Passion à la Vie

Passion à la Vie.
Oficina de crítica cinematográfica do 20o.Festival Internacional de Curtas Metragens de
São Paulo.

Por Ana Araki (estudante de cinema na Unicamp).

Paródia distinta.
À primeira vista, “Passion à la Vie” pode provocar certa indiferença no espectador ao
transmitir seus signos mais óbvios: o homem maduro, a mulher mais jovem, o interesse
sexual e uma reciprocidade difusa.

Tal percepção ligeira faz com que o curta pareça um tanto embotado pela repetição de
planos e pelo “blasé” do enredo apreendido até então. No entanto, as possibilidades de
interpretação da poética do filme se abrem na medida em que se atenta a certos elementos
que.o envolvem e são envolvidos por ele.

A escolha de utilizar fotografias still evidencia ainda mais o ato de olhar, claramente
trabalhado durante o filme; os olhos do homem sempre atentos a algo que ainda não se pode
ver e, no momento seguinte, a fotografia escancara as pernas da mulher, seu objeto de
desejo – e, portanto, o objeto para o qual se olha tão fixamente que a imagem é congelada
por um instante.

Assim, a obra forja um jogo de olhares (do homem e do espectador) através de um recurso
engenhoso que, por sua essência, está relacionado com o olho humano. Outro ponto
importante é a balada bossa-novista que cinge a paisagem de um Rio de Janeiro em
preto-e-branco, remontando à década de 1950 e estimulando o imaginário do espectador
quanto à época em que vários casais de celebridades internacionais visitaram a capital e
foram flagrados pelas câmeras atentas aos seus movimentos descuidados.

Tal relação enriquece a justificativa contextual do filme, a de se fazer uma paródia à
visita de Sarkosy e Carla Bruni ao Brasil, uma vez que se trata de um casal célebre (no
filme, ele é um velho libidinoso e ela, puro desejo) envolvido numa história que incita
curiosidade e evoca uma espécie de jogo sensual.
Dessa forma, a paródia ocorre sutilmente, mas com primor, através da ótima e invulgar
escolha de recursos para elaborar seus significados, que livram o filme da possibilidade
de uma avaliação “blasé”.
(para vêr o filme acesse www.youtube.com/sergiosanteiro

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