Sexagenário.

Sexagenário 
.
 
Como se escreve, é a idade do sexo. Podia ser sessentão, como quarentão, cinquentão, mas sessenta como eu, que sou espada, não pode. Há que se ter cuidado com as palavras se não elas te condenam. É bem verdade que muito do vigor se foi, não é como nos 30 ou nos 40.

E, pelo menos no meu caso, por mim eu falo, foi como um clarão. Em algum momento na virada do tempo já não é, embora mesma a vontade, a mesma força, o mesmo atrito, o mesmo impacto de quadril contra quadril que nos animava aos dois. Bem sei, como se diz, há como recompensar-se a parceira que, aliás, há também de esforçar-se mais ou pelo menos ter mais paciência que antanho, mestra em receber o que se tiver pra dar.

Ao que eu saiba, o mais espetacular dos prazeres e o de mais fácil acesso com a sua explosão final de dentro pra fora nem sempre é mais possível, e se chega a cansar na tentativa, diz que tem os aditivos, reposição hormonal, sei mais lá o que. No de antes não é a toa que os franceses chamam-na de a pequena morte. Nunca fui como os atletas de bar contando as vezes como eles diziam quase sem parar.

Pra mim sempre foi como um estouro cerebral numa onda que cresce nem sei de onde, e ao derramar na praia fico ali inerme taquicardiacamente a recuperar os fôlegos. Na primeira já tá ótimo, depois, bem, depois se possível, se muito possível, veremos. Também já não aposto corrida, não uso drogas químicas, não brinco de pique e esconde, há muitas coisas que não se recomenda mais a um sexagenário. É a idade do sexo que se vai. Segundo dizem, sabendo usar não vai faltar, mas quem é tão sábio? Eu, nem pensar, eu não disputo.

Tampouco me acomodo, e se acho que a festa do olhar, ao contrário de antes, não vai me levar a lugar nenhum, nem por isso me privo de querer festejar. Sem nem pensar em finalmentes já é um bom gosto imaginar desobssessivamente o que uma ou outra cabrocha pode render. Aliás, sempre foi assim: a vizinha quando passa com seu vestido grená. Ver passar não mata, nem a quem vê e nem a quem passa. Não deixa mossa, nem arranha e, sobretudo, não ofende, ao contrário, é um cumprimento, é como tirar elegantemente o chapéu.

Não sei porque há de ser motivo de escândalo ou de reprimenda. Olhar sem tocar como as frutas na feira, ou se tocar, tocar de leve sem prejudicar a mercadoria, não há por que virar reclamação. Reclamar é falar alto pela segunda vez, nem é preciso, a maciez da pele do produto já avisa, já proclama que não condiz lá muito bem com a nossa pele escamada que, de repente, descobri num susto, estou mais pra peixe que pra pera, uva ou maçã.

Peixe é diferente, não é como a gente. Sei lá se peixe olha, como é o olhar de peixe vivo, embora lamentavelmente já exercito o meu olhar de peixe morto.
Ninguém me diga:
– Tá olhando pra quê?
Nem me pergunte:
– Tá querendo o quê?
– Nonada, tô querendo nada, to só olhando por olhar.

Antigamente também olhava muito só por olhar, a diferença é que nenhuma frangota se atrevia a me chamar de tio, podia chamar de cafajeste, o que a gente nunca sabe se como o olhar é mais assentimento que xingação. Chama-se flertar, o flerte não faz mal, nem engravida, nem assalta, é só como um balé, um tanto difuso, absolutamente imaterial, parece um teste pra ver se a vista ainda alcança, ainda está boa, se ainda enxerga, apesar do “vê se te enxerga” que algumas vezes provoca.

Sinceramente não sei que tanta comoção suscita esse buscar de contágio com quem já não somos mais. E, convenhamos, não sei como é com os meninos, não é a minha praia, mas a dança no olhar dessas cadeiras, e não só as mais tenras também as mais robustas, é claro que não dá aquela explosão de que falava, mas dá um aquecer gostoso das caldeiras que mais uma vez mal não faz a ninguém.

Verdade seja dita que também de sexagenário já estou passando, meu atual sonho de consumo é o vale-idoso, quero passear de lá pra cá, de grátis. Ainda outro dia ouvi dizer que um dos nossos, com tal vale de uma cidade pra outra, há convênios, foi parar no Paraguai. Eu lá não vou, não é o meu caso, é longe demais pros meus desejos. Pra mim só pra andar por aqui mesmo já tá bom. Meu olho não é tão grande, mas continua bem aberto.

Afinal todo o mundo leva a vida no arame,  a viúva, o brotinho e a madame, o velho na porta da Colombo é um assombro, sassaricando. E que mal faz?

25/10/2009

Comments are closed.