Archive for outubro, 2009

Sòzinho.

quinta-feira, outubro 29th, 2009

Sòzinho.

 Todo mundo nasce só mas ninguém sobrevive sozinho. A não ser o primeiro ser, se é que foi só um, e que ninguém sabe como foi e já faz tanto tempo. Terá sido como os lírios do campo? Assim  fica difícil pensar. Então vamos começar por nós mesmos. Eu, por mim, penso sózinho.

 Será um erro pensar em todos os humanos a partir de mim mesmo, como se fôssem eu, afinal típico filho de classe média urbana e moderna, nascido a 20 de dezembro de 1944, às 12:45 em Copacabana, certamente nasci e sobrevivi diverso de um contemporâneo na China ou na Etiópia. E mais certamente ainda após nascer muito tempo se passou até que me visse sozinho, buscando sobreviver por meus meios, no entanto sempre amparado por meus pais enquanto foram vivos, e até hoje ajudado pela herança de seus bens, nem tantos mas alguns que já fazem bastante diferença dos comuns dos mortais, que em sua maioria no mundo não tiveram tal amparo.

 Nascemos sozinhos, antes, na gestação, fomos, éramos parte de nossos pais, nós todos os humanos. E ao nascer, ao nos botarmos fora de nossas mães, embora fundamental sinal de vida respirássemos sozinhos, precisamos todos nós ser alimentados. Todos nós, salvo se algum, meus semelhantes de classe média sempre fomos alimentados por alguém, primeiro a mãe e depois os expedientes alimentares sociais. Não plantamos, não caçamos, não pescamos e não colhemos.

 Mesmo por bomba ou desastre para cada um de nós ainda se juntos também a morte é uma experiência, a derradeira, solitária. E passamos a vida sozinhos buscando e eventualmente conseguindo companhia. Repetimos a experiência de nossos pais, segundo dizem, inscrita em nós mesmos seja genéticamente, seja socialmente pelo convívio e educação.

 Parece que por isso e por nos alimentarmos material e afetivamente por eles , desde a gestação desenvolvemos nossa sensorialidade pelo que recebemos e nossa sensualidade e freudianamente nossa sexualidade. Neste último caso parece que bàsicamente de modo cruzado: mãe/filho, pai/filha, talvez por que embora não se vá ou não se deva exercê-la plenamente, plenamente só assim seria possível. A atração entre homens e mulheres seria a plenitude possível destas relações inerentes mas não determinadas entre nós.

 A vocação do ser humano portanto não seria ser sozinho, embora muitas e tantas vezes assim  nos sentimos, assim estamos, e muitos, muitíssimos de nossos semelhantes no mundo assim depois de nascidos sobrevivem. Partilhar o mundo, compartilhar a vida acho que poderíamos considerar uma condição natural do ser humano porque nos parece quase impossível imaginar nestes milhares de anos de que temos notícia que sobrevivêssemos sozinhos embora tantas vezes tenhamos que buscar sozinhos a sobrevivência de cada um.

 De repente, a questão não é tanto se estamos, o ser humano, sozinhos no universo, é por que estamos cada um e nossos semelhantes sózinhos na terra – nada em toda a natureza é sózinho, a natureza é necessáriamente coletiva. Será que não somos natureza?

 

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Sexagenário.

segunda-feira, outubro 26th, 2009
Sexagenário 
.
 
Como se escreve, é a idade do sexo. Podia ser sessentão, como quarentão, cinquentão, mas sessenta como eu, que sou espada, não pode. Há que se ter cuidado com as palavras se não elas te condenam. É bem verdade que muito do vigor se foi, não é como nos 30 ou nos 40.

E, pelo menos no meu caso, por mim eu falo, foi como um clarão. Em algum momento na virada do tempo já não é, embora mesma a vontade, a mesma força, o mesmo atrito, o mesmo impacto de quadril contra quadril que nos animava aos dois. Bem sei, como se diz, há como recompensar-se a parceira que, aliás, há também de esforçar-se mais ou pelo menos ter mais paciência que antanho, mestra em receber o que se tiver pra dar.

Ao que eu saiba, o mais espetacular dos prazeres e o de mais fácil acesso com a sua explosão final de dentro pra fora nem sempre é mais possível, e se chega a cansar na tentativa, diz que tem os aditivos, reposição hormonal, sei mais lá o que. No de antes não é a toa que os franceses chamam-na de a pequena morte. Nunca fui como os atletas de bar contando as vezes como eles diziam quase sem parar.

Pra mim sempre foi como um estouro cerebral numa onda que cresce nem sei de onde, e ao derramar na praia fico ali inerme taquicardiacamente a recuperar os fôlegos. Na primeira já tá ótimo, depois, bem, depois se possível, se muito possível, veremos. Também já não aposto corrida, não uso drogas químicas, não brinco de pique e esconde, há muitas coisas que não se recomenda mais a um sexagenário. É a idade do sexo que se vai. Segundo dizem, sabendo usar não vai faltar, mas quem é tão sábio? Eu, nem pensar, eu não disputo.

Tampouco me acomodo, e se acho que a festa do olhar, ao contrário de antes, não vai me levar a lugar nenhum, nem por isso me privo de querer festejar. Sem nem pensar em finalmentes já é um bom gosto imaginar desobssessivamente o que uma ou outra cabrocha pode render. Aliás, sempre foi assim: a vizinha quando passa com seu vestido grená. Ver passar não mata, nem a quem vê e nem a quem passa. Não deixa mossa, nem arranha e, sobretudo, não ofende, ao contrário, é um cumprimento, é como tirar elegantemente o chapéu.

Não sei porque há de ser motivo de escândalo ou de reprimenda. Olhar sem tocar como as frutas na feira, ou se tocar, tocar de leve sem prejudicar a mercadoria, não há por que virar reclamação. Reclamar é falar alto pela segunda vez, nem é preciso, a maciez da pele do produto já avisa, já proclama que não condiz lá muito bem com a nossa pele escamada que, de repente, descobri num susto, estou mais pra peixe que pra pera, uva ou maçã.

Peixe é diferente, não é como a gente. Sei lá se peixe olha, como é o olhar de peixe vivo, embora lamentavelmente já exercito o meu olhar de peixe morto.
Ninguém me diga:
– Tá olhando pra quê?
Nem me pergunte:
– Tá querendo o quê?
– Nonada, tô querendo nada, to só olhando por olhar.

Antigamente também olhava muito só por olhar, a diferença é que nenhuma frangota se atrevia a me chamar de tio, podia chamar de cafajeste, o que a gente nunca sabe se como o olhar é mais assentimento que xingação. Chama-se flertar, o flerte não faz mal, nem engravida, nem assalta, é só como um balé, um tanto difuso, absolutamente imaterial, parece um teste pra ver se a vista ainda alcança, ainda está boa, se ainda enxerga, apesar do “vê se te enxerga” que algumas vezes provoca.

Sinceramente não sei que tanta comoção suscita esse buscar de contágio com quem já não somos mais. E, convenhamos, não sei como é com os meninos, não é a minha praia, mas a dança no olhar dessas cadeiras, e não só as mais tenras também as mais robustas, é claro que não dá aquela explosão de que falava, mas dá um aquecer gostoso das caldeiras que mais uma vez mal não faz a ninguém.

Verdade seja dita que também de sexagenário já estou passando, meu atual sonho de consumo é o vale-idoso, quero passear de lá pra cá, de grátis. Ainda outro dia ouvi dizer que um dos nossos, com tal vale de uma cidade pra outra, há convênios, foi parar no Paraguai. Eu lá não vou, não é o meu caso, é longe demais pros meus desejos. Pra mim só pra andar por aqui mesmo já tá bom. Meu olho não é tão grande, mas continua bem aberto.

Afinal todo o mundo leva a vida no arame,  a viúva, o brotinho e a madame, o velho na porta da Colombo é um assombro, sassaricando. E que mal faz?

25/10/2009

Ismael Nery

sábado, outubro 17th, 2009

Ismael Nery, de Sergio Santeiro por Joice Scavone Costa.

 “Ismael Nery, Cine-Poema”, curta metragem, em 35 mm, de 1979 e duração de aproximadamente 7 minutos. Um “documentário dramático”, diálogo entre os quadros e poemas de Ismael Nery e o cinema de Sergio Santeiro.

 O curta metragem trata do artista plástico e poeta Ismael Nery. É um documentário com uma linguagem inovadora,  pois enquanto o próprio diretor narra poemas de Ismael Nery nos são apresentados seus quadros e a cidade do Rio de Janeiro, numa representação de sua angustia urbana simultânea à imagem de quadros e a voz em off que declama o poema: cine poema. Imagens da cidade do Rio fazem relação da realidade com os quadros e do pensamento expresso em seus poemas, havendo inclusive sincronia entre palavras como o mar; a flecha. Além do “silencio” que influencia no silencio contínuo até o final do filme., apenas com a exposição dos quadros mas de forma insinuante e crítica.

A abordagem tanto da arte plástica como a poesia de Ismael Nery levam à concretude de suas idéias (as montanhas são transformadas em prédios, essa é a “paisagem em formação ainda não colorida”. Imagens do morro aparecem.

 O poema declamado, assim como o filme, fala do “medo dos homens”; do mundo “desabitado” aparecem imagens de muitas pessoas na rua (contrário). Enquanto a narração fala que tudo se povoou, “transbordante”, a imagem é de uma cidade vazia. E quando o poeta fala de mulher são mulheres pintadas que mostram sua visão em outro sentido. No poema “Pós-essencialista” a imagem volta a seguir as palavras ditas …  Aparecem plantas na tela, enquanto ouvimos sobre as “plantas” e as “montanhas”, essas são concretizadas em arranhacéus (plantas versus urbano). Essa relação entre as três formas de arte, tratadas simultâneamente, sem separar para apresentar cada um dos itens, ou mesmo o artista (o artista plástico e poeta Ismael Nery e o cineasta Sergio Santeiro).

A edição aumenta progressivamente a fragmentação dos planos e aumenta a movimentação da câmera na mão (câmera oscilante, não tremida). Resulta em uma progressão da interação do espectador com o filme e com as idéias abordadas, além de aumentar a densidade psicológica da relação som e imagem (POEMA E QUADROS/FILMAGENS). “Silêncio” … seguido de silêncio que nos leva à reflexão sobre o que nos foi exposto ainda na sala de cinema.

 O filme torna o documentário dramático e utiliza as palavras e imagens para a crítica de uma sociedade ainda em regime ditatorial. As telas e palavras ordenadas em poesia nos atingem do lírico ao real enfrentando a cidade e suas marcas.

 A relação do “eu” com o mundo e do Mundo com Brasil; o Rio de Janeiro são ditas em “elefantes”; “desertos da África”;”Pirâmides do Egito”; “Belém do Pará”. Enquanto isso a câmera fecha o quadro no Rio, na crítica política de seus muros pichados com protestos ilegíveis. No silêncio continua a relação do mundo com o brasileiro Ismael Neryemseus quadros que citam a “Arte” e os “Músculos” de Davi e as “Mulheres” de Dali.

Ismael Nery não aparece, só o seu trabalho e a interpretação do que ele sentiu e escreveu e pintou pelo diretor Sergio Santeiro.(Ver o filme em www.youtube.com/sergiosanteiro

Em Memória de Carlos Marighella

sexta-feira, outubro 9th, 2009

Prezados:
Dia 4 de novembro completam 40 anos do assassinato de Carlos
Marighella. Estamos circulando um manifesto que será lido em atos
públicos e publicado. Quem quiser assinar é bem vindo.
Abraços
Silvio Tendler

      EM MEMÓRIA DE CARLOS MARIGHELLA

     Carlos Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969, em
São Paulo, numa emboscada chefiada pelo mais notório torturador do
regime militar.    Revolucionário destemido,  morreu lutando pela
democracia, pela soberania  nacional e pela justiça social.

    Da juventude rebelde, como estudante de Engenharia, em Salvador,
às brutais torturas sofridas nos cárceres do Estado Novo; da
militância partidária disciplinada, às poesias exaltando a liberdade;
da firme intervenção parlamentar como deputado comunista na
Constituinte de 1946, à convocação para a resistência armada, toda a
sua vida esteve pautada por um compromisso inabalável com as lutas do
nosso povo.

    Decorridos quarenta anos, deixamos para trás o período do medo e
do terror. A Constituição Cidadã de 1988 garantiu a plenitude do
sistema representativo, concluindo uma longa luta de resistência ao
regime ditatorial.  Nesta caminhada histórica, os mais diferentes
credos, partidos, movimentos e instituições somaram forças.

    O Brasil rompeu o século 21 assumindo novos desafios. Prepara-se
para realizar sua vocação histórica para a soberania, para a liberdade
e para a superação das inúmeras iniqüidades ainda existentes. Por
outros caminhos e novos calendários, abre-se a possibilidade real do
nosso País realizar o sonho que custou a vida de Marighella e de
inúmeros outros heróis da resistência. Garantida a nossa liberdade
institucional, agora precisamos conquistar a igualdade econômica e
social, verdadeiros pilares da democracia.

    A América Latina está superando um longo e penoso ciclo histórico
onde ocupou o lugar de quintal da superpotência imperial.  Mais uma
vez, estratégias distintas se combinam e se complementam para
conquistar um mesmo anseio histórico: independência, soberania,
distribuição das riquezas, crescimento econômico, respeito aos
direitos indígenas, reforma agrária, ampla participação política da
cidadania.  Os velhos coronéis do mandonismo, responsáveis pelas
chacinas e pelos massacres impunes em cada canto do nosso continente,
estão sendo varridos pela história e seu lugar está sendo ocupado por
representantes da liberdade, como Bolívar, Martí, Sandino, Guevara e
Salvador Allende.

    E o nome de Carlos Marighella está inscrito nessa honrosa galeria
de libertadores. A passagem dos quarenta anos do seu assassinato
coincide com um momento inteiramente novo da vida nacional.  A secular
submissão está sendo substituída pelos sentimentos revolucionários de
esperança, confiança no futuro, determinação para enfrentar todos os
privilégios e erradicar todas as formas de dominação.

     O novo está emergindo, mas ainda enfrenta tenaz resistência das
forças reacionárias e conservadoras que não se deixam alijar do poder.
 Presentes em todos os níveis dos três poderes da República, estas
forças conspiram contra os avanços democráticos. Votam contra os
direitos sociais. Criminalizam movimentos populares e garantem
impunidade aos criminosos de colarinho branco. Continuam chacinando
lideranças indígenas e militantes da luta pela terra. Desqualificam
qualquer agenda ambiental. Atacam com virulência os programas de
combate à fome. Proferem sentenças eivadas de preconceito contra
segmentos sociais vulneráveis. Ressuscitam teses racistas para
combater as ações afirmativas. Usam os seus jornais, televisões e
rádios para pregar o enfraquecimento do Estado. Querem o retorno dos
tempos em que o deus mercado era adorado como o organizador supremo da
Nação.

    Não admitimos retrocessos. Nem ao passado recente do
neoliberalismo e do alinhamento com a política externa
norte-americana, nem aos sombrios tempos da ditadura, que a duras
penas conseguimos superar.

    A homenagem que prestamos agora a Carlos Marighella reforça a
pressão crescente para que sejam apuradas, com rigor, todas as
violações dos Direitos Humanos ocorridas nos vinte e um anos de
ditadura. Já não é mais possível interditar o debate retardando o
necessário ajuste dos brasileiros com a sua história. Impõe-se a
abertura pública de todas as informações sobre os crimes, bem como
sobre a identidade dos torturadores e assassinos, seus mandantes e
seus financiadores.

    Precisamos enfrentar as forças reacionárias e conservadoras que
defendem como legítima uma lei de auto-anistia que a ditadura impôs,
em 1979, sob chantagens e ameaças. Sustentando a legalidade de leis
que foram impostas pela força das baionetas, ignoram que um regime
nascido da violação frontal da Constituição padece, desde o
nascimento, de qualquer legitimidade. E procuram encobrir que eram
ilegais todas as leis de um regime ilegal.

    Sentindo-se ameaçadas, estas forças renegam as serenas
formulações e sentenças da ONU e da OEA indicando que as torturas
constituem crime contra a própria humanidade, não sendo passíveis de
anistia, indulto ou prescrição. E se esforçam para encobrir que, no
preâmbulo da Declaração Universal que a ONU formulou, em 10 de
dezembro de 1948, está reafirmado com todas as letras o direito dos
povos recorrerem à rebelião contra a tirania e a opressão.

    Por tudo isso, celebrar a memória de Carlos Marighella, nestes
quarenta anos que nos separam da sua covarde execução, é reafirmar o
compromisso com a marcha do Brasil e da Nuestra America rumo à
realização da nossa vocação histórica para a liberdade, para a
igualdade social e para a solidariedade entre os povos.

    Celebrando a memória de Carlos Marighella, abrimos o diálogo com
as novas gerações garantindo-lhes o resgate da verdade histórica.
Reverenciando seu nome e sua luta, afirmamos nosso desejo de que nunca
mais a violência dos opressores possa se realimentar da impunidade.
Carlos Marighella está vivo na nossa memória e nas nossas lutas.

    Brasil, 4 de novembro de 2009.

Enviada por: Silvio Tendler <caliban@caliban.com.br>

Mamãe Macaca

sexta-feira, outubro 9th, 2009

Mamãe Macaca.

A minha mãe, a tua, a nossa, a de todos os humanos era uma macaca. Extraordinária a revelação de que o cara estava certo. Andando nestas mesmas plagas que pisamos Darwin tinha razão. Reconstitui-se fóssilmente a espécie africana de 4,4 milhões de anos que superou a anterior Lucy, no céu com diamantes, de apenas 3 milhões de anos atrás. Conseguem imaginar essa quantidade de tempo? Eu não.

 Chamaram-na Ardi, a de pés no chão, um esqueleto, uma fêmea,  um Ardipithecus ramidus, uma espécie que viveu onde hoje é a Etiópia, Mama África. Sem o menor pudor, já que se trata de nossa mãe, copio a matéria.

 Descrita em detalhes em uma edição especial da revista “Science” (deve ter na rede), a espécie é a mais antiga ancestral em linha direta do homem moderno (Homo Sapiens). É a mais velha integrante inequívoca de uma longa linhagem que se estende dos humanos anatomicamente modernos ao último ancestral comum com o chimpanzé, nosso mais próximo parente vivo, com o qual compartilhamos cerca de 99% de nosso DNA.

 Mas Ardi, cujos primeiros fósseis foram descobertos em 1994, ainda não é o elo perdido entre homens e chimpanzés. Este, provàvelmente, viveu entre 6 a 7 milhões de anos atrás. Medindo pouco mais de um metro, cerca de 1,20 e pesando 50 quilos, Ardi tinha o corpo peludo, uma cabeça semelhante à de um macaco e dedos dos pés que permitiam que subisse em árvores com facilidade, (como nós meninos). Suas mãos, pulsos e pélvis, porém , mostra que ela caminhava como um ser humano moderno e não como um chimpanzé ou um gorila (com os olhos à altura do horizonte). Ao todo foram analisados 125 fragmentos de ossos. Havia desenvolvido o bipedalismo e andava ereto.

 Ardi foi encontrada numa vila próxima a Afar Rift, no nordeste da Etiópia, onde muitos fósseis e plantas e animais foram também descobertos. Achados perto do esqueleto, relativamente completo, na medida em que ficaram preservadas a cabeça, as mãos e os pés, indicam que na época de Ardi, aquela região era arborizada. Os caninos superiores de Ardi eram mais parecidos com os pequenos e grossos dentes de seres humanos modernos do que com os grandes e afiados caninos dos chimpanzés.

 Detalhes do crânio indicam que o cérebro estava posicionado de forma semelhante à dos humanos modernos, abrangendo áreas que envolvem aspectos visuais e de percepção espacial  (seus olhos à altura do horizonte).Quando você olha da cabeça aos pés, vê uma criatura que não é nem chimpanzé, nem é humano, é Ardipithecus, diz o pesquisador Tim White, diretor do Centro de Evolução Humana da Universidade da Califórnia, que coordenou a pesquisa.

 Né por nada não, isto é que é ganhar a sede da Olimpíada. O homem é africano. Acho difícil entender que nós todos os 4 bilhões que somos no planeta com todas as nossas espetaculares diferenças inclusive físicas viemos de uma só origem, certamente não uma mas pelo menos duas criaturas: um e uma. Mas olhando nos seus olhos, nos da imagem reconstituída, carinhosos, de dentro de mim exclamo reconhecido: Mamãe!

 Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

Um bebê

quinta-feira, outubro 1st, 2009

Um bebê.

Quantos bebês nascem a cada segundo no mundo?  Não sei o que fazer com a humanidade vivente. Tá tudo dominado. É preciso que a humanidade assuma plenamente a plena sobrevivência de cada bebê. Yes we can.

 Não sei como resolver os conflitos e confrontos históricos entre etnias, povos, culturas, e poderes. O xeque mate do que chamamos civilização está posto. Quem triunfa? Quem explode a bomba?  A humanidade é também, ou devia ser, o grande e maior sucesso da criação como quer que ela tenha ocorrido.

 Seja uma explosão, seja um gás, a vida como a conhecemos, como nos conhecemos, existe, e é ela que vivemos a cada dia. Não vão querer que eu enumere a barbárie das sociedades civilizadas que se acham e exercem-se como donas do mundo. 

 Prefiro pensar nos nascituros. Cada um de nós quando nascemos somos um ser novo. Não somos, afora os atavismos genéticos, não temos nada que ver com os compromissos históricos que apartam o universo.

 Era preciso um acordo planetário de não transferirmos aos nascituros esse carma de ódio, de confronto e de extermínio que a todos nós contamina.. Cada nascituro, e quantos são na humanidade, tem o condão da vida nova, a que não deve reproduzir o de antes mas tem que inventar o amanhã.

 Nós os viventes somos os bebês que bem ou mal sobreviveram à fome, à peste, à guerra. Somos gestados e nascidos do mesmo modo, logo, logo, passamos a depender e a ser moldados por nossas condições de vida,  primeiro herdadas e depois construídas por nós mesmos.

 A tal ponto chegamos que, apesar de termos até o momento garantido a nossa própria sobrevivência pouco ou nada podermos fazer para garantir a sobrevivência da espécie. Por que temos que assistir pixotes toda a vida?

 O mal da humanidade é o descaso pela vida. Sobrepujamos a do próximo para garantir a nossa e depois deixamo-nos quedos a contemplar o desastre.  Se pensarmos, ficaremos aterrados pelas estatísticas, números inúmeros de vida morta. Se não pensamos , que diabo de natureza nos distingue do resto material do mundo.

 Assim como especulamos sobre a vida fora da Terra por que não batalharmos pela vida aqui embaixo, certamente muito mais poderíamos fazer.  Nada, a não ser uma primeva ferocidade tribal, explica o estranhamento de povos e pessoas até a violência e a morte. Muitas vezes quase sempre motivos fúteis e banais encobrem o manipular de uns sobre os outros.

 Estaria a humanidade viva condenada pelas correntes dos passados? Rompa-se as correntes. Pela vida, como diz um meu compadre, e se não der pra ser pra nós que já somos que seja pelo menos pros que ainda vão ser.  Paz e concórdia não devem ser sòmente letras de bandeiras, têm que ser o máximo empenho para que nos enterrem dignos.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).