A Inadimplência.

A Inadimplência.

 

   Se não me engano até os anos 90 fui um consumidor exemplar, modesto, de pouca gastança, uns comes, uns bebes, uns fumos, uns pernoites, alugueis, luz, água, gaz e telefone, transporte, o de todo o mundo. Não sou muito dado a posses mas a possessões, infelizmente cíclicas e cada vez mais longas, quando, é claro, fico isento de quaisquer iniciativas, acolhido e felizmente abrigado no aconchego familiar. É nestas horas que me ronda o fantasma da inadimplência. Acho que faz parte do quadro clínico: frustrações, decepções, recusas, falências.

   Para um filho de gloriosa e emergente família de classe média mineira a inadimplência é um grave delito até quando descobrimos que o que configura um delito é sòmente o seu flagrante, se não, podemos bater a carteira do vizinho, delinqüir sossegadamente mas sem ser pego com a mão ou a boca na botija, há que ser esperto, como os midas, ou me dás, do mercado financeiro. Roubar não é tão grave, grave é não poder ou não saber carregar.

   Porém, contudo, entretanto, a primeira a gente nunca esquece. Suamos frio, o que fazer se não pagamos a ou as prestações devidas, as contas de casa não tem jeito as concessionárias publicas cortam, os bancos cortam os achacantes créditos, é até bom, gasta-se menos, embora as dívidas como se sabe acumulam-se e cascateiam maravilhosas como em Iguaçu. Como sabemos ou temos que aprender o sistema é perfeito, só funciona pra quem já tem, pra quem anda na beira do consumo se não for destro, não tem, restando apenas as eloqüências dos agiotas. Mas francamente não é a agiotagem a mola ou a esperteza do sistema? E quando pifa?

   Estou falando do sistema que, na verdade, espetacularmente ou não, pifa a todo instante, e segue em frente, “socializando as perdas” como dizia um notável economista bufão pátrio. Eu quando pifo, e não pode ser a todo instante, é um horror, é uma correria de lá pra cá, e de volta. Como num telhado cheio de goteiras é inútil querer tapar a chuva com peneiras. O melhor é respirar fundo, acomodar-se o mais confortavelmente possível e hibernar. Não sou trambiqueiro, não acumulo bens ou expedientes públicos, como todos nós, sou mais uma de suas vítimas, só escorreguei no trilho. É melhor deixar o trem correr, não se vai puxar o freio, és apenas um dos milhões de usuários, e menos ainda vais ficar na frente em sacrifício inútil, pedaços de você salpicando chãos de estrada.

   O que vale é deixar passar o tempo, todos os crimes prescrevem (algum não?), não será a minha modesta insuficiência financeira que trará danos a terceiros, senão a mim mesmo. Nestes casos, e do alto da minha maturidade existencial, natural decorrência de tantos anos passando, recomendo e até prescrevo, nada como um belo banho de mar, é a minha vingança, que, como fui previdente, está a meu alcance bastando atravessar a rua. Mas, cuidado, se ficares nervoso, não fiques, até atravessar a rua é por demais perigoso, ao contrário do bucolismo rural não são os cavalinhos são os cavalões correndo em suas possantes máquinas de destruição lentas ou céleres.

   É preciso olhar de lado a lado, não se deve calcular sua velocidade, é quando não tiver ninguém na pista do quarteirão, e aí, pachorrentamente, como de chinelos, vai se pé a pé até a salvadora areia. Quem não for feliz como eu, e não tiver praia por perto, vale a cachoeira, o lago, o rio, enfim a água, até chuveiro ou balde, como se sabe, é ela a maior dádiva da natureza, lava tudo, e deixa a pele luzidia, se bem que é esgotável. Até quando duas vezes, no máximo, o telefone que disquei dá ocupado, é porque é hora de ir lá, afogar as dívidas, as dúvidas e as mágoas.

   Por falar nisso, tens aí algum pra eu me salvar?  

   Sergio Santeiro (santeiro@anaterra.mus.br)

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