Archive for novembro, 2009

Chove na Tela.

quarta-feira, novembro 25th, 2009

Chove na Tela.

O único ponto de contato entre a revolução no cinema brasileiro e a do neo-realismo e a da nouvelle vague que são contemporâneos é a descoberta por eles da luz natural a que sempre estivemos lidando inclusive pela inadequada emulsão, coisa que os favoreceu, e fêz o cinema brasileiro ser o precursor de dispensar o que os americanos nem imaginam pois por faltar-lhes ficam sempre a querer mais luz.

Menas luz, não basta o sol? E os europeus ainda levam a vantagem dos difusores naturais atmosféricos. Pra nós aqui a barra é dura, muitas vezes não dá pra filmar de tanta luz, ou dá, dependendo do artífice na câmera que além da luz na hora controla a luz na revelação. Não é uma grande palavra? Revelação é um dos pilares da sociedade ocidental.

Daí que os brasileiros inventaram o mais branco e por suposto o mais preto. Deixa estourar apenas um pouco mais, não ter medo da luz, e só precisar capturá-la suavemente. Nada se compara ao  recorte de imagem na tela, em nossa era digital, o que mais se vê é que chove na tela. A fotografia, a base, é o instante, no cinema é o momento. Cada momento, unidade entre o ação e o corta, chama-se plano. E de momento em momento, de plano em plano vai-se fazendo o filme. Não necessàriamente nessa ordem, diz Godard. Nunca na ordem.

É uma palavra. É preciso tomar cuidado com as palavras, mal usadas, elas influem nos juízos provocando desvios, e assim é com a palavra ordem que agrego ao arsenal de palavras erradas: ordem, demasiado autoritária; cadeia produtiva, nenhuma pode sê-lo; publico alvo, é escusado alvejar o publico, seja atirando, seja branqueando; e grade de programação, é preciso libertá-la.

E aí estamos com o audiovisual bombando por todos os lados, como sempre, em desiguais condições. A franquia digital no filmar banaliza a mensagem. Filma-se, ou grava-se, de qualquer jeito, o acaso é bom parceiro mas não é só ele que dita o filme. Só ele, fica uma alucinação de crioulo doido mais parece esse tal de videoclipe. No comércio não tem problema, é sempre mais do mesmo, às vêzes um pouco disfarçado.

Aos criadores do patrimonio audiovisual brasileiro tristemente é tambem um mais do mesmo: escassa pecúnia. Nunca vi tanto meio circulante circulando no cinema mas de forma absurda, muita festividade pra pouca efetividade. Logram alguns fazer seus filmes, dificil é exibi-los, e ainda mais decentemente. Faltam cinemas. Sempre falta, sempre faltará, mas o que primeiro falta é garantir a ocupação das salas que existem e das que existirão para o audiovisual brasileiro.

Aquele, segundo Paulo Emílio, que nos diz mais que qualquer filme estrangeiro, permitindo a circulação de nossos sentimentos e nossas idéias. E nem é patriotismo tampouco nacionalismo, pêtas vindas junto com a invasão colonialista. É nativismo, é o direito primordial do nascituro à terra que o viu nascer. Tenho pra mim que todos temos direito em vida ao mesmo chão em que vão nos botar na morte.

Quanto seria? Imaginar-se uma extensão de terra equânime para toda a humanidade em tôrno ao ponto de nascença de cada um. Assim talvez tenha sido desde o início até o surgimento da propriedade. Mais uma vêz olha o jogo perigoso das palavras: propriedade é o que é próprio a cada um, portanto não pode ser mais de uns que de outros, para ser própria, tem que ser para todos, senão é imprópria ou é apropriada. Estamos há séculos no mundo da propriedade, fomos à lua, dizem, só não conseguimos superar essa enorme distancia entre os que temos mais e os que tem menos.

Tornar-me fui um demagogo?

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

É Natal.

domingo, novembro 22nd, 2009

É Natal.

Não o dele, nem o meu, ambos em dezembro, é o Natal no Rio Grande do Norte, onde é natal o ano inteiro, e não o de Santa mas o da grande duna que litoral afora vai dar no Ceará. Ainda outro dia, numa das últimas aulas do ano, semana passada, cogitávamos os estudantes e eu de dois grandes eventos  que marcam o tempo que vivemos.

Um foi o surgimento súbito e inesperado da cifra espantosa mobilizada para satisfazer a ânsia devoradora do capitalismo internacional: o quatrilhão. O que é um quatrilhão? Nem consigo pensar. Meu teto financeiro imaginável é um milhão, pra mais é coisa demais pra mim, mas foi o que por primeira vez li no jornal. Botei no quadro branco a cifra, começando com o 1 e fui acrescentando os zeros, afinal 15.

Ficou lá, como enigma para os retardatários que iam chegando e que não conseguiam decifrá-lo. O que é isto: 1.000.000.000.000.000? A outra questão tambem colocada na aula é referindo-se ao natal que já entope ruas e lojas à cata de mais um surto de consumo consumista: o que será de Noel, não o nosso, o Rosa, mas o deles, o Nicolau, quando derreterem-se as calotas polares,  já que se vão derretendo tôdas as neves suspensas.

E descobrimos: virá um novo lá de onde tudo começou, não o das neves mas o de África. Um Noel tinto e retinto como a mamacaca Ardi que já enalteci aqui tempos atrás. Aqui em Natal  aportei a convite do festival, felizmente ainda não internacional e que assim se conserve, para passar tres dos meus filmes: Primeiros Cantos (1977) Isto é Brasil (1984) e Passion a la Vie (2009), e encontrar-me com os realizadores da terra, o que primeiro vi é claro foi o mar. Êsse marzão besta que não tivesse sangue mineiro sempre me encanta.

Aqui é diferente, parece mais selvagem, é mar aberto, com ondas não grandes mas em quase imediata sucessão de vagas derramando na areia, uma pequena faixa, que na alta quase some. Fui vê-lo à noite, maravilhoso, luzes iluminando a praia e portanto tambem  as ondas, encostado à balaustrada do hotel acima.

Aqui também é diferente, a expansão de hoteis na orla, atração ao turismo, ocupa o lado da praia, que se torna de  acesso direto não exclusivo para os hóspedes, não sei se é bom, mas acho meio esquisito. Fico imaginando uma ressaca nem das piores e o mar vai acabar entrando pra hóspede. E tem o vento permanente, como o calor é quente, o vento sempre refresca. Hospitalidade e bom atendimento foram as marcas do festival potiguar.

E sempre há o encontro e o reencontro de novos e velhos camaradas, bem como os novos e os velhos adversários mas a despeito de estranhamentos nestas ocasiões vige um código de mútua cordialidade e podemos trocar acenos e afagos até com quem de quem falamos ou fomos mal falados. Uma pequena nuance de sorriso ou cumprimento mostra até que ponto é possível esta convivência publica.

Convivência e não conivência para todos os envolvidos, cada um continuará com seus princípios, se os tiver, com os seus meios e seus fins mas podemos trocar uma palavra sempre há pelo menos uma palavra de cinema nestes torneios que funciona como pretexto para uma conversa desarmada. Bom Natal para todos nós.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

Olhos e pés no chão.

quinta-feira, novembro 12th, 2009

Olhos e pés no chão.

Já nos acostumamos a ver placas, cartazes e indicações no alto, grafites e mapas nas paredes da cidade, mas no chão? Nunca vi ou soube disto até que a minha vizinha de Charitas, que os locais chamam de Charita, sem o s, Leila B. falou-nos de seu novo projeto para Niterói. Foi ela que num rasgo de invenção forrou de mosaicos a escada que de sua casa na encosta ia até a rua de baixo. Precisou para tanto não só do apoio da Prefeitura, havia que arrumar a escada e seus contornos bem como a rede pluvial que jorra morros abaixo, precisou e convocou um mutirão da comunidade em volta para compor os mosaicos plantados nos degraus.

Primeiro acorreram a seu ateliê as crianças, adultos sempre mais arredios e céticos acabaram contagiados com o quebra quebra de azulejos depois  fixados nas telas de suporte. Como as pessoas os mosaicos são cada um cada um, diversos talhados e montados ao jeito da mão que os corta e cola.  Podem ser só cores, figuras, frases, ou um pouco de tudo, lá estão alegrando e filosofando no caminho. Brotando no convívio não só afetos e trocas mas idéias, reuniu e deu voz a esta experiência coletiva no seu mestrado em Ciência da Arte, batizando-o de “Mosaico do Lugar” e por visual também guardado em vídeo, melhor ir lá vê-lo em seu lugar, mas não indo pode-se vê-lo longe, bem longe, mistérios do audiovisual.

Desenvolvendo sua reflexão teórica, todo mundo já sabe, não basta fazer, tem que balizar nossa estrada, ensinar o caminho das pedras, fixou-se no conceito de lugar, como a escada um belo achado. O lugar é onde estamos, onde vivemos, acho que é onde alcançamos a pé, depois, depois é o mundo, em que pra se estar é preciso estar ou passar em outros tantos lugares. Sempre ouvi dizer que utopia, ao pé da letra, é o não lugar, algo que se imagina, que se sonha mas que não existe, é inexistente.

Com efeito é algo que não existe ainda. Tive a honra, difícil e laboriosa, de ainda estudante traduzir ao português o clássico da sociologia, que cursava, o “Ideologia e Utopia”, de Karl Mannheim, e lá aprendi que utopia não é devaneio, não é delírio, é projeto, é algo para ser, é uma antecipação do que existirá, é um modelo do que a vida deva ser. Assim é com Thomas Morus, Leonardo ou Santos Dumont com as suas utopias em algum tempo realizadas.

Pois a nova utopia de Leila B., seu atual projeto, é ampliar o lugar, a topia, desde o seu, imediato, onde mora, para um maior, em que também mora, a sua cidade, Niterói. Não vou aqui, por ora, reclamar da expansão urbana, mas quero frisar que melhor seria se cada um ampliasse o seu quintal, o seu lugar, de que cada um forçosamente deve cuidar para que não seja devastado por intempéries, deve varrê-lo, reciclá-lo, lixo e folhagem, parte e digno de nossa convivência.

Não é que inventou de incrustar no próprio chão um mapa síntese do município, com destaque dos limites e pontos de referência de nossa geografia física e espiritual, distribuídos em pelo menos 12, como os apóstolos, lugares em vários cantos da cidade. Compôs uma técnica de fixação permanente que nos permitirá não só vê-los como animei-me pisá-los, serão parte não estorvo de nossos caminhos. Não me perguntem como, não sei, é sua a utopia, é a da Leila, e como projeto, como proposta, é como um sonho que, diz-nos a canção, sonhado junto é realidade.

Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br).

A Inadimplência.

sábado, novembro 7th, 2009

A Inadimplência.

 

   Se não me engano até os anos 90 fui um consumidor exemplar, modesto, de pouca gastança, uns comes, uns bebes, uns fumos, uns pernoites, alugueis, luz, água, gaz e telefone, transporte, o de todo o mundo. Não sou muito dado a posses mas a possessões, infelizmente cíclicas e cada vez mais longas, quando, é claro, fico isento de quaisquer iniciativas, acolhido e felizmente abrigado no aconchego familiar. É nestas horas que me ronda o fantasma da inadimplência. Acho que faz parte do quadro clínico: frustrações, decepções, recusas, falências.

   Para um filho de gloriosa e emergente família de classe média mineira a inadimplência é um grave delito até quando descobrimos que o que configura um delito é sòmente o seu flagrante, se não, podemos bater a carteira do vizinho, delinqüir sossegadamente mas sem ser pego com a mão ou a boca na botija, há que ser esperto, como os midas, ou me dás, do mercado financeiro. Roubar não é tão grave, grave é não poder ou não saber carregar.

   Porém, contudo, entretanto, a primeira a gente nunca esquece. Suamos frio, o que fazer se não pagamos a ou as prestações devidas, as contas de casa não tem jeito as concessionárias publicas cortam, os bancos cortam os achacantes créditos, é até bom, gasta-se menos, embora as dívidas como se sabe acumulam-se e cascateiam maravilhosas como em Iguaçu. Como sabemos ou temos que aprender o sistema é perfeito, só funciona pra quem já tem, pra quem anda na beira do consumo se não for destro, não tem, restando apenas as eloqüências dos agiotas. Mas francamente não é a agiotagem a mola ou a esperteza do sistema? E quando pifa?

   Estou falando do sistema que, na verdade, espetacularmente ou não, pifa a todo instante, e segue em frente, “socializando as perdas” como dizia um notável economista bufão pátrio. Eu quando pifo, e não pode ser a todo instante, é um horror, é uma correria de lá pra cá, e de volta. Como num telhado cheio de goteiras é inútil querer tapar a chuva com peneiras. O melhor é respirar fundo, acomodar-se o mais confortavelmente possível e hibernar. Não sou trambiqueiro, não acumulo bens ou expedientes públicos, como todos nós, sou mais uma de suas vítimas, só escorreguei no trilho. É melhor deixar o trem correr, não se vai puxar o freio, és apenas um dos milhões de usuários, e menos ainda vais ficar na frente em sacrifício inútil, pedaços de você salpicando chãos de estrada.

   O que vale é deixar passar o tempo, todos os crimes prescrevem (algum não?), não será a minha modesta insuficiência financeira que trará danos a terceiros, senão a mim mesmo. Nestes casos, e do alto da minha maturidade existencial, natural decorrência de tantos anos passando, recomendo e até prescrevo, nada como um belo banho de mar, é a minha vingança, que, como fui previdente, está a meu alcance bastando atravessar a rua. Mas, cuidado, se ficares nervoso, não fiques, até atravessar a rua é por demais perigoso, ao contrário do bucolismo rural não são os cavalinhos são os cavalões correndo em suas possantes máquinas de destruição lentas ou céleres.

   É preciso olhar de lado a lado, não se deve calcular sua velocidade, é quando não tiver ninguém na pista do quarteirão, e aí, pachorrentamente, como de chinelos, vai se pé a pé até a salvadora areia. Quem não for feliz como eu, e não tiver praia por perto, vale a cachoeira, o lago, o rio, enfim a água, até chuveiro ou balde, como se sabe, é ela a maior dádiva da natureza, lava tudo, e deixa a pele luzidia, se bem que é esgotável. Até quando duas vezes, no máximo, o telefone que disquei dá ocupado, é porque é hora de ir lá, afogar as dívidas, as dúvidas e as mágoas.

   Por falar nisso, tens aí algum pra eu me salvar?  

   Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)