Era pra APTC mas ficou grande demais, pra lá mando um curta. Resolvi publicar aqui no meu
blog da ABD, e depois espalho por aí. s.
Ao pé do Mandacaru.
Assim começa o filme de Nelson Pereira dos Santos, Mandacaru Vermelho, de 1961, com a
canção em voz grave que sintetiza o drama que se verá a seguir. Música e orquestrações e
execução do grande maestro Remo Usai, um dos maiores autores de trilhas sonoras musicais
orquestrais brasileiras, parceiro de Nelson nos Rios.
É infelizmente mais um de nossos velhos a viver em dificuldades na velhice, fala-se de
direitos autorais musicais descumpridos, temas um e outro que deveriam ser garantidos
pelas autoridades oficiais. Não se pode abandonar homem e obra um evidente patrimônio
cultural nacional.
Lembra-me um semelhante uso da canção popular como em Aruanda, de Linduarte Noronha,
seria algo próximo ao cordel, ao folclore, ter a música como um dos recursos explícitos
de narrativa.”Ó mana, deixa eu ir, ó mana eu vou só”- que Villa Lobos tambem absorveria
em sua bachiana. Coisa que tem um sabor de época.
Manteve Nelson tambem os letreiros originais de Ligia Pape em espanhol da única cópia
encontrada feita matriz da bela restauração que agora podemos assistir. Ligia, a grande
artista que além de seus ensaios posteriores em filmes foi tambem parceira gráfica em
outros tantos. O esquema de produção incluía um parceiro uruguaio, Danilo Trelles,
interessado em Vidas Secas e que se manteve em Mandacaru e que aportou o negativo virgem.
Conforme nos contou o Nelson a todo o publico no debate da retrospectiva de Helio Silva,
fotógrafo de Mandacaru, igualmente em muitos filmes seu parceiro, no CCBB a 28 de julho
de 2009, e de que ficou um excepcional catálogo, o filme resultou de manter-se a produção
por ele preparada para o “Vidas Secas”, sua transcriação de Graciliano Ramos.
Nesta primeira vez, chuvas intensas esverdearam e enxarcaram o cenário, fazendo-o adiar
o Vidas, e a inventar um outro filme que resultou ser o Mandacaru Vermelho, em que ele
próprio Nelson assume o protagonismo, e sua equipe quase todos os demais papéis, de traz
passando para a frente da câmera, sim, apenas uma, extraordinariamente pilotada por Helio
Silva. Entre seus talentos um era construir mecanismos para sua câmera passear sôlta.
A mim me lembra a extraordinaria coleção de Villa Lobos regendo suas músicas com a
Orquestra da Rádio-Televisão Francesa. O autor ele mesmo seu regente. Sai-se bem o Nelson
em seu papel, inclusive com as perigosas cenas de briga no topo de pedra do morro, e
tendo o Helio Silva como spalla, não só na cor do preto e branco mas na operação
caprichosa de câmera.
Fiquei fã de um travelling, como é que se diz essa coisa em brasileiro, é viajando, é
passeando, é andando, deslizando em paralelo à cena filmada. Um entra e sai passando da
mataria enquadrando o sol filtrado entre os galhos, as folhas, e sem, o sol ele mesmo
rápidamente.
O filme de estrutura simples, um negro amor de rendas brancas, um amor que contraria os
não amantes, um drama familiar sertanejo, o cheiro da virgem enlouquecendo a todos, e
surpresa, coisa rara, que eu saiba só com Raquel de Queiróz: o coronel não é um homem, é
uma matriarca tirânica, sanguinária, como na tragédia grega ou como Shakespeare, gerindo
insana seu latifundio.
Como sempre, como em toda a lenda, acaba vencida pelo espectro do passado vingando o
massacre por ela chefiado no prólogo que avermelhou de sangue o mandacaru e pela chegança
de um forasteiro, irmão mais novo do caboclo, Miguel Torres, lavrador que não se rende à
meia com a tirana, protege e acompanha como na tragédia clássica aquele que vindo de fora
rompe com a dominação dominante. Leva a filha da família, sobrinha da tirana e por ela
prometida a casar por conveniência.
Note-se que é o primeiro filme rural de Nelson Pereira que duas vêzes o antecedeu
filmando seus notáveis Rio 40 Graus em 55 e Rio Zona Norte em 57 na capital do país, seus
marcos inaugurais do novo cinema moderno brasileiro, a propósito dos quais descobri que a
descrição por ele mesmo apresentada no II Congresso do Cinema Brasileiro, paralelo à
Bienal de São Paulo em 54, do “modo de produção independente” gerou, o que algum dia
conseguirei demonstrar, que é a forma de um “cinema popular socialista” de que seus
filmes bem como outros próximos da época são exemplos, e que como tal se extingue no
golpe de 64 mas mantendo-se o cinema de autor renasce em novo ciclo: o cinema novo.
Mas estamos antes, o que há em Mandacaru que possa aproximá-lo desta discussão? Em ambos
Rios o que vemos são dramas de vida populares, crianças e homens do povo vitimados na
opressão da metrópole, por isto é popular, popular não é só o que é feito diretamente
pelo povo, é também o que é feito a seu favor. E é socialista porque acena com a
possibilidade, com a cobrança de serviços e de justiça publica. O que faz mal ou bem não
é a individualidade dos personagens, é o jogo social, o mundo visto do prisma da
coletividade.
Em Mandacaru é a vitória sobre o latifundio, extinto o passado, um novo casal como os
outros, seus semelhantes, o povo, poderá construir uma nova vida, um novo mundo o que
como se sabe ainda não aconteceu mas que na época tanto se pretendia.
O latifundio é que ainda está aí a ceifar os sonhos dos povos, mas o cinema não é bola de
cristal, não é para adivinhar o futuro, mas é para induzí-lo, é para criar uma imagem
atual que é a do presente, seu tempo, para propor ao futuro já que ficará o filme rodando
muitos futuros além daquele tempo em que foi filmado.
Paulo Emílio ao consagrar a Glauber como um profeta genialmente avisava que ao profeta
não cabe acertar, cabe profetizar, cabe anunciar o que se quer que aconteça.
E esta é uma linha que tendo em Nelson o refundador nos anos cinquenta vem de tão antes
quanto se fêz a necessidade de um filme representar não qualquer coisa, não apenas o que
se queira, mas os pensamentos, os sentimentos, as decisões de quem o faz. Embora o
conceito se afirme nos anos 60, todos sabemos que o cinema de autor é que fêz rodar a
primeira manivela vendo e contando o que seus realizadores viam, seja o realismo dos
Lumiere, ou a fantasia de Méliès, ou ao contrário como dizia Godard.
Um filme é um compromisso de vida na vida de quem o faz. Nesta época, os anos cinquenta,
redescobria-se como os poetas coloniais, como as revoltas, como os árcades, como os
romanticos, como os modernistas, como os regionalistas, como hoje, que há um país a nossa
frente para se descobrir, para se conhecer e para se construir.
Como reconhecia eu recentemente há uma linha às vêzes tênue que Glauber identificou em
sua Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, de Nelson a Humberto Mauro a Mário Peixoto,
embora Limite só tenha sido visto nos anos 80, o que se faz acompanhar da experiencia de
Helio Silva na fotografia tendo como mestre o genial Edgar Brasil, fotógrafo, artífice de
Limite, e de grande presença no cinema brasileiro até os anos 60. Com ele tambem terá se
iniciado Helio Silva em construir os artefatos indispensáveis a seus enquadramentos já
que não estavam tais mecanismos, carrinhos, gruas, arcos, disponíveis ao cinema de autor.
Interessante como Nelson, vindo de São Paulo, acabou no Rio ao invés da Vera Cruz
seguindo a trilha da primeira Atlantida a cooperativa que reinventou com Alinor e Burle o
drama social urbano antes de ser tragada pelo golpe do maior exibidor do país exibindo
mal seus filmes como fêz a Columbia mundialmente com O Cangaceiro, arruinando-os,
comprando a marca por um nada, desfigurando-a e fazendo a segunda Atlantida, a da
chanchada, que a despeito de seu sucesso comercial só fêz mais enriquecer o seu dono, o
latifundiário audiovisual capitalista, que além de expropiar seus técnicos e artistas,
meios de produção nas mãos e mão de obra barata e mal paga, ainda querem que seja o
modelo para a implantação da industria cinematográfica no país.
O que é tambem uma falácia: industrial no cinema são as máquinas e os negativos. Um filme
não é um produto industrial, cada filme é e tem que ser único, não é um múltiplo como os
carros, resulta de responder às condições reais e imediatas de filmagem. Vejam Mandacaru,
resulta da mudança climática do cenário, a opressão sêca do sertão torna-se a opressão
molhada do agreste. Ao mesmo tempo, um pouco antes ou depois, filma Alex Viany no Rio e
na Bahia, e Trigueirinho Neto e Roberto Pires na Bahia, com Helio Silva aqui e lá, e
Nelson tambem preparando seu Rio 40 Graus.
Cinema como o samba não se aprende na escola, tambem não se faz sòzinho, o autor é o que
reune tantos outros autores para sua contribuição ao imaginário coletivo de seu tempo.(
Sergio Santeiro).