talvez seja esta a operação básica a que procede Saraceni no que se refere às relações do jesuíta com a terra. A descoberta de um mundo primitivo, suponhamos, natural, faz retroceder o império da razão e da fé a um estágio anterior, quando tudo ainda estava por fazer, e conferindo a esta vida um caráter inaugural de existência sem a noção de pecado que chega a contagiar os próprios colonos.
Claro, quando se trata dos colonos e não dos índios, a ausência de pecado é quase, como diríamos, mais de ordem prática, quer dizer, a ausência de interditos, a ausência de autoridades, a ausência de repressão institucional, destacando-se então o papel da Igreja na defesa e, lamentavelmente, na
educação dos naturais da terra como a única presença da lei e da tradição ante a presa fácil que eram os primitivos, a despeito de seu poder de guerra, aos olhos dos aventureiros, salteadores e piratas que infestaram a terra. Mais uma vez, o paralelo com a situação atual no Brasil Central não é e nem foi mero acaso. Talento do cinema esta possibilidade de olhar com olhares presentes o passado, mas também de rever no presente a permanência destes momentos originais da confrontação violenta entre estilos de vida e dominação que, ainda por muito tempo, parece, nos caberá testemunhar.
Felizmente, um filme apesar de gestado pela individualidade de seu autor é uma experiência coletiva de expressão, muitas vezes pouco aparentes, mas muitas vezes também da maior eloqüência. Neste caso, o do Anchieta José do Brasil é notável como se pode acompanhar um
sucesso de equipe, um equilíbrio do trabalho de muitos, onde os destaques se equivalem desde o suave tom, eu diria, inaugural de uma fotografia delicadamente receptiva à luz do novo mundo.
Esta capacidade revelada pelo trabalho de Marco Bottino, mais orientada para os limites de registro da cor do que para uma tentativa de determinar-lhe através da iluminação massiva os contornos, que é a prática tradicional de um certo tecnicismo fotográfico, resulta extraordinária repetindo na parte a operação do todo. O que faz o filme é o que faz a fotografia. É quase como se o negativo importado,
fabricado como o pensamento europeu, se dobrasse à majestade da vista nova, da luz nova, da cor nova. Em outros momentos, de enorme contribuição dramática, como o duelo verbal no combate à heresia calvinista à luz de archotes, por sobre as sombras da noite e da grade, temos a impressão nítida de que a cena ilumina-se pelo calor que vem de Anchieta, em magistral e dedicada interpretação de Nei Latorraca ou quando vem de Jean de Solès, vivido com o conhecido talento de Paulo Cesar Pereio.
Já em outros momentos, se pudermos falar apenas de alguns, como a invenção do teatro pelo índio vivido por Joel Barcelos, em inesquecível criação a partir do zero de uma forma de representar como na, suponho, “Festa de São Lourenço” (1583), tida como a mais notável das contribuições teatrais anchietanas, em que o índio, quer dizer, o ator ensaia descobrir a expressão e o significado de seus gestos e dicção, como se sabe, sem passado.
Este trabalho de equipe, de conjunto, de criação coletiva reponta também na concepção cenográfica e vestuário por Ferdy Carneiro, a um só tempo despojada e preciosa, sem os desperdícios das
produções caras e incompetentes que geralmente associamos aos dramas históricos. A questão da produção ou da reconstituição histórica de ambientes mereceria uma análise certamente mais fina que a que podemos apresentar no momento, mas é importante sublinhar-se que a sua inspiração se mede não pelas pedrarias mas pela adequação ao espaço e tempo de seus personagens. O que aí vai dito, refere-se por exemplo à recriação dos espaços de vida dos colonos, como entre eles no episódio de João Ramalho.
Nestes momentos, uma igual despretensão aparente da narrativa só faz acentuar a elegância geral de movimentos em todo o filme, que é de resto uma das características mais evidentes no estilo de Saraceni, a seu modo lembrando sua admiração pelo cinema humanista de Rosselini.
A configuração deste tempo novo na história da humanidade que foi a possibilidade, como sabemos, desperdiçada, de reinventar a vida, ganha no cinema brasileiro, em que já contávamos com o “Pindorama”, de Arnaldo Jabor (1970) e com o “Como Era Gostoso O Meu Francês”, de
Nelson Pereira dos Santos (1972), uma inspiradíssima versão que se não foi bem acolhida, certamente deve-se mais à pobreza dos tempos em que vivemos do que à generosidade com que os artistas se tem dedicado a descobrir o país.
24/08/2007