Ismael Nery

Ismael Nery, de Sergio Santeiro por Joice Scavone Costa.

 “Ismael Nery, Cine-Poema”, curta metragem, em 35 mm, de 1979 e duração de aproximadamente 7 minutos. Um “documentário dramático”, diálogo entre os quadros e poemas de Ismael Nery e o cinema de Sergio Santeiro.

 O curta metragem trata do artista plástico e poeta Ismael Nery. É um documentário com uma linguagem inovadora,  pois enquanto o próprio diretor narra poemas de Ismael Nery nos são apresentados seus quadros e a cidade do Rio de Janeiro, numa representação de sua angustia urbana simultânea à imagem de quadros e a voz em off que declama o poema: cine poema. Imagens da cidade do Rio fazem relação da realidade com os quadros e do pensamento expresso em seus poemas, havendo inclusive sincronia entre palavras como o mar; a flecha. Além do “silencio” que influencia no silencio contínuo até o final do filme., apenas com a exposição dos quadros mas de forma insinuante e crítica.

A abordagem tanto da arte plástica como a poesia de Ismael Nery levam à concretude de suas idéias (as montanhas são transformadas em prédios, essa é a “paisagem em formação ainda não colorida”. Imagens do morro aparecem.

 O poema declamado, assim como o filme, fala do “medo dos homens”; do mundo “desabitado” aparecem imagens de muitas pessoas na rua (contrário). Enquanto a narração fala que tudo se povoou, “transbordante”, a imagem é de uma cidade vazia. E quando o poeta fala de mulher são mulheres pintadas que mostram sua visão em outro sentido. No poema “Pós-essencialista” a imagem volta a seguir as palavras ditas …  Aparecem plantas na tela, enquanto ouvimos sobre as “plantas” e as “montanhas”, essas são concretizadas em arranhacéus (plantas versus urbano). Essa relação entre as três formas de arte, tratadas simultâneamente, sem separar para apresentar cada um dos itens, ou mesmo o artista (o artista plástico e poeta Ismael Nery e o cineasta Sergio Santeiro).

A edição aumenta progressivamente a fragmentação dos planos e aumenta a movimentação da câmera na mão (câmera oscilante, não tremida). Resulta em uma progressão da interação do espectador com o filme e com as idéias abordadas, além de aumentar a densidade psicológica da relação som e imagem (POEMA E QUADROS/FILMAGENS). “Silêncio” … seguido de silêncio que nos leva à reflexão sobre o que nos foi exposto ainda na sala de cinema.

 O filme torna o documentário dramático e utiliza as palavras e imagens para a crítica de uma sociedade ainda em regime ditatorial. As telas e palavras ordenadas em poesia nos atingem do lírico ao real enfrentando a cidade e suas marcas.

 A relação do “eu” com o mundo e do Mundo com Brasil; o Rio de Janeiro são ditas em “elefantes”; “desertos da África”;”Pirâmides do Egito”; “Belém do Pará”. Enquanto isso a câmera fecha o quadro no Rio, na crítica política de seus muros pichados com protestos ilegíveis. No silêncio continua a relação do mundo com o brasileiro Ismael Neryemseus quadros que citam a “Arte” e os “Músculos” de Davi e as “Mulheres” de Dali.

Ismael Nery não aparece, só o seu trabalho e a interpretação do que ele sentiu e escreveu e pintou pelo diretor Sergio Santeiro.(Ver o filme em www.youtube.com/sergiosanteiro

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