Archive for agosto, 2009

Um Índio.

segunda-feira, agosto 31st, 2009

Um Índio

Sergio Santeiro é um índio.

Hoje faz 58 anos que ele desceu na selva de Copacabana. Talvez tenha estranhado as vestimentas, o idioma, os costumes. Talvez mais que tudo ele tenha estranhado o poder. E foi estudar Sociologia para tentar entender. Talvez tenha entendido, mas estranhou.

Não era essa a sua tribo. Um índio não se deixa escravizar nem escraviza outro índio. Desconhece o conceito de propriedade porque tudo lhe pertence e ele pertence a tudo. Seu valor fundamental é a liberdade.

 Então ele descobriu que nessa selva de pedra havia um ritual que libertava os homens e seu nome era arte. E entre todas as artes havia uma especial. Tão especial que exigia uma alquimia complexa para transformar nada em tudo.

Seu nome era cinema. Tinha encontrado sua tribo e descobriu que ela tambem podia ser exterminada como foram seus ancestrais. E se transformou num guerreiro em defesa de seu povo.

Nessa luta muitas vezes foi ferido. Mas sempre teve a proteção dos curandeiros que aparecem para aplacar sua dor. Apenas uma talvez seja incurável. A dor de ver tantos homens escravizados.

Mas felizmente ainda não foi descoberta a erva que o transforme em prisioneiro.
Niterói, 20 de dezembro de 2002. Ana Terra

Celebração: Lamarca e Zequinha.

domingo, agosto 30th, 2009

Companheiros e Companheiras,

Quando estive em Brotas de Macaúbas, em outubro passado, logo após a 
vitória do PT, ouvi de muita gente que finalmente estava acabando a 
Ditadura lá. Realmente o terror e o medo provocado pela repressão em 
1971 sobre a população permanecia latente. Os coronéis políticos 
locais se utilizavam do medo da população para continuar sua 
dominação. O Cabo Antônio Soldado, que era o policial da cidade em 
1971, elegeu a mulher dele vereadora por dois mandatos repetindo pela 
cidade uma única frase: “Se não elegerem a minha mulher vou trazer o 
comando de volta”. Deu resultado – ela foi vereadora duas vezes. Até 
hoje muita gente tem medo de falar sobre os acontecimentos de 1971 
porque ainda estão traumatizados. Há  pessoas que ainda  hoje, quando 
vêem um helicóptero se desesperam, passam mal. No mês passado a Agente 
Comunitária visitou uma jovem senhora que está grávida pela primeira 
vez, para garantir o atendimento pré-natal e a Bolsa Família. E a 
mulher, que trabalha na roça, se escondeu da  Agente Comunitária e 
mandou recado pelo marido que foi ameaçada pelos Coronéis, que 
derrotados no ano passado procuram as pessoas menos esclarecidas e 
dizem que os dirigentes do PT vão ficar só mais 3 anos e que nas 
próximas eleições eles voltam e quem tiver colaborado com “esses 
caras, vão comer o pão que o diabo amassou”. Ela não aceitou a 
assistência, com medo.

Como companheiro de VPR e irmão de coração de Zequinha Barreto me 
senti na obrigação de ajudar a destruir esse trauma coletivo tão 
profundo vivido por aquelas comunidades. Conversei então com minha 
companheira Maria Sena e começamos a levantar a impressionante 
história. Temos já mais de 30 horas de depoimentos gravados e 
esperamos lançar o filme em setembro de 2010. Acreditamos que aquela 
gente, vendo na tela algumas das pessoas mais dignas e respeitadas da 
cidade falando como participaram e se relacionaram com o movimento 
dirigido por Lamarca, Zequinha Barreto e Santa Bárbara, exorcizarão o 
pavor que sentiram e que isso possa ajudar, junto com outras medidas 
humanas solidárias e de justiça, desfazer a imagem que ficou daqueles 
meses da invasão do Fleury e do Exército.

Uma outra coisa é que este é o primeiro ano de governo democrático em 
Brotas de Macaúbas. Desde 2001 a Igreja realiza uma Celebração aos 
Mártires, no final de semana mais próximo ao dia 17 de setembro, 
realizando uma missa campal no local onde Lamarca e Zequinha foram 
mortos. Este ano a celebração terá um caráter mais abrangente, e 
político. Temos certeza que quanto maior for a celebração, maior será 
o impacto para a superação do trauma vivido. Por isso assumimos a 
responsabilidade de produzir o Evento, e contamos com a presença dos 
companheiros que continuam batalhando pelo direito à memória e à 
verdade a respeito dos nossos mortos, desaparecidos e injustiçados.

Estamos convidando vários companheiros que estão em cargos e mandatos 
federais e estaduais , Comitês Estaduais do Grupo Tortura Nunca Mais   
e demais militantes ligados ao assunto, bem como a todos os 
companheiros de militância para se fazerem presentes.

Programa:

Dia 19 de setembro (sábado)

9h – Missa campal em celebração aos mártires em Pintadas, local onde 
Lamarca e Zequinha morreram. (Desde 2001 a Igreja realiza essa 
celebração levando gente da Pastoral da Juventude, do MST, etc.)

12h. – Almoço na sede do Município de Brotas de Macaúbas.

14h – Ato Político na Praça Central da cidade. Durante o Ato o 
Prefeito vai sancionar uma Lei instituindo feriado municipal o dia 17 
de setembro, dia da morte de Lamarca e Zequinha, para que esse dia 
fique fortemente marcado na memória da cidade.

15h – Inauguração da Sede do Cine-Clube Carlos Lamarca. Será o Cinema 
da cidade. Assim Brotas de Macaúbas estará incluída entre os 8% de 
cidades brasileiras que tem sala de Cinema.

15h30min – Ato de fundação do Instituto Cultural Zequinha Barreto que 
se dedicará à Formação Política e pesquisas sobre a História da Cidade.

17h – Sessão de Cinema: Apresentação de uma Mostra de Cinema 
comemorativa dos 30 anos da Anistia, exibindo entre outros os 
seguintes filmes: “1968- Memória de uma História de Lutas” (Sobre a 
greve de Osasco, onde Zequinha teve um papel importante) ; “Iara – 
Lembrança de uma Mulher” e “Porta de Fogo” do cineasta baiano Edgar 
Navarro – Sobre a perseguição a Lamarca e Zequinha no sertão baiano.

20h – Jantar e noite cultural, com artistas da cidade e região.

Dia 20 de setembro (domingo)

9h – Saída para a Comunidade de Buriti Cristalino, local onde ocorreu 
o massacre e o terror maior à população local.

10h – Visita aos locais históricos de Buriti Cristalino e inauguração 
do Centro de Memória de Buriti Cristalino, que será uma extensão do 
Instituto Cultural Zequinha Barreto de Brotas de Macaúbas.

12h30min – Retorno para a sede do Município, almoço e encerramento da 
programação.

Observações:

1 –  Uma condução será oferecida fazendo o trajeto Salvador/ Brotas de 
Macaúbas no dia 18 de Setembro e o retorno no dia 20 de setembro.

2 – A estadia terá o preço simbólico de R$ 30,00 para hospedagem, café 
da manhã, almoço e jantar.

3 – Os trajetos dentro do município serão realizados pela Prefeitura 
Municipal.

4 – Para a Organização necessitamos que comuniquem a presença e hora 
de chegada pelo e-mail:  senasdecinema@gmail.com  Tel. 71 – 33670555   
Cel. 71 – 91063774

Estamos seguros de contar com a presença de um grande número de 
companheiros e companheiras para que seja uma grande celebração.

Abraços a todos e a todas,

Maria Sena e Roque Aparecido da Silva

A Marcelo Freixo.

domingo, agosto 23rd, 2009

A Marcelo Freixo.

A hora é esta, este é o desafio. Falamos muito, até escrevemos muito, todo mundo sabe que não basta, que é muito pouco. Lá estivemos, indispensável ato de afirmação de cidadania, na solidariedade a Marcelo Freixo ameaçado de morte. Não é possível deixar como está exposto um representante do povo legitimamente eleito que na militância que a ele delegamos assume desabrido o seu dever.

 

Podia ficar lá como tantos, esquivando-se das responsabilidades da vida, fingindo que nada é com ele, podia como muitos acumpliciar-se até com a bandidagem, e podia mesmo como alguns praticar os delitos de roubo e morte abrigados na cada dia mais vergonhosa imunidade parlamentar. Tampouco deu-se a demagogo alardeando promessas fáceis, apenas trocando das ruas os nomes, ou dos privilégios os senhores.

 

A sua tarefa, entre outras que assumiu, foi a de honrar a formação e os votos que lhos deu o povo. Não há como desmontar a violência de todo o dia, o que todos reclamamos, se não a encararmos de frente e se não entendermos que ela não é apenas o abuso de um ou outro indivíduo desequilibrado.

 

Na sociedade em que vivemos, a brasileira, que nem capitalista ainda é, que nem se organizou ainda em função de uma possível relação de algum equilibrio entre a sobrevivência dos que apenas detem sua força de trabalho e os burgueses que impune e irracionalmente a exploram. É nesta exploração que está calcado o abuso de poder da elite que sobre a população se abate.

 

Marcelo ao exercer o seu mandato em defesa do povo não hesitou em encarar de frente, sem bravatas mas apoiado no seu saber jurídico, o triste fenômeno do poder das milícias, delegadas pela elite em sua prática de mais-exploração, e de extermínio dos que até sem propósito às explorações não cedem.

 

Temos que buscar longe, temos que buscar na origem a formação das quadrilhas “legais”que junto às “ilegais”são o que nos tira a qualquer um o elementar e inalienável direito à vida. São fruto do exercício ilegitimo do poder que a sociedade tácitamente confere ao estado. Podemos voltar até o princípio nas invasões portuguesas, as três, que nos impuseram a nação da danação. Mas podemos situar-nos mais perto numa das mais crueis ditaduras, a varguista, ou na mais próxima, a não-só militar de 64.

 

Foi nestes estofos que se criou e mantem o aparelho de repressão do estado que faz das polícias meros capitães do mato a caçar escravos ou a descer gentios ao invés de proteger seus concidadãos Hoje somos todos nós os mestiços os alvos da dominação destas quadrilhas do poder. É fácil ver como a repressão getulista manteve-se na repressão à excessiva criminalização da vida social em que uma mãe pode ser aprisionada por tomar uma barra de manteiga para o alimento de sua criana esfomeada.

 

De repressão em repressão como dizia Graciliano Ramos onde o problema maior é autorizar-se o poder do guarda da esquina chegamos ao abandono dos governos de elite no atendimento que é sua obrigação das necessidades da população excluida exposta à repressão dos bandidos locais que acabam substituidos pela repressão das milicias inicialmente surgidas a pretexto de combatê-los.

 

E assim roda a história ao ponto de ameaçarem a vida, de votarem a morte, de quem votamos para nos defender a vida. A vida de Marcelo Freixo, e não estou a fazer frases, não é só a sua vida, é a de cada um de nós que agora temos que nos erguer aos milhares a sua frente para preservá-la e para nos instruir como fazer para enfrentar a violência, a dos bandidos, a das milícias, a dos governos, e das elites que usurparam no Brasil desde o início o dever do Estado de proteger e garantir o pleno desenvolvimento de sua população. Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

 

 

A Vida.

domingo, agosto 23rd, 2009

A Vida.

 

Vivemos. Consiste em respirar, indispensàvelmente. Em alimentar-se, também indispensável, no máximo, digamos, a 48 horas, antes dá pra suportar, embora não se deva, que o digam os famélicos da terra. Em abrigar-se a salvo das intempéries naturais ou não. E cada vida vale, é igual, a uma vida. Por isso que o detentor de uma vida não pode aniquilar outra vida, senão fica devendo a dele.

 

Assim começa e prossegue o que se chama de ciclo da vida. Embora sejam mais e mais frequentes os centenários, que já o foram também no passado, acho que podemos por hipótese supôr uma base de 80 anos em média para a sobrevivência humana. É um bom tempo para aprender-se a viver, a que será que se destina.

 

A humanidade a partir dos grupos que se espalharam territorialmente veio se transformando no que hoje vemos e vivemos. Houve um tempo em que as sociedades verdadeiramente se compunham igualitárias, uns realmente iguais aos outros e todos participando do coletivo na sua medida e necessidade.

 

Não vou historiar a história do mundo mas surgiram as disputas entre grupos que passaram a organizar-se para além da sobrevivência estrita, bàsicamente uma vitória sobre a natureza: caçando, pescando, colhendo. E chegamos aos nossos dias. Bradam-se palavras e bandeiras mas as sociedades ganhadoras vão impondo o seu estilo de privilégios motivarem o crescimento mais de uns que de outros. Acumular.

 

A questão em si é muito simples: cada um só pode ter o que todos tenham. Ninguém tem direito a mais. Senão fica difícil. Não há como deter essa corrida industrialista seletiva. Muitos trabalham para poucos. E o que fazer com os danos que tal produção para alguns indivíduos causa para a coletividade?

 

Respirar fica difícil, entopem os ares com porcarias, alimentar-se fica difícil, empesteados terras e mares. Abrigar-se também fica difícil, os espaços, vagos, têm donos individuais que não os ocupam, deles não necessitam. A vida fica difícil. Sob a ameaça da vida difícil, muitos mais indivíduos aderem à estratégia de incluírem-se se possível nas politicas de privilégios dominantes. São as classes médias. Na base fica o povo excluido.

 

Mil justificativas – falta escolaridade –  não têm como justificar o êrro, o brutal desperdício de vida, a mais para os poucos burgueses, a menos para a maioria do povo. Na disputa, na refrega por melhores dias a violência torna-se o caminho para participando manterem-se os privilégios de classe – mais dinheiro. O que é preciso é abolir o dinheiro. Ou não dá pra resolver.

 

Os ideais, por exemplo, da Revolução Francesa, lá de trás, tidos como universais, viraram letra morta. Ainda se diz, ainda se repete, mas não se os vê, não estão em parte alguma. Somos mais ou menos aquinhoados que o vizinho, empáfia ou vergonha? Como se sabe, num misto de inveja e medo de cairmos ainda mais pra baixo toleramos a desigualdade que nos impõem e forçamos os de baixo a tolerar também a mais desigualdade que sofrem. Mas a corda que nos puxa e nos amarra chega uma hora em que se rompe.

 

Certamente o crescimento crescente da população nessa escala de desigualdade gera uma complexidade de acordos e ajustes, difíceis de serem negociados e respeitados. As populações sofrem em meio aos luxos e banquetes. Desde menino aprendi que quando erramos a conta começamos de novo. É preciso começar de novo, garantir a vida para todos: um respirar, um alimentar e um abrigar. O resto depois a gente vê como faz.

           Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

Cassinos em Niterói.

domingo, agosto 23rd, 2009

Cassinos em Niterói (À Conferencia Municipal de Comunicação).

 Começa a ficar difícil: uma conferencia teria que básicamente adotar
as inclusões. Vi referencias à sugestão de exclusão de palestrante que
não seria adequada ao tema, parece que as pessoas desconhecem de quem se trata.

Vejo AOS GRITOS (em internetês) que deliberou-se como sempre em
manobras escusas de bastidor excluir logo a “MESA DE EXPERIÊNCIA” que  seria a melhor oportunidade que a Conferencia de Niterói teria de  aglutinar tôdas as atividades da comunicação na cidade.

Atualmente são atividades dispersas, cada um na sua ong, até bem
conduzidas mas que ao contrário até parece que querem permanecer
dispersas ao apostarem no método da exclusão de base para conchavo na cúpula.

E neste caso a Conferencia Municipal de Comunicação estaria
acobertando, encobrindo e acumpliciando-se com a grave perseguição que move a atual Reitoria da UFF contra os canais publicos de Niterói, criados, instituidos, segundo todos os procedimentos legais, acadêmicos e principalmente éticos desde 2000 no Instituto  de Arte e Comunicação  Social: a Unitevê, Canal Universitario de Niterói e a Tv-Comunitária de Niterói.

A primeira, a Unitevê, a reitoria roubou: tirou da área acadêmica e
transformou em chapa branca do serviço de comunicação oficial de sua politica interna cujos recursos são agressão física, fraude em
concurso publico federal da atual direção do Instituto, falsas
denuncias até na Policia Federal, processos escusos, cerceamento aos instrumentos  de trabalho.

Explico-me: em meio a crise causada pela “afiliação” ilegal da Unitevê
à Rede Sesc-Senac de Televisão de São Paulo promove-se a eleição da
atual chapa descumprindo o regime eleitoral vigente, sòmente podendo candidatar-se como em qualquer eleição quem preencha os requisitos legais, no caso a professora d.Mara Eliane Fonseca Rodrigues “eleita” nem era ou titular, ou adjunto 4 ou doutor(a),conforme o art.27 §2o.do Regulamento Geral das
Consultas Eleitorais da UFF. Portanto é inelegível sequer poderia se candidatar.

Trata-se de requisito preliminar, como ter 16 anos pra votar, ter
carteira pra dirigir, ou se fôr dirigir não beba. Um vestibulando que
faça o mesmo, fraudar um concurso publico, pode pegar um processocriminal.

A direção alega que ninguem reclamou no prazo dos 3 dias,
quem poderia imaginar em concurso desta importância tamanha
imoralidade. Sustentou-se em apoio do colegiado que nem era eleito,
portanto tambem ilegal, e na nomeação pelo reitor.

Em troca permitiu o assalto da reitoria aos equipamentos e
funcionários audiovisuais e das teves publicas do IACS inclusive os 2
pares de transmissores óticos transferindo-os atropeladamente ao
balcão de negócios do Cassino de Icaraí.

Sem esquecer a agressão física e de surpresa de que fui alvo pelo vice-diretor cumplice da fraude o João Batista de tal ao consultar o arquivo publico da instituição e a delação da “diretora” à Policia Federal sem ninguem em toda a universidade sequer trocar uma
palavra a respeito. E agora ameaçam excluir do Instituto de Arte e Comunicação Social tambem o outro canal publico a Tv-Comunitária de Niterói.

Não deixa de ser curioso ver a universidade abrigar a conferencia de comunicação não aqui no IACS que é o Instituto de Arte e Comunicação Social e sim no Instituto de Ciencias
Humanas e Filosofia. Vai entender.

Vê-se agora os agressores uffianos dos canais publicos de Niterói
contaminando a Conferencia com a sua vocação policialesca, excludente e difamatória, a despeito de tantos companheiros decentes, iludidos no desconhecimento da situação das atividades da comunicação na cidade,para o que melhor oportunidade não se teria que a mesa de experiencia.

A seguir nêsse passo a Conferencia Municipal ficará imortalizada
como a vitória da exclusão e da perseguição aos militantes da
comunicação livre, publica e independente de Niterói. Sergio Santeiro.

Xadrez

quarta-feira, agosto 19th, 2009

 

Xadrez.

 

Não sou ubíquo como Anchieta, nem onipresente como o outro, só posso estar em um lugar a cada vez, o que não me permite usufruir de todas as ocasiões que gostaria. Perde-se, evidentemente lá

não estando, nem se sabe o que. Talvez a solução de nossas vidas estivesse no lugar a que não fomos.

 

Depois, ouvimos dizer, descrevem-nos as ocorrências e, pasmem, muitas vezes referem-se a nós ausentes, falam de nós sem que pudéssemos ter ouvido e eventualmente respondido. Assim se cria uma imagem nossa sem que possamos intervir na sua feitura. Essa imagem acaba sendo não o que somos ou o que queremos mas o que querem os outros. Será maior ou mais forte que a nossa?

 

O cara é isso mais aquilo, será que sou realmente como querem os outros, como me descrevem. Eu e todos nós somos para nós mesmos um mistério de exterioridade, não temos como nos ver , ver como nos manifestamos, as expressões da nossa face, os comentários de nosso corpo. O que temos, e aí só nós temos é o mistério da interioridade de cada um. O ser de fora e o ser de dentro são inevitavelmente a mesma pessoa.

 

Temos que cuidar dela, resguardá-la, para que não viremos a mera projeção dos outros, e temos que externar-lhes na convivência, no estar presente um frente ao outro, não muito, ou nem tanto de nossa interioridade, para que também ela não vire joguete da vontade alheia. Nem sempre lá, nem sempre cá, há que equilibrar-se nossa vontade e nossa carência com as dos outros.

 

E assim vivemos, tantos mistérios, e guiados só pela intuição, pelo pressentir que devemos agir e escolher ora de um jeito, ora de outro, no xadrez dizem que é decisivo descobrir como o outro age e escolhe. Antecipa-se inúmeros lances, mas é um jogo, muda a cada vez até que chega-se ao fim.

 

Já na vida o fim é a morte, e a ela se pode chegar a qualquer imprevisível momento. Por mais que tenha me esforçado não acredito em nada além do insondável mistério da vida. Não sei de onde viemos, não sei que raio de energia é essa que habita a perfeição de nosso corpo, mas acho que na morte vai essa energia devolvida ao universo.

 

E não só a nossa, a humana, acredito que todos os seres e os não-seres sejam formas geradas pela mesma energia, a que aproxima e a que afasta, a que vê no outro, planta, pedra ou semelhante, um risco de parceria para a sobrevivência. Como a humanidade aprendeu o que é veneno e o que é alimento? Sim, aprendeu com a própria experiência. E o que é um e o que é outro ser ainda não aprendeu. Parece que nesse caso a experiência de cada um não é como a anterior transmissível, cumulativa, aproveitada.

 

A impressão que eu tenho é que na convivência, na descoberta do outro, arrastamo-nos trôpegos, desconfiados que ali mora o perigo, de novo é a intuição, é aquela energia que nos faz feliz ou infelizmente aproximar ou afastar. Dos erros e acertos na aproximação ou no afastamento é que se faz a nossa vida, um tanto sem guia, um tanto sem previsão, sem acumularmos um acêrvo da humanidade, sem antevermos o que no outro é alimento ou veneno.

 

Errando ou acertando se não for fatal sempre temos uma nova chance, voltamos ao tabuleiro, refeito, parece que de tanto voltarmos será que melhoramos o desempenho? E o parceiro ou adversário não terá também melhorado o dele? Conseguiremos esconder nossa interioridade e ao mesmo tempo domar nossa exterioridade?

 

Até que de repente tudo se apague e sejamos e nossa energia devolvidos ao universo.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Mulheres.

domingo, agosto 16th, 2009

Mulheres.

Melhor não tê-las, mas sem tê-las, como sabê-las? Acho que o homem e a mulher eram um só ser. Fendido ao meio, de cima a baixo, ficou o homem com a entrância e a mulher com a reentrância.

Era como um ponto no universo que se foi desdobrando como a multiplicação das células. E do reencontro das metades origina-se um novo ser, cada um de nós, e todos diversos um do outro, assim é a humanidade.

O encontro continuado entre os dois gera o casal, vínculo de momento, que pode evoluir para o casamento, vínculo de permanência, mas cada homem e cada mulher desde que primitivamente apartados permanecem como identidades distintas, personalidades próprias, que podem unir-se mas não refundir-se, nunca mais se um dia o foram voltarão a ser um só ser.

A vida é a arte da convivência entre todos nós seres que somos distintos, em que grau, de que maneira é o que depende de cada um decidir. A cada um compete decidir o que fazer com a alteridade. Cada um é si mesmo, não é o outro.

Enquanto homem posso refletir, imaginar, e decidir o que sou e o que fazer comigo. Pessoalmente não sei e nem tenho como imaginar o que é ser mulher, e acho que a mulher tampouco tem como saber ou imaginar o que é ser homem.

Vivemos ás apalpadelas, ensaio e êrro, e a cada um que vemos do outro é válido pensar na possibilidade de um convívio maior ou menor segundo as vontades de cada qual.

É preciso no entanto resguardar, poupar-nos, da ilusão da identidade, pedaços aproximados no vasto universo não têm como sonhar em refazer sequer um simulacro de unidade.

Divago, mas tudo isso vem a propósito da dificuldade que encontro em penetrar no mundo feminino, mesmo tendo ao que parece uma boa dose de feminilidade, o homem é fálico, a mulher vaginal, mas com as porções sexualmente opostas que em todos nós habitam, ainda assim na minha opinião o mundo oposto é impenetrável embora os corpos se penetrem.

Acho que em tudo existe uma linguagem feminina e uma linguagem masculina não só na exterioridade, na evidente aparência, mas no uso de seus dotes e talentos, não que um seja forte e o outro fraco, mas para mim o pensamento e o sentimento organizam-se mediante mecanismos simbólicos distintas.

A música, a tela, o texto, o filme além das diferenças entre autores, vejo neles na mulher algo mais fluido como as águas, e no homem algo menos como as terras.

Já cansei de ouvir dizerem-me que isto é puro preconceito, fruto da dominação secular de homens sobre as mulheres, embora todos saibamos quantas vêzes a recíproca é também verdadeira.

Acredita-se que um criador, a que chamamos deus, criou o homem à sua imagem e semelhança, talvez por estar na sua inimaginável solidão infinita, só que o ser criado, a criatura, como semelhado, poderia opor-se a deus que lhe era semelhante.

Assim partiu ao meio a criatura, como dizíamos no início, e homem e mulher sendo metades jamais confrontariam o criador.

Mas a criação, o princípio de criação, uma vêz criado não tem como ser desfeito, e as meias criaturas encontrando-se só elas quase iguais no mundo acabam por unir-se em momentos quando o amor entre amantes desagrada aos não-amantes.

Deus, por não ser amante, por não ter metade, expulsa o primeiro casal de amantes, de que, ao que parece, em todas as culturas somos descendentes.

Adão e Eva, Caim e Abel disputando o amor da mãe, deve ser o que gerou o tabu do incesto, a interdição do desejo entre criadores e criaturas, bilhões de metades com tôda a probabilidade para sempre nunca mais encontráveis, restando-nos a permanente procura.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Leveza.

sábado, agosto 15th, 2009

Leveza.

Perdoe o poeta mas leveza é fundamental. Em algumas circunstâncias também prefiro o peso
que a leveza. A leveza o vento leva ou eventualmente traz.  O peso mantém, onde está
fica. Manusear a pesos requer engenho e arte e não se pode pisotear a leveza por  mero
descuido.
Chama-se elegância, finura, o estado de espírito que acolhe a leveza. Elegante, fino, o
que acolhe o peso. O peso e a leveza, o equilibrio necessário à minha cabeça, ao meu
corpo e à minha mente.
A lhaneza é não arrastar as pontas da capa no chão ou arrastá-las. É ser gentil com as
damas, mas firmeza. Ter ou não ter opinião quando lhe convier. Querer ou não querer mais
doce no café.
Bons modos é o modo bom. Pelos meus cabelos até cedem-me lugar no ônibus, fico comovido.
Outro dia uns meninos do morro abriram espaço: – chega aí, mais velho! É encantador. Pra
não falar dos e das menores, é tio pra lá, tio pra cá. Sinto-me protegido, na rua nada de
mal pode me acontecer.
Até as crianças, vergonha nossa, oferecem-se como mão de obra barata, e não estou falando
do pior, estou falando dos malabaristas de limão e/ou das propagandistas imobiliárias no
sinal.
Reclamamos dos que nos atropelam com os folhetos de reclames de crédito fácil, de
consultas de videntes, que recebo, amasso e jogo fora, muitas vezes sem pensar no chão. E
por que não procuro uma ou outra cesta de lixo tão fáceis de encontrar?
Vivemos em meio ao atropelo da vida, achamos ruim quando é conosco. E quando é com eles?
Não temos tempo de cuidar de tudo, é claro, ficamos em meio, no meio, no quase. Vi um
gato, magérrimo, uma das patas ceifada, agonizante. Pensei mas não tive coragem  de pôr
fim ao seu sofrimento. Precisaria matá-lo.  Deixei pra lá.
A adversidade serve pra  ensinar a nos superarmos, o que nem sempre é possível, nem
sempre depende de nós, o que não é desculpa,  é mera constatação. Como lidamos com os
nossos problemas, como lidamos com os problemas dos outros? Muitas vezes, quase todas,
nem temos como interferir, nós mesmos não deixamos.
Tô nem aí pra problemas dos burgueses. Sei o quanto não valem. Só querem saber de mais
real nas suas polpudas contas. Adiam ou negam até presentes pros filhos. O que falta não
sobra.
Mas o pior é que sobra. Lixos e lixões por toda parte. Por que não uma usina de lixo em
cada bairro? Não é pra criar empregos? Não é pra reciclar? Não é pra higienizar? Não é
pra legalizar?
Hesitar não é feio, decidir tambem não é. Feio é roubar e não conseguir carregar. Pés
firmes, mãos leves.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

O Audiovisual em Niterói.

sexta-feira, agosto 14th, 2009

O audiovisual em Niterói.

 

Recebi a tarefa do Saturnino Braga que consultou a universidade para o seu projeto de implantação de um pólo de cinema na cidade como fizera no Rio, nosso destemido prefeito que não se deixou enredar nas confusas finanças municipais. A Universidade mandou-me.

 

Mantive-a todos êsses anos sempre levando às autoridades a possibilidade de uma parceria continuada da UFF com a Prefeitura, afinal o nosso curso de cinema é de excelência nacional e agora volta à marca já de 40 filmes nêste ano o que atesta sua competência. Assim gerou-se o projeto do Pólo Audiovisual de Niterói – PANIT – mediante proposta de convênio aprovada em todas as instâncias regimentais da universidade. E  é isso mesmo, se a idéia é boa, tem que insistir nela.

 

Desde então, muita água rolou sob a ponte, porque o tempo e nada pára, hoje temos muitas atividades audiovisuais na cidade, pontos de cultura, cursos avulsos, e os dois canais públicos de televisão, o universitário e o comunitário implantados por mim na direção do IACS a partir de 2000, e o esperado Ponto Cine no Antonio Callado.

 

E temos a notável iniciativa do Centro Petrobras de Cinema, o prédio concebido por Niemeyer em seu caminho de Niterói: a longa tela à vista da baía que desenrola os rolos de filme empilhados na ponta. Conheço bem o projeto:  além das áreas de pesquisa, 5 salas de exibição comercial para sustentar-se financeiramente mas num bairro pobre, à beira de uma universidade publica, portanto também pobre, e a 500 metros do Plaza e seus cinemarks espertos. Comercialmente não vai dar certo.

 

Melhor como no Sambódromo embutir-lhe o apoio e a otimização das oportunidades audiovisuais em Niterói. Cinemas? Basta  uns três, de 150 lugares, digitais: 1 só passa filme brasileiro de todos os tamanhos e formatos, 1 idem só passa filmes estrangeiros. Vamos ver quem ganha. E um terceiro para um cinema exclusivamente universitário: acadêmico.

 

Lá podíamos montar um curso de extensão de formação profissional em audiovisual e a esperada pós-graduação em cinema da UFF. Podíamos montar um central técnica e de transmissão para as tevês publicas, acrescentando às atuais uma tv-educativa de Niterói, como sugere a legislação de tv a cabo e agregar os pontos de cultura.

 

A escala não é pra ser monumental, é pra ser possível, podemos viabilizá-la através do projeto de ensino, pesquisa e extensão que mantenho na UFF, o Ufficinave, oficina de cinema e vídeo, que atua junto á Tv-Comunitária, 14, de volta aos ares da cidade.

 

Não me eximirei de passar o pires, ou rodar a bolsinha, sei lá,  nos corredores das autoridades financeiras publicas e privadas dado o possível leque de parcerias publico privadas para pleitearmos os recursos de financiamento do BNDES e as demais agências oficiais.

 

E agora, como ilustração, e proposta, assistam ao registro que fizemos na época da inauguração do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o MAC, modesta homenagem a seu criador, em www.youtube.com/sergiosanteiro

Sergio Santeiro(santeiro@anaterra.mus.br)

 

 

Ao Pé do Mandacaru.

quinta-feira, agosto 13th, 2009

Era pra APTC mas ficou grande demais, pra lá mando um curta. Resolvi publicar aqui no meu
blog da ABD, e depois espalho por aí. s.

Ao pé do Mandacaru.
 Assim começa o filme de Nelson Pereira dos Santos, Mandacaru Vermelho, de 1961, com a
canção em voz grave que sintetiza o drama que se verá a seguir. Música e orquestrações e
execução do grande maestro Remo Usai, um dos maiores autores de trilhas sonoras musicais
orquestrais brasileiras, parceiro de Nelson nos Rios.

É infelizmente mais um de nossos velhos a viver em dificuldades na velhice, fala-se de
direitos autorais musicais descumpridos, temas um e outro que deveriam ser garantidos
pelas autoridades oficiais. Não se pode abandonar homem e obra um evidente patrimônio
cultural nacional.

 Lembra-me um semelhante uso da canção popular como em Aruanda, de Linduarte Noronha,
seria algo próximo ao cordel, ao folclore, ter a música como um dos recursos explícitos
de narrativa.”Ó mana, deixa eu ir, ó mana eu vou só”- que Villa Lobos tambem absorveria
em sua bachiana. Coisa que tem um sabor de época.

Manteve Nelson tambem os letreiros originais de Ligia Pape em espanhol da única cópia
encontrada feita matriz da bela restauração que agora podemos assistir. Ligia, a grande
artista que além de seus ensaios posteriores em filmes foi tambem parceira gráfica em
outros tantos. O esquema de produção incluía um parceiro uruguaio, Danilo Trelles,
interessado em Vidas Secas e que se manteve em Mandacaru e que aportou o  negativo virgem.

 Conforme nos contou o Nelson a todo o publico no debate da retrospectiva de Helio Silva,
fotógrafo de Mandacaru, igualmente em muitos filmes seu parceiro, no CCBB a 28 de julho
de 2009, e de que ficou um excepcional catálogo, o filme resultou de manter-se a produção
por ele preparada para o “Vidas Secas”, sua transcriação de Graciliano Ramos.

 Nesta primeira vez, chuvas intensas esverdearam e enxarcaram o cenário, fazendo-o adiar
o Vidas, e a inventar um outro filme que resultou ser o Mandacaru Vermelho, em que ele
próprio Nelson assume o protagonismo, e sua equipe quase todos os demais papéis, de traz
passando para a frente da câmera, sim, apenas uma, extraordinariamente pilotada por Helio
Silva. Entre seus talentos um era construir mecanismos para sua câmera passear sôlta.

A mim me lembra a extraordinaria coleção de Villa Lobos regendo suas músicas com a
Orquestra da Rádio-Televisão Francesa. O autor ele mesmo seu regente. Sai-se bem o Nelson
em seu papel, inclusive com as perigosas cenas de briga no topo de pedra do morro, e
tendo o Helio Silva como spalla, não só na cor do preto e branco mas na operação
caprichosa de câmera.

Fiquei fã de um travelling, como é que se diz essa coisa em brasileiro, é viajando, é
passeando, é andando, deslizando em paralelo à cena filmada. Um entra e sai passando da
mataria enquadrando o sol filtrado entre os galhos, as folhas, e sem, o sol ele mesmo
rápidamente.

O filme de estrutura simples, um negro amor de rendas brancas, um amor que contraria os
não amantes, um drama familiar sertanejo, o cheiro da virgem enlouquecendo a todos, e
surpresa, coisa rara, que eu saiba  só com Raquel de Queiróz: o coronel não é um homem, é
uma matriarca tirânica, sanguinária, como na tragédia grega ou como Shakespeare, gerindo
insana seu latifundio.

Como sempre, como em toda a lenda, acaba vencida pelo espectro do passado vingando o
massacre por ela chefiado no prólogo que avermelhou de sangue o mandacaru e pela chegança
de um forasteiro, irmão mais novo do caboclo, Miguel Torres, lavrador  que não se rende à
meia com a tirana, protege e acompanha como na tragédia clássica aquele que vindo de fora
rompe com a dominação dominante. Leva a filha da família, sobrinha da tirana e por ela
prometida a casar por conveniência.

Note-se que é o primeiro filme rural de Nelson Pereira que duas vêzes o antecedeu
filmando seus notáveis Rio 40 Graus em 55 e Rio Zona Norte em 57 na capital do país, seus
marcos inaugurais do novo cinema moderno brasileiro, a propósito dos quais descobri que a
descrição por ele mesmo apresentada no II Congresso do Cinema Brasileiro, paralelo à
Bienal de São Paulo em 54, do “modo de produção independente” gerou, o que algum dia
conseguirei demonstrar, que é a forma de um “cinema popular socialista” de que seus
filmes bem como outros próximos da época são exemplos, e que como tal se extingue no
golpe de 64 mas mantendo-se o cinema de autor renasce em novo ciclo: o cinema novo.

Mas estamos antes, o que há em Mandacaru que possa aproximá-lo desta discussão? Em ambos
Rios o que vemos são dramas de vida populares, crianças e homens do povo vitimados na
opressão da metrópole, por isto é popular, popular não é só o que é feito diretamente
pelo povo, é também o que é feito a seu favor. E é socialista porque acena com a
possibilidade, com a cobrança de serviços e de justiça publica. O que faz mal ou bem não
é a individualidade dos personagens, é o jogo social, o mundo visto do prisma da
coletividade.

Em Mandacaru é a vitória sobre o latifundio, extinto o passado, um novo casal como os
outros, seus semelhantes, o povo, poderá construir uma nova vida, um novo mundo o que
como se sabe ainda não aconteceu mas que na época tanto se pretendia.

O latifundio é que ainda está aí a ceifar os sonhos dos povos, mas o cinema não é bola de
cristal, não é para adivinhar o futuro, mas é para induzí-lo, é para criar uma imagem
atual que é a do presente, seu tempo, para propor ao futuro já que ficará o filme rodando
muitos futuros além daquele tempo em que foi filmado.
Paulo Emílio ao consagrar a Glauber como um profeta genialmente avisava que ao profeta
não cabe acertar, cabe profetizar, cabe anunciar o que se quer que aconteça.

E esta é uma linha que tendo em Nelson o refundador nos anos cinquenta vem de tão antes
quanto se fêz a necessidade de um filme representar não qualquer coisa, não apenas o que
se queira, mas os pensamentos, os sentimentos, as decisões de quem o faz. Embora o
conceito se afirme nos anos 60, todos sabemos que o cinema de autor é que fêz rodar a
primeira manivela vendo e contando o que seus realizadores viam, seja o realismo dos
Lumiere, ou a fantasia de Méliès, ou ao contrário como dizia Godard.

Um filme é um compromisso de vida na vida de quem o faz. Nesta época, os anos cinquenta,
redescobria-se como os poetas coloniais, como as revoltas, como os árcades, como os
romanticos, como os modernistas, como os regionalistas, como hoje, que há um país a nossa
frente para se descobrir, para se conhecer e para se construir.

Como reconhecia eu recentemente há uma linha às vêzes tênue que Glauber identificou em
sua Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, de Nelson a Humberto Mauro a Mário Peixoto,
embora Limite só tenha sido visto nos anos 80, o que se faz acompanhar da experiencia de
Helio Silva na fotografia tendo como mestre o genial Edgar Brasil, fotógrafo, artífice de
Limite, e de grande presença no cinema brasileiro até os anos 60. Com ele tambem terá se
iniciado Helio Silva em construir os artefatos indispensáveis a seus enquadramentos já
que não estavam tais mecanismos, carrinhos, gruas, arcos, disponíveis ao cinema de  autor.

Interessante como Nelson, vindo de São Paulo, acabou no Rio ao invés da Vera Cruz
seguindo a trilha da primeira Atlantida a cooperativa que reinventou com Alinor e Burle o
drama social urbano antes de ser tragada pelo golpe do maior exibidor do país exibindo
mal seus filmes como fêz a Columbia mundialmente com O Cangaceiro, arruinando-os,
comprando a marca por um nada, desfigurando-a e fazendo a segunda Atlantida, a da
chanchada, que a despeito de seu sucesso comercial só fêz mais enriquecer o seu dono, o
latifundiário audiovisual capitalista, que além de expropiar seus técnicos e artistas,
meios de produção nas mãos e mão de obra barata e mal paga, ainda querem que seja o
modelo para a implantação da industria cinematográfica no país.

O que é tambem uma falácia: industrial no cinema são as máquinas e os negativos. Um filme
não é um produto industrial, cada filme é e tem que ser único, não é um múltiplo como os
carros, resulta de responder às condições reais e imediatas de filmagem. Vejam Mandacaru,
resulta da mudança climática do cenário, a opressão sêca do sertão torna-se a opressão
molhada do agreste. Ao mesmo tempo, um pouco antes ou depois, filma Alex Viany no Rio e
na Bahia, e Trigueirinho Neto e Roberto Pires na Bahia, com Helio Silva aqui e lá, e
Nelson tambem preparando seu Rio 40 Graus.

Cinema como o samba não se aprende na escola, tambem não se faz sòzinho, o autor é o que
reune tantos outros autores para sua contribuição ao imaginário coletivo de seu tempo.(
Sergio Santeiro).