Sòzinho.

Sòzinho.

 Todo mundo nasce só mas ninguém sobrevive sozinho. A não ser o primeiro ser, se é que foi só um, e que ninguém sabe como foi e já faz tanto tempo. Terá sido como os lírios do campo? Assim  fica difícil pensar. Então vamos começar por nós mesmos. Eu, por mim, penso sózinho.

 Será um erro pensar em todos os humanos a partir de mim mesmo, como se fôssem eu, afinal típico filho de classe média urbana e moderna, nascido a 20 de dezembro de 1944, às 12:45 em Copacabana, certamente nasci e sobrevivi diverso de um contemporâneo na China ou na Etiópia. E mais certamente ainda após nascer muito tempo se passou até que me visse sozinho, buscando sobreviver por meus meios, no entanto sempre amparado por meus pais enquanto foram vivos, e até hoje ajudado pela herança de seus bens, nem tantos mas alguns que já fazem bastante diferença dos comuns dos mortais, que em sua maioria no mundo não tiveram tal amparo.

 Nascemos sozinhos, antes, na gestação, fomos, éramos parte de nossos pais, nós todos os humanos. E ao nascer, ao nos botarmos fora de nossas mães, embora fundamental sinal de vida respirássemos sozinhos, precisamos todos nós ser alimentados. Todos nós, salvo se algum, meus semelhantes de classe média sempre fomos alimentados por alguém, primeiro a mãe e depois os expedientes alimentares sociais. Não plantamos, não caçamos, não pescamos e não colhemos.

 Mesmo por bomba ou desastre para cada um de nós ainda se juntos também a morte é uma experiência, a derradeira, solitária. E passamos a vida sozinhos buscando e eventualmente conseguindo companhia. Repetimos a experiência de nossos pais, segundo dizem, inscrita em nós mesmos seja genéticamente, seja socialmente pelo convívio e educação.

 Parece que por isso e por nos alimentarmos material e afetivamente por eles , desde a gestação desenvolvemos nossa sensorialidade pelo que recebemos e nossa sensualidade e freudianamente nossa sexualidade. Neste último caso parece que bàsicamente de modo cruzado: mãe/filho, pai/filha, talvez por que embora não se vá ou não se deva exercê-la plenamente, plenamente só assim seria possível. A atração entre homens e mulheres seria a plenitude possível destas relações inerentes mas não determinadas entre nós.

 A vocação do ser humano portanto não seria ser sozinho, embora muitas e tantas vezes assim  nos sentimos, assim estamos, e muitos, muitíssimos de nossos semelhantes no mundo assim depois de nascidos sobrevivem. Partilhar o mundo, compartilhar a vida acho que poderíamos considerar uma condição natural do ser humano porque nos parece quase impossível imaginar nestes milhares de anos de que temos notícia que sobrevivêssemos sozinhos embora tantas vezes tenhamos que buscar sozinhos a sobrevivência de cada um.

 De repente, a questão não é tanto se estamos, o ser humano, sozinhos no universo, é por que estamos cada um e nossos semelhantes sózinhos na terra – nada em toda a natureza é sózinho, a natureza é necessáriamente coletiva. Será que não somos natureza?

 

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Comments are closed.